Tecno-Leviatã

Escrevendo na E-International Relations, Brett Scoot levanta uma crítica de Esquerda à revolução do blockchain, em um nível estimulante de sofisticação teórica. Seu argumento central é importante: Cripto-sistemas de blockchain são a realização tecnológica do impulso "distópico e conservador" — primeiro cristalizado por Thomas Hobbes — de se estabelecer uma soberania politicamente imunizada. Esse modelo social, previamente subvertido pela falível humanidade dos líderes, está finalmente se tornando alcançável na forma de um governo algorítmico, o Tecno-Leviatã de Scott:

Libertários conservadores se mantém firmes na crença de que, se apenas direitos de propriedade fortes e regras claras de contratação fossem postos em prática, sistemas ótimos espontaneamente emergiriam. Na verdade, eles não estão tão longe de Hobbes nesse sentido, mas sua irritação com a visão de Hobbes é que ela depende de políticos que, sendo pessoas reais, não agem como um Soberano contratual desapegado deveria, mas sim tentam intervir, tornar as coisas melhores, ou roubar. Blockchains descentralizados não oferecem o prospecto derradeiro de direitos protegidos de propriedade com regras claras, mas sem a interferência política?

Scott navega o Teste de Turing Ideológico bem o suficiente para se tornar um ponto de referência em discussões futuras. Seus oponentes, sem dúvida, em muitos casos concederão (como esse blog) que a ‘distopia’ que ele descreve, embora retratada em tons agourentos e fúnebres, captura notavelmente bem os apegos — e des-apegos — dos zelosos promotores do blockchain.

Scott claramente pensa que a confiança política é um bem social que pode ser reconstruído ou recuperado (talvez reinicializando-se a democracia). Ainda que assim o seja, o tempo restante para essa operação de salvamento está acabando rápido


Original.

Quebrado

zizek!

Slavoj Žižek traça algumas linhas de batalha intrigantes em uma discussão sobre Thomas Piketty:

Então, o que estou dizendo é que acho que ele é utópico porque ele simplesmente diz que o modo de produção tem que permanecer o mesmo; vamos apenas mudar a distribuição através de, nada muito original, impostos radicalmente maiores.

Ora, aqui os problemas começam, aqui entra a utopia. Não estou dizendo que não deveríamos fazer isso, só estou dizendo que fazer isso e nada mais não é possível. Esta é a utopia dele. Que basicamente podemos ter o capitalismo de hoje, que basicamente – como um maquinário – permanece o mesmo: ó ó ó, quando você ganhar seus bilhões, ó ó, aqui vou taxar, me dá 80 por cento. Eu não acho que isso é factível. Eu acho que, imagine um governo fazendo isso, Piketty está ciente de que isso precisa ser feito globalmente. Porque se você o fizer em [um] país, então o capital se move para outro lugar. Esse é outro aspecto do utopismo dele, minha afirmação é de que, se você imaginar uma organização mundial em que a medida proposta por Piketty possa efetivamente ser promulgada, então os problemas já estão resolvidos. Neste caso, você já tem uma reorganização política total, você tem um poder global que pode efetivamente controlar o capital, nós já ganhamos.

A perversidade da ‘utopia’ é previsivelmente zizekiana – parte de alguma manobra tática meio louca que não leva a lugar nenhum – mas o argumento a favor de uma autoridade global soberana como único telos coerente da política de Esquerda é decididamente perspicaz. Dada esta convincente tese, a insignificância de iniciativas internacionalistas sérias na discussão predominante na política de esquerda é impressionante. A aparência é de que qualquer coisa abaixo do nível da governança global é evidentemente irrelevante – ou até contraproducente – para fins socialistas.

Notícias recentes, estou certo, não ajudam

ADICIONADO: Mais de Žižek sobre o tópico da governança global (através do mesmo link) —

Definitivamente é hora de ensinar às superpotências, velhas e novas, algumas maneiras, mas quem o fará? Obviamente, apenas uma entidade transnacional pode conseguir isso — mais de 200 anos atrás, Immanuel Kant viu a necessidade de uma ordem legal transnacional fundamentada no surgimento da sociedade global. Em seu projeto para a paz perpétua, ele escreveu: "Uma vez que comunidade mais estreita ou mais ampla dos povos da terra se desenvolveu tanto que uma violação dos direitos em um lugar é sentida por todo o mundo, a ideia de uma lei da cidadania mundial não é nenhum voo alto ou noção exagerada".

Isso, contudo, nos leva ao que é, sem dúvidas, a "contradição principal" da nova ordem mundial (se pudermos usar esse antigo termo maoista): a impossibilidade de se criar uma ordem política global que corresponda à economia capitalista global.

E, para um leve alívio:

Zizek sempre expressou seu desprezo geral pelos estudantes e pela humanidade. Certa vez, ele admitiu em 2008 que ver pessoas estúpidas felizes o deixa deprimido, antes de descrever o ensino como o pior trabalho que ele já teve.

"Eu odeio estudantes", ele disse, "eles são (como todas as pessoas) em sua maioria estúpidos e tediosos."

[…]

"Eu não consigo [sic] imaginar uma experiência pior do que algum idiota vir e começar a fazer perguntas, o que ainda é tolerável. O problema é que aqui nos Estados Unidos, os estudantes tendem a ser tão abertos que, mais cedo ou mais tarde, se você for gentil com eles, eles começam até mesmo a lhe fazer perguntas pessoais [sobre] problemas privados… O que eu deveria lhes dizer?"*

"Eu não ligo", ele continua. "Se mate. Não é problema meu."

(Esse tipo de coisa me faz ser caloroso com o cara.)

ADICIONADO: A rebugenta do Slate, Rebecca Schuman não está feliz.


Original.

#Acelerar

A cooptação esquerdista do Aceleracionismo é um fenômeno notável, substancial o bastante para ter tornado o manifesto aceleracionista de 2013 (#Acelerar) um documento de significância indusputável. O título em formato de twitter atesta tanto a sua contemporaneidade quanto a fusão perfeita de seu conteúdo com uma estratégia de promoção (ou seja, uma política prática). O sucesso desse empreendimento ideológico recebeu um selo recente (e cuidadosamente calibrado) de aprovação, na forma de uma resposta por uma figura não menos importante que o venerável cavalo de guerra da Esquerda revolucionária européia, Toni Negri. Quaisquer que sejam a credibilidade e as consequências definitivas de sua análise, o Aceleracionismo de Esquerda já demonstrou um ímpeto cultural intrínseco.

Como uma criatura do Aceleracionismo de Direita, o Urbano Futuro, naturalmente, é um antagonista (embora um que esteja altamente intrigado). O engajamento com o #Acelerar se estenderá em um tópico consistente aqui, ao longo do curso do próximo ano. Entre outras coisas (e como Negri demonstra), tal engajamento fornece uma oportunidade para se revisitar as questões sócio-econômicas mais básicas dentro de um micro-contexto redinamizado. Mesmo que a redinamização do macro-contexto, ou seu oposto (uma estagnação em aprofundamento), tenha que ser inicialmente adotada como um problema — em vez de como qualquer tipo de fato — as questões aceleracionistas garantem que o tópico não será contornado.

Os autores do #Acelerar oferecem sua própria contextualização em um artigo recente, que toma "a popularidade ascendente do aceleracionismo" como um fato a ser explicado:

A paixão que o aceleracionismo mobiliza é a lembrança, por parte do povo, de que um futuro é possível. Em campos díspares — da política à arte, ao design, à biologia, à filosofia — as pessoas estão trabalhando em como criar um mundo que esteja liberado de incentivos capitalistas. Talvez de maneira mais promissora, o sonho clássico de Keynes e Marx da redução do trabalho e do florescimento de liberdades positivas esteja voltando. Na pressão por rendas básicas universais, e nos movimentos por semanas de trabalho reduzidas, vemos as próprias pessoas começando a esculpir um espaço separado da relação salarial e fora dos imperativos do trabalho. Quando a mídia parar de relatar a automação dos trabalhos como sendo uma tragédia e começar a relatá-los como sendo uma liberação do trabalho mundano, saberemos que a disposição aceleracionista se tornou o novo senso comum. Teremos alcançado um ponto na história humana em que vastas quantidades de empregos podem — e deveriam — ser automatizadas. O trabalho pelo trabalho é uma perversidade e uma restrição imposta à humanidade pela ideologia capitalista da ética do trabalho. O que o aceleracionismo busca é permitir que o potencial humano escape da armadilha colocada para ele pelo capitalismo contemporâneo.

A única resposta (rebugenta) do UF nesse estágio: Se isso é o aceleracionismo, com o que se pareceria um programa intencionalmente desaceleracionista?

ADICIONADO: Ray Brassier sobre Aceleracionismo e Comunismo (via Benedict Singleton, @benedict).

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A Singularidade de Esquerda

O inverno está chegando

Os esquerdistas não são perturbados pelo medo de que as massas possam se revoltar contra a esquerda, mas sim cada esquerdista teme que ele possa falhar em acompanhar a linha que sempre muda, se encontre alguns anos, ou semanas, ou dias atrás do atual politicamente correto sempre em mudança e se descubra considerado um direitista. // O que historicamente só para em derramamento de sangue. Não há nenhuma singularidade de direita equivalente, já que regimes repressivos de direita proíbem o interesse na política, ao passo em que os regimes repressivos de esquerda ordenam o interesse na política. // A singularidade de esquerda é a mesma toda vez em sua aproximação ao esquerdismo infinito, mas difere de maneira caótica e surpreendente toda vez ao acabar aquém do esquerdismo infinito — James A. Donald

Aquilo com o que mais nos preocupamos é que veremos um ciclo vicioso se desenvolver: uma governança ruim prejudica a economia, o que radicaliza e polariza a opinião pública, o que leva a uma governança pior e resultados econômicos piores… e assim por diante linha abaixo.Walter Russell Mead

A política do século XXI não vê nenhuma necessidade da verdade. Quando o governo se acredita responsável pela economia e convence as pessoas disso, ele tem que se colocar em uma caixa. …Quando uma recessão ocorre …ela faz com o governo busque política que reforçam suas mentiras. São essa política que criaram a atual crise econômica em primeiro lugar. –’Monty Pelerin‘ (via Zero Hedge)

O Iluminismo Sombrio começa com o reconhecimento de que a realidade é impopular, de modo que o curso ‘natural’ do desenvolvimento político, sob condições democráticas, é confiavelmente embasado na promessa de uma alternativa. Favorecer a fantasia é a única plataforma que oferece apoio eleitoral. Quando os sonhos ficam ruins, é politicamente óbvio que eles não foram mantidos com firmeza ou sinceridade suficientes, seu radicalismo foi insuficiente, e uma solução mais abrangente é imperativa. Uma vez que uma sabotagem direitista, seja ela deliberada ou meramente inercial, claramente é a culpada, as surras continuarão até que o moral melhore.

Esta síndrome, essencialmente indistinguível da modernidade política, exige uma teoria cibernética da deterioração social acelerante, ou repressão econômica auto-reforçadora. A tendência da qual o iluminismo sombrio recua exige uma explicação, que é encontrada no diagrama da Singularidade de Esquerda.

Uma singularidade, de qualquer tipo, é o limite de um processo dominado por um feedback positivo e, assim, levado a um extremo. Em sua expressão matemática pura, a tendência não é meramente exponencial, mas parabólica, fechando-se assintoticamente sobre o infinito em tempo finito. A ‘lógica da histórica’ converge sobre um limite absoluto, além do qual um prolongamento adicional é estritamente impossível. Desta barreira derradeira e impassável, o iluminismo sombrio regride na história política, profeticamente inflamado por sua certeza do fim. A menos que a democracia se desintegre antes da parede, ela vai dar de cara com a parede.

“Uma repressão maior traz um esquerdismo maior, um esquerdismo maior traz uma repressão maior, em um círculo cada vez mais cerrado que gira cada vez mais rápido. Esta é a singularidade de esquerda”, escreve Donald. A principal hipótese sombria é evidente: no declive da esquerda, a falha não é auto-corretiva, mas sim o oposto. A disfunção se aprofunda através do circuito do desapontamento:

Conforme a sociedade se move cada vez mais para a esquerda, cada vez mais rápido, os esquerdistas ficam cada vez mais descontentes com o resultado, mas, claro, a única cura para o seu descontentamento que é permissível pensar é um movimento ainda mais rápido, ainda mais à esquerda.

É necessário, então, aceitar a inversão esquerdista de Clausewitz e a proposição de que a política é a guerra por outros meios, precisamente porque ela retém a tendência ao extremo clausewitziana (que a torna ‘propensa a escalada‘). Esta é a razão pela qual a história política moderna tem uma forma característica, que combina uma duração de ‘progresso’ escalonante com uma interrupção terminal e semi-pontual, ou catástrofe – uma restauração ou ‘reinicialização’. Como mofo em uma placa de Petri, organizações políticas progressistas ‘se desenvolvem’ explosivamente até que todos os recursos disponíveis tenham sido consumidos, mas, ao contrário de colônias de lodo, elas exibem um dinamismo que ainda mais exagerado (do exponencial para o hiperbólico) pelo fato de que o esgotamento de recursos acelera a tendência de desenvolvimento.

A decadência econômica erode o potencial produtivo e aumenta a dependência, atando populações de maneira cada vez mais desesperada à promessa de uma solução política. O declive progressista fica mais íngreme na direção do precipício de uma radicalidade suprema, ou total absorção no estado… e, em algum lugar fracionalmente antes disso, seja antes ou depois dele ter roubado tudo que você tem, tomado seus filhos, desencadeado assassinatos em massa e descendido ao canibalismo, ele acaba.

Ele não pode comer a placa de Petri ou abolir a realidade (na realidade). Há um limite. Mas a humanidade ganha uma chance de demonstrar do que é capaz, no lado inferior. Como Whiskey comentou (nessa thread do Sailer): “Este Iluminismo é ‘Sombrio’ porque ele nos diz coisas verdadeira que preferiríamos não saber ou ler ou ouvir, porque elas pintam uma imagem não tão amável da natureza humana em sua face mais crua”. O progresso nos leva ao cru.

Gregory Bateson se referia à escalada cibernética como ‘esquismogenese’, que ele identificava em uma série de fenômenos sociais. Entre esses estava o abuso de substâncias (especificamente o alcoolismo), cuja dinâmica abstrata, no nível do indivíduo, é difícil de distinguir da radicalização política coletiva. O alcoólatra é capturado por um circuito esquismogenico e, uma vez que esteja dentro dele, a única solução atraente é ir mais fundo nele. A cada passo de desintegração de sua vida, ele precisa de um drinque mais do que nunca. Lá se vai o emprego, a poupança, a esposa e as crianças, e não há nenhum lugar onde se procurar esperança exceto o bar, a garrafa de vodka e, eventualmente, aquela lata irresistível de cera para piso. O escape vem – se vier antes do necrotério – ao ‘chegar ao fundo do poço’. A escalada ao extremo chega ao fim da estrada, ou da estória, onde uma outra poderia – possivelmente – começar. A esquismogenese prevê uma catástrofe.

Chegar ao fundo do poço tem que ser horrível. Uma longa história lhe trouxe a isso e, se isso não é óbvia e indisputavelmente um estado intolerável de degradação derradeira, ela vai continuar. Não acabou até que realmente não possa continuar, e isso tem que ser diversos graus pior do que se poderia antecipar. A Singularidade de Esquerda está afundada nas borras de cera para piso, com tudo perdido. É pior do que qualquer coisa que você possa imaginar, e não há nenhum sentido que seja em tentar persuadir as pessoas de que elas chegaram lá antes de elas saberem que chegaram. ‘As coisas poderiam ser melhores do que isso’ não vai dar conta. É para isso que serve o progresso, e o progresso é o problema.

Aquilo que não pode continuar, irá parar. As árvores não crescem até o céu. Isso não significa necessariamente, contudo, que a liberdade será restaurada e tudo será adorável. Da última vez tivemos teocracia, tivemos estagnação por quatrocentos anos.

A expansão explosiva de gastos e regulamentação representa um colapso da disciplina dentro da elite governante. A maneira em que o sistema deveria funcionar, e a maneira em que funcionou na maior parte do tempo há várias décadas atrás, é que o Governo Federal americano só pode gastar dinheiro em algo se a Câmara dos Deputados, o Senado e o Presidente concordarem em gastar dinheiro nessa coisa, então nenhum empregado do governo pode ser empregado, exceto se todos os três concordarem que ele deva ser empregado, então o governo não pode fazer nada ao menos que os três concordem que seja feito. Um funcionário público e, na verdade, todo o seu departamento estava apto a ser demitido se irritasse alguém. Reciprocamente, o indivíduo estava livre para fazer qualquer coisa, a menos que todos os três concordassem que ele deveria ser impedido de fazer aquela coisa. Estamos agora nos aproximando da situação reversa, onde para um indivíduo fazer qualquer coisa é necessário uma pilha de permissões de diversas autoridades governamentais, mas qualquer autoridade governamental pode gastar dinheiro em qualquer coisa a menos que exista uma oposição quase unânime a ela gastar dinheiro.

Obviamente isso não pode continuar. Eventualmente, o dinheiro acaba, onde teremos uma crise hiperinflacionária e reverteremos para alguma outra forma de dinheiro, como o padrão ouro. Enquanto isso acontece, o comportamento cada vez mais sem lei dos governantes contra os governados se tornará um comportamento cada vez mais sem lei dos governantes uns contra os outros. Guerra civil, ou algum próximo de uma guerra civil, ou uma terrível e imediata ameaça de guerra civil se seguirá. Nesse ponto, teremos a singularidade política, provavelmente por volta de 2025 ou algo assim. Para além da singularidade, nenhuma previsão pode ser feita, além de que os resultados serão surpreendentes…

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O Que Merecemos

Bom? Provavelmente não. Mas duro – ah, sim (ah sim!)

Obama conseguiu o que ele queria – um segundo mandato. Agora as pessoas que votaram nele vão conseguir aquilo pelo que votaram… e o que elas merecem – um colapso financeiro que faz 2008 parecer como os bons e velhos dias. – ‘libertarianNYC

Porque quando Maistre diz que toda nação recebe o governo que merece, eu acredito nele. Maistre não achava que sua grande lei era uma lei da física. Ele pensava que era uma lei de Deus. Eu não sou uma pessoa religiosa, mas eu concordo. A história me convenceu de que quando as leis de Deus são quebradas, merdas ruins acontecem. – Mencius Moldbug

‘Merecer’ deve ser a palavra mais inútil e ofuscante do dicionário – Maurice Spandrell

Os mistérios do espectro ideológico são profundos o suficiente para absorver uma exploração infinita. Por quê, por exemplo, deveria havia um espectro ideológico que seja? As discordância humanas sobre decisões sociais não são naturalmente multi-dimensionais? Como opiniões sobre a escala ótima do governo podem prever atitudes em relação a ações afirmativas, imigração, controle de armas, proibição das drogas, aborto, casamento gay, mudança climática e política externa? Não parece quase mágico que os arranjos de assentos na Assembléia Nacional francesa no final do século XVIII continuem a organizar a terminologia da orientação ideológica até os dias atuais?

Às vezes, contudo, a perplexidade recua e certos padrões básicos emergem com uma claridade surpreendente. Isso é evidente hoje nos Estados Unidos – o grande circo mundial do antagonismo ideológico – na esteira de sua mais recente e espetacular performance.

Conforme a polarização se intensifica – e ela o faz – o essencial é expressado através dos extremos, e as alternativas são simplificadas. O que vai ser: política ou economia? Não pode haver nenhuma coexistência sustentável. Uma deve erradicar absolutamente a outra.

Ou a política, ou a economia merece ser completamente destruída — a política por seu desejo incontinente pelo poder absoluto, ou a economia por sua fria indiferença aos interesses públicos. O conflito de visões é irreconciliável. Da perspectiva pura da política terminal, todas as recompensas de mercado são arbitrárias e ilegítimas, ao passo que daquela da economia, as pessoas têm direito a precisamente nada.

Falando em nome dos perdedores políticos, Russ Roberts (no Cafe Hayek) adota uma abordagem despreocupada:

Falando sobre a eleição com muitos amigos e familiares que estavam torcendo por Romney, eu descobri que suas emoções percorriam toda a escala entre o desespero e o desânimo. Todo mundo estava bem para baixo. Eu me encontrei inesperadamente melancólico também. Nossas emoções não eram tanto causadas pela derrota de Romney. Poucos de nós estavam particularmente animados com ele. Foi a vitória de Obama que nos preocupou. …Havia muito a ser desencorajado antes dessa eleição. Não tenho certeza se a eleição fornece muitas informações novas.

O desespero da Direita não é o produto de um único resultado lamentável das eleições, mas baseia-se na implacável compreensão de que ela está inerentemente mal adaptada à política. Quando a Direita alcança o poder é se tornando algo diferente de si mesma, traindo seus partidários não apenas de maneira incidental e periférica, através da timidez ou da incompetência, mas de maneira central e fundamental, ao avançar de maneira prática uma agenda que quase perfeitamente nega seus supostos comprometimentos ideológicos. Ela constrói aquilo que ela havia prometido destruir e escraviza ainda mais aquilo que havia prometido liberar. Suas vitórias significam cada vez menos, suas derrotas cada vez mais. Vencer é no máximo um mal menor, ao passo que perder abre novos e inéditos horizontes de calamidade, iniciando aventuras anteriormente inimaginadas de horror.

Dean Kalahar captura o humor:

A decisão do eleitorado de uma vez por todas confirma uma definição da América que valoriza esperanças, sentimentos e igualdade de resultados sobre as realidades da natureza humana, da história e dos princípios fundamentais que mantêm a civilização ocidental unida. Agora não há dúvida de que o ponto de inflexão do declínio cultural que aumenta geometricamente foi ultrapassado. … Nosso sistema econômico perdeu a guerra cultural.

A esquerda tem suas próprias frustrações, que sua aproximação cada vez maior do domínio político total não consegue apaziguar e, na verdade, exacerba. Quanto mais ela subordina seus inimigos à sua vontade, tanto mais sua vontade se conforma à imagem de seus inimigos – não a economia como era, evasiva e moralmente desinteressada, mas a economia como era caracturada e denunciada: estreita e brutalmente auto-interessada, sublime em sua gigantesca ganância, radicalmente corrupta e irreparavelmente disfuncional. O plutocrata dos desenhos animados reaparece como o consumado membro político em uma camiseta do Che Guevara, ditando minuciosamente o conteúdo da legislação e seguindo uma trajetória de carreira que alterna suavemente entre as cátedras das agências reguladoras e as salas de reuniões de Wall Street. Por meio de uma contabilidade perversa e ineliminável de dupla entrada, as montanhas fiscais da generosidade do governo são registradas, simultaneamente, como uma festa orgiástica da criação de dinheiro capitalista de compadrio. O altruísmo público e a avareza privada se prendem uma identidade lógico-matemática exata.

O gira dá a volta. Administrações ‘de direita’ se tornam burocracias escleróticas de um governo grande, ao passo em que administrações ‘de esquerda’ se tornam a fachada cínica de relações públicas para cartéis de bancos vorazes. Em ambos os casos, o governo equivale à traição, executada por um partido que necessariamente abusa de seus próprios partidários políticos. Uma vez que política é cada vez mais a reserva da Esquerda, isso não é um oscilador, mas uma catraca, com uma direção previsível (até a Singularidade de Esquerda, “que move o eleitorado sempre para esquerda, tornando-o cada vez mais disfuncional”).

A Direita, o partido da economia, está perdendo toda a credibilidade enquanto Partido, especialmente para si mesma. Na guerra de aniquilação que o cisma ideológico contemporâneo se tornou, o grito de guerra substituto e característico poderia ser confiantemente antecipado, mesmo que já não fosse tão claramente ouvido: o mercado vingará essas ofensas. Nêmesis. Deixe o templo cair.

Espere ouvir muito mais disso, não importa o quanto isso lhe revolte.

As coisas cairão aos pedaços (ainda mais, bem mais…), ou não, mas em ambos os casos saberemos o que realmente merecemos. A Realidade é Deus, mas qual é a verdadeira religião?

Nas palavras imortais de HL Mencken: “A democracia é a teoria de que as pessoas comuns sabem o que querem e merecem receber isso bem duro”.

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Adiante!

Aberração máxima até a Singularidade da Esquerda

Isso foi completamente inequívoco. Obama realmente se provou ser o FDR dessa volta do giro. Nate Silver e Paul Krugman foram vingados. O New York Times é o evangelho da era. O conservadorismo foi esmagado e humilhado. O pedal do freio foi jogado pela janela. Agora não dá mais para parar.

No dia antes da eleição, o Der Spiegel descreveu “os Estados Unidos como um país que não entende os sinais dos tempos e que tem quase deliberadamente — indo na contramão de todo o conhecimento científico — escolhido ser retrógrado”. Para os autores da redação da revista, o problema era inteiramente simples. “O ódio de um governo grande alcançou um nível nos Estados Unidos que ameaça a própria existência do país”. Forças regressivas estavam impedindo o progresso do país ao recusar entender a óbvia identidade entre o Leviatã e o avanço social. Agora deveria ser óbvio para todo mundo – mesmo para os partidários carbonizados do Tea Party, resmungando em estado de choque nas ruínas – que a democracia americana contemporânea fornece todo o ímpeto necessário para afastar tal obstrucionismo. O Estado é Deus, e todos devem ser curvar à sua vontade. Adiante!

Com a ascensão do Governo dos EUA, uma nova pureza é alcançada, e um experimento fantástico (e Titânico) progride a um novo estágio. Não é mais necessário entrar em controvérsias com o detrito despedaçado da direita, daqui em diante tudo que importa é o teste de força entre a motivação política concentrada e a obstinação da própria realidade. O que seria dizer: a resistência final a ser superada é a ideia insolente de um princípio de realidade, ou exterior. Assim que não mais existir qualquer forma das coisas que exista independentemente do desejo soberano do Estado, a Singularidade da Esquerda será alcançada. Esta é a promessa escatológica que canta seus aleluias em todo peito progressista. Ela se traduz perfeitamente para o canto coloquial: sim, podemos!

Claro, é preciso entender claramente que “nós” – agora e daqui para frente – significa o Estado. Através do Estado, nós fazemos qualquer coisa e tudo, que podemos, se não realmente, então pelo menos verdadeiramente, como prometido. O Estado é ‘nós’ como Deus. Hegel já tinha visto tudo isso, mas foi necessário sistemas educacionais progressistas para generalizar a compreensão. Agora nossa época chegou, ou está chegando. Todos juntos agora: sim, podemos! Nada além de um frágil realismo reacionário está em nosso caminho, e isso é algo para fora do qual podemos ser educados (sim, podemos). Fomos! Veja nossos destruídos inimigos espalhados em completa devastação diante de nós.

O mundo deve ser como queremos que ele seja. Certamente.

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