Re-Animador (Parte 5)

O Chamado de Haibao

Despachada do Consulado Britânico, a doutora Helen Goodwhite chega ao Hospital Especial de Jiangnan para Diabruras Estrangeiras Inexplicáveis, a fim de entrevistar um interno problemático.

Dra. Goodwhite: Como você está se sentindo hoje Senhor Vaughn? Disseram-me que você está bem mais calmo.

Vaughn: Ok, eu acho. Um pouco desorientado. Há quanto tempo…?

Dra. Goodwhite: Você se lembra por que está aqui?

Vaughn: Não exatamente

Dra. Goodwhite: Essas cicatrizes nos seus braços, alguma ideia?

Vaughn: [Hesitante] Algum tipo de acidente…?

Dra. Goodwhite: Eu tenho alguns relatos de testemunhas aqui, todos muito consistentes, talvez eles estimulem algo. Parece que você estava descendo a Nanjing East Road quando de repente você começou a guinchar “a-ya, a-ya, a-ya” com um sotaque chinês muito pouco convincente antes de mudar para o inglês e gritar “Sair. Sair. Temos que sair da cidade”. Depois disso, quando ninguém tomou nenhum conhecimento, você continuou a ‘berrar agressivamente’… Hmmm, vejamos [folheando suas anotações], ah sim, “Prole de Haibao, você são todos a maldita prole de Haibao, maldita prole zumbi do sangue-praga de Haibao”, e assim por diante, uma quantia considerável de obscenidades aparece e depois… ah, aqui somos “a maldita prole imunda intoxicada de futuro de Haibao, morrer, morrer, vamos todos morrer” et cetera, et cetera, et cetera. Aí você atravessou a rua correndo e arrebentou a janela de vidro laminado de uma loja de presentes da Expo com as mãos. [Olhando para cima] Você lembra de alguma dessas coisas, senhor Vaughn?

Vaughn: Algumas, sim. Agora que você mencionou. Está voltando. Mas não foi realmente assim.

Dra. Goodwhite: Não foi?

Vaughn: Na realidade, não. Pelo menos, essas coisas aconteceram, sim…

Dra. Goodwhite: Aconteceram?

Vaughn: Sim, mas é só, o que significam… [hesitando]

Dra. Goodwhite: Continue.

Vaughn: Bem, elas não significam nada, claro, o que eu quis dizer foi, bem, foi meio que um erro.

Dra. Goodwhite: Um ‘erro’?

Vaughn: Sim, ou, eu acho, mais um mal entendido.

Dra. Goodwhite: Temo que você vá ter que ser bem mais específico se formos fazer qualquer progresso.

Vaughn: É bem complicado.

Dra. Goodwhite: Por favor. Só comece do começo.

Vaughn: Suponho que tenha começado no pavilhão.

Dra. Goodwhite: O pavilhão do Reuno Unido na Expo?

Vaughn: Eu estava trabalhando lá, sabe.

Dra. Goodwhite: Está no arquivo.

Vaughn: Então você sabe qual a aparência dele.

Dra. Goodwhite: Sim, claro.

Vaughn: Os tentáculos, o cintilar, o nome como uma provocação… deles.

Dra. Goodwhite: Chamava-se ‘Seed Cathedral’, de acordo com isto.

Vaughn: Seed Cathedral, Sea Cthudral, que seja, foi mandado de volta, para cima, para nos mostrar sua verdadeira ‘face’.. Pelo menos, foi o que eu pensei na hora, mas isso é bem ridículo, né? Estou percebendo agora.

Dra. Goodwhite: Mas ‘na hora’ você pensou que ‘eles’ tinham ‘mandado ela de volta’?

Vaughn: Eu tinha trabalhado muito duro. Foi bem estressante, sabe. Eu não estava dormindo bem, me preocupando e foi aí que eles começaram a conversar.

Dra. Goodwhite: Quem eram ‘eles’, Senhor Vaughn?

Vaughn: Os Haibao, claro.

Dra. Goodwhite: Ah sim, o mascote da Expo…

Vaughn: Máscara, não mascote.

Dra. Goodwhite: Você sabia que o Pavilhão Corporativo de Shanghai foi desfigurado com uma tinta luminosa azul, na note de nove de setembro? [Ela passa um fotografia.]

Vaughn: [Estremece silenciosamente]

Dra. Goodwhite: A mensagem é um tanto críptica, mas suas palavras me lembraram dela, por alguma razão. É um pouco difícil de ler pela foto, mas eu tenho uma transcrição. “Somos muitos e, no entanto, singulares. Nosso nome é igual a 90, o vácuo fervilhante, que envolve a inteligência artificial e o alfa-ômega terminal. Viemos das profundezas, da tela azul no fim do mundo. Cthublue.”

Vaughn: Eu não sei nada sobre isso.

Dra. Goodwhite: É mesmo?

Vaughn: É cultismo Haibao, dos fortes. Eu nunca tocaria nisso — nunca.

Dra. Goodwhite: E no entanto, você parece reconhecer.

Vaughn: Dos sonhos — sonhos ruins, realmente ruins. Eu lhe disse, eu não estava dormindo bem. Eles não paravam de conversar, de me dizer coisas que eu não queria ouvir, não conseguia pará-los. Eu tentei, mas eles continuaram me chamando.

Dra. Goodwhite: Chamando-lhe para se curvar perante o mais elevado?

Vaughn: [Indignado] Eu nunca disse isso. Eu nunca diria isso. É absurdo, obsceno. Não é nem mesmo um código.

Dra. Goodwhite: [Verificando suas notas]. Então, você entende agora que ‘hairy crab’ não é um anagrama secreto para ‘Haibao’?

Vaughn: Sim, posso ver isso, claro.

Dra. Goodwhite: Não está nem perto, na verdade — letras demais, pra começar.

Vaughn: Bem, seis e nove são gêmeos rotacionais, e ‘o’ é um ‘cry’. [Soluça levemente]… É tudo sem sentido. Eu vejo agora. Eu estava confuso.

Dra. Goodwhite: O problema, Mister Vaughn, é que esse assunto ainda parece lhe excitar de uma maneira um tanto desproporcional. Acho que precisamos conduzir um pequeno teste. Vamos ver o que acontece quando comparamos isso [ela pega sua bolsa e tira dela a estatueta de uma abominação com tentáculos na face, esculpida há muito tempo por alguma tribo de uma ilha no Pacífico, presumida estar extinta] com isto [um boneco azul ameno, cartunesco e vagamente antropomórfico, sugestivo de um anúncio de pasta de dentes para crianças]. A similaridade não é especialmente impressionante, é?

Vaughn: Não, não, não, não, NÃOOOOOOOOOO.

Dra. Goodwhite: Perdão, o quê?

Vaughn: [Em uma voz quase indiscernível] Os profundos.

Dra. Goodwhite: Não captei essa.

Vaughn: Das profundezas, o oceano — os profundos. Eles vêm do mar — ‘tesouro do mar’ [ri morbidamente]. Até você tem que entender essa, doutora. Globalização, tecno-capitalismo, Shanghai, invasão alienígena, a Coisa — dificilmente poderia estar mais claro. Escapou do abismo, e agora está exposta. O tempo chegou. Mudança Marítima, Modernidade, chame do que quiser, não importa. Os Haibao nos contarão como pensar bem em breve, e obedeceremos, porque estão atrás de nós, sob nós, e descascaremos do que eles sempre foram como pele morta de uma cobra. Eles já nos mostraram a derradeira cidade deus, então não demorará. Suas palavras estão chegando, sussurros, murmúrios…

Dra. Goodwhite: [Inquieta] Oabiah nasce zhee ute ewoit.

Vaughn: Perdão?

Dra. Goodwhite: Isso não significa nada para você?

Vaughn: Nada

Dra. Goodwhite: Estranho, então, que esteja tatuado no seu braço.

Vaughn: Não tenho ideia de como chegou aí

Dra. Goodwhite: Certo, vamos seguir em frente, sim?

Vaughn: Seguir para onde, doutora? Já estamos aqui, na cidade no fim do mundo, a coisa que saiu do mar. Não vamos a lugar nenhum. Ela está vindo até nós, agora mesmo, e não pode ser parada. O que você esperava? Uma Nova Jerusalém? [gargalhando desagradavelmente]

Dra. Goodwhite: Certo, Senhor Vaughn, creio que estamos terminados aqui. Precisamos lhe dar uma atenção apropriada e profissional. Aí, depois de algum descanso, de volta à sua família…

Vaughn: [Gargalhada prolongada, ainda mais medonha] Tarde demais, doutora! Muito tarde demais. Os Haibao já a tomaram. Vieram até as crianças primeiro, você não percebe isso? Você sabe quantos bonecos Haibao minhas doces criancinhas acumularam? [Voz falhando] Dezessete! Elas bem podem estar com tentáculos saindo dos olhos — equivaleria à mesma coisa. Os Haibao derreteram suas almas na tela azul meses atrás. Essa geração se foi. Há muito tempo. Tinha acabado mesmo antes dos clones Haibao terem deslizado para fora da televisão.

Dra. Goodwhite: [Recuando nervosamente] Essa foi uma conversa muito interessante, mas eu realmente tenho que ir agora. Eu direi ao consulado que… que…

Vaughn: [Distraído, contemplando o azul] Eles querem nos transmutar — nos substituir — por algo indizível, por uma monstruosidade biônica de além da tela azul. Nossas metrópoles estão se tornando… Na verdade, elas nunca foram nossas. Os profundos, os Haibao, sempre as usaram para nos modificar, nos usando para fazê-las — esse é o circuito: animação alienígena. Era um jogo cósmico, uma aposta, e agora eles a estão recolhendo…

Dra. Goodwhite: [Fica pálida, uma horrível compreensão lhe ocorrendo] Cidade melhor, vida melhor…

Original.

Re-Animador (Parte 4)

O que o mundo faz de Shanghai?

Se as tradições mais profundas da Expo Mundial são aquelas assentadas em sua origem, seria imprudente descartar precipitadamente uma característica proeminente de sua instância inaugural. A Grande Exibição dos Trabalhos Industriais de todas as Nações, que aconteceu em Londres em 1851, foi realizada na efetiva capital do mundo. Neste caso, pelo menos, o internacionalismo definidor da Expo é difícil de desenredar do indisputável fato histórico de que todo o mundo rapidamente estava se tornando o negócio de Londres. Em um gesto de reciprocidade tão perfeito que se aproximava de uma simples identidade, Londres convidou o mundo para si, exatamente como – e porque – estava se convidando para o mundo.

A Grande Exibição fazia um sentido irresistível porque ela colocou o futuro do mundo em exposição no único lugar que poderia. Para ver o destino concentrado, realisticamente filtrado e programaticamente arranjado da terra, era necessário visitar Londres, uma vez que era em Londres que tudo se reunia.

Ao longo de suas primeiras duas décadas (e quadro episódios), a Expo Mundial alternou entre Londres (1851, 1962) e Paris (1855, 1867), como se oscilasse entre as potências históricas relativas do poder marítimo e continental. Ainda assim, esta aparente hesitação, na verdade, comprime e oculta duas tendências distintas, complementares e inequívocas. A Grã-Bretanha ascendia inexoravelmente à hegemonia global, ao passo que se desengajava da Expo Mundial, ao passo em que a França administrava um declínio comparativo igualmente inexorável, conforme fazia da Expo Mundial – em uma medida igualmente notável – sua reserva especial.

É tentador propor uma teoria de consolação institucional para explicar esse padrão. Muito depois de a Grã-Bretanha ter abandonado toda reivindicação de liderança da Expo, a França continuou a investir fortemente no evento, alcançando um recorde de hospitalidade da Expo inigualado por qualquer outro país e definindo o curso para a institucionalização da Expo através do Bureau Internacional de Exposições (BIE). O BIE, estabelecido em 1928, sempre teve base em Paris e continua sendo um bastião do bilinguismo anglo-francês.

O entusiasmo francês com a Expo expressa uma relação mais geral e de grande importância com o sistema-mundo. Tendo renunciado a seu papel (napoleônico) enquanto desafiante da ordem mundial no começo do século XIX, a França fez manobras, com capacidade e determinação únicas, para permanecer sendo uma potência secundária indispensável ou – mais precisamente – um equilibrador. Seu relacionamento com as sucessivas fases de hegemonia global anglófona foi guiada por um política profunda e extremamente consistente de acomodação sem aquiescência, caracterizada por uma rivalidade imaginativa e implacável, embora contida. Próxima do núcleo, mas nunca bem uma parte dele, a França tem sido capaz de extrair sustentação da ordem mundial ao passo em que contesta seu significado cultural (anglófono, protestante, individualista e laissez-faire).

Os desafiantes do sistema-mundo, deve-se notar de maneira clara, nunca hospedam Expos Mundiais. As Expos realizadas no Japão (Osaka 1970, Tsukuba 1985, Aichi 2005) e na Alemanha (Hanover 2000) tiveram lugar muito depois de sua resistência armada à ordem mundial anglo-americana ter sido quebrada e de ambos os países terem sido espancados até a docilidade. A Rússia nunca hospedou uma. A Moscou da URSS recebeu a oferta da Expo Mundial de 1967, mas a recusou (presumivelmente julgando-a perigosamente desestabilizante para uma sociedade fechada).

A Expo Mundial adquiriu, assim, uma tradição secundária, enquanto plataforma deliberadamente excêntrica, a partir da qual contestar o futuro do núcleo do sistema-mundo e propor uma alternativa pluralizada (ou embrionicamente multicultural). Já em 1855 e 1867, e depois em 1878, 1889, 1900 e 1937, a Expo Mundial encenou a visão de Paris, uma que aceitava a realidade global de modernização consolidada e revolucionária, ao passo em que desenfatizava sistematicamente seu determinismo tecno-comercial e sua convergência por sobre traços culturais anglófonos. A globalização industrial era reconfigurada como uma condição a ser criticamente interrogada, em vez de uma oportunidade a ser vigorosamente promovida.

Entre os impulsos primário e secundário da Expo, a colisão era inevitável. De maneira bastante previsível, a ocasião foi fornecida pela reconexão da Expo ao núcleo global.

Mesmo dado esse esquema truncado e radicalmente simplificado da história da Expo, que estava amplamente estabelecido em suas características essenciais por volta de 1870, a significância das duas Expos Mundiais de Nova York, realizadas em 1939-40 e 1964-5, entram claramente em foco. A Nova York do meio do século XX, como toda capital do sistema-mundo, representava a vanguarda da modernização enquanto processo revolucionário global — emergência e consolidação de uma nova ordem mundial e de uma nova era (novus ordo seclorum) — comparada com o qual a autoridade das instituições internacionais estabelecidas não contava de nada.

Ambas as Expos de Nova York violavam flagrantemente as regulamentações do BIE em numerosos aspectos, mas mesmo depois da retirada da sanção oficial, elas foram adiante de qualquer maneira. Essas foram, sem coincidência, as primeiras Expos imprevisíveis. Elas também estavam entre as mais memoráveis e influentes na história da Expo Mundial.

Pela primeira vez desde o meio do século XIX, a Expo encontrou seu caminho de volta à capital do mundo, a fim de fornecer uma amostra intransigente e inequívoca do Mundo de Amanhã no local que a estava orquestrando. A opinião do BIE importava pouco, porque a Expo não estava sendo tanto hospedada em Nova York quanto reinventada, ecoando a originalidade de 1851. Era dali que o futuro viria, e todo mundo sabia. Tudo que era necessário era provocar a cidade a se antecipar, e o resultado foi um Futurama.

Havia uma mensagem adicional, facilmente negligenciada devido à escassez de dados: hospedar uma Expo Mundial é uma das coisas que a capital mundial tem que fazer — como um tipo de responsabilidade ritual ou uma festa de debutante. Shanghai fez isso agora. O precedente sugere que uma Expo adicional seria apropriado (talvez em 2025 ou 2030), embora ela possa ter que não ser sancionada da próxima vez.

Claro, Shanghai ainda não é a capital do mundo, mas está chegando lá. A partir do final dos anos 1970, depois de séculos de exílio e difamação, a China costeira, diaspórica-marítima e capitalista dos tianchao qimin — aqueles ‘abandonados pelo Império Celestial’ — foi reintegrada de forma constante e rápida ao continente e suas estruturas ‘socialistas de mercado’. Comportas de talento e investimento foram abertas e, conforme essa população espalhada e com cheiro de sal se reconectou à pátria-mãe, o ‘milagre chinês’ das décadas recentes teve lugar. Shanghai é o soquete do circuito principal que liga essa outra China — orientada ao comércio oceânico, à oportunidade empresarial, à acumulação de capital, à mobilidade internacional e a uma sociedade de redes flexíveis — às vastas potencialidades do país (e ao flexível estado sino-marxista) que se encontram acima no Yangtse e além. Se o processo de reconexão não for interrompido, a próxima fase da modernidade se concentrará nesta cidade, onde a China encontra o mar.

Apesar de sua auto-identificação como o ‘país central’ (ou ‘reino do meio’ – Zhongguo), a China não esteve no núcleo do processo mundial por séculos. Ao contrário, ela tem sido uma potência legada declinando complacentemente e uma estranha mal-tratada, depois sucessivamente uma afiliada de segundo nível, uma desafiante truculenta e uma cautelosa equilibradora, até que seu status prospectivo enquanto herdeira do núcleo (ou hegemon virtual) começou a se infiltrar na consciência popular global ao longo das décadas finais do século XX. Muito pouco disso é uma questão de motivação ou afirmação estratégica. Suposições semi-marxistas de inevitabilidade econômica e causação direcional base-superestrutura se tornam fortes neste aspecto. A liderança global é nomeada pela realidade industrial, não pela vontade política, e a hegemonia não pode nem ser perpetuada para além da resistência de seus fundamentos econômicos, tampouco desdenhadas por muito tempo uma vez que tais fundamentos estejam estabelecidos. Eventualmente, uma verificação da realidade se torna inevitável, e a política é martelada em conformidade com as demandas do equilíbrio sistêmico mundial. Relações núcleo-periferia são decididas pelos fluxos de comércio e capital, não por declarações políticas. Uma vez que o sucesso e a falha comparativos não demonstram qualquer sinal que seja de desaparecimento, pode-se esperar confiantemente que a geografia hierárquica — como que que seja rearranjada — não definhará em breve. Os realistas seguirão o dinheiro.

Haverá um nova capital mundial (você pode contar com isso), mas ela será Shanghai? Seria imprudente presumir isso. A tradição dos sistemas-mundo, em sua ânsia de ungir Tóquio como a sucessora de Nova York (durando os anos 1980), fornece uma lição cautelar. Não houve nenhuma Expo Mundial em Tóquio, e acabou que não havia nenhuma necessidade urgente ou essencial de uma.

Então, Shanghai é a próxima? Essa deveria ter sido a questão animadora da Expo 2010, e talvez ela terá sido no futuro. Todo o mundo tem algo em jogo nisso, pois nos diz o que está vindo, e é isso que a Expo Mundial foi criada para fazer. Que uma capital mundial emergente se mascare como uma cidade genérica passa além da modéstia, até uma espécie de fraude acidental, mas o tato pode facilmente ser confundido com pretensão — especialmente por aqueles em terreno cultural pouco familiar. Pode ser que Shanghai tenha dito tudo que era necessário em 2010, e que o que ela disse eventualmente seja ouvido e entendido.

A Expo começa de novo em cada nova capital mundial, em 1851, em 1939 e — de maneira bem mais problemática — em 2010(?). No caso de Shanghai, ainda estamos próximos demais do evento e entremeados demais na atual revolução da modernidade para saber ao certo. O que a Expo 2010 terá sido dependo do que o mundo se tornar, de como se centro de gravidade econômica mudar, de como seu novo centro se condensar e do que ele fará de Shanghai.

(guinada final para dentro dessa névoa à seguir (ebaaaa!))

Original.

Re-Animador (Parte 3)

O que faz uma grande cidade?

De longe, o elemento mais interessante da Expo Mundial 2010: Shanghai era Shanghai. Embora tradições profundamente enraizadas de cortesia sustentassem a ficção de que essa Feira Mundial era sobre o mundo, na realidade não era. Quaisquer que sejam os benefícios diplomáticos da pretensão internacionalista quase universalmente conveniente, para a China e para os participantes internacionais da Expo igualmente, a Expo 2010 era sobre Shanghai e para Shanghai. A Expo era global porque Shanghai o é, era sobre a China porque Shanghai é o portal da China para o mundo, era sobre cidades a fim de ser ainda mais sobre Shanghai, ninguém desinteressado em Shanghai prestou a menor atenção, e Shanghai a utilizou para se reestruturar, se intensificar e se promover.

A Expo enquanto instituição estava em declínio antes de 2010 e continua a decair. Shanghai estava em ascendência antes de 2010 e continua a se elevar, mas agora com uma infraestrutura atualizada, completamente renovada e decorada com a medalha de mérito histórica da hospitalidade da Expo. Cidade Melhor, Vida Melhor, um tema tipicamente etéreo e aspirativo da Expo, é uma descrição fria e sóbria do efeito da Expo sobre Shanghai.

As cidades são, em certos aspectos importantes, genéricas. Existe algo como ‘a cidade em geral’, como o trabalho de Geoffrey West, em particular, demonstrou. Sabemos, graças a West, que as cidades são organismos negativos, com características consistentes de escala, que as diferenciam estruturalmente de animais e corporações. Conforme elas crescem, elas se aceleram e se intensificam em uma taxa quantificável e previsível, exibindo retornos cada vez maiores de escala (em nítido contraste com animais e empresas, que ficam mais lentos em proporção ao seu tamanho). Organismos e firmas morrem normalmente e por necessidade, as cidades apenas raramente e por acidente.

As cidades pertencem a um gênero real, mas elas também são singularidades, que sofrem uma individuação espontânea. Na verdade, elas são genericamente singulares – singulares sem exceção – como buracos negros. Não é apenas que nenhuma cidade é como outra, nenhuma cidade pode ser como outra, e isto é uma característica que todas as cidades compartilham, sem dúvida mais do que qualquer outra.

Para além de tal singularidade genérica, há um nível adicional de diferenciação aumentada que emerge da posição que a cidade ocupa dentro de sistemas maiores. Estes sistemas não são apenas internamente especializados, mas também hierárquicos, dividindo o centro da periferia e distribuindo influência de forma desigual entre elas. Em última análise, dentro da encarnação plenamente global do ‘sistema-mundo’, as cidades adquirem características metropolitanas secundárias, em diversos graus, de acordo com sua proximidade geográfica e funcional ao centro do mundo. Elas transcendem suas histórias locais, para se tornarem eixos ou nós em uma rede global que as re-caracteriza como partes de um todo, em vez de todos feitos de partes, como metrópoles-versus-periferias em vez de (ou por sobre) metrópoles-versus-vila.

A estrutura geográfica e a instabilidade histórica da arquitetura núcleo-periferia da modernidade têm sido o foco da ‘teoria de sistemas-mundo’, desenvolvida, a partir da Escola de Annales de Fernand Braudel (1902-85), por Immanuel Wallerstein (1930-) e – de maneira mais impressionante – Giovanni Arrighi (1937-2009). De acordo com os teóricos dos sistemas-mundo, as revoluções que importam mais não são mudanças nacionais de regime, tais como as da França (1789) e da Rússia (1917), mas sim reorganizações globais que balizam as fases básicas da história moderna, jogando o mundo em novas estruturas de núcleo-periferia. A modernidade sofreu quatro desses deslocamentos até o presente, com cada fase durando um ‘longo século’, introduzindo um novo estado núcleo, ou hegemon, com capacidades aumentadas, e um novo centro urbano – sucessivamente, Veneza, Amsterdam, Londres e Nova York – que opera como uma efetiva capital do mundo.

Como o exemplo de Nova York atesta, este status não é primariamente político. Tampouco a proeminência na manufatura parece ser um fator relevante (a ‘capital mundial’ nunca foi o centro industrial dominante de sua respectiva região ou estado). Ao longo da história moderna até hoje, as características cruciais da capital mundial parecem ser que ela é a maior aglomeração urbana na região ou estado dominante (‘hegemônica’); que ela é um centro financeiro bem estabelecido que bastante rapidamente alcança uma posição de preeminência global nesse aspecto; que ela é uma cidade portuária aberta, com uma clara orientação marítima; e que ela tem um perfil demográfico excepcionalmente internacionalizado, com um grande segmento de residentes internacionalmente móveis e oportunistas. Um período significativo de liderança nas artes criativas poderia plausivelmente ser adicionado a esta lista. Funcionalmente, a capital mundial serve como o centro-nervoso supremo da economia global, especializada nacionalmente e então super-especializada internacionalmente como o eixo de serviços financeiros, logísticos e empresariais de um sistema cuja integridade global está refletida na singularidade privilegiada da cidade.

O drama excepcional de nossa era está em sua natureza enquanto um tempo de transição entre fases da modernidade, algo entre o inverno de um longo século, quando uma época de hegemonia se exaure. Mais especificamente, o cerco está se fechando sobre a Era Americana, como comentadores de quase toda estirpe intelectual e ideológica estão cada vez mais cientes. Sobrecarregada, essencialmente falida, politicamente paralisada e desiludida, a América afunda em uma crise auto-consciente, seu humor sombrio e anuviado. Seria um erro limitar a atenção à América, contudo, porque a crise é sistêmica-mundial, proclamando o fim de uma ordem internacional que surgiu em meio ao caos das guerras mundiais e alcançou definição nas instituições pós Segunda Guerra das Nações Unidas e do Bretton Woods (FMI, Banco Mundial e o descendente do GATT, hoje OMC). Afeta não só o papel do dólar americano enquanto moeda de reserva internacional, de uma OTAN centrada no Atlântico e de um aparato da ONU enviesado para o Ocidente, mas também a União Européia, o sistema de estados pós-colonial no Oriente Médio e (muito) mais coisas.

Ao longo das próxima duas décadas, sob o impacto de forças econômicas de extrema profundidade (que de longe excedem a capacidade de resposta das instituições existentes), pode-se esperar que um reordenamento revolucionário do mundo se desenrole. Se a América for bem sucedida em manter sua posição de liderança dentro do sistema global por um período que significantemente exceda o longo século XX (que não começou antes de 1914 e que, assim, pode-se esperar que persista por alguns anos adicionais), terá quebrado um padrão que permaneceu consistente por todo um meio-milênio de história. Embora não seja estritamente impossível, a perpetuação da presente ordem hegemônica seria, bastante literalmente, um exagero.

Uma outra visão de quebra com o precedente histórico, desta vez transparentemente utópica, vislumbra – ao invés da continuação da preeminência dos EUA – a obsolescência da estrutura global núcleo-periferia em sua totalidade, pondo um fim na geografia hierárquica e na hegemonia em geral. Mesmo que tal visão verdadeiramente se eleve ao nível de uma expectativa definitiva (em vez um exercício nebuloso de ilusão), ela continua sem fundamentos históricos e teóricos confiáveis. Intenções políticas altruístas – se jamais fossem críveis – ainda seriam insuficientes para superar a tendência espontânea e dinâmica de se aproximar de um equilíbrio sistêmico mundial, no qual uma zona central e sua capital metropolitana sejam automaticamente nomeadas, por correntes econômicas difusas em busca de uma casa de compensação central.

Embora sem dúvida profundamente decepcionante para a escatologia utópica e para todos os sonhos de conclusão histórica (ou de passagem para a terra prometida), mudanças de fase no sistema-mundo são menos sinistras do que frequentemente descritas. Entre os discernimentos mais importantes de Arrighi está o lembrete de que, quando quer que uma tentativa de reconstrução da ordem mundia tenha sido embasada em um desafio militar e geo-estratégico frontal ao hegemon, ela falhou. Isso é exemplificado, sobretudo, pelas histórias alemã e russa nos séculos XIX e XX, nas quais repetidas confrontações diretas com o sistema internacional predominantemente anglófono estabelecido levou apenas a frustração, colapso do regime e reintegração subalterna.

Talvez ironicamente, uma aversão subjetiva marcada à afirmação firme de poder e à presunção de hegemonia pode bastante confiavelmente ser tomada como um indicador positivo da emergência objetiva de um status hegemônico. Holanda, Grã-Bretanha e os Estados Unidos foram todos, em certos aspectos cruciais, imperialistas acidentais, cujas ascensões sucessivas à dominância mundial compartilharam uma priorização de motivos comerciais, um envolvimento estatal retardado, correntes culturais ‘isolacionistas’ e ‘anti-imperialistas’ fortes e uma evitação determinada da colisão decisiva ‘clauswitzeana’ (especialmente o hegemon anterior). Os métodos de guerra britânicos e americanos, em particular, são notáveis por sua ênfase comum em cobertura e triangulação, tais como a exploração da posição oceânica e da supremacia marítima para evitar um enredamento prematuro em conflitos ‘continentais’ de alta intensidade, o uso da capacidade financeira e logística para manipular conflitos à distância e a inclusão diplomática dos adversários derrotados em sistemas de poder reconstruídos, policêntricos e ‘equilibrados’. A hegemonia foi, em cada caso, herdada de maneira pacífica, mesmo quando foi cimentada pela guerra (em parceria com o hegemon anterior) e mais tarde deu origem a oportunidades para um aventureirismo imperialista cada vez mais agressivo.

Dado esse padrão histórico largamente incontroverso, é ainda mais surpreendente que o exemplo alemão seja tão amplamente invocado nas discussões sobre a ‘ascensão pacífica’ da China. Na verdade, a ascensão da China tem ficado bem mais perto do modelo de entrega hegemônica do que dos desafios confrontativos, como indicado pela priorização do desenvolvimento comercial, pela relação altamente cooperativa (e até mesmo sinérgica ou ‘chimérica’) com o hegemon predominante, pela acumulação gradual de poder financeiro por meio de uma redistribuição espontânea e sistêmica e pela consolidação igualmente gradual de interesses marítimos, que emergem do sistema de comércio global e trazem o foco da política estratégica governamental – talvez de maneira relutante – das preocupações domésticas para o alto-mar.

Historicamente, a China tem sido uma potência bem mais continental do que marítima, e este fato fornece a mais persuasiva objeção à suposição de um (Longo) Século Chinês. A emergência de um sistema-mundo continental seria um afastamento tão decisivo do precedente quanto qualquer um dos já discutidos, e, se tal possibilidade for entretida, a previsão disciplinada falha. Se invertido, contudo, esse problema se torna um previsão em si mesmo: a trajetória da ascensão da China necessariamente implica em sua transformação em uma potência marítima (uma compreensão já tácita na controversa série de TV chinesa de 1988 River Elegy).

Uma vaga intuição, parcial mas elusivamente cristalizada pela Expo 2010, agora se precipita, pelo puro reconhecimento de padrões históricos, na forma de uma questão explícita:

Shanghai está destinada a se tornar a capital do mundo?

(Parte 4 por vir)

Original

Re-Animador (Parte 2)

Transformadores da Expo – o visitantes indesejados

O que estava dentro do pavilhão nacional do Reino Unido na Expo 2010? Alguém entrou lá? Talvez possam passar o rolê lá de dentro? Porque uma coisa é certa, se as ressonâncias culturais da ‘Anglosfera’ significam alguma coisa, as expectativas podem ser jogadas em níveis subterrâneos. Assim como o RU, a Austrália fez um bom – talvez até excelente trabalho – com o lado de fora de seu pavilhão, mas sua exposição foi, para ser brutalmente franco, uma desgraça. Vazia, paternalista, revoltantemente sentimental e desprezivelmente covarde – detalhes seriam legais, claro, mas na verdade não havia nenhum – ele serviu para ilustrar perfeitamente o colapso da Expo, de um festival de modernização dinâmica para uma indulgência lamuriante nas patologias culturais mais destrutivas da modernidade. Onde outrora uma exposição, seja corporativa ou nacional, audaciosamente declarava: “É isto que estamos fazendo (não é magnífico?)”, agora elas exaurem suas atenuadas energias explorando novas, embora consistentemente pouco imaginativas, maneiras de dizer “perdão”. Culpa narcisista se agita sem sentido no espaço de exibições como um cardume de peixes encalhados, morrendo na praia.

Incrivelmente, o pavilhão dos EUA era ainda pior. Não apenas o próprio pavilhão era um insulto em forma de shopping pré-fabricado, indigno de comparação com um Wallmart de segunda categoria, mas a exposição dentro levou a apelação obsequiosa dos australianos a um nível completamente novo. Queríamos uma nave espacial ou um drone predador e nos deram Hillary Clinton dizendo “ni hao” mais alguns disparates sobre plantar canteiros de flores no gueto. Qualquer um que tenha deixado esse pavilhão sem uma profunda e duradoura repulsa por tudo que a América representa em si enquanto ser provavelmente acha que o Barney é um cara bem legal. Essa era a sociedade outrora capaz de organizar a Expo de Chicago em 1893, as Expos de Nova York em 1939-40 e 1964-5, de fazer coisas incríveis e exibi-las, de descrever uma visão convincente do futuro e agora… mórbidas reflexões spenglerianas eram inescapáveis.

Vagando entre esses monumentos de direções erradas, suave falta de sentido, relações públicas adocicadas e lamentáveis concessões ‘por-favor-não-me-odeie’ ao estridente moralismo anti-modernista da era – o que seria dizer, à pura e ruinosa decadência – a consciência pixelada em um padrão de pontos semi-aleatório, rodopiado caleidoscopicamente por uma tempestade de frustração que só poderia ser aliviada ao latir para as autoridades locais da Expo e, além delas, para a cidade, o país e a região que estava recebendo o evento: “Você poderia, por favor, para de ser tão educado, poxa!”

O Ocidente está obviamente descendo pelo ralo e o que ele precisa, acima de tudo, é de alguma concorrência inspiradora. Em particular, e em 2010, ele precisava de uma Expo no oeste do Círculo do Pacífico, com desenvolvimento em aceleração máxima, um-caminho-para-o-futuro-marcado-em-chamas que – puramente por implicação inevitável – maximizasse a humilhação do senescente mundo ‘desenvolvido’ e o sacudisse, com o tipo mais rude imaginável de amor difícil, de seu caminho de declínio. (Claro, as sociedades que mais precisam dessa terapia de choque estão perdidas demais nas cativantes minúcias de sua própria degeneração para terem notado, mas ainda assim…) Em vez disso, a Expo 2010 se manteve escrupulosamente cortês, deferente às profundamente apodrecidas tradições da Expo e respeitosa à devoção multicultural de que mesmo os exemplos mais miseráveis de falha social sistemática têm uma dignidade própria. O que faltou foi uma injeção massiva de arrogância etno-cultural pura e inconsciente, embasada numa confiança imoderada no que estava sendo realizado.

Talvez isso possa ser exposto de maneira ainda mais ofensiva: a modernização deveria fazer as pessoas se sentirem mal. Sua função mais altruísta ou epidêmica é ridicularizar e humilhar tão completamente todos aqueles que estão falhando em se modernizar que, eventualmente, depois que todas as desculpas e projeções tenham sido tentadas e exauridas, o comportamento se modifique. O atraso é tornado vergonhoso e, assim, corrigido. É assim que a história funciona. Começou dessa maneira em meio ao quebra-cabeça de principados da Europa renascentista, funcionou dessa maneira no Japão (trazendo a modernização com a restauração Meiji), na China, há muito difamada por seu ‘confucionismo estagnante’, agora grande mamãe das economias tigresas, na Índia, finalmente vituperada psicologicamente a sair de sua absurda ‘taxa de crescimento hindu’ pelo modelo chinês, e em todos os outros lugares que jamais escalaram para fora da preguiça complacente até a via expressa do desenvolvimento. Já não é sem tempo de começar a acontecer no Ocidente, porque o que tem acontecido lá — pela maior parte de um século agora — simplesmente não está funcionando, e esta falha social crônica não está nem perto de clara, dolorosa ou embaraçosa o suficiente para as populações envolvidas.

Nada seria melhor para o Ocidente do que ter seu nariz esfregado em sua própria decadência, quanto mais abusiva e intensamente melhor. A fim de acelerar o processo, todo o baú do tesouro da condescendência colonial deveria ser reaberto e vasculhado, na busca pelo que quer que melhor agrave, provoque e catalize uma transformação, talvez com fortes insinuações de inferioridade racial e cultural jogadas no meio para temperar. A lição da história é que a espécie humana está confortável com a inércia e geralmente mais do que contente em gradualmente se degenerar. Uma das poucas coisas que jamais faz as pessoas pararem e se virarem é o desprezo transparente que escorre de outras sociedades mais dinâmicas. Se a Expo precisa de uma ‘dimensão social’, essa é ela.

Sem dúvidas, 2010 ainda é muito recente para uma história alternativa ou contra-factual, para um gênero Expo-punk (ou X-punk), que procurasse tudo que poderia ter sido reanimado através do evento — mas a empreitada é irresistível. Chame-a de Asia Unleashed 2010, uma afirmação absolutamente indelicada das novas realidades sócio-geográfica que expressa, em um estilo cru e esmagador, a verdade central da era: a simultânea des-ocidentalização e o radical revigoramento da modernidade.

A Asia Unleashed poderia ter emprestado bastante da real Expo 2010, adotando quase tudo que foi criado pela anfitriã, na verdade, e muito mais além disso. O Pavilhão da China, os Pavilhões Temáticos, a Área de Melhores Práticas Urbanas, o Centro Cultural da Expo, o Centro da Expo, o Boulevard da Expo, o Museu da Expo, e as paisagens do local, assim como o Pavilhão de Transportes, o Pavilhão da GM/SAIC e sua exibição, o Pavilhão das Telecoms, o Pavilhão do Petróleo, o Pavilhão Corporativo de Shanghai com todas as suas coisas, o Pavilhão da Coca-Cola, muitos dos projetos dos pavilhões internacionais e mesmo algumas das exibições internas… todas coisas a serem mantidas. O alvo das gargalhadas são os vídeos sentimentaloides de relações públicas, os atos de perdão, perdão, perdão de verdade mesmo com música e dança, a performance de éramos terríveis, o Pavilhão Kumbaiá, o Pavilhão da Hiperssensibilidade Ambiental, o Pavilhão dos Agravos Vitimológicos, o Pavilhão Além do Crescimento, o Pavilhão do Tem Que Haver Um Meio Mais Gentil, qualquer pavilhão nacional ou corporativo sem objetos de exposição (cerca de metade), quase tudo que carregava a marca dos conselhos de turismo, pós-graduandos em estudos de mídia ou serviços diplomáticos, e todas as utilizações de painéis solares que não estivessem estritamente adaptadas à exploração comercial em escala massiva. Além disso, qualquer pavilhão nacional embasado inteiramente em kitsch étnico seria agrupado com outros de seu tipo em uma área de turismo exótico, porque está admitindo uma completa ausência de capacidade criativa e precisa ser zombado. Sem robôs, sem plataforma: essa é a regra.

A Asia Unleashed precisa trazer várias coisas, sobretudo máquinas, A Expo é toda sobre máquinas, muito embora todas as Expos do último meio século tenham sido lamentavelmente deficientes nesse aspecto. Dificilmente se precisa mencionar que todo o local da Expo deveria estar pulsando, formigando e se contorcendo com robôs de todos os tipos e escalas, desde gigantes industriais, submarinos automatizados e veículos espaciais, passando por androides carismáticos, até aparelhos domésticos, jogadores de Go, robô-pets e mecanismos insectiformes. Para dar um empurrão no processo, os países e corporações com as exibições mais preguiçosas de robôs podem ser publicamente ridicularizados no sistema de som.

A Expo é uma exposição, e sua enfermidade histórica é perfeitamente traçada pela degeneração dessa concepção elementar em RP. Organizadores em todos os níveis, do pináculo da burocracia internacional da Expo (BIE) para baixo, claramente precisam ser forçosamente lembrados da diferença. Por exemplo, tecnologias de vídeo são um objeto inteiramente apropriado para exibição na Expo, e os próprios vídeos podem, bastante apropriadamente, desempenhar um papel informativo de apoio. Centrar uma ‘exposição’ em vídeos, contudo, especialmente quando eles foram reunidos, usando técnicas de publicidade avançadas, com o único propósito de vender uma marca nacional ou corporativa através de associações e giros de imagens, é uma completa abnegação de responsabilidade e deveria ser banida de forma direta, ou pelo menos boicotada, ridicularizada e tornada inefetiva através de um desprezo inundante. O único centro aceitável de uma exibição da Expo é um objeto, de preferência espantoso, trazido da borda exterior da capacidade industrial, a fim de representar de maneira concreta a trajetória do progresso material. Exibir tais objetos – e, assim, respeitar a audiência o suficiente para avaliá-los por si mesma – é a função básica e não-negociável da Expo enquanto instituição. Se ela não pode mais aceitar essa tarefa, ela deveria ser exterminada (por um robô gigante, se possível).

A Asia Unleashed é dedicada às últimas e iminentes fases da civilização industrial global, o que deveria estar mais ou menos implícito no fato de que é uma Expo Mundial, embora infelizmente não esteja. Existe bastante espaço para obras de arte e outras criações culturais singulares, mas a ênfase é claramente modernista. A tecnologia verde entra porque é tecnologia, e a indústria do turismo entra porque é uma indústria, mas em ambos os casos os mestres-das-voltas foram duramente refreados, e a questão preliminar insistentemente levantada: “O que, de verdade, você está exibindo aqui?”. Os únicos organizadores que conseguem evitar tais interrogações de suspeita são os que supervisionam a construção de alguma estrutura fabulosa que parece vinda de algum cenário de filme de ficção científica, ou os que estão descarregando montagens parcialmente animadas de metal reluzente de pilhas montanhosas de containers de transporte, porque – claramente – eles entendem do que a Expo se trata. A estação de ancoragem do ciclópico elevador espacial que toma forma na Zona de Exploração de Recursos Espaciais serve como modelo para o espírito orientador do festival. O maquinário no pavilhão de impressão 3D imprimiu o pavilhão.

A indústria de mineração emprega caminhões monstruosos que pesam 203 toneladas, com capacidade para carregar 360 toneladas, eles custam US$3 milhões cada um, suas rodas têm quatro metros de diâmetro e dirigir um é como “dirigir uma casa” – por que cargas d’água a Expo 2010 não tinha um? A Asia Unleashed muito certamente teria. Para países desenvolvidos com recursos para fazer um espetáculo na Expo, precisa haver algo como um preço de admissão, e um fragmento impressionante de maquinário industrial se encaixa perfeitamente. As areias betuminosas canadenses estão sendo atravessadas por esses caminhões monstruosos, e o pavilhão nacional do Canadá deveria ter sido fortemente aconselhado a trazer um para cá. Em vez disso, eles trouxeram… (levante a mão se alguém lembrar).

Toda a imaginação que foi desperdiçada ao longo de décadas de especulações utópicas de como “um outro mundo é possível” tem sido bem mais produtivamente empregada na Asia Unleashed, contrabalançando a tendência das capacidades industriais avançadas de fugir da arena do espetáculo. As realizações monumentais e as consequências de tecnologias intensamente miniaturizadas e amolecidas exigem exposição, desde a fabricação de chips de silicone, o sequenciamento genético e a nanotecnologia rudimentar, até cripto-sistemas, redes sociais, micro-finanças digitais e arquiteturas virtuais, mesmo ao passo em que elas escorregam, por sua própria lógica inexorável, à invisibilidade. Apresentar essas fronteiras da capacidade industrial de maneira rápida, dramática e memorável para a audiência altamente diversa e transiente da Expo exige a aplicação de uma inteligência criativa em escala massiva. Os crescentes desafios dessa tarefa são dignos dos emergentes talentos aumentados por computador que são exercidos sobre ela.

A Asia Unleashed nunca aconteceu, claro, parcialmente porque o aparato institucional internacional da Expo está preso na tirolesa da morte Ocidental, mas principalmente porque teria sido indelicado. Em última análise, o politicamente correto multicultural pós-modernista – a ideologia globalista hegemônica de hoje – é uma etiqueta elaborada, projetada para impedir a identificação e o diagnóstico ‘insensível’ da falha e evadir indefinidamente a franca afirmação: “O que você está fazendo não funciona”. Nenhuma Expo que se mantivesse verdadeira às suas profundas tradições institucionais poderia evitar que tal afirmação surgisse, implicitamente, através do contraste. Consequentemente, a Expo foi condenada a morrer, por forças inerciais profundas demais para que a Expo 2010 impedisse totalmente, muito menos revertesse: Melhor degenerado do que rude.

Dos destroços da instituição da Expo, contudo, a Expo 2010 foi capaz de extrair, polir e ressuscitar um tópico modernista crucial: a cidade enquanto motor do progresso. Mais sobre isso na Parte 3.

Original.

Re-Animador (Parte 1)

A Expo pode voltar à vida?

Verdades diferentes são ‘duras’ para diferentes pessoas. Para os chineses, uma verdade tão dura que escapou ao reconhecimento público no momento em que mais importava é que quase ninguém, fora do país, ligou muito para a a Expo Mundial de 2010. No momento em que a China ansiosa mas tardiamente aproveitou sua chance de tomar a tocha desse festival da civilização moderna, a época de significância radiante da Expo havia passado. Ainda mais duro: esse era o fato básico e a principal realidade condicionante do evento, ondulando com implicações sinistras para o futuro da modernidade e da resposta internacional ao redespertar da China. Para melhorar, existem verdades mais sombrias e contrárias – primeira entre elas a de que Shanghai já havia descontado a indiferença de uma Expo Mundial cansada e a contornado, a fim de fazer do evento uma oportunidade para algo mais e para si mesma.

A história da Expo Mundial, desde a Grande Exposição de Londres em 1851, está por demais abundantemente documentada para se recontar aqui. O padrão básico, contudo, não é difícil de esboçar, uma vez que se conforma com uma curva relativamente regular, partindo de uma crescimento meteórico (1851-1940) até uma decadência gradual (de 1958 em diante), traçando quase perfeitamente a trajetória do otimismo modernista, desde sua ignição na forja prometeica da revolução industrial até sua expiração em cinismo pós-moderno / pós-colonial, masoquismo de elite e apologia.

De maneira importante, essa permaneceu sendo uma estória essencialmente Ocidental, a despeito do globalismo consistente de suas ambições culturais. A ascensão do capitalismo Ocidental, globalizante e industrial, em suas ondas européia e americana, foi refletida em Exposições Mundiais de glória eletrizante. A crise e o declínio do Ocidente – tanto relativos quanto absolutos – jogaram o evento na marginalidade, na negligência e na dúvida, enganchado no aperto de morte de um anti-modernismo amargurado e auto-mortificante. De maneira mais crucial – e surpreendente – a aurora há muito evidente do historicamente revitalizante e freneticamente modernizante ‘Século Asiático’ parece ter tido um impacto negligenciável na ‘Grande Narrativa’ declinista encarnada na Expo Mundial, que mergulhou ainda mais fundo no pânico gesticulante hipersensível com a suposta calamidade social e ambiental do crescimento modernista.

A ironia dessa situação merece uma ênfase explícita. Precisamente quando a globalização passou de aspiração questionável e ideologia a fato histórico definitivo, com a emergência de centros não-ocidentais de desenvolvimento econômico robustos, primeiro no Leste Asiático no Pacífico, depois no Sul da Ásia e além, o projeto de modernização cosmopolita sofreu uma deslegitimação aparentemente irremediável na corte da opinião ‘mundial’ aprovada. Aparentemente, se o Ocidente não pode mais se pavonear pelo palco mundial com uma confiança invencível e incontestável, a única opção alternativa aceitável é cilícios para todos. Se essa epítome do triunfante ressentimento do cão na manjedoura não exemplifica uma ‘hegemonia cultural’ em sua forma mais potente e tóxica, é difícil imaginar o que o faria.

Uma abundância esmagadora de evidências públicas atestam o ímpeto implacável da degeneração da Expo, embora a maior parte desses dados resistam a uma quantificação ordenada. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o propósito original do evento, que era promover a modernização industrial mundialmente, através de uma exibição pública abrangente de tecnologias produtivas avançadas, engenharia estrutural, manufaturas e mercadorias, foi progressivamente eliminada, para ser substituída por uma agenda que reflete as preocupações de burocracias inter-governamentais, serviços diplomáticos nacionais e conselhos de turismo. Exibições de relações públicas sistematicamente substituíram exposições tecnológicas, e o número de importantes inovações mecânicas e de produtos que alcançaram uma exposição popular através da Expo – outrora substancial – caiu a praticamente zero. Os temas da Expo foram constantemente despojados de suas associações com um materialismo acumulador e remodelados em exortações sérias da transformação moral e social, conforme um evento que foi inicialmente projetado para celebrar a modernidade cada vez mais veio a se desculpar por ela. Previsivelmente, essa transmutação burocraticamente alquimizada de um festival em lamentos foi acompanhada por um ingrime colapso de interesse e engajamento popular. Audiências que outrora se inundavam para conseguir uma visão do futuro, agora evitam um evento que reúne todo o fascínio de uma palestra das Nações Unidas.

No Ocidente, tudo isso é tediosamente familiar. Dificilmente alguém presta mais atenção à Expo, ou se importa muito com ela. Talvez a maioria, se forçada a uma opinião sobre o assunto, vagamente aprovaria o curso politicamente correto que o evento tomou, embora não o suficiente, claro, para jamais entreter o prospecto de ir a um deles. Afinal, poucos ocidentais ainda acreditam na modernidade, tendências mundiais os angustiam, e a Expo parece aproximadamente tão relevante para suas ansiedades quanto o prospecto da colonização de Marte.

No Oriente, as coisas são mais intrigantes. Sociedades que estão sofrendo um rápido desenvolvimento modernista são hospedeiros naturais da Expo, como consistentemente demonstrado ao longo de toda a história do evento. Nunca houve uma grande Expo Mundial que não tenha correspondido, de maneira ampla, a um momento de florescimento nacional e urbano excepcional. Por que, então, a Expo não sofreu uma profunda revitalização asiática, que a restaurasse a suas glórias anteriores? Por que o oeste do Círculo do Pacífico não capturou a Expo, reconstruindo-a como um veículo promocional para seus próprios prospectos de desenvolvimento, como a América o fez no começo do século XX?

Pesadas pelo simples número de visitantes, as duas maiores Expos Mundiais na história foram do Leste Asiático. Ainda assim, o pathos moribundo e devastado de culpa do declínio Ocidental continua a dominar o evento. O Japão passou sua Expo de 1970 tentando provar que conseguia superar até mesmo o Ocidente em beatice solapante de crescimento (como sua economia mais tarde demonstraria), ao passo em que o humor na Shanghai pós-Expo 2010 parece notoriamente desprovido de qualquer sentimento eufórico de realização e mais semelhante ao que poderia se esperar de um grupo de estudantes que acabaram de escapar de uma aula de seis meses anormalmente sem inspiração sobre retificação comportamental guiada pela ética ministrada por um mandarinato internacional. Tendo acabado de executar o maior evento individual na história humana, os sentimentos predominantes são alívio obediente e anticlímax, entorpecidos por algo como uma amnésia deliberada. Em todo caso, há Shanghai para se continuar, então por que perder tempo relembrando a Expo? Isso não vai só encher o lugar com o odor da morte ocidental?

(Algumas sugestões, respostas tentativas, ainda mais lados ruins, e muito mais lados bons, a seguir.)

Original.

Criaturas Escalosas

Cidades são aceleradores e existem números sólidos para demonstrar isso

Entre as características mais memoráveis da World Expo 2010 de Shanghai estava o quinteto de ‘Pavilhões Temáticos’ projetados para facilitar a exploração da cidade em geral (condizentes com o tema orientado ao urbano do evento: ‘Cidade Melhor, Vida Melhor’). Ao passo em que muitos participantes internacionais sucumbiram ao populismo fácil em seus pavilhões nacionais, estes Pavilhões Temáticos mantiveram um tom impressionantemente elevado.

O mais notável de todos para a penetração filosófica era o Pavilhão do Ser Urbano, com sua exibição devotada à questão: que tipo de coisa é uma cidade? Redes de infraestrutura receberam um escrutínio especialmente focado. Canos, cabos, conduites e artérias de transporte compõem sistemas intuitivamente identificáveis – totalidades de nível mais elevado – que indicam fortemente a existência de um ser individualizado e complexo. A conclusão era resolutamente inescapável: uma cidade é mais do que uma massa agregada. Ela é um entidade singular e coerente, merecedora de seu nome próprio – até mesmo pessoal – e, não sem razão, concebida como uma ‘forma de vida’ composta (ainda que não exatamente um ‘organismo’).

Tais intuições, não importa o quão plausíveis, não são suficientes, em si mesmas, para estabelecer a cidade enquanto um objeto científico rigorosamente definido. “[A]pesar de muita evidência histórica de que as cidades são os motores principais da inovação e do crescimento econômico, um teoria quantitativa e preditiva para o entendimento de sua dinâmica e organização e para estimar sua trajetória futura e sua estabilidade permanece sendo elusiva”, observam Luís M. A. Bettencourt, José Lobo, Dirk Helbing, Christian Kühnert e Geoffrey B. West, em seu prelúdio a um artigo de 2007 que fez mais do que qualquer outro para remediar o déficit: ‘Growth, innovation, scaling, and the pace of life in cities‘.

Neste artigo, os autores identificam padrões matemáticos que são, de uma só vez, distintivos do fenômeno urbano e aplicáveis de maneira geral a ele. Eles, assim, isolam o objeto de um uma ciência urbana emergente e esboçam suas características iniciais, alegando que: “a organização e a dinâmica social que relacionam a urbanização ao desenvolvimento econômico e à criação de conhecimento, entre outras atividades sociais, são muito gerais e aparecem como regularidades quantitativas não triviais, comuns a todas as cidades, através de sistemas urbanos”.

Observando que as cidades frequentemente foram analogizadas a sistemas biológicos, o artigo extrai o princípio que suporta a comparação. “Notavelmente, quase todas as características fisiológicas de organismos biológicos variam em escala junto à massa corporal… como uma lei de potência cujo expoente é tipicamente um múltiplo de 1/4 (que se generaliza para 1/(d+1) em d dimensões)”. Estas relações escalares relativamente estáveis permitem que características biológicas, tais como taxas metabólicas, expectativas de vida e períodos de maturação sejam antecipadas com um alto nível de confiança, dada apenas a massa corporal. Além disso, elas se conformam a uma elegante série de expectativas teóricas que não se baseiam em nada além das restrições organizacionais abstratas em uma espaço n-dimensional:

“Estruturas altamente complexas e auto-sustentadoras, sejam células, organismos ou cidades, exigem uma integração estreita de enormes números de unidades constituintes que precisam de manutenção eficiente. Para realizar esta integração, a vida em todas as escalas é sustentada por redes ramificadas otimizadas, preenchedoras de espaço e hierárquicas, que crescem com o tamanho do organismo enquanto estruturas exclusivamente especificadas e aproximadamente auto-similares. Uma vez que estas redes, por exemplo, os sistemas vasculares de animais e plantas, determinam as taxas nas quais a energia é entregue às unidades funcionais terminais (células), elas estabelecem o ritmo dos processos fisiológicos enquanto funções escalares do tamanho do organismo. Desta forma, a natureza auto-similar das redes de distribuição de recursos, comuns a todos os organismos, fornece a base para uma teoria quantitativa e preditiva da estrutura e dinâmica biológica, apesar de muita variação externa em aparência e forma.”

Se as cidades são, em certos aspectos, meta- ou super-organismos, contudo, elas também são o inverso. Metabolicamente, cidades são anti-organismos. Conforme os sistemas biológicos aumentam em escala, eles ficam mais lentos, em uma taxa matematicamente previsível. As cidades, em contraste, se aceleram conforme crescem. Algo que se aproxima da lei fundamental da realidade urbana é, assim, exposto: maior é mais rápido.

O artigo quantifica suas descobertas, embasadas em uma base substancial de dados urbanos (com as cidades dos EUA sobre-representadas), ao especificar um ‘expoente escalar’ (ou ‘ß’, beta), que define a correlação regular entre escala urbana e o fato sob consideração.

Um beta de 1 corresponde a uma correlação linear (entre uma variável e o tamanho da cidade). Por exemplo, descobriu-se que a oferta de habitação, que permanece constantemente proporcional à população ao longo de todas as escalas urbanas, tem – sem surpresas – um ß = 1.00.

Um beta menor que 1 indica um economia de escala consistente. Tais economias são encontradas sistematicamente entre redes urbanas de recursos, exemplificadas por postos de gasolina (ß = 0.77), vendas de gasolina (ß = 0.79), comprimento de cabos elétricos (ß = 0.87) e superfície de estradas (ß = 0.83). A correlação sub-linear entre os custos dos recursos e a escala urbana torna a vida citadina cada vez mais eficiente, conforme a intensidade metropolitana se eleva.

Um beta maior que 1 indica retornos crescentes de escala. Fatores que exibem este padrão incluem inventividade (por exemplo, ‘novas patentes’ ß = 1.27, ‘inventores’ ß = 1.25), criação de riqueza (por exemplo, ‘PIB’ ß = 1.15, salários ß = 1.12), mas também doenças (‘novos casos de AIDS’ ß = 1.23) e crimes sérios (ß = 1.16). O crescimento urbano é acompanhado por um aumento supra-linear em oportunidades de interação social, sejam elas produtivas, infecciosas ou maliciosas. Mais não é apenas melhor, é muito melhor (e, em alguns aspectos, pior).

“Nossa análise sugere dinâmicas sociais humanas únicas, que transcendem a biologia e redefinem as metáforas do ‘metabolismo’ urbano. A criação em aberto de riqueza e conhecimento exige que o ritmo da vida aumente com o tamanho organizacional e que os indivíduos e instituições se adaptem em uma taxa continuamente acelerante para evitar estagnação e potenciais crises. Estas conclusões muito provavelmente se generalizam para outras organizações sociais, tais como corporações e empresas, potencialmente explicando por que o crescimento contínuo necessita de uma esteira acelerante de ciclos dinâmicos de inovação.”

Cidade maior, vida mais rápida.

Original.