“2035. Provavelmente antes.”

Tem o rápido, e aí tem… alguma coisa a mais

Eliezer Yudkowski agora categoriza seu artigo ‘Staring into Singularity‘ como ‘obsoleto’. Ainda assim, ele permanece entre os ensaios filosóficos mais brilhantes já escritos. Raramente, ou nunca, tanta coisa de valor foi dita sobre o absolutamente impensável (ou, mais especificamente, o absolutamente impensável para nós).

Por exemplo, Yudkowski mal se detém no fenômeno do crescimento exponencial, apesar do fato de que isto já exige demais de toda intuição confortável e garante mudanças revolucionárias de tamanha magnitude que a especulação vacila. Ele está convencido de que a exponenciação (e até mesmo a ‘dupla exponenciação’ de Kurzweil) só alcança o ponto inicial da aceleração computacional e que a propulsão para dentro da Singularidade não é exponencial, mas hiperbólica.

Cada vez que a velocidade do pensamento se duplica, os calendários se reduzem pela metade. Quando a tecnologia, incluindo o design de inteligências, sucumbe a tal dinâmica, ela se torna recursiva. A taxa de auto-melhoria colapsa com rapidez regularmente crescente em direção à instantaneidade: uma verdadeira e matematicamente exata, ou pontual, Singularidade. O que jaz além não é meramente difícil de imaginar, é absolutamente inconcebível. Tentar retratá-lo ou descrevê-lo é uma futilidade ridícula. A ficção científica morre.

“Um grupo de computadores equivalentes a humanos demora 2 anos para duplicar as velocidades dos computadores. Em seguida, eles demoram outros dois anos subjetivos, ou 1 ano em termos humanos, para dobrá-las novamente. Em seguida, eles demoram outros 2 anos subjetivos, ou seis meses, para dobrá-las novamente. Depois de quatro anos no total, o poder computacional vai ao infinito.

Esta é a versão ‘Transcendida’ da sequência de duplicação. Vamos chamar a ‘Transcendente’ de uma sequência {a0, a1, a2…} a função em que o intervalo entre an e an+1 é inversamente proporcional a an. Então, uma função de duplicação Transcendida começa com 1, caso no qual ela demora 1 unidade de tempo para chegar a 2. Então, ela demora 1/2 unidade de tempo para chegar a 4. Então, ela demora 1/4 unidade de tempo para chegar a 8. Esta função, se fosse contínua, seria a função hiperbólica y = 2/(2-x). Quando x = 2, então (2-x) = 0 e y = infinito. O comportamento nesse ponto é conhecido matematicamente como singularidade.”

Dificilmente poderia haver uma fórmula mais precisa, plausível ou consequente: Os períodos de duplicação se reduzem pela metade. No declive até a Singularidade – a ‘explosão de inteligência‘ de I. J. Good – a exponenciação é composta por uma tendência hiperbólica. A aritmética de tal processo é bastante simples, mas suas implicações históricas são estritamente incompreensíveis.

“Eu sou um Singularitário porque eu tenho uma pequena estimação do quão completamente, definitivamente, absolutamente impossível é pensar como alguém mesmo um pouquinho mais inteligente do que você. Eu sei que estamos todos perdendo o óbvio, todos os dias. Não existem problemas difíceis, apenas problemas que são difíceis para um certo nível de inteligência. Mova-se o menor bocado para cima, e alguns problemas de repente se movem de ‘impossíveis’ para ‘óbvios’. Mova-se um grau substancial para cima, e todos eles se tornam óbvios. Mova-se uma grande distância para cima…”

Uma vez que o argumento leva o pensamento humano ao seu ponto de despedaçamento, é natural que algumas pessoas sejam repelidas por ele. Ainda assim, seus fundamentos básicos são quase inexpugnáveis à objeção lógica. A inteligência é uma função do cérebro. O cérebro foi ‘projetado’ por processos naturais (não apresentando quaisquer dificuldades especiais discerníveis). Desta forma, a inteligência obviamente é um problema de engenharia, em última análise, tratável. A natureza já ‘a projetou’ enquanto empregava métodos de design de ineficiência tão estonteante que apenas uma força bruta e obstinada, combinada, é claro, com uma completa crueldade, moveu as coisas adiante. Ainda assim, a triplicação da massa cortical dentro da linhagem dos primates superiores levou apenas alguns milhões de anos e precisou – na maior parte deste período – apenas de uma população experimental modesta (de poucos milhões ou menos).

O problema tecnológico contemporâneo, em contraste com aquele biológico preliminar, é vastamente mais fácil. Ele se baseia em uma gama mais ampla de materiais e técnicas, uma base de inteligência e conhecimento instalada, meios de informação superiores, sistemas de feedback mais altamente dinamizados e uma rede de recursos auto-amplificadora. Não surpreende que esteja avançando a uma velocidade incomparavelmente maior.

“Se tivéssemos uma máquina do tempo, 100K de informação do futuro poderiam especificar uma proteína que construísse um dispositivo que nos daria nanotecnologia do dia para a noite. 100K poderiam conter o código de uma IA semente. Desde o fim dos anos 90, a Singularidade tem sido apenas um problema de software. E software é informação, a coisa mágica que muda a velocidades arbitrariamente altas. No que diz respeito à tecnologia, a Singularidade poderia acontecer amanhã. Uma descoberta – um só grande insight – na ciência da engenharia de proteínas ou da manipulação atômica ou da Inteligência Artificial, um dia realmente bom na Webmind ou na Zyvex, a porta para a Singularidade se escancara.”

Original.

Moore e Mais

Redobrar a Lei de Moore é a principal corrente futurista

Ciclos não podem ser descartados da especulação futurista (eles sempre voltam), mas não mais a definem. Desde o começo da era eletrônica, sua contribuição para a forma do futuro tem sido progressivamente marginalizada.

O modelo de tempo histórico linear e irreversível, originalmente herdado das tradições religiosas ocidentais, foi remendado com ideias de crescimento e melhoria contínuas durante a revolução industrial. Durante a segunda metade do século XX, a dinâmica da manufatura de eletrônicos consolidou mais uma atualização – uma que era fundamental – embasada na expectativa de mudança continuamente acelerante.

A aritmética elementar de se contar ao longo da linha de números naturais fornece um modelo intuitivamente confortável para a progressão do tempo, devido a sua conformidade aos relógios, calendários e à simples ideia de sucessão. Ainda assim, as forças históricas dominantes do mundo moderno promovem um modelo significativamente diferente de mudança, um que tende a deslocar a adição para cima, até um expoente. Demografia, acumulação de capital e índices de desempenho tecnológico não aumentam através de passos unitários, mas através de taxas de retornos, duplicações e decolagens. O tempo explode exponencialmente.

A expressão icônica deste tempo neo-moderno, contando a sucessão em logaritmos binários, é a Lei de Moore, que determina um período de duplicação de dois anos para a densidade de transistores em microchips (“atulhando mais componentes nos circuitos integrados”). Em um curto ensaio publicado na Pajamas Media, celebrando o prolongamento da Lei de Moore, enquanto a Intel empurra a arquitetura de chips à terceira dimensão, Michael S. Malone escreve:

“Hoje, quase meio século depois que foi primeiro elucidada pelo lendário co-fundador da Fairchild e da Intel, o Dr. Gordon Moore, em um artigo para uma revista comercial, é cada vez mais aparente que a Lei de Moore é a medida definidora do mundo moderno. Todas as outras ferramentas preditivas para se entender a vida no mundo desenvolvido desde a Segunda Guerra Mundial – demografia, tabelas de produtividade, taxas de alfabetização, econometria, os ciclos da história, análise marxista, etc, etc – falharam em prever a trajetória da sociedade ao longo das décadas… exceto a Lei de Moore.”

Embora cristalize – in silico – a aceleração inerente do tempo linear neo-moderno, a Lei de Moore é intrinsecamente não-linear, por pelo menos duas razões. Primeiro e mais diretamente ao ponto, ela expressa a dinâmica de feedback positivo do industrialismo tecnológico, no qual máquinas eletrônicas que avançam rapidamente continuamente revolucionam sua própria infraestrutura de produção. Chips melhores fazem robôs melhores que fazem chips melhores, em uma aceleração espiralante. Segundo, a Lei de Moore é, de uma só vez, uma observação e um programa. Como a Wikipédia observa:

“A artigo [original de Moore] observava que o número de componentes em circuitos integrados havia dobrado a cada ano desde a invenção do circuito integrado, em 1958, até 1965 e previa que a tendência continuaria ‘por pelo menos dez anos’. Sua previsão se provou ser inquietantemente precisa, em parte por que a lei agora é usada na indústria de semicondutores para guiar o planejamento de longo prazo e para estabelecer metas para a pesquisa e o desenvolvimento…. Embora a Lei de Moore tenha sido inicialmente feita na forma de observação e previsão, quanto mais amplamente ela se tornou aceita, mais ela serviu enquanto meta para toda uma indústria. Isto levou os departamentos de marketing e engenharia de produtores de semicondutores a focar uma enorme energia, visando o aumento especificado em poder de processamento que se presumia que um ou mais de seus concorrentes logo atingiria de fato. Neste aspecto, ela pode ser vista como uma profecia auto-realizadora.”

Malone comenta:

“…companhia de semicondutores ao redor do mundo, grandes e pequenas, e não menos por causa de seu respeito por Gordon Moore, se puseram a defender a Lei – e tem o feito desde então, apesar de obstáculos técnicos e científicos aparentemente impossíveis. Gordon Moore não apenas descobriu a Lei de Moore, ele a tornou real. Como seu sucessor na Intel, Paul Otellini, me disse uma vez, ‘Eu não vou ser o cara cujo legado é que a Lei de Moore morreu em seu turno’.”

Se a Singularidade Tecnológica é o ‘arrebatamento dos nerds’, Gordon Moore é seu Moisés. O capitalismo eletro-industrial é instruído a ir adiante se multiplicar e a fazê-lo com um expoente binário especificado no tempo de maneira bastante precisa. Em sua adesão à Lei, a indústria de circuitos integrados é singularmente escolhida (e uma luz para os povos). Como Malone conclui:

“Hoje, cada segmento da sociedade ou abraça a Lei de Moore ou está correndo para chegar lá. Isto é porque eles sabem que se apenas eles conseguirem embarcar no foguete – isto é, se eles conseguirem adicionar um componente digital ao seu negócio – eles também podem acelerar para longe da concorrência. É por isso que nenhuma das invenções que nós Baby Boomers, quando crianças, esperávamos desfrutar quando fôssemos adultos – carros atômicos! helicópteros pessoais! armas de raios! – se tornaram realidade; e também por isso temos ferramentas e brinquedos cada vez mais poderosos – como alternativa. O que quer que possa se tornar digital, se não no todo, pelo menos em parte – marketing, comunicação, entretenimento, engenharia genética, robótica, guerra, manufatura, serviços, finanças, esportes – irá, porque virar digital significa pular na Lei de Moore. Perca esse trem e, enquanto negócio, instituição ou fenômeno cultural, você morre.”

Original.