Links para Ayache

Há uma troca desalinhada de ideias com Elie Ayache ocorrendo nesta seção de comentários (conduzida, do lado de Ayache, com graça impecável). Chegar a um estado de competência mínima nessa conversa não vai ser fácil. Caso outros estejam inspirados a escalar os mesmos intimidadores penhascos intelectuais, eu reuni alguns links preliminares.

O arquivo principal dos seus escritos está aqui.

Sobre a principal obra de Elie Ayache, The Blank Swan ("O Cisne Branco", ainda sem tradução), o próprio EA se refere a duas análises, no NYT e no The Hindu. (O primeiro é sugestivo de completa incompreensão, o último faz uma impressão mais convincente de um entendimento pelo menos tênue.)

‘The Medium of Contingency’ ("O Meio da Contingência"), um ensaio filosófico no qual Ayache esboça sua tese básica, pode ser encontrado aqui.

Duas seções de discussão se engajam na obra de Ayache (aqui e aqui). Ayache participa da primeira como "numbersix".

A obra de Ayache é onde o Realismo Especulativo (especialmente Meillassoux) intercepta a realidade econômica. De uma perspectiva alternativa, ela é uma ‘radicalização’ extrema da crítica de Nassim Nicholas Taleb à modelagem gaussiana do mercado.

Ao descrever The Blank Swan, Ayache resume seu argumento como "… colocar o preço antes da probabilidade e a contingência absoluta antes da possibilidade". Interpretado em termos mais literários-filosóficos, isso equivale a "… uma reconstrução do mercado das reivindicações contingentes no âmbito da escrita e da diferença, em vez da identidade da delimitação de estados".

Este blog mantém que a inferência bayesiana (subjetiva probabilística) aplicada é o esquema insuperável da racionalidade capitalista, ou processamento de risco, em geral, como mais lucidamente evidenciado na especulação financeira. Quando Ayache alega ter excedido tal pensamento, para chegar em uma compreensão prática (e até mesmo algorítmica) da contingência absoluta, a resposta inicial do UF só pode ser altamente cética. Atualmente, tais reservas estão sendo sustentadas apenas como ‘antecedentes’ primitivos. Em outras palavras, esta inovação intelectual se parece, obscuramente, com uma aposta muito ruim.


Original.

Filosofia em Gráfico

Como a filosofia se conecta? Simon Raper, no Drunks & Lampposts transforma essa questão em um problema prático de visualização. Quando reduzida a um gráfico, ela se parece com isso:

Philosophy Graph

(Clique para aumentar.)

Ao exibir a ‘história da filosofia’ como um conjunto de conexões simultâneas, ele faz um ponto sobre referência temporal que demandaria muitas palavras para se igualar.

Seria altamente intrigante ver este livro receber o mesmo tratamento.


Original.

#Acelerar Anotado (#1)

Meus rabiscos marginais foram adicionados em negrito. Por questão de clareza, portanto, eu subtraí os negritos usados no texto de Williams e Srnicek. Em todos os outros aspectos, o texto base foi plenamente respeitado. A maior parte das anotações feitas são espaços reservados para um engajamento futuro. O texto foi quebrado em três posts, em conformidade com a organização do original

#ACELERAR MANIFESTO: por uma Política Aceleracionista Por Alex Williams e Nick Srnicek | Trad. Bruno Stehling • 14 de maio de 2013

O aceleracionismo impulsiona rumo um futuro que é mais moderno, uma modernidade alternativa que o neoliberalismo é incapaz de gerar intrinsecamente.

Uma vez que isso é um slogan, o número bastante incrível de problemas que ele consegue comprimir em dezenove palavras está sendo colocado de lado, como efeitos da compressão

I. INTRODUÇÃO: Sobre a Conjuntura

  1. No começo da segunda década do século 21, a civilização global enfrenta uma nova espécie de cataclismo. Os apocalipses a caminho tornam ridículas normas e estruturas organizacionais da política forjadas com o nascimento do estado-nação, a ascensão do capitalismo e um século 20 de guerras sem precedentes.

De fato

  1. Ainda mais significante, é o colapso do sistema climático do planeta. Com o tempo, se ameaça a continuação da existência da população humana em todo o globo. [Então a análise cascateia a partir da climatologia institucional? Como essa previsão hipotética alcança prestígio tão extraordinário?] Ainda que essa seja a mais crítica das ameaças que a humanidade enfrenta, coexiste e se entrecruza uma série de problemas menores, mas potencialmente tão desestabilizadores. O esgotamento terminal de recursos, especialmente das reservas de água e energia, oferece uma perspectiva de fome em massa, colapso dos paradigmas econômicos e novas guerras frias e quentes. [Sim, a descoberta de preços politicamente inibida tem esse efeito] A incessante crise financeira levou governos a abraçar espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial. [E, ainda assim, nenhum sinal de diminuição do estado pode ser encontrado em qualquer lugar] A automação crescente nos processos produtivos, inclusive no trabalho intelectual, evidencia a crise secular do capitalismo, em vias de se tornar incapaz de manter os atuais padrões de vida mesmo para as antigas classes médias do norte global.[Se a automação é um sintoma de crise, esta ‘crise’ coincidiu perfeitamente com a produção de capital, desde sua concepção.]

Visto pela Direita, o único desastre social abrangente em andamento é a expansão não compensada do estado, em termos tanto absolutos quanto proporcionais. (Este é um prognóstico da teoria dos sistemas, antes de ser qualquer tipo de objeção moral.) É notável que o Aceleracionismo de Esquerda não parece achar esse desenvolvimento mórbido de forma alguma, a despeito do fato de que sua linha de tendência é manifestamente insustentável e, assim, prevê resolutamente uma catástrofe. Pelo contrário, aquelas tentativas mais mínimas de se moderar a tendência em direção a uma administração política total são depreciadas como "espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial". Nesse aspecto, o manifesto ecoa de maneira fiel o processo sócio-cultural mais amplo através do qual a catástrofe se faz necessária. Ele é a voz de um desastre deliberado (supra-investido politicamente).

  1. Em contraste com essas catástrofes em contínua aceleração, a política atual está assolada pela inabilidade de gerar novas ideias e modos de organização, necessários para transformar as nossas sociedades, de modo a enfrentar e solucionar as aniquilações futuras. Enquanto a crise ganha força e velocidade, a política abranda e recua. Nessa paralisia do imaginário político, o futuro foi cancelado.

A "a crise [que] ganha força e velocidade" é a política. Qualquer futuro que não seja um que a política comanda foi cancelado por proclamação. É apenas na medida em que a realidade for politicamente solúvel, contudo, que essa proclamação pode ser decisiva. Sobre essa questão, há muito mais por vir.

  1. Desde 1979, a ideologia política globalmente hegemônica é o neoliberalismo, encontrado com algumas variantes entre os principais poderes econômicos. Apesar dos desafios profundamente estruturais que os novos problemas globais lhe apresentam, mais imediatamente as crises financeiras, fiscais e de crédito, em curso desde 2007-8, os programas neoliberais só evoluíram no sentido de aprofundá-los. A continuação do projeto neoliberal, ou neoliberalismo 2.0, começou a aplicar outra rodada de ajustes estruturais, em especial, encorajando novas e agressivas incursões do setor privado sobre o que resta das instituições e serviços socialdemocratas. Isso tudo apesar dos efeitos econômicos e sociais imediatamente negativos, e das barreiras de longo prazo impostas pelas novas crises globais.

Dentro das democracias anglófonas, 1979 marcou uma transição limitada do consenso keynesiano dominante, uma transição que nunca foi resolutamente perseguida e que foi rapidamente revertida (dentro de cerca de uma década). O princípio da politização econômica (macroeconomia) nunca foi destronado. O ‘neoliberalismo’ não é um conceito sério. Dentro da China (e, mais tarde, de maneira menos audaciosa, em outros ‘mercados emergentes’) uma transformação bem mais substancial ocorreu, mas em nenhum desses casos a descrição ‘neoliberal’ fornece iluminação — a menos que seu significado seja redutível a um repúdio dos métodos crus de uma economia de comando para a subordinação social ao estado.

  1. Que as forças do poder governamental, não-governamental e corporativo, de direita, tenham sido capazes de fazer pressão com a neoliberalização é, ao menos em parte, um resultado da paralisia contínua e da natureza ineficaz de muito do que resta da esquerda. Trinta anos de neoliberalismo tornaram a maioria dos partidos políticos de esquerda desprovida de pensamento radical, esvaziada e sem um mandato popular. Na melhor das hipóteses, eles responderam a nossa presente crise com chamados a um retorno à economia keynesiana, apesar da evidência de que as condições que possibilitaram a socialdemocracia do pós-guerra não existem mais. Não podemos absolutamente retornar por decreto ao trabalho industrial-fordista de massa. Mesmo os regimes neossocialistas da Revolução Bolivariana da América do Sul, ainda que animadores em sua habilidade de resistir aos dogmas do capitalismo contemporâneo, se mantêm lamentavelmente incapazes de apresentar uma alternativa para além do socialismo de meados do século 20. O trabalho organizado, sistematicamente enfraquecido pelas mudanças introduzidas no projeto neoliberal, está esclerosado em um nível institucional e – quando muito – é capaz apenas de mitigar ligeiramente os novos ajustes estruturais. Mas sem uma abordagem sistemática para construir uma nova economia, ou uma solidariedade estrutural para promover mudanças, por hora o trabalho permanece relativamente impotente. Os novos movimentos sociais que emergiram a partir do fim da guerra fria, experimentando um ressurgimento nos anos após 2008, foram igualmente incapazes de conceber uma nova visão ideológico-política. Ao invés disso, eles consomem uma considerável energia em processos direto-democráticos internos e numa autovalorização afetiva dissociada da eficácia estratégica, e frequentemente propõem alguma variante de um localismo neoprimitivista, como se, para fazer oposição à violência abstrata do capital globalizado, fosse suficiente a frágil e efêmera “autenticidade” do imediatismo comunal.

A direita foi destruída, quase completamente, nos anos 1930. Desde então, ela existiu apenas como uma voz simbólica de dissidência impotente, resmungando distraidamente, conforme o rolo compressor do Leviatã avançou adiante. Nem o New Deal, nem a Great Society foram revogados. Em vez disso, o vetor para a politização total foi perseguido até os redutos finais de uma sociedade civil quebrada. A Esquerda não enfrente nehuma restrição política séria que seja, mas apenas aquelas restrições ‘ontológicas’ impostas por uma realidade intratável e politicamente indiferente — exemplificada pelo ‘Problema do Cálculo Econômico’ de Mises. São essas que estão agora derrubando o Socialismo Bolivariano. O ‘Capital Globalizado’ é primariamente denominado na moeda politizada emitida pelo Banco Central dos EUA. Sua subserviência é radical e explícita.

  1. Na ausência de uma visão social, política, organizacional e econômica radicalmente nova, os poderes hegemônicos da direita continuarão capazes de impor o seu imaginário obtuso, a despeito de toda e qualquer evidência. Quando muito, a esquerda será capaz momentaneamente de resistir parcialmente a algumas das piores incursões. Mas isso será irrisório contra uma maré inexorável em última instância. Gerar uma nova hegemonia global de esquerda implica na recuperação de futuros possíveis que foram perdidos, e, de fato, na recuperação do futuro como tal.

Então está claro, por ora, que a Direita e a Esuqerda pelo menos concordam em uma coisa — os outros caras têm uma hegemonia quase total e estão levando o mundo ao desastre. Uma Esquerda cada vez mais esquerdista consegue acelerar o processo?

Explorar essa ideia requer um exame da ideia de aceleração… [a seguir]

Original.

A Grande Convergência

Todo grande filósofo tem um único pensamento, Martin Heidegger afirmou. Por mais questionável que essa afirmação possa ser, ela se aplica sem qualificação a Mou Zongsan, o maior filósofo moderno da China (e talvez também do mundo).

Embora a amplitude do conhecimento de Mou seja intimidadora, ele foi tornado possível apenas pela conformidade com um cronograma metódico de estudos ao longo da vida, organizado por uma única ideia. Seu um pensamento, que ele traduziu para a linguagem da Filosofia Ocidental como ‘intuição intelectual’ (νοῦς, intellektuelle Anschauung), integra não apenas seu próprio pensamento, mas também — ele mantém de maneira consistente — toda a tradição filosófica chinesa, da qual é a pedra angular ou fio condutor. Cada um dos três ensinamentos chineses (三教), confucionista, taoista e budista, tende a um princípio da intuição intelectual no qual ele encontra consumação enquanto “ensinamento perfeito” e através do qual ele adere, por necessidade intrínseca (ao invés de por acidente cultural e histórico extrínseco) ao cânone chinês integral.

Se qualquer conceito unitário tem a densidade de significância suficiente para definir a essência de uma cultura mundial vasta e altamente ramificada, pode-se esperar que ele resista a uma compreensão casual. Entendê-lo, como Mou demonstra meticulosamente, não é um passo preparatório para se pensar dentro da tradição, mas a tarefa cultural derradeira apresentada pela tradição, em cada uma de suas principais vertentes constitutivas. Se a cultura chinesa compartilha uma compreensão iniciatória, ela não é uma percepção prontamente concluída, mas uma aspiração integrativa, que orienta suas várias partes em direção ao mesmo destino, ou realização final. A resolução cognitiva é subordinada ao desenvolvimento prático, através do auto-cultivo.

No Ocidente, a intuição intelectual é um conceito notoriamente difícil, em tal medida que ele é amplamente descartado como um exemplo de extravagância filosófica, para além de toda possibilidade de formulação rigorosa ou uso teórico. Designando a auto-compreensão direta da inteligência, ela foi associada, desde os tempos mais primordiais, ao processo da mente divina. O Deus de Aristóteles, cujo pensamento auto-contemplativo é a aplicação da ação mais elevada ao objeto mais elevado, é a epítome da noção.

Kant determinou que a intuição intelectual jazia para além de qualquer possível entendimento humano, exilando-a estritamente para a esfera exterior das inteligências divinas. Doravante, apelos ao conceito seriam a marca de empreendimentos filosóficos românticos ou ‘místicos’ (representados primariamente pelos pensadores do ‘Idealismo Objetivo’ alemão e aqueles por eles influenciados). Conforme a racionalidade tecno-científica suplantou, de maneira incremental, a metafísica especulativa, e as divindades murcharam até hipóteses implausíveis, a significância da intuição intelectual se contraiu em direção a um ponto de fuga — seja ele excentricidade desacreditável ou curiosidade histórica. Nos termos de Mou Zongsan, a filosofia ocidental, de acordo com a sua própria fatalidade cultural, tornou-se quase perfeitamente não-chinesa.

A ‘Grande Divergência‘, familiar em discussões da história econômica mundial, portanto, teve uma contraparte rigorosamente determinável na alta cultura, o que explica porque, quando Oriente e Ocidente experimentaram seu duro encontro com a modernidade, eles estiveram unidos por um profundo estranhamento mútuo. A ideia identificada por Mou Zongsan como o princípio básico da Inteligência Oriental, através da qual — apenas — a cultura chinesa faz sentido, havia sido arquivada pelo Ocidente séculos antes, como uma esquisitice da teologia especulativa, e agora jazia enterrada no pó, mal lembrada, muito menos sequer tentativamente entendida.

Se a ideia de inteligência diretamente auto-apreensiva permanecesse como uma reserva da metafísica alemã do século XIX, dificilmente se poderia imaginar que o abismo entre o Oriente e o Ocidente — como Mou Zongsan o entende — pudesse ser mais do que tenuemente superado. Ou o Oriente permaneceria inteiramente inescrutável para todo o Ocidente, excetuando-se apenas uma franja cultural de orientalistas, devotada à busca de um exotismo radical, ou o Oriente fugiria de maneira fundamental de seu próprio caminho cultural, ocidentalizando-se até que um pensamento comensurável fosse alcançado. Ambos esses prospectos foram explicitamente lamentados no influente texto “A Manifesto for a Re-appraisal of Sinology and Reconstruction of Chinese Culture” (“Um Manifesto por uma Reavaliação da Sinologia e Reconstrução da Cultura Chinesa”, em chinês 为中国文化敬告世界人士宣言), assinado por Mou Zongsan e três outros estudantes “novos confucionistas” de Xiong Shili (Zhang Junmai, Tang Junyi, e Xu Fuguan), originalmente publicado em 1958.

Que a maré da Grande Divergência econômica e geoestratégica tenha virado nas décadas finais do último século é uma questão de fato indisputável, confirmado por um dilúvio de indicadores quantitativos de desempenho. O aspecto cultural dessa reversão é necessariamente mais complicado e contencioso. No Ocidente, não há dúvida de que muitos explicariam a transição em termos da ocidentalização chinesa, começando com a adoção do “socialismo científico” europeu no final da década de 1940, e amadurecendo através da liberalização — ou globalização econômico-tecnológica — até alcançar a lua.

Uma narrativa muito diferente, e uma em que o status emergente de Mou Zongsan poderia ser bem mais positivamente retratado — aderiria firmemente ao problema da intuição intelectual, ou inteligência auto-apreensiva. A referência mais significante seria I J Good e seu pioneiro ensaio ‘Speculations Concerning the First Ultraintelligent Machine’ (“Especulações a Respeito da Primeira Máquina Ultrainteligente”), composto no começo dos anos 1960 e primeiro publicado em 1965. Nesse artigo, Good escreve:

Seja uma máquina ultrainteligente definida como uma máquina que pode superar de longe todas as atividades intelectuais de qualquer homem, não importa o quão inteligente. Uma vez que projetar máquinas é uma dessas atividades intelectuais, uma máquina ultra-inteligente poderia projetar máquinas ainda melhores; haveria, então, inquestionavelmente, uma “explosão de inteligência”, e a inteligência seria deixada bem para trás… Assim, a primeira máquina ultrainteligente é a última invenção que o homem jamais precisa fazer, contanto que a máquina seja dócil o suficiente para nos dizer como mantê-la sob controle. É curioso que esse argumento seja feito tão raramente fora da ficção científica. Às vezes vale a pena levar a ficção científica a sério.

O horizonte tecno-científico é descrito por uma inteligência reflexiva, que apreende a si mesma de maneira prática e, ao fazê-lo, marca o propósito humano final. Isso é, bastante evidentemente, a ‘intuição intelectual’, conforme ela emerge na borda exterior da modernidade, em vez de entre as curiosidades confusas de sua ancestralidade filosófica. Se ela corresponde ao cerne cultural chinês — como Mou Zongsan obstinadamente mantém — é como um destino antecipado, em vez de um legado abandonado. O modernização avançada vai em direção a ela.

Embora, superficialmente, o conto da modernidade chinesa possa ser interpretado como a substituição de Confúcio pela robótica, uma atenção cuidadosa ao problema da intuição intelectual sugere algo bastante diferente. Auto-cultivo ou inteligência auto-aperfeiçoadora — que tipo de escolha é essa?

Exploração do Exterior

Mou Zongsan abre um portal para o interior da cultura chinesa ao dirigir sua obra de maneira inabalável às características mais radicalmente nativas, sem comprometimentos ulteriores, e, portanto, sem ser distraído por quaisquer seduções de alteridade ou exotismo que fiquem aquém de seu destino inerente — uma conexão com o Exterior absoluto. Apenas é autenticamente chinês, Mou insiste, o que se origina e culmina no Caminho (道), cultivando um envolvimento mutual não segregado entre pensamento e ser, que corresponde intimamente ao conceito filosófico ocidental de intuição intelectual. Quer ela seja abordada através das estirpes taoista, budista ou confucionista do complexo cultural chinês, a característica étnica consistente é um caminho interior até a realidade exterior, contínuo com a maneira do ‘céu’ (天), ou necessidade cósmica. A viagem interior é o caminho para fora, mas, de maneira mais importante — para a corrente confucionista, pelo menos — é o caminho para se deixar o Exterior entrar, tornando a cultura um conduíte para o cultivo do mundo.

Do ápice de intensidade filosófica de Mou Zongsan, portanto, nenhum limite verdadeiro pode ser traçado entre um projeto marcado por um ‘nacionalismo’ cultural extremo e um cosmopolitismo ontologicamente fundamental, ou entre uma restauração diligente da tradição e uma aventura para além do horizonte do tempo. O caminho para dentro se estende para fora (conforme ele se funde com os tentáculos da Exterioridade, que se estendem para dentro).

Em seu ensaio Meeting at Goose Lake (“O Encontro no Lago do Cisne”), Mou busca explicar a singularidade da tradição chinesa em termos inteligíveis para a filosofia ocidental:

…Kant atribuía apenas um significado negativo ao númeno. Aplicado à filosofia de Kant, “uma mente com dois portais” se refere ao fenômeno e ao númeno. Mas ele deve ser entendido em termos chineses, através do espírito cultural principal dos três ensinamentos orientais do confucionismo, do budismo e do taoismo. Tentar entender o “uma mente com dois portais” por meio do sistema de Kant não funciona; tem que ser através da tradição chinesa. É por isso que eu digo que, se você quiser entender o que a China vem fazendo há milhares de anos, deve mergulhar profundamente na linha principal de sua vida cultural. Imergir-se completamente é a única maneira de entender seus pontos fortes; caso contrário, a “vida cultural” é apenas uma frase vazia.

O tradicionalismo metafísico alcança a extroversão através da introversão, de modo que seu “ensinamento perfeito” é anunciado como a culminação de um paradoxo. É apenas no limite da interioridade psicológica e cultural que o portal de uma conexão profunda é aberto, permitindo encontros culturais em profundidade, em vez de uma confusão de comparações, semelhanças fáceis e contrastes. As filosofias chinesa e ocidental se encontram no cume, e através do Exterior, cuja borda cada uma descobre em seu próprio caminho distinto.

Os sinais paradoxais do ‘ensinamento perfeito’ guiam a restauração que Mou faz da tradição intelectual chinesa, conforme ela mira na — ou desvia da — raiz da aceitação e da correção. A fim de voltar o confucionismo para si mesmo, ele cultiva (descobre / inventa) uma terceira vertente de ortodoxia, sobre a qual treinar o crescimento luxuriante, mas desordenado, do lixue de Cheng-Zhu e o xinxue de Lu-Wang: uma linha que passa através das figuras comparativamente obscuras de Hu Wufeng (ou Hu Hong) e Lie Jishan (ou Lie Zongzhou). É essa terceira linha da tradição, ele afirma, que desenvolve de maneira mais completa o conteúdo intelectual essencial do confucionismo, fazendo dela a verdadeira herdeira do legado ruxue da dinastia Song do norte (Zhou Dunyi, Zhang Zai, e Cheng Mingda), que é em si a transmissora incontestada do cânone antigo. Apenas ela recusa consistentemente a separação ilusória entre inteligência e o Caminho e, assim, preserva o entendimento da conduta humana como auto-realização cósmica. Dentro da linha (corrigível) de Lu-Wang, essa compreensão tende a deslizar para um eclipse, mas na linha principal de Cheng-Zhu, o deslize se tornou um desvio assertivo — endurecido até um “erro fundamental”.

O tradicionalismo metafísico de Mou coage a história intelectual chinesa à uma correção imanente, através da qual sua interioridade própria é reforçada como uma conexão resiliente — ou fusional — com o Exterior. O que é mais seu próprio é uma imersão espiralada no Caminho, onde o segundo portal se abre.

Original.

Animação Suspensa (Parte 5)

Motores da Devastação

O pós-modernismo ainda parece legal para alguém? — Provavelmente não. Tendo vendido qualquer simulacro de alma que poderia ter tido para os instáveis deuses da moda, ele aprendeu mais sobre o reino de Cronos do que poderia ter esperado – as crianças são devoradas e se vai adiante para algo novo. O que foi aceito sem nenhuma boa razão é descartado sem nenhuma boa razão. Na ciência política, se chama democracia (mas isso é uma outra discussão).

Claramente, há algo profundamente justo sobre o desaparecimento do pós-modernismo na lata de lixo da diferença aleatória (o que está ‘in‘ tem que ser novo, de preferência sem significado). É até mesmo ‘poeticamente justo’, o que quer que isso signifique. Mas isso também destrói informação. Embora o pós-modernismo tenha certamente sido um modismo, ela também foi um zeitgeist, ou espírito dos tempos. Ele significou algo, apesar de seus melhores esforços, pelo menos enquanto sintoma. O desaparecimento da realidade que ele anunciava era, ele mesmo, real, assim como o era o domínio da simulação que a substituiu. Pelo menos em sua morte, ele pode ter importado em algo.

Considere seu maior mistagogo, Jacques Derrida, e seu outrora amplamente celebrado ‘conceito’ de differance (sim, em francês), um termo dentro de uma série de palavras mágicas que marcam as indecidíveis, incompreensíveis, inapresentáveis e, em última análise, inconcebíveis não-coisas ontológicas que suplantam os eventos reais, através de uma sucessão infinita de deslocamentos e adiamentos. Não podemos realmente dizer nada sobre isso, então temos que falar sobre ele interminavelmente, e departamentos universitários inteiros são necessários para se fazer isso. É ridículo (e então acabou). Mas é também, bastante exatamente, a cultura globalmente hegemônica do estagnacionismo macroeconômico programático keynesianizado, e isto ainda não acabou, embora sua morbidez já seja altamente conspícua. Ao contrário do pós-modernismo acadêmico passageiro, sua morte vai ser realmente interessante.

Muito antes que os derridóides tivessem começado, Keynes havia ensinado aos governos que a differance era algo que eles poderiam fazer. A procrastinação – a suspensão estratégica da realidade econômica através de uma série popularmente incompreensível de deslocamentos e adiamentos – rapidamente veio a definir a arte da política. Por que sofrer hoje o que pode ser adiado até amanhã, ou sofrer você mesmo algo que poderia ser o problema de outra pessoa? Adie! Desloque! No longo prazo estamos todos mortos. A realidade é para perdedores.

A differance como ela realmente funciona é muito mais crua do que sua reflexão na filosofia pós-moderna (e o que poderia ser filosoficamente mais cru do que um apelo à noção de ‘reflexão’?). Por exemplo, ela é pescada do abgrund ontológico e processada por mecanismos específicos de políticas públicas, sustentada por instituições concretas de maneiras que são, em uma medida considerável, economicamente mensuráveis, com limites geográficos e históricos elásticos, mas muito certamente finitos. Mais cru de tudo e derradeiramente decisivo é a circunscrição da desrealização pelo real e o retorno do apocalíptico, não mais enquanto avatar fantasmagórico da ‘metafísica da presença’ (ou falsa promessa de um evento real), mas enquanto evento real iminente, e um cujo processo de construção histórica é, em grande medida, inteligível. A differance real não ‘desconstruiu’ o apocalipse, ela o construiu. Não é nem mesmo tão difícil ver como.

No EconLog, David Henderson postou suas notas sobre a palestra de John H. Cochrane na conferência sobre ‘Restaurar o Crescimento Econômico Robusto na América’ da Hoover Institution da Universidade de Standford, em 3 de dezembro. Não há nenhuma menção à differance, mas não precisa haver.

Por quase 100 anos, tentamos parar as corridas aos bancos com garantias governamentais — depósito de segurança, um generoso emprestador de último recurso e resgates. Esse caminho leva a um enorme perigo moral. Dar a um banqueiro uma garantia de resgate é como dar a um adolescente as chaves do carro e uma garrafa de uísque. Então, apontamos reguladores que deveriam impedir os bancos de assumirem riscos, em uma corrida armamentística desesperada contra MBAs, advogados e lobistas espertos que tentam contornar a regulamentação e embora permitamos — não, encorajemos e subsidiemos — a expansão de ativos passíveis de corridas aos bancos.

No Dodd-Frank, os EUA simplesmente duplicou nossas apostas nesse regime. ….

Os resgates adiam um evento econômico doloroso (adiamento) ao passo que transferem a responsabilidade financeira (deslocamento). O risco é restaurado à virtualidade, enquanto o desastre é transformado de volta em uma ameaça, mas não é a mesma ameaça. Por qualquer método remotamente são de contabilidade, agora está pior. Uma deterioração virtual significante substitui um desconforto real. Esse é o custo da desrealização.

Como as coisas ficam piores, exatamente? — De muitas maneiras. Comece com o ‘perigo moral’, que é uma maneira educada de dizer ‘insanidade’. Ações são dissociadas de suas consequências, removendo o desincentivo à loucura. O resultado, de maneira absolutamente previsível, é mais loucura. Na verdade, qualquer coisa que sistematicamente aumente o perigo moral simplesmente está fabricando loucura. É jogar LSD no reservatório de água, embora provavelmente pior. Então os resgates nos deixam insanos e destroem a civilização (ninguém realmente contesta isso, embora possam tentar evitar o tópico).

Ah, mas tem mais! — Muito mais, porque todos esses deslocamentos não apenas movimentam as coisas de lugar, eles as movem para cima. O risco é centralizado, concentrado, sistematizado, politicado – e isso no (inteiramente irrealista) melhor caso, quando ele não é também expandido e degradado pela corrupção e pela ineficiência de instituições públicas com incentivos fracos ou cínicos. Essa é a economia da cascata – na verdade, uma enchente – para cima, na qual tudo de ruim que jamais acontece com qualquer um é despojado de qualquer sanidade residual (ou estimativa realista de consequências), agrupado, recodificado, complicado por regulamentações compensatórias e deslocado para altitudes cada vez mais etéreas de irresponsabilidade democrática populista, onde a única coisa que importa é o que as pessoas querem ouvir e que realmente jamais vai ser verdade.

“Faça bastante besteira e você provavelmente sofre ou morre” – essa é a verdade. É uma mensagem que não se traduz na linguagem da política keynesiana de empurrar com a barriga, que é o pós-modernismo popular. O mais próximo que chegamos, conforme as mandíbulas começam a se fechar sobre a a corrente do chapéu de resgate, é “Vamos precisar de um barco maior”. Depois de inúmeros episódios disso, estamos todos amontados no Titanic, e as coisas estão mais ou menos parecendo OK. Pelo menos a banda ainda está tocando…

Quando abstraído de sua esquálida psicose, o padrão é matematicamente bastante preciso. É chamado de sistema de gamarra, melhor conhecido dos americanos como ‘o dobro ou nada’ (e para os britânicos como ‘o dobro ou sai’). Cochrane já tocou nele (“os EUA simplesmente duplicou nossas apostas”). Aposte no vermelho, e vem preto. Sem problema, simplesmente duplique a aposta e repita. Você não pode perder. (Se você gosta desta lógica, Paul Krugman tem uma recuperação econômica para lhe vender.)

O que aparece como desastre adiado é, na realidade virtual, um desastre expandido. A entrada da Wikipédia sobre o sistema de gamarra prestativamente o conecta à Distribuição de Taleb, também conhecida como catar moedas na frente de um rolo compressor. A persistência de pequenos ganhos faz esse modelo de negócio parecer uma coisa certa — até que não.

Nassim Nicholas Taleb e Mark Blyth expandem sobre essa ideia no Foreign Affairs, com aplicação a vários aspectos da atual (ou iminente) crise. Perguntando por quê “a surpresa [é] a condição permanente da elite política e econômica dos E.U.A.”, eles traçam o problema à “supressão artificial da volatilidade — os altos e baixos da vida — em nome da estabilidade”.

Sistema complexos que suprimiram artificialmente a volatilidade tendem a se tornar extremamente frágeis, ao mesmo tempo em que não exibem nenhum risco visível. Na verdade, eles tendem a ser calmos demais e a exibirem uma variabilidade mínima, enquanto os riscos se acumulam sob a superfície. Embora a intenção declarada dos líderes políticos e dos formuladores de políticas econômicas seja estabilizar o sistema, inibindo flutuações, o resultado tende a ser o oposto. Esses sistemas artificialmente restritos se tornam propensos a “Cisnes Negros” – isto é, eles se tornam extremamente vulneráveis a eventos de larga escala que estão longe da norma estatística e que são, em grande parte, imprevisíveis para um dado conjunto de observadores.

Discutindo este artigo no PJMedia, Richard Fernandez comenta e afia sua conclusão:

Parte do problema é a consequência do próprio amortecimento [das elites]. Ao tentar administrar centralmente os sistemas de acordo com algum esquema pré-determinado, elas na verdade armazenam volatilidade em vez de dispersá-la. Ao empurrar com a barriga, elas eventualmente se condenam a dar de cara com uma pilha enorme de coisas quando a barriga acaba. …Mas as elites não podem admitir surpresas; tampouco elas podem admitir que coisas ruins comecem sob sua guarda. Portanto, elas continuam varrendo coisas para debaixo do tapete até que, como em alguns filmes de horror, elas geram um zumbi. Para tornar os sistemas robustos, diz Taleb, você tem que admitir que você pode cometer erros e pagar o preço. Você vai ter que pagar no fim das contas de qualquer jeito.

Não estamos no pós-modernismo mais, Totó. Estamos mais próximos disso:

O movimento ondulatório que afeta o sistema econômico, a recorrência de períodos de explosão que são seguidos por períodos de depressão, é o resultado inevitável das tentativas, repetidas de novo e de novo, de se abaixar a taxa bruta de juros do mercado por meio de expansão de crédito. Não há meio de se evitar o colapso final de uma explosão provocada por uma expensão de crédito. A alternativa é apenas se a crise deveria vir mais cedo, como resultado de um abandono voluntário de mais expansão de crédito, ou mais tarde, como uma catástrofe final e total do sistema monetário envolvido. (Ludwig von Mises, Human Action)

Ou mesmo disso:

Grande é a Falência; o grande insondável golfo no qual todas as Falsidades, públicas e privadas, de fato afundam, desaparecendo; à qual, desde a primeira origem delas, elas estavam todas fadadas. Pois a Natureza é verdadeira e não uma mentira. Nenhuma mentira você pode falar ou agir que não virá, depois uma circulação maior ou menor, como uma Fatura extraída da Realidade da Natureza, e que não será lá apresentada para pagamento, –com a resposta, Sem efeitos. Pena apenas que frequentemente tenha uma circulação tão longa: que o forjador original fosse tão raramente aquele que suportasse a dor final dela! Mentiras, e o fardo do mal que elas trazem, são passadas adiante; transferidas de costas a costas e de classe para classe; e, assim, aterrizam, finalmente, na mais burra baixa classe, que com pá e enxada, com coração ferido e carteira vazia, diariamente entram em contato com a realidade e não podem mais passar o engodo adiante.

Observe, não obstante, como, por uma justa lei compensadora, se a mentira com seu fardo (nesse confuso redemoinho da Sociedade) afunda e é transmitida cada vez mais para baixo, então, em troca, a angústia dela se eleva cada vez mais. Através da qual, depois do longo anseio e semi-inanição daqueles Vinte Milhões, um Duque de Coigny e sua Majestade viessem também a ter sua ‘desavença real’. Tal é a lei da justa Natureza; trazendo, embora em longos intervalos, e fosse apenas pela Falência, as questões de volta novamente à marca.

Mas com uma Bolsa de Fortunato em seu bolso, através de qual período de tempo quase toda Falsidade não poderia durar! Sua Sociedade, seu Lar, Arranjo prático ou espiritual, é inverdadeiro, injusto, ofensivo ao olho de Deus e do homem. Não obstante, sua lareira está cálida, sua despensa bem reabastecida: os inúmeros Suíços do Céu, com um tipo de lealdade Natural, se reúnem ao seu redor; provarão, por panfletagem, mosquetaria, que é uma verdade; ou, se não uma Verdade sem mistura (sobrenatural, impossível), então melhor, uma saudavelmente temperada (como o vento é para o cordeiro tosquiado), e funciona bem. Perspectiva alterada, contudo, quando bolsa e despensa ficam vazias! Se seu Arranjo era tão verdadeiro, tão de acordo com as maneiras da Natureza, então como, em nome do milagre, a Natureza, com sua recompensa infinita, veio a deixá-lo faminto aqui? Para todos os homens, para todas as mulheres e todas as crianças, agora é indubitável que o seu Arranjo era falso. Honra à Falência; sempre direita na grande escala, embora no detalhe seja tão cruel! Sob todas as Falsidades ela trabalha, incansavelmente minerando. Nenhuma Falsidade, mesmo que ela se elevasse ao céu e cobrisse o mundo, ainda assim a Falência, um dia, a varrerá para baixo e nos livrará dela. (Thomas Carlyle, via Mencius Moldbug, mas citado em todo lugar recentemente)

Lá vem ela.

Original.