Saudações de Ano Novo

Há muita ruína em um hospício global

2012 é um ano que chegou pré-marcado. Foi a última oportunidade de terminar o mundo no prazo. Até o final de dezembro, a janela para a profundidade apocalíptica tinha se fechado, e estávamos de volta aos riscos da catástrofe aleatória e sem sentido.

Talvez um consenso profético tivesse surgido no outono, mas na época a perspectiva estava nublada, na melhor das hipóteses. Navegar pelos sites mais excitáveis ​​da Web em 2012 não trazia nada de muito claro ao foco. Uma vez que a discussão avança além do sólido fundamento da longa contagem maia e da Quarta Era da Criação (que durou de 11 de agosto de 3114 A.C. até 21 de dezembro de 2012), as coisas se transformavam em caos com uma rapidez desconcertante.

Se a Terra está destinada a mergulhar em um buraco negro é uma questão de controvérsia (pelo menos limitada), mas o fato de que quase todas as espécies imagináveis ​​de possíveis calamidades ou transformações estavam sendo sugadas para o vórtice profético de 2012 era facilmente confirmado por qualquer um com um navegador web. Até mesmo o gênero básico permanece incerto, com expectativas variando descontroladamente de colisões celestiais, explosões solares e super-vulcões, a despertares espirituais, harmonizações cósmicas e incontáveis ​​variedades de realização messiânica. De acordo com os sóbrio videntes no 2012apocalypse.net: “Os maias, hopis, egípcios, cabalistas, essênios, anciões qero do Peru, navajos, cherokees, apaches, a confederação iroquesa, a tribo de Dogon e os aborígines acreditam em um fim para este Grande Ciclo Apocalíptico de 2012″. Eles perderam Madre Shipton, Nostradamus, Terence McKenna, Kalki Bagavan e Web Bot, mas de alguma forma o pessoal da Cracked permanece inconvicto.

Como um aparte, a melhor linha que o UF já viu entre os negadores (desculpe, não pude resistir a isso), é esse espécime deliciosamente autodestrutivo de Ian O’Neill: “Ninguém jamais previu o futuro, e isso não está prestes a mudar”.

Em uma paisagem cultural cada vez mais desagregada, não é fácil separar a história secular e a opinião sensata do festival orgiasticamente reunido do Fim dos Tempos, e – por incrível que pareça – o processo mundial não está fazendo muito para colaborar. Os posts ritualísticos de previsões-para-o-ano-seguinte em sites de política e economia são praticamente indistinguíveis das profecias de o-Armagedon-2012-está-aqui, embora o lado sano do prognóstico seja caracterizado por uma maior uniformidade de desolação implacável: colapso econômico abrangente, agravado por esclerose administrativa e acompanhado por um crescente conflito internacional / desintegração social, em meio aos gritos enfurecidos das civilizações fragmentadas (e um ‘Feliz Ano Novo’ para você também).

O goldbug Darryl Robert Schoon demonstra alguma restrição profissional, mas ele nem sequer tenta impedir que a crise financeira iminente se espalhe até imensidades cósmicas:

O final do calendário maia em 2012 é tão mal entendido quanto a interação entre crédito e dívida, e oferta e demanda; mas o colapso coincidente do paradigma econômico atual e um indicador misterioso de mudança não devem ser descartados. …A atual grande onda [de aumento de preços] começou em 1896. O fato que ela poderia chegar à crista e quebrar em 2012 poderia ser uma coincidência. Ou talvez não.

É provável que a ciência, a tecnologia, a cultura criativa e as empresas gerem algumas surpresas, mas o horror degenerativo da economia política keynesiana hegemônica do mundo – combinada com a crescente e irresponsável democracia neoconservadora – sincronizou-se sinistramente com as visões mais sombrias dos cultos de 2012. Um modo patentemente disfuncional de organização socioeconômica, baseado em dinheiro falso, idiocracia beligerante e golpes de pilhagem eleitorais, está se impondo agressivamente – com uma quase incompreensível ausência de auto-reflexão – sobre um mundo que já tem muitas patologias nativas com as quais lidar. A Nova Ordem Mundial resultante, inteiramente previsível, é um asilo lunático, e mesmo seus componentes mais funcionais (como Singapura e as RAEs chinesas de Hong Kong e Macau) estão ligados ao delírio coletivo. Quando o euro, o iene japonês e o dólar americano entrarem em colapso (provavelmente nessa ordem), o tsunami financeiro e geopolítico inundará a todos. Se isso não aconteceu em 2012, é porque a história não tinha nenhum senso de clímax narrativo que fosse.

No lado ‘positivo’ – para todos os que empurram com a barriga por aí – as palavras de Adam Smith que definiram 2011 continuam a ressoar. “Jovem, há muita ruína em uma nação” e ainda mais em um sistema global. Talvez a desintegração lenta do neofascismo da social-democracia keynesiana hegemônica rodopie para além do horizonte do calendário maia, o que realmente nos daria algo para esperar…

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Implosão

Poderíamos estar à beira de uma implosão catastrófica – mas isso é OK

A ficção científica tem tendido à extroversão. Na América especialmente, onde ela encontrou um lar natural entre um povo incomumente orientado ao futuro, o objeto icônico da FC foi indisputavelmente a nave espacial, que parte dos confins da Terra para fronteiras sem entraves. O futuro era medido pelo enfraquecimento do fosso de gravidade terrestre.

O cyberpunk, chegando na metade dos anos 1980, causou um choque cultural. O Neuromancer de William Gibson ainda incluía alguma atividade espacial (na órbita da Terra) – e até mesmo uma comunicação de Alpha Centauri – mas suas jornadas agora se curvavam para dentro do espaço interior de sistemas computacionais, projetadas através dos tratos desprovidos de estrelas do Ciberespaço. A comunicação interestelar contornava espécies biológicas e ocorria entre inteligências artificiais planetárias. Os Estados Unidos da América pareciam ter desaparecido.

Espaço e tempo haviam colapsado na ‘matriz do ciberespaço’ e no futuro próximo. Mesmo as distâncias abstratas do utopismo social haviam sido incineradas nos núcleos de processamento de micro-eletrônicos. Julgado pelos critérios da ficção científica mainstream, tudo em que o cyberpunk tocava estava passando raspando e ficando ainda mais perto. O futuro havia se tornado iminente e colado.

As cidades de Gibson não haviam acompanhado sua visão mais ampla – ou estreita. Os espaços urbanos de sua Costa Leste da América do Norte ainda eram descritos como ‘The Sprawl’, como se encalhados em um estado de extensão que rapidamente ficava obsoleto. As forças esmagadoras da compressão tecnológica haviam pulado para além da geografia social, sugando toda a animação histórica das cascas decadentes do ‘espaço de carne’. Construções eram relíquias, contornadas pela vanguarda da mudança.

(As referências de Gibson a cidades asiáticas, contudo, são bem mais intensas, inspiradas por inovações em compressão urbana tais como a Kowloon Walled City, e os ‘hotéis caixão’ japoneses. Além disso, os urbanistas desapontados pela primeira onda do cyberpunk têm toda razão para prosseguir até Spook Country, onde a influência da tecnologia de GPS sobre a reanimação do espaço urbano nutre especulações altamente férteis.)

Cruzeiros estelares e civilizações alienígenas pertencem à mesma constelação da ficção científica, reunidas pela suposição do expansionismo. Assim como, no âmbito da ficção, esse futuro de ‘ópera espacial’ colapsou no cyberpunk, na ciência (mais ou menos) mainstream – representada pelos programas do SETI – ele pereceu no deserto do Paradoxo de Fermi. (OK, é verdade, o Urbano Futuro tem uma obsessão bizarramente nerd com este tópico.)

A solução de John M. Smart para o Paradoxo de Fermi é integral às suas mais amplas ‘Especulações sobre a Cultura Cósmica’ e emerge naturalmente do desenvolvimento compressivo. Inteligências avançadas não se expandem espaço adentro, colonizando vastos tratos galáticos ou dispersando sondas-robô auto-replicantes em um programa de exploração. Em vez disso, elas implodem, em um processo de ‘transcensão’ – provendo seus próprios recursos primariamente através dos ganhos hiper-exponenciais de eficiência da miniaturização extrema (através da engenharia de escala micro, nano e até femto, de componentes funcionais subatômicos). Tais culturas ou civilizações, nucleadas por sobre uma inteligência tecnológica auto-aumentadora, emigram do universo extensivo na direção da intensidade abismal, esmagando a si mesmas até densidades de buracos negros, na borda da possibilidade física. Através da transcensão, elas se retiram da comunicação extensiva (embora, talvez, deixem ‘fósseis radiofônicos’ para trás, antes que eles parem de piscar, indo para o silêncio da fuga cósmica).

Se as especulações de Smart capturam os contornos básicos de um sistema de desenvolvimento atraído pela densidade, então se deveria esperar que as cidades seguissem um caminho comparável, caracterizado por uma fuga para dentro da interioridade, uma viagem interior, involução ou implosão. Aproximando-se da singularidade em uma trajetória acelerante, cada cidade se torna cada vez mais voltada para dentro, conforme se torna presa da irresistível atração de sua própria intensificação hiperbólica, ao passo que o mundo exterior desvanece em estática irrelevante. Coisas desaparecem em cidades, em um caminho de partida do mundo. Sua destinação não pode ser descrita dentro das dimensões do universo conhecido – e, com efeito, tediosamente familiar demais. Apenas no interior exploratório profundo é que a inovação ainda está ocorrendo, mas ali ela tem lugar a uma taxa infernal e que derrete o tempo.

O que um desenvolvimento urbano de tipo Smart poderia sugerir?

(a) Devo Previsibilidade. Se o desenvolvimento urbano não é nem aleatoriamente gerado por processos internos, nem arbitrariamente determinado por decisões externas, mas sim guiado predominantemente por um atrator de desenvolvimento (definido primariamente pela intensificação), se segue que o futuro das cidades é, pelo menos parcialmente, autônomo em relação às influências política nacional, econômica global e arquitetônica cultural que são frequentemente invocadas como fundamentalmente explicativas. O urbanismo pode ser facilitado ou frustrado, mas suas principais ‘metas’ e caminhos práticos de desenvolvimento são, em cada caso individual, interna e automaticamente gerados. Quando uma cidade ‘funciona’, não é porque ela se conforma a um ideal externo e discutível, mas sim porque ela encontrou uma rota para a intensificação cumulativa que projeta fortemente seu ‘próprio’ caráter urbano, singular e intrínseco. O que uma cidade quer é se torna ela mesma, mas mais – levando a si mesma mais adiante e mais rápido. Apenas isto é o florescimento urbano, e entendê-lo é a chave que destranca a forma do futuro de qualquer cidade.

(b) Metropolitanismo. O nacionalismo metodológico tem sido sistematicamente sobre-enfatizado nas ciência sociais (e não apenas às custas do individualismo metodológico). Uma variedade de pensadores urbanos influentes, de Jane Jacobs a Peter Hill, buscaram corrigir este viés, ao focar na significância e parcial autonomia de economias urbanas, culturas urbanas e da política municipal para a prosperidade, a civilização e as eras douradas. Eles estavam certos em fazê-lo. O crescimento das cidades é o fenômeno sócio-histórico básico.

(c) Introversão Cultural. John Smart argumenta que uma inteligência que sofre um desenvolvimento relativista avançado acha a paisagem externa cada vez menos informativa e absorvente. A busca por estímulo cognitivo a atrai para dentro. Conforme as culturas urbanas evoluem, através de uma complexidade social acelerante, pode-se esperar que elas manifestem exatamente este padrão. Seus processos internos de implosão desembestada de inteligência se tornam cada vez mais emocionantes, cativantes, surpreendentes, produtivos e educacionais, ao passo que a paisagem cultural mais ampla fica para trás no tédio previsível, de relevância meramente etnográfica e histórica. A singularidade cultural se torna cada vez mais urbana-futural (em vez de etno-histórica), para o previsível descontentamento dos estados-nação tradicionais. Como o Ciberespaço Terrestre de Gibson, que encontra outro de seu tipo em uma órbita ao redor de Alpha Centauri, a conectividade cosmopolita é criada através da viagem interior, ao invés da extensão expansiva.

(d) Ressonância de Escala. No nível mais abstrato, a relação entre urbanismo e microeletrônicos é escalar (fractal). Os computadores por vir estão mais próximos de cidades em miniatura do que de cérebros artificiais, dominados por problemas de tráfego (congestionamento), migração / comunicação, questões de zoneamento (uso misto), o potencial de engenharia de novos materiais, questões de dimensionalidade (soluções 3D para restrições de densidade), dissipação de entropia ou calor / desperdício (reciclagem / computação reversível) e controle de doenças (novos vírus). Uma vez que as cidades, assim como computadores, exibem um desenvolvimento (filogenético acelerante) dentro de um tempo histórico observável, elas fornecem um modelo realista de melhoria para máquinas compactas de processamento de informação, sedimentado como uma série de soluções práticas para o problema da intensificação implacável. A emulação do cérebro poderia ser considerada uma meta computacional importante, mas ela é quase inútil enquanto modelo de desenvolvimento. Tecnologias microeletrônicas inteligentes contribuem para o processo em aberto da solução de problemas urbanos, mas elas também a recapitulam em um novo nível.

(e) Matriz Urbana. O desenvolvimento urbano exibe a real embriogênese da inteligência artificial? Em vez da Internet global, da Skynet militar, ou de um programa de IA com origem em um laboratório, seria o caminho da cidade, embasado em intensificação acelerante (compressão STEM), que melhor fornece as condições para a computação sobre-humana emergente? Talvez a principal razão para pensar assim seja que o problema da cidade – administração e acentuação de densidade – já a compromete à engenharia computacional, antes de qualquer pesquisa deliberadamente guiada. A cidade, por sua própria natureza, se comprime, ou intensifica, em direção ao computrônio. Quando a primeira IA falar, poderia ser em nome da cidade que ela identifica como seu corpo, embora mesmo isso fosse pouco mais do que um ‘fóssil radiofônico’ – um sinal anunciando a beira do silêncio – conforme o caminho da implosão se aprofunda e desaparece dentro do interior alienígena.

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Introduzindo o Urbano Futuro

O que os leitores podem esperar deste blog? Uma vez que ele promete estar orientado para o futuro, faz sentido começar com algumas previsões preliminares sobre si mesmo.

De maneira mais básica e previsível, o Urbano Futuro foi programado por seu nome. Seu tópico principal é a intersecção das cidades com o futuro. Ele visa fomentar discussões sobre cidades enquanto motores do futuro, e sobre o futurismo enquanto uma influência dinâmica sobre a forma, o caráter e o desenvolvimento das cidades. De maneira mais particular, ele escava em busca de pistas e flutua especulações sobre a Shanghai de amanhã. Ele antecipa um futuro urbano global no qual Shanghai aparece de maneira proeminente, e uma Shanghai vindoura que expressa, de maneira tanto firme quanto sutil, as forças transformativas do futurismo global. Isso já é nos anteciparmos bastante, que é o que tipicamente faremos.

Para alguns leitores, ‘futurismo’ invocará o movimento cultural de vanguarda do início do século XX, cristalizado no Manifesto Futurista de Filippo Tommaso Marinetti de 1909. O futurismo, eles poderiam razoavelmente objetar, foi definido e até mesmo fechado pela passagem do tempo. Como o modernismo, ele agora pertence ao arquivo da história concluída. O que existe hoje, e nos dias por vir, só pode ser um neo-futurismo (e um neo-modernismo): não menos retrospectivo do que prospectivo, uma repetição tanto quanto uma especulação. Tais considerações, correções e lembranças, com todas suas perplexidades concomitantes, são extremamente bem-vindas. O tempo de abordá-las logo chegará.

Uma vez que Shanghai está entre-cruzada por índices fraturados no tempo de ambiguidade histórico-futurista, do paleo-modernismo ao neo-tradicionalismo, o blog terá toda oportunidade de discutir tais coisas. Por ora, uma referência casual aos estranhamente geminados ícones arquitetônicos de tais emaranhados temporais, o Park Hotel e a Jinmao Tower – cada um deles uma obra-prima retro-futurista ou cibergótica – tem que servir de substituta, enquanto mnemônico e nota promissória.

Também, em tempo, os obstáculos à previsão precisam ser abordados de maneira meticulosa: tópicos tais como o catastrofismo histórico, a hipótese dos mercados eficientes (EMH), a crítica do historicismo de Karl Popper, a incerteza knightiana (ou as “incógnitas desconhecidas” rumsfeldianas) e a teoria do Cisne Negro de Nassim Nicholas Taleb. A fim de nos instalarmos e começarmos a funcionar, todos esses pensamentos complicadores foram temporariamente colocados entre parênteses, como bestas astutas e ferozes, mas não permanecerão enjaulados para sempre, ou mesmo por muito tempo.

Uma vez que há algo irresistivelmente distorcido sobre se começar com o futuro, a primeira enxurrada de posts irá direto para o amanhã, com os tópicos se tornando cada vez mais focados em cidades e em Shanghai conforme as coisas progredirem. Uma série inicial de posts interconectados delineará o pensamento futurista em termos amplos, incluindo esboços preliminares dos principais pontos de parada na [l=]linha principal da tradição tecno-científica que o suporta.

Em última análise, nada relevante para o futuro de Shanghai é alienígena ao propósito deste blog. Ele se embasará na história, geografia e cultura de Shanghai, em filosofias tradicionais chinesas do tempo (Yijing e Taoísmo), em teorias sobre a modernidade e sobre o urbanismo, em biologia evolutiva, ficção científica, discussões tecno-científicas sobre sistemas complexos e emergência, na economia da ordem espontâneaondas longas, tendências tecnológicas, pesquisa e desenvolvimentos da robótica, em modelos de mudança acelerativa e antecipações da Singularidade Tecnológica. As coisas deveriam ficar continuamente mais esquisitas.

Amanhã, começa.

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