Leitura Rápida

No Dark Alien Social Ecologies, Craig Hickman embarca em uma recapitulação do Aceleracionismo em múltiplas partes. Sua decisão de enquadrá-lo como ‘Prometeico’ gera uma abundância de material para discussão, mesmo antes de se deixar o título. Com a primeira parte pairando à beira do Manifesto por uma Política Aceleracionista de Williams e Srnicek, ela está pronta para fornecer a visão geral mais abrangente da corrente até o momento. (Vide a contribuição de Hickman aos seus próprios comentários para um senso da estrutura geral).

Um tema emergente — a partir do texto de Hickman e de seu halo — é a significância irredutível do Aceleracionismo enquanto sintoma, o que seria dizer: enquanto registro do estímulo capitalista. Questões relacionadas ao seu potencial de resistência cultural se retorcem, quase imediatamente, em estimativas da provocação teconômica. A crítica arquetípica do aceleracionismo toma a forma de: O Capital não tem nenhum direito de nos excitar. Há um escorregão para dentro de uma controvérsia ético-estética altamente carregada (como Hickman observa). Ele não deveria ser fascinante.

HK3

(Em lugar nenhum no Reino Unido)

"… o capitalismo é qualquer coisa menos excitante. Ele é mundano, chato" diz Edmund Berger, nos comentários. Por mais vazia que uma afirmação dessas possa soar, ela transmite uma tese complexa, de pertinência, insistência e significância notáveis e de importância prática bem maior do que qualquer objeção meramente técnica poderia ter. Será necessário dizer muito mais sobre ela, em algum ponto futuro. Por ora, a resposta mais premente é superficialmente trivial: Quanta tristeza geo-histórica se encontra refletida em tal posição?

ADICIONADO: Accelerationism: The New Prometheans por Craig Hickman Parte Dois: Seção Um Parte Dois: Seção Dois Cyberlude Red Stack Attack! Automate Architecture

Também:
Accelerationism: Ray Brassier as Promethean Philosopher
no boredom – Arran James on Mark Fisher and Accelerationism beyond Boredom
Accelerationism, Boredom and the Trauma of Futurity
Nick Land and Teleoplexy – The Schizoanalysis of Acceleration
Science Fiction, Technology, and Accelerationist Politics: Final Thoughts on an Williams and Srnicek’s Manifesto


Original.

Usurpação do Replicador

O gráfico da evolução do desempenho computacional, feito em 1998 por Hans Moravec, surgiu na Twittersfera (via Hillary Haley). Ele tem vinte e dois anos agora, mas a estória que ele conta não mudou muito (o que significa que o clímax está bastante mais próximo).

Moravec-graph

(Clique para ampliar)

O que aconteceu com a curva? De acordo com este relato, ela se nivelou de maneira significativa desde 2002, mas nunca foi fácil se fixar exatamente o que quantificar. MIPS são geralmente ridicularizadas enquanto métrica, em parte devido à simples obsolescência quantitativa (que excede três ordens de magnitude desde 1998).

O determinismo do hardware de Moravec, brutalmente quantitativo, permanece sendo uma ferramente preditiva crível, contudo, especialmente se espera-se que efeitos emergentes não planejados dominem (soterrando a engenharia de software). Uma vez que a história tenha vomitado capacidade cerebral sintética o suficiente, as coisas podem começar a se mudar para lá.


Original.

China, Cripto-Moedas e a Ordem Mundial

Países emissores de moedas de reserva são constantemente confrontados com o dilema entre alcançar suas metas domésticas de política monetária e atender à demanda por moedas de reserva dos outros países. […] O Dilema de Triffin, isto é, os países emissores de moedas de reserva não conseguirem manter o valor das moedas de reserva enquanto fornecem liquidez para o mundo, ainda existe. —Zhou Xiaochaun

Chinese woman holding a gold bar

O que as tecnologias da energia à vapor foram para a época de dominância global britânica, e os desenvolvimentos de mão dupla da eletricidade e do automóvel para a subsequente Era Americana, a eletrônica digital — e, mais especificamente, a Internet — são para a "ascensão da China" e para o mundo remodelado que ela epitoma. É apenas de se esperar, portanto, que a intersecção entre a Nova China da Abertura-e-Reforma pós-1979 e a Internet possibilitada pela World Wide Web pós-1990 seja um objeto de particular fascínio internacional e de preocupações práticas.

Desde a aurora da época moderna, a hegemonia geopolítica tem sido associada cada vez mais intensamente à liderança tecno-econômica, o que, por sua vez, tem se refletido no status de reserva internacional de uma seleta moeda nacional. Uma ordem monetária mundial cada vez mais explicitamente formalizada tem convertido intuições convincentes, mas obscuras, de prestígio nacional relativo em uma sistema inequívoco de relações financeiras, no qual uma posição de supramacia é claramente estabelecida, com um papel definido e singular.

As suspeitas fomentadas pela liderança não são menos inevitáveis do que a liderança em si. Por razões históricas facilmente inteligíveis, o establishment político francês tem sido um crítico especialmente vociferante do status de reserva internacional e de seu "privilégio exorbitante"[1] de senhoragem — o ‘direito’ espontâneo de emitir papéis promissórios em troca de bens e serviços reais, sem qualquer prospecto definido de resgate. Pode haver pouca dúvida de que tal crítica articula preocupações amplamente mantidas para além do mundo anglófono, e sua substância merece uma exame sério.

Chinese woman holding a gold bar 2

Dos blocos construtivos indispensávels para o futuro próximo, a China e a Internet têm uma proeminência especial. Há inúmeros lugares em que a China encontra a Web, começando com o crescimento expansivo, multidimensional e explosivo da Internet chinesa em si. O Bitcoin é um fio recente e ainda relativamente esguio na tapeçaria da mudança global, mas ao se puxar ele, algumas características centrais do mundo emergente podem ser colocadas em foco.

Em meio às características que o yuan chinês e o bitcoin compartilham é que nenhum deles é o dólar dos EUA. Especificamente, ambos são alternativas limitadas e, contudo, práticas, ao dólar, pelo menos no nível de tomada de decisão microeconômica. Quando se levantam questões sobre a durabilidade do papel internacional do dólar, pode-se prever com confiança que um ou ambos desses desafiantes será invocado. O dólar morrer por gelo ou fogo, hoje, é ele sucumbir a uma substituição geopolítica (pelo yuan chinês) ou a uma obsolescência tecno-financeira (por parte de alguma cripto-moeda descentralizada, embasada na Internet).

O status internacional do dólar dos EUA concentra duas tendência multi-seculares. Primeiramente, ele representa a peculiaridade etno-geográfica da modernidade, que – até o final do século XX, pelo menos – tendeu a inclinar o poder global não apenas na direção do Oeste ou Ocidente, mas mais especificamente em direção às nações do Atlântico Anglófono, reúnidas, em última análise, sob a liderança americana. Desde o declínio do dólar espanhol, que monetizou o tesouro do Novo Mundo como a primeira moeda global, as finanças internacionais têm sido principalmente denominadas na moeda de uma nação falante do inglês. Não coincidentemente, elas têm, assim, sido fortemente associada a um conjunto de temas culturais específicos, que incluem o cristianismo protestante (filo-semítico), a mão invisível, o livre comércio e a democracia liberal. A institucionalização das finanças mundiais tem estado intimamente conectada com a promoção de uma orientação cultural distinta – e, para muitos, uma que é distintamente questionável.

Em segundo lugar, a formalização de uma ordem monetária global tem sido acompanhada por uma politização incremental do dinheiro, ou seja, pela consolidação de uma política monetária como uma função central do governo. Com o estabelecimento dos bancos centrais e a desmetalização da moeda, a escassez intrínseca é substituída por uma "promessa de pagar" institucional, o que converte o dinheiro de um ativo tangível para uma responsabilidade contratual. A confiança pública no valor do dinheiro é convertida em uma responsabilidade governamental. Torna-se política, e – no contexto de uma moeda de reserva mundial – geopolítica.

Em combinação, essas tendências são inevitavemente provocativas, uma vez que concentram o destino financeiro do mundo em mãos seletas e identificavelmente não-representativas. Por trás da neutralidade estudada das instituições de Bretton Woods (o FMI e o Banco Mundial) está o dólar dos EUA como o símbolo de excepcionalismo americano e da pecualiaridade concreta da ordem mundial moderna.

Embora seja natural — e até mesmo inevitável — que o comando político da moeda de reserva internacional seja entendido como a pedra angular moderna da hegemonia geopolítica, esse não é um privilégio que se pode separar de penosas responsabilidades, ou de profundas ambiguidades. Estas foram claramente reconhecidas desde os anos 1960, quando o economista belga-americano Robert Triffin formulou o paradoxo ou dilema que leva seu nome: que se governos internacionais forem acumular reservas na moeda de uma nação selecionada, essa nação deve necessariamente ser uma exportadora líquida de dinheiro — o que só pode ser alcançado ao se operar com uma balança comercial negativa. Uma nação que emita uma moeda de reserva internacional assume a responsabilidade pela liquidez monetária global. Isso a obriga a consumir mais do que produz, a fim de que a diferença seja disponibilizada como dinheiro mundial. Embora esse requisito seja mera senhoriagem, visto pelo outro lado, a restrição que ele impõe às opções da política econômica doméstica são tão estritas que equivalem quase a um destino.

Chinese woman holding a gold bar 3

Essas restrições são transformadas em um dilema destrutivo pelo fato de que a estrutura política obrigatória exigida para suprir o mundo de liquidez tende a destruir a confiança na moeda ao mesmo tempo, minando, portanto, o seu valor. Déficits crônicos na balança de pagamentos sinalizam fraqueza da moeda, pois normalmente seriam interpratados como um sinal de que a moeda está supervalorizada (ou que necessita de desvalorização). Para o emissor de uma moeda de reserva global, contudo, respostas políticas convencionais a essa situação estão bloqueada em ambas as direções, uma vez que ele não pode nem tomar medidas para fechar o déficit, tampouco tentar fortalecer a moeda através da elevação de taxas de juros. Uma vez que para o emissor de uma moeda de reserva o déficit comercial é uma constante, em vez de uma variável, uma desvalorização meramente incita uma competitiva destruição monetária mundial. Medidas de fortalecimento, por outro lado, trazem dinheiro do exterior (demonominado na moeda internacional) e, assim, expandem ainda mais a demanda por emissão, que só pode ser satisfeita com uma ampliação do déficit comercial.

Em outras palavras, o Dilema de Triffin reconhece que a demanda internacional por uma moeda de reserva é inerentemente paradoxal. O que se busca é a moeda como se ela não fosse suprida através de desequilíbrios comerciais crônicos, e, no entanto, esses mesmos desequilíbrios são o único canal através do qual ela pode de fato ser suprida.

A "Chimérica" exemplifica perfeitamente as características essenciais da situação. Os dois trilhões de dólares americanos de reservas da China correspondem a um excedente cumulativo na balança de pagamento precisamente da mesma soma, uma vez que isso é simplesmente o que são as reservas. Quando percebida de maneira apreciativa — o que era bem mais fácil nas décadas finais do século XX do que nas primeiras décadas do século XXI — a Chimérica tem sido um arranjo econômico complementar, através do quala América alcançou altos níveis de consumo acoplados a uma inflação de preços contida, ao passo em que a China realizou um desenvolvimento econômico orientado a exportações e à modernização revolucionária que a eludiu durante 150 anos. Para olhos mais invejosos, o mesmo arranjo é uma armadilha que casou a desindustrialização americana com a devastação ambiental chinesa, ao passo em que alimentava uma incontinência fiscal insustentável na América e uma bolha de investimentos chinesa. Qualquer das duas imagens que tenha maior realismo, provavelmente pode-se concluir com segurança que a dissimetria imposta por uma moeda de reserva internacional tem consequências extensas e ambíguas.

Cinicamente, seria possível argumentar que o aspecto tributário de um status de moeda de reserva é coincide perfeitamente com profundas tradições chinesas nas relações internacionais, de modo que uma ascenção ao privilégio exorbitante embasado no yuan seria uma meta geopolítica natural para o Reino do Meio, conforme ele restaurasse sua posição central no mundo. De maneira mais realista, contudo — pelo menos no curto prazo — é um reconhecimento de que a perda do controle sobre a política econômica doméstica é uma consequência inevitável e bem entendida da hegemonia monetária global, e uma que o governo chinês certamente achará inaceitável. Quaisquer que sejam os custos (primariamente ambientais) associados com o papel de "fábrica do mundo", eles são imensamente compensados, da perspectiva chinesa, pelas vantagens. É do lado tributário do resgistro da moeda internacional de reserva, no qual a China esteve por mais de quatro décadas, que todos os vetores cruciais de desenvolvimento são encontrados — absorção tecnológica, aprofundamento da infraestrutura, industrialização, urbanização, emprego e até mesmo capacidade militar.

Se a Chimérica está sendo demolida, isso tem bem menos a ver com qualquer tipo de desafio chinês — mesmo um que seja espontâneo e não intencional — do que com uma estrutura trágica inerente à hegemonia monetária. Assim como a hubris leva à nemesis, igualmente o privilégio monetário exorbitante leva à crise, e até mesmo à ruína. Nos antecedentes tanto espanhol quanto britânico, a supremacia financeira se tornou auto-derrotadora, porque exportar dinheiro (em vez de coisas) dava uma vantagem diferencial para competidores industriais, fixando o declínio social secular. Não há nenhuma razão convincente para se acreditar que a América tenha se isentado do mesmo padrão agourento.

Em 29 de março de 2009, na esteira da crise financeira, Zhou Xiaochaun, governador do Banco Popular da China, fez um importante discurso entitulado "Reform the International Monetary System" ("Reforme o Sistema Monetário Internacional", em tradução livre). Ele se referiu explicitamente ao Dilema de Triffin como a chave para se entender a instabilidade econômica do mundo, ao passo em que sugeria que uma mudança para além da hegemonia do dólar dos EUA seria, em última análise, necessária para remediá-la. A este respeito, sua palavras se conformaram a uma tradição que remonta a mais de meio século, até às negociações do Bretton Woods, quando John Maynard Keynes recomendou a introdução de um meio monetário global neutro — a ser chamado de bancor — que tornasse a oferta de liquidez global independente de moedas nacionais.

Historicamente, moedas de reserva internacional não surgiram de propósito. Seria possível argumentar, portanto, que o bancor keynesiano era um remendo tecnocrático irrealista, cego ao impulso espontâneo que já havia tornado o mundo dolarizado um fato não negociável, mesmo antes que os procedimentos de Bretton Woods tivessem começado. Isso não impediu que a mesma ideia básica reemergisse de formas diferentes, a mais proeminente das quais são os DESs (Direitos Especiais de Saque) do FMI, regularmente propostos como o embrião de uma moeda internacional neutra. Foi ainda para os DESs que Zhou se voltou quando buscava por um candidato para uma moeda mundial neutra.

Talvez alguma solução tecnocrática para o problema da hegemonia monetária venha ser finalmente encontrado, mas em caso positivo, ele marcaria um afastamento sem precedentes da história financeira mundial. Se, como tem sempre sido o caso até o momento, marés econômicas para além do controle político devam determinar tais resultados, é compreensível que a atenção deva flutuar em direção ao yuan chinês como eventual substituto para o dólar dos EUA. No entanto, as lições da história estão disponíveis para os formuladores de políticas, mesmo quando a lição mais insistente diz respeito a limitações à sua própria influência e, nesse caso, a principal delas é de que o prospecto de um yuan com status de reserva internacional apresenta à China um cálice envenenado. É muito improvável que ele seja aceito de bom grado.

Alguma evolução espontânea alternativa na natureza do dinheiro poderia levar esse dilema geopolítico crítico em uma nova direção? Tal evolução parece estar ocorrendo, simbolizada pelo bitcoin, o primeiro exemplo na história de uma cripto-moeda digital descentralizada. Para a China, o bitcoin — ou algo comparável a ele — poderia ser a única maneira de se evadir de uma suposição de privilégio econômico global cuja essência é uma ruinosa hubris.

Como o rei sagrado de James Frazer, que é coroado afim de ser sacrificado, o significado interior da hegemonia monetária é destruição econômica e social. A China estende isso bastente claramente e, conforme a era do dólar chegue a um fim, ela está buscando uma saída. É assim que a estória da China e do bitcoin realmente começa.


Notas

[1] Cunhado por Valéry Giscard d’Estaing, durante seu serviço como ministro de finanças francês na década de 1960. Vide: http://www.j-bradford-delong.net/movable_type/2005-3_archives/000397.html (acessado em 29 de abril de 2014).


Original.

Prontidão para o Impacto

Qualquer que seja o status da Singularidade enquanto evento de mídia, uma premonição irradia dela em uma cascata. O recente veículo hollywoodiano com Johnny Depp, Trancendence, estimulou uma onda de respostas, incluindo comentários de Steven Hawking (que sabe uma uma coisa ou outra sobre a popularização de tópicos científicos). Um artigo de Hawking em um grande jornal trouxe a conversa a um novo nível de animação. (Meu feed no Twitter não pode ter sido o único a ficar entupido a ponto de explodir com ela.)

Transcendence

  • Isso pode ser bem brusco

O argumento de Hawking, montado de maneira lúcida para uma audiência geral, é de que a IA é plausível, já está em uma medida considerável demonstrada, é suscetível em teoria a uma amplificação cibernética radical (‘explosão de inteligência’), é bastante possivelmente calamitosa para a espécie humana e ainda precisa ser engajada socialmente com a seriedade apropriada. Como ele concede, "é tentador descartar a noção de máquinas altamente inteligentes como mera ficção científica. Mas isso seria um erro, e potencialmente nosso pior erro na história".

Dinâmicas explosivas já são evidentes na trajetória de desenvolvimento da IA, que está sofrendo uma aceleração, guiada por uma "corrida armamentista de TI, alimentada por investimentos sem precedentes e se embasando em uma fundação teórica cada vez mais madura".

Olhando para o futuro, não há limites fundamentais para o que pode ser alcançado: não há nenhuma lei física que impeça que partículas estejam organizadas em maneiras que desempenhem computações ainda mais avançadas que os arranjos de partículas nos cérebros humanos. Uma transição explosiva é possível, embora ela possa terminar diferente do filme: como Irving Good percebeu em 1965, máquinas com inteligência sobre-humana poderiam repetidamente melhorar seu design ainda mais, desencadeando o que Vernos Vinge [aqui] chamou de uma "singularidade" e o personagem de Johnny Depp chama de "transcendência".

Hawking emprega sua plataforma na mídia para argumentar que algo deveria ser feito:

O sucesso em se criar uma IA seria o maior evento na história humana. […] Infelizmente, ele também seria o último, a menos que aprendamos como evitar os riscos. […] Embora estejamos potencialmente enfrentando a melhor ou pior coisa a acontecer à humanidade na história, pouca pesquisa séria é devotada a essas questões fora de institutos sem fins lucrativos tais como o Cambridge Centre for the Study of Existential Risk, o Future of Humanity Institute, o Machine Intelligence Research Institute, e o Future of Life Institute.

Conforme seu prospecto se condensa, a Singularidade Tecnológica já está operando como uma influência cultural e, assim, como um fator causal no processo social. Neste estágio, contudo, como Hawking observa, ela ainda está relativamente limitada. Quais seriam as implicação de ela vir a importar ainda mais?

A cibernética sócio-histórica é compelida a perguntar: um problema da Singularidade incandescente funcionaria como um inibidor, ou ele excitaria ainda mais os desenvolvimentos sob consideração? Certamente é difícil imaginar uma resposta preventiva sofisticada à emergência da Inteligência Artificial que não canalizasse recursos adicionais para técnicos de elite trabalhando na área da cognição sintética avançada, mesmo antes da quase inevitável captura de instituições reguladoras pelas indústrias que elas visam.

Respostas institucionais ao hackeamento de computadores têm sido caracterizadas por exercícios de recrutamento estrategicamente ambíguos em que o "caçador vira o guarda-caça", e algum análogo próximo desses jogos de caça seriam uma parte inevitável de qualquer tentativa de se controlar o desenvolvimento da cognição de máquina. Jogar jogos de traição extremamente complicados contra uma super-inteligência virtual poderia ser bastante divertido, por um tempo…

ADICIONADO: Daniel Dewey, do FHI, chegou.


Original.

O Fascismo que Venceu

Chamar alguém de fascista tende a ser uma ótima maneira de acabar com uma conversa. Primeiro na Esquerda e mais recentemente na Direita, o valor abusivo desse termo foi avidamente aproveitado. Na medida em que tal uso merece a atribuição de uma ‘lógica’, ela é aquela do reductio ad absurdum — um argumento ou posição que possa ser identificada como fascista por implicação é, por isso, imediatamente descartado. O fascismo é analisado apenas na medida em que é necessária para colar o rótulo no outro cara.

Entre as razões para se lamentar essa situação está o véu que ela lança sobre o triunfo do fascismo enquanto fato histórico decisivo do século XX. Embora a derrota do eixo ‘fascista’ central na Segunda Guerra Mundial tenha deixado a ideologia desprovida de defensores confiantes, reduzindo-a a seu significado meramente abusivo, ela também fomentou a ilusão de que as potências vitoriosas eram essencialmente ‘anti-fascistas’ — ao ponto de uma exerção militar extrema. A realidade histórica, em contraste, é descrita de maneira bem mais precisa pela convergência dramática acerca de ideias fascistas, tanto pela Esquerda quanto pela Direita, como exemplificado pela ascensão do nacionalismo pragmático sobre o coletivismo radical no mundo comunista e do gerencialismo estatal sócio-democrata sobre o ‘liberalismo clássico’ laissez-faire no Ocidente. Com uma discussão calma sobre essa formação de ‘terceira posição’ tornada quase impossível, a tentativa crucial de entender sua especificidade sócio-histórica é desviada para uma polêmica estéril.

O arque-druida americano John Michael Greer talvez esteja suficientemente distante das previsíveis controvérsias entre esquerda e direita para fazer uma diferença com sua série em três partes de posts sobre a realidade histórica do fascismo. Ao invés de atacar o fascismo (pela Esquerda) por seu capitalismo residual ou (pela Direita) por seu anti-capitalismo inovador, Greer prioriza a tarefa filosófica de uma retificação das palavras:

Quando George Orwell escreveu sua tremenda sátira da política totalitária, 1984, um dos temas centrais que ele explorou foi o aviltamento da língua por vantagens políticas. Esse hábito encontrou seu emblema duradouro na língua inventada de Orwell, a novilíngua, que era deliberadamente projetada para ficar no caminho de um pensamento claro. A novilíngua permanece ficcional — bem, mais ou menos — mas todo o tema do fascismo e, de fato, a própria palavra ficaram emaranhados em uma rede de língua aviltada e pensamentos incoerentes tão extrema quanto qualquer coisa que Orwell tenha colocado em seu romance.

Hoje em dia, para ser mais preciso, a palavra "fascismo" funciona, em sua maior parte, como o que S. I. Hayakawa costumava chamar de palavra-grunhido — um ruído verbal livre de conteúdo que expressa emoções raivosas e nada mais. …Para se superar tais tolices, vai ser necessário tirar o tempo para se erguer para fora do pântano de novilíngua que cerca o tema do fascismo — para reconectar as palavras com seus significados, e os movimentos políticos com seus contextos históricos

A discussão de Greer é tão eloquente e penetrante que seria redundante repeti-la aqui. Ela merece a leitura cuidadosa mais ampla possível e uma reflexão subsequente. (O Urbano Futuro endossa todo o argumento, com apenas as reservas mais marginais sobre pontos comparativamente insignificantes.)

Em vez de repetição sem sentido, uma questão. Dado que a história conspirou para tornar a palavra ‘fascismo’ ilegível e, assim, não apenas obscureceu a tendência dominante na organização social mundial, mas também retirou todos os anticorpos eficazes contra movimentos ressurgentes do tipo fascista clássico, há algum caminho realista até uma restauração da lucidez política? O mundo está condenado à cegueira persistente sobre o que é e sobre o que poderia, de maneira ainda mais desanimadora, se tornar? Se existe qualquer razão para encorajamento nesse aspecto, a evidência é tênue.

A conclusão de Greer parece não menos sombria. Ao se aproximar dela, ele comenta:

Os movimentos fascistas das décadas de 1920 e 1930 estavam… intimamente sintonizados com as esperanças e medos das massas, bem mais do que qualquer um dos partidos principais ou dos grupos radicais estabelecidos de seus respectivos países. Ao contrário do "fascismo" imaginado da retórica radical moderna, eles eram uma alternativa aos negócios como de costume, uma alternativa que se posicionava firmemente no centro abandonado do discurso político de suas eras. …Antissemitismo e militarismo explícito eram socialmente aceitáveis na Alemanha do entre-guerras; eles não são socialmente aceitáveis nos Estados Unidos de hoje e, assim, não desempenharão um papel em um movimento neofascista de qualquer importância no futuro americano. O que desempenhará tais papeis, claro, são os tropos e bordões que apelam aos americanos hoje, e esses podem muito bem incluir os tropos e bordões que mais apelam a você.

[ADICIONADO]: (Para os fregeanos por aí) Sinn diferente, mesmo Bedeutung: ‘estrela da manhã’ e ‘estrela do entardecer’; ‘Neoliberalismo‘ e O Fascismo que Venceu.

Original.

‘Neoliberalismo’

É absolutamente óbvio que qualquer engajamento com a versão atual mais proeminente do pensamento aceleracionista — ou, de fato, com qualquer discussão dominada pela esquerda hoje — vai encontrar o termo ‘neoliberalismo‘ como uma referência onipresente. Uma irritabilidade pura não servirá como resposta por muito tempo.

Por que qualquer irritação que seja? De maneira mais imediata, porque a referência desse termo é uma bagunça que se alastra. Ele é empregado de maneira ambígua para descrever uma época e uma ideologia. A evidente duplicidade disso está na suposição tácita de que a ideologia define a época — uma afirmação histórica e política vasta, assim como implausível — que evade uma interrogação sistemática através do desleixo terminológico.

Pior ainda, as características da ideologia ‘neoliberal’ são elas mesmas remendadas, primariamente por uma miscelânea de polêmicas anti-capitalistas teoricamente empobrecidas, vindas de todo o mundo, com a consequência de que sua única característica consistente é o mero fato de ter uma oposição esquerdista (em algum lugar). Como a explicação da Wikipédia (linkada acima) deixa claro, qualquer política econômica em qualquer lugar que não seja positivamente hostil ao mercado e que se encontre comentada de maneira antagonista pela esquerda é ‘neoliberal’.

Quando todos esses fatores compostos de imprecisão são levados em consideração, é fácil ver por que o significado de ‘neoliberal’ pode variar — no mínimo — de um keynesianismo marginalmente reformista do mercado (Clinton), passando por um capitalismo autocrático (Pinochet) até um ‘hiper-capitalismo’ libertário extremo (em nossos sonhos). Sua aplicação global, para incluir — por exemplo — o Círculo do Pacífico dominado por chineses étnicos (e o continente chinês após a Reforma-e-Abertura), é ainda mais descuidadamente gestual. Se a Nova Política Econômica de Lenin em 1921 não era ‘neoliberal’, é difícil ver por quê — a menos que a ausência de uma oposição de esquerda seja suficiente como explicação. Uma palavra tão desleixada — tradicionalmente enraizada na demagogia latino-americana anti-mercado, mas desde então adotada de maneira geral como o equivalente linguístico de uma camiseta do Che Guevara — não tem nenhum uso analítico sério.

A moda é imprevisível, mas parece muito improvável que essa palavra esteja indo a qualquer lugar. Seu significado totêmico dentro do esquerdismo tribal é suficiente para garantir sua persistência — o que seria dizer que a sinalização radical chique do SWPL ficaria significativamente incomodada sem ela. Seria possível, então, rigorizá-la?

Isso exigiria delimitação, ou seja: especificidade. Dada a utilidade política da palavra, existem poucas razões para otimismo nesse aspecto. David Harvey, por exemplo, que devotou um livro ao ‘tópico’ (Neoliberalismo: História e Implicações, 2005), não produz nenhuma definição clara além de capitalismo ressurgente, na medida em que isso ocorreu com a recessão parcial do planejamento central a partir do final dos anos 1970. Sem surpresas, portanto, quanto mais classicamente liberais as políticas se tornam, mais ‘neoliberal’ ela também é. O ‘neo-‘, no fim das contas, não significa mais do que um enfurecido "você deveria estar morto, porra". O neoliberalismo, então, é uma orientação capitalista que sobreviveu às expectativas, e uma vez que as expectativas foram aprofundadas até fundações imóveis, é a sobrevivência que requer uma designação explícita.

Qualquer coerência leve (e estritamente polêmica) que possa ser tirada de Harvey é jogada de volta ao caos pelo artigo de Benjamin Noys, "The Grammar of Neoliberalism" ("A Gramática do Neoliberalismo") (2010). Longe de descrever a reversão parcial a arranjos orientados ao mercado na esteira de suposições social-democráticas hegemônicas, Noys identifica o ‘neoliberalismo’ com o capitalismo supervisionado pelo estado, introduzido nas décadas de 1920 e 1930, isto é, exatamente a ordem econômica que o ‘neoliberalismo’ de Harvey derruba.

Tomado em seus próprios termos — ao invés de como uma defesa de uma palavra intrinsecamente enganosa — o argumento de Noys é altamente interessante. Sua direção geral é capturada na seguinte passagem [marcas de citação subtraídas]:

Qual é a natureza precisa, então, do neo-liberalismo? Claro, a óbvia objeção à visão ‘anti-estado’ do neo-liberalismo é que o neo-liberalismo em si é uma forma contínua de intervenção estatal, usualmente resumida na frase ‘socialismo para os ricos, capitalismo para os pobres’. Foucault observa que o neo-liberalismo concede isso: ‘a intervenção governamental neo-liberal não é menos densa, frequente, ativa e contínua do que em qualquer outro sistema’. A diferença, contudo, é o ponto de aplicação. Ele intervém na sociedade ‘de modo que mecanismos competitivos possam desempenhar um papel regulatório em todo momento e em todo ponto na sociedade e, ao intervir dessa maneira, seu objetivo se tornará possível, isto é, uma regulação geral da sociedade pelo mercado’. Portanto, perdemos o foco de simplesmente deixarmos uma crítica do neo-liberalismo no ponto de dizer ‘o neo-liberalismo é tão estatista quanto outras formas governamentais’. Em vez disso, a necessidade é analisar como o neo-liberalismo cria uma nova forma de governamentalidade na qual o estado desempenha uma função diferente: permear a sociedade para sujeitá-la ao econômico

Deixando de lado a questão do poder de persuasão desse argumento (para outra hora), a coisa essencial a se notar é que ele representa uma disputa pelo termo negligentemente trôpego ‘neoliberalismo’ que Noys tem pouca chance realista de ganhar — ‘ganhar’, isto é, com abrangência suficiente para salvar a palavra. Se ‘neoliberalismo’ significasse em geral uma variante altamente estatista da organização ‘capitalista’, originando-se primeiro na era do alto-modernismo, na qual — em contraste com o estatismo da esquerda — o papel do estado era especificamente dirigido a impor um simulacro administrativo da ordem social cataláctica, ela se tornaria uma palavra valiosa e teoricamente funcional. Isso aconteceria até mesmo se a própria teoria fosse criticada, emendada ou rejeitada — e, na verdade, a própria possibilidade de tal engajamento pressupõe que ‘neoliberalismo’ se torne um conceito localmente inteligível (local, isto é, para o argumento de Noys e qualquer halo que ele tenha conseguido estender para além de si mesmo).

Mesmo aqui na Direita Exterior, quase toda a irritabilidade terminológica retrocederia imediatamente se a expressão repetidamente encontrada fosse — mesmo que implicitamente — Neoliberalismo no sentido Noysiano. Ele então seria um termo com limites relativamente precisos, esclarecendo mais do que obscurece. Consequentemente, ele marcaria um limite na direita assim como na esquerda, distinguindo o capitalismo anti-estatista ou laissez-faire — com seu modelo em Hong Kong — da formação político-econômica dominante de nossa era. Só por essa razão, pode-se antecipar confiantemente que não se permitirá que ‘neoliberalismo’ signifique nada disso.

[ADICIONADO](http://www.sok.bz/web/media/video/ABriefHistoryNeoliberalism.pdf%5D: PDF completo de A Brief History of Neoliberalism de David Harvey.

Original.

#Acelerar Anotado (#2)

[Continuando daqui]

II. INTERREGNO: Sobre Aceleracionismos

  1. Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo. O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social. Em sua forma neoliberal, essa autoapresentação ideológica é uma das forças de liberação das forças de destruição criativa, liberando inovações tecnológicas e sociais em contínua aceleração.

A invocação do ‘neoliberalismo’, que machuca o cérebro, à parte, essas observações são todas perfeitamente sãs

  1. O filósofo Nick Land captou isso de forma mais certeira, com uma crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global em direção a uma singularidade tecnológica sem paralelos. Nessa visão do capital, o humano pode eventualmente ser descartado como mero obstáculo a uma abstrata inteligência planetária, que se constrói rapidamente a partir da bricolagem de fragmentos das civilizações passadas. Contudo, o neoliberalismo [cada uso dese termo aprofunda sua insensatez] de Land confunde velocidade com aceleração. Podemos estar nos movendo rapidamente somente dentro de um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas que jamais oscilam. Experimentamos apenas a crescente velocidade de um horizonte local, uma simples arremetida descerebrada; ao invés de uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades. É este último modo de aceleração que tomamos por essencial.

A diferença entre ‘velocidade‘ e ‘aceleração’ é aquela entre a derivativa zero e a primeira. Isso é rigoroso e, em geral, compreendido. A diferença proposta aqui é outra coisa. Eu não tenho nenhuma ideia clara do que ela é. (Parece equivaler, aproximadamente, a uma distinção entre Direita e Esquerda — isto é, a mera asserção de que o ‘capitalismo’ é compreensível como um ‘interior’ — sem qualquer outro conteúdo identificável.)

  1. Ainda pior, como Deleuze e Guattari reconheciam, desde o começo, o que a velocidade capitalista desterritorializa com uma mão, ela reterritorializa com a outra. O progresso se torna restrito a um enquadramento de mais-valor, exército proletário de reserva, e capital de livre flutuação. A modernidade é reduzida a medidas estatísticas de crescimento econômico, e a inovação social fica incrustrada com as sobras kitsch de nosso passado comunal. A desregulação de Tatcher-Reagan senta-se confortavelmente ao lado da família vitoriana “back-to-basics” e valores religiosos.

A Esquerda não é o agente principal da reterritorialização ‘capitalista’?

  1. Uma tensão mais profunda dentro do neoliberalismo ocorre em termos da sua autoimagem como o veículo de modernidade, como sinônimo para modernização, enquanto promete um futuro cuja constituição interna é incapaz de promover. De fato, conforme o neoliberalismo progrediu, ao invés de possibilitar a criatividade individual, tendeu a eliminar a inventividade cognitiva, em favor de uma linha de produção afetiva de interações roteirizadas, junto a cadeias globais de suprimentos e uma zona oriental de produção neo-fordista. Um minúsculo cognitariado de trabalhadores da elite intelectual encolhe com o passar dos anos – e de maneira crescente na medida em que a automação algorítmica adentra as esferas de trabalho afetivo e intelectual. O neoliberalismo, ainda que se postulando como um desenvolvimento histórico necessário, foi de fato um meio meramente contingente para afastar a crise do valor que emergiu nos anos 1970. Era inevitavelmente uma sublimação da crise, ao invés de sua superação final.

— É a política que faz promessas (o capitalismo faz negócios). Se você pensa que o ‘capitalismo’ já te prometeu algo, você pode estar dando ouvidos a um político.
— Qual é o mecanismo através do qual a ‘inventividade cognitiva’ é progressivamente eliminada, dado que a inovação é uma fonte de vantagem competitiva, pela qual o mercado seleciona?
— O ‘cognitariado’ está diminuindo? A resposta para isso parece ser um dado que a ciência social poderia fornecer.
— Por que (ah, por quê) ainda estamos falando sobre o ‘neoliberalismo’? O capitalismo como tal não é o ‘problema’ que define isso como um projeto político-cultural da Esquerda? Essa palavra ridícula é meramente uma profissão de fé, que serve bem mais como sinal de solidariedade tribal do que como ferramenta analítica. (Ironicamente, esse tique de ‘neoliberalismo’, como uma torneira pingando, perturba significantemente o projeto aqui. A renovação aceleracionista da Esquerda, como toda espécie de renovação modernista profunda, visa reativar linhas de desenvolvimento que remontam ao alto-modernismo do começo do século XX, quando — como os autores entendem de maneira plena, ainda que apenas intuitiva — a dinâmica fundamental da modernidade chegou à crista e quebrou. Ou devemos seriamente acreditar que "de volta para o meio dos anos 1970!" é o grito de guerra implícito?)

Eu estou, é claro, fortemente inclinado a aceitar que a paródia aleijada de capitalismo que existe hoje tem um desempenho pequeno comparado ao seu potencial sobre condições de desinibição laissez-faire — isto é, sem ser compensada pela Esquerda. Mas é Keynes e os anos 1930, não o ‘neoliberalismo’ e os anos 1970, que estabelecem os termos da subordinação do capital ao planejamento macroeconômico.

  1. É Marx, junto com Land, que continua a ser o pensador aceleracionista paradigmático. Ao contrário da crítica bastante familiar, e mesmo ao comportamento de alguns marxianos contemporâneos, devemos lembrar que o próprio Marx usou as mais avançadas ferramentas teóricas e dados empíricos disponíveis, na tentativa de entender e transformar completamente seu mundo. Ele não foi um pensador que resistiu à modernidade, mas antes um que procurou analisar e intervir dentro dela, compreendendo que apesar de toda sua exploração e corrupção, o capitalismo permanecia como o mais avançado sistema econômico em sua época. Suas conquistas não deveriam ser revertidas, mas aceleradas para além das restrições da forma valor capitalista.

Um micro-retrato sólido. Que a ‘forma-valor’ capitalista (a quantificação formatada no comércio) possa ser descrita, de maneira realista, como uma ‘restrição’ é a proposta mais básica em jogo aqui.

  1. De fato, como Lênin escreveu no texto de 1918, intitulado “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”: O socialismo é inconcebível sem a engenharia capitalista de larga escala baseada nas últimas descobertas da ciência moderna. É inconcebível sem a organização estatal planificada que mantém dezenas de milhões de pessoas na observância mais estrita de um padrão unificado de produção e distribuição. Nós, marxistas, sempre falamos disso, e não vale a pena perder dois segundos que seja falando com pessoas que não entendem nem mesmo isso (anarquistas e uma boa parte dos revolucionários da esquerda socialista).

Tal adesão ao princípio do planejamento central é esclarecedora

  1. Como Marx sabia, o capitalismo não pode ser identificado como o agente da verdadeira aceleração. [Argumento?] Da mesma forma, a avaliação de políticas de esquerda como antitéticas à aceleração tecnossocial também é, pelo menos em parte, uma deturpação grave. [OK, contanto que seja o ‘ideal desconhecido’ da política de Esquerda do qual estejamos falando] De fato, se a esquerda política tiver um futuro, ele deve ser um que abraça ao máximo essa tendência aceleracionista suprimida.

A frase final nessa seção é, de uma só vez, crucial e escorregadia. O que é — de maneira prática — "abraçar" uma tendência? Como e por quê essa tendência foi "suprimida"? "Ter" ou perder um futuro seriam coisas interessantes, então é o futuro que vem a seguir…

Original.

A Forma do Tempo (Parte 2a)

Ao descrever o pensamento de John Michael Greer como ‘druídico’ – como esta série alegremente fez – o adjetivo tem sido primariamente filosófico em direção. Ele foi usado apenas para indicar que uma pressuposição identificável e notavelmente coerente sobre a natureza dominante do tempo ancora a as análises particulares de Greer, que extraem as implicações de uma ciclicidade cósmica insuperável e as aplicam a uma ampla variedade de problemas concretos. ‘Druida’ e ‘teórico radical dos ciclos’ foram tratados como termos aproximadamente equivalentes.

Vale a pena notar neste ponto, contudo, que Greer não é apenas conceitualmente druídico. Ele é um proponente público do Druidismo, em um sentido bem mais rico e culturalmente elaborado, que inclui o serviço “como oficial presidente — Grande Arquidruida é o título oficial — da Antiga Ordem dos Druidas na América (AODA), uma ordem druídica fundada em 1912”. Esta vocação inclina sua perspectiva de maneiras importantes (e produtivas). Nossas preocupações aqui, estritamente focadas na questão do tempo, são capazes de extrair uma nutrição intelectual considerável de uma digressão para dentro desse druidismo espesso.

Como outras formas de religião ocidental ocultista, o druidismo tem um apego ao passado profundo que não é tácito e tradicional, mas manifesto, moderno e criativo. Greer admite prontamente – até mesmo alegremente – que sua ‘Antiga Ordem’ não é, de fato, sequer antiga, mas em vez disso pertence a um projeto de restauração – e, na verdade, reconstrução – que remonta a não mais do que o meio do século XVII. Desde sua concepção, ela esteve vinculada a um passado perdido e a dúvidas inextinguíveis sobre sua própria autenticidade. Greer apenas muito raramente usa sua plataforma no Archdruid Report para discutir o druidismo explicitamente. Na primeira ocasião em que ele o faz, suas reflexões são desencadeadas pela pergunta de um jovem rapaz: Você é um Druida real?

Não é uma pergunta fácil de se responder. Os druidas originais, os padres e magos dos antigos celtas, foram extintos há mais de mil anos, e todas as suas crenças, práticas e ensinamentos se foram com eles.

Mais especificamente, ele explica:

Quem eram os druidas? A resposta honesta é que nós realmente não sabemos. A maior parte do que foi escrito sobre eles nos tempos antigos desapareceu para sempre quando o Império Romano colapsou. Todos os textos sobreviventes escritos sobre os druidas quando eles ainda existiam, colocados juntos, somam algo como umas dez páginas em tradução para o inglês. …Druidas em treinamento memorizavam muitas linhas de verso, uma vez que era proibido registrar seus ensinamentos na forma escrita. …Júlio César, cujo livro sobre a conquista da Gália é a fonte mais detalhada sobre os druidas, observava que se pensava que os ensinamentos druídicos vinham originalmente da Grã-Bretanha, ao passo em que um acadêmico grego alegava que os druidas receberam seu folclore do filósofo grego Pitágoras; nenhum outro autor se refere ao assunto. …arqueólogos e historiadores foram capazes de provar de maneira conclusiva que o druidismo da restauração era um movimento espiritual moderno, não antigo.

O druidismo moderno é uma restauração, o que seria dizer que ele se origina através de uma identificação com algo que está morto. Sua modernidade é esticada e ativada, para se tornar mais do que mera sucessão e mais do que mesmo uma sucessão auto-consciente e diferenciada – ou um ‘avanço’. A descontinuidade que define ‘a Restauração’ não pode ser reduzida a uma transição, por mais radical que seja. Em vez disso, ela corresponde a um retorno incerto, através do passado ainda vivo e além, em direção a um começo perdido. Desta maneira, ela inicia um processo — e uma nova tradição — que não pode ser facilmente resolvida em elementos distintos de invenção e reanimação. Em sua busca por origens antigas, ela realoca o presente dentro de uma compreensão expandida do tempo histórico. Este empreendimento cultural complexo e semi-paradoxal é, de uma só vez, tipicamente moderno e anti-moderno. Ao se distanciar da acomodação passiva ao seu momento histórico, ele epitomiza esse mesmo momento em sua realidade histórica concreta — como uma revolta contra a simples continuidade. Ele representa um neo-tradicionalismo dramático, de um tipo ocidental.

O viajante no tempo tende a produzir — ou a se tornar — uma duplicata, e o druida moderno não é nenhuma exceção. Algo ‘antigo’ é retornado à vida, de modo que reanimador e reanimado coexistem em um presente dobrado, inter-identificado e ambiguamente co-original, ou coincidente. Os druidas da Restauração ‘ainda’ acreditam na sabedoria arcaica da ciclicidade, agora redescoberta, ou eles a projetam de volta sobre um tela vazia de uma antiguidade apagada? Quem é a cópia aqui? Retornamos, inexoravelmente, a um problema de identificação (“Você é um druida real?”), modelo e derivação, originalidade e repetição. Uma busca pela realidade se tornou inextricável de um exercício de duplicidade, retorcido em um círculo reflexivo ou introspectivo e desdobrado em uma investigação do tempo.

Conforme essa perplexidade se desenvolve, o termo ‘Restauração Druídica’ vem a parecer como algo mais do que um conjunção arbitrária. Suas duas palavras não estão meramente reunidas, mas são duplicadas, como um eco de uma perturbação temporal. Cada um aponta independentemente em direção a um padrão pré-implantado de retorno, com o ciclo já registrado em ambos os lados. Greer traça as ‘raízes reais’ desta duplicação a uma conexão descontínua:

Alguns grupos druídicos modernos, no século XIX e no começo do XX, para seu duradouro descrédito, alegaram conexões diretas com os antigos druidas celtas, as quais eles não tinham. As raízes rais do movimento druida moderno vão em uma direção diferente: aos primeiros estágios da Revolução Industrial na Grã-Bretanha do começo do século XVIII, e à escolha de Hobson entre uma religião dogmática e uma ciência materialista, as duas vencedoras das guerras da realidade do final da Renascença. Muitas pessoas buscavam uma terceira opção que abraçasse a natureza e o espírito igualmente, e algumas delas encontraram inspiração nos fragmentos de escritos clássicos, lendas medievais e folclore celta que se referiam aos antigos druidas.

“Os historiadores chamam o resultado de Restauração Druida”, ele continua, como se estivesse determinado a separar esse termo gêmeo de qualquer coisa que o druidismo moderno tenha dito primeiro sobre si mesmo. Ele reconhece, talvez, que o druidismo é a filosofia (ou religião) da restauração — ou do ciclo ‘ecológico’ completo, passando pela vida e pela morte — de modo que recorrer a essa palavra (‘restauração’) ameaça representar o retorno do pensamento druídico através de si mesmo, em um círculo fechado de auto-confirmação, persuasivo apenas àqueles de inclinação druídica (ou, mais estritamente, ciclo-teórica) prévia. Melhor, então, que os ‘historiadores’ selem esse círculo, de fora, e, assim, demonstrem sua real coincidência, ou simples realidade. A Restauração é reconhecida como fato histórico, antes que seja reciclada de volta para dentro da inteligência druídica, como expectativa doutrinária.

Cada ano é uma unidade de tempo cíclica de vida e restauração e, nisto, é um professor primordial, de uma maneira que nenhuma escritura jamais poderia ser. Este, pelo menos, é o entendimento folclórico pagão que a Restauração Druídica restaura à primazia ritualística e adota como seu modelo cognitivo orientador. Sua própria restauração, portanto, é ‘apenas natural’, ou auto-explicativa.

Trazer o pensamento à conformidade com os grandes ciclos é imediatamente participar em uma super-tradição especulativa, sustentada por uma estrutura de ideias e compreensão que não pode deixar de retornar. No pensamento do ciclo, já há implicado uma não originalidade, que vincula o pensador, através do tempo, a todos aqueles que necessariamente entendem a maneira em que as coisas têm que acontecer de novo. O que, então, é origem antiga e o que é restauração? Quando se procuraria por um ‘druida real’?

[Esta digressão tem um pouco mais a vaguear, ao longo de um caminho mais concreto, antes que a distância crítica seja restaurada.]

Original.

Tianming

O Mandato dos Céus (天命) pertence indisputavelmente às ideias políticas mais antigas e conceitualmente ricas. Datando da transição da dinastia Shang para a Zhou, há mais de três milênios, ela refunda a legitimidade do governo em um direito natural condicional (em contraste com o direito natural incondicional afirmado pelos reis suplantados dos Shang e pelos teóricos do direito divino no mundo ocidental). O Tianming investe os regimes cujo desempenho expressa uma capacidade virtuosa. A legitimidade não é, portanto, uma dotação formal, mas uma descoberta substancial, demonstrada através da arte do governo.

A alegação de que o Tianming equivale a uma teoria realista da legitimidade política exige bem mais apoio do que esse pequeno e tentativo post oferecerá. Em particular, ele tem que ser defendido contra a objeção de que o Tianming se refere a uma tautologia, seja ela empírica ou lógica (ou ambas). O Mandato dos Céus poderia ser formulado como: Por tanto tempo quanto um regime for bem sucedido, ele durará. Esse não é, da perspectiva da história empírica, um julgamento retrospectivo vazio ou pura redundância, e, sob consideração lógica, um pleonasmo mal disfarçado?

O Tianming poderia ser descartado por essas razões, se sua negação fosse inconcebível. Aí, de fato, ele não comunicaria nenhuma informação. Contudo, esse não é o caso de forma alguma.

Talvez a evidência mais relevante para isso seja a tese provocadora, encontrada no L’ancien régime et la Révolution de Alexis de Tocqueville, de que a promoção bem sucedida do desenvolvimento social é mais ameaçadora para a estabilidade do regime do que a completa ausência de tal realização. Este é um argumento amplamente discutido na China hoje, por razões óbvias. Se ele for verdadeiro, a ideia do Tianming — em qualquer sentido além do mais raso e sofista — é diretamente contradita, em teoria e em fato. Reciprocamente, tem que se reconhecer que a ideia do Tianming apresenta um desafio implícito à tese de Tocqueville, sujeita a confirmação ou negação pelos eventos históricos. O que está em jogo nessa controvérsia (ainda indistinta?) dificilmente poderia ser mais importante.

Uma reflexividade intrigante entra no tópico neste ponto, porque as condições para a confirmação do Tianming estão relacionadas, por meio de não-linearidades intricadas, aos prospectos do regime da RPC. O sucesso no desenvolvimento é recompensado ou punido pelos ‘céus’ (a natureza das coisas)? Se for o último, uma ruína dialética se segue, conforme os mais altos são trazidos abaixo. Se for o primeiro, ascensão econômica e estabilidade política terão demonstrado sua compatibilidade, o caos revolucionário será evitado, e o reequilíbrio da ordem mundial em direção ao oeste do Pacífico continuará. Sob tais condições, há toda razão para se esperar que as tendência globais sejam incrementalmente ‘confucionizadas’, com o pensamento político internacional sendo cada vez mais modulado pelas características chinesas. Simultaneamente vingada e promovida, a ideia do Tianming então encontrará uma audiência receptiva mais ampla do que jamais conheceu antes.

Original.

A Forma do Tempo (Parte 2)

Na primeira parte dessa série, introduzimos a quadro ‘druídico’ de John Michael Greer para a avaliação de ‘formas temporais’ culturais – embasada na suposição de uma ciclicidade dominante, de acordo com a qual qualquer desvio prolongado ou processo desequilibrado é exposto como uma exceção insustentável. Dentro de um grande ciclo suficientemente expansivo, qualquer tendência progressiva contínua é complementada por uma regressão proporcional (e, claro, reciprocamente). A suposição cíclica marca cada uma e todas as imagens do progresso absoluto como ilusórias. Desta forma, o ciclo, quando aplicado a qualquer figura particular de tempo, descreve uma estrutura envolvente que fornece uma perspectiva crítica aguda. (Uma crítica da suposição cíclica em si — ou, “por sua vez” — é melhor postergada até que os resultados positivos mais significativos de Greer tenham sido esboçados.)

A civilização global atualmente dominante – quando percebida em um nível de abstração (ecológica) extremo – é o surto desembestado queimador de combustíveis fósseis que Greer chama de “cultura industrial moderna”. Central para esta cultura é uma expectativa de crescimento, fundada em um processo ecológico insustentável, e expressada através de formas temporais distintivas. O plural aqui é essencial, porque a descrição ‘morfológica‘ completa que Greer faz do tempo moderno se desdobra dentro de uma sistema tríplice de classificação.

A primeira forma temporal está em sua maior parte ocluída. Este é o modelo cíclico que organiza o pensamento de Greer, servindo tanto como um pivô quanto como um quadro envolvente. A concepção temporal cíclica define um ‘caminho do meio’ que expõe anormalidade e excesso através do contraste e também completa uma compreensão holística, contextualizando a parcialidade, ou viés. Ela funciona, dentro da análise de Greer, como uma ferramenta ou oficina intelectual, mais do que como um objeto distinto de investigação. Dado seu status ‘transcendental’ dentro da ordem druídica de compreensão, o ciclo não está limitado a um momento de origem histórica ou associado com o nome de uma autoridade cultural particular.

A segunda forma temporal não é intrinsecamente moderna, mas é antes o ancestral vivo, ou herança vital, da cultura que eventualmente afirmaria os termos da modernidade global. Da inúmeras formas temporais pré-modernas do mundo, ela é a que foi universalizada por seus descendentes lineares. Greer a identifica primariamente com Agostinho de Hipona e atribui a ela uma data de nascimento específica: 413 D.C.

Greer argumenta (de maneira convencional), que o colapso do Império Cristão sob investida bárbara ameaçou a nova fé com uma crise de legitimidade, levando Agostinho à conclusão radical de que: “A história ordinária… não tem nenhuma ordem moral ou significado”.

O lugar da ordem e do significado moral no tempo é encontrado, em vez disso, na história sagrada, que tem sua própria forma linear distintiva. Essa forma começa na perfeição, no Jardim do Éden; um desastre se sucede, na forma do pecado original, e a humanidade tropeça para dentro do mundo caído. Desse ponto em diante, existem duas histórias do mundo, uma sagrada e uma secular. A história secular é o conto longo e sem sentido de estupidez, violência e sofrimento que preenche os livros de história; a história sagrada é a estória das relações de Deus com uma pequena minoria de seres humanos — os patriarcas, o povo judeu, os apóstolos, a igreja cristã — a quem são atribuídos certos papéis em uma narrativa pré-existente. Eventualmente o mundo caído será obliterado, a maior parte de seus habitantes será condenada a uma bota divina na cara para sempre, e aqueles poucos que ocorrerem de estar do lado certo serão restaurados à perfeição do Eden, ponto no qual a estória acaba.

Ao formular essa estória, Agostinho deu “ao mundo ocidental o que seria, pelo próximo milênio mais ou menos, sua forma definitiva do tempo”. Além disso, mesmo depois da emergência de uma alternativa, essa narrativa cultural fundamental permaneceria em reserva, constantemente disponível enquanto recurso, caso seu sucessor falhe, traia os interesses de grupos desafetos ou acumule sinais de crise. A tradição ocidental, quando concebida através de sua forma temporal ancestral, seria perpetuada como um reservatório não drenado de tentação apocalíptica. A crítica ecológica da modernidade, observa Greer, está tão completamente saturada dessa narrativa apocalíptica quanto qualquer outra articulação de dissidência social.

Dentro da modernidade propriamente dita, contudo, a forma temporal agostiniana deixou de ser a corrente principal. Mais uma vez, Greer não reluta em buscar um nome e uma data (aproximada), no místico italiano do século XII “Joaquim de Fiore … [que] teve um impacto no futuro tão significativo quanto o de Agostinho: ele é a pessoa que derrubou a barreira entre história sagrada e secular, na qual Agostinho colocara tanto esforço em construir, e criou a forma do tempo que a principal corrente cultural ocupa até hoje”.

Para Joaquim, a história sagrada não estava limitada a um paraíso antes do tempo, um paraíso depois dele, e a linha de remanescentes honrados e doutrina redentora que ligava os dois. Ele via a história sagrada se desdobrando a todo seu redor, nos eventos de seu próprio tempo. Sua visão dividia toda a história em três grandes eras, governadas pelas três pessoas da trindade cristã: a Era da Lei, governada pelo Pai, que ia da Queda até a crucificação de Jesus; a Era do Amor, governada pelo Filho, que ia da crucificação até o ano 1260; e a Era da Liberdade, governada pelo Espírito Santo, que iria de 1260 até o fim do mundo.

O que tornava a visão de Joaquim diferente de qualquer uma das história visionárias que vieram antes dela — é havia uma abundância dessas na Idade Média — era que ela era uma história de progresso.

Não apenas a narrativa joaquinamita de progresso em três estágios introduz a ideia de avanço descompensado, ela também legitima uma tendência à secularização, conforme as estruturas institucionais apropriadas às épocas patriarcal e filial são dissolvidas na nova era de liberdade revolucionária. Sem surpresas, intelectuais e movimentos radicais se apoderaram desses esquema como o diagrama da desapropriação da Velha Ordem, garantindo sua popularização geral. À medida em que a modernidade foi serialmente ‘revolucionada’, ela se tornou cada vez mais joaquinamita em suas suposições básicas, até que o progresso tivesse sido instalado como uma ‘religião civil‘ dominante. Eventualmente, a ideia progressista havia sido normalizada ao ponto de invisibilidade semi-total.

Com o esboço das ‘visões’ agostiniana e joaquinamita, a classificação das formas temporais modernas feita por Greer se aproxima da completude. Todo o argumento, quando revisto de maneira esquemática, pode ser decomposto em uma série de afirmações distintas e informativas:
(a) A cultura da civilização moderna global é dominada exatamente pelas duas principais formas temporais.
(b) Essas formas temporais são, em certos aspectos, culturalmente arbitrárias, surgindo em tempos e locais específicos, sem qualquer interdependência lógica original, e moduladas pelas preocupações de uma tradição religiosa particular.
(c) Essa arbitrariedade é ainda mais confirmada pela riqueza morfológica que cada forma temporal revela, uma característica que sustenta identificação e classificação confiantes de variantes superficialmente diferenciadas.
(d) Apesar da ausência de necessidade lógica, quando reunidas historicamente em um sistema maduro e diádico, a dualidade agostiniana-joaquinamita combinada evidencia uma medida significativa de ordem recíproca (ou ‘unidade dialética’ efetiva) e uma influência semi-exaustiva sobre a imaginação cultural moderna — conformidade e dissidência.
(e) A complementaridade da díade corresponde aproximadamente a julgamentos simétricos de afirmação (joaquinamita) e negação (agostiniana) de uma tendência histórica predominante.
(f) Independente de seu poder manifesto de fascinação, a díade agostiniana-joaquinamita tem um limite, melhor descrito pelo modelo temporal cíclico do qual cada lado da dualidade diverge.

[A seguir: apreciação crítica]

Original.