O Iluminismo Sombrio, Parte 4a

Parte 4a: Uma sub-digressão multiparte ao terror racial

Meu próprio sentimento da coisa é que, por debaixo de toda a conversa feliz, debaixo da adesão obstinada a ideias falhas e teorias mortas, debaixo da gritaria e do anátema contra pessoas como eu, há um desespero profundo e frio. Em nossos mais íntimos corações, não acreditamos que a harmonia racial possa ser alcançada. Daí a tendência à separação. Só queremos continuar com nossas vidas longe um dos outros. Ainda assim, para um povo moralista e otimista como os americanos, esse desespero é insuportável. Ele é empurrado para longe, para algum lugar em que não tenhamos que pensar sobre ele. Quando alguém nos força a pensar sobre ele, reagimos com fúria. Aquele menininho na estória de Andersen sobre as novas roupas do Imperador? O fim seria mais verdadeiro para com a vida se ele tivesse sido linchado por uma multidão uivante de cidadãos ultrajados.
– John Derbyshire, entrevistado na Gawker

Acreditamos na igual dignidade e na presunção de igual decência em relação a toda pessoa – não importa qual raça, não importa o que a ciência nos diga sobre inteligência comparativa e não importa o que possa ser obtido das estatísticas criminais. É importante que a pesquisa seja feita, que as conclusões não sejam fraudadas e que tenhamos liberdade de falar francamente sobre o que ela nos diz. Mas isto não é um argumento a favor de conclusões a priori sobre como pessoas individuais devem ser tratadas em diversas situações – ou a favor de calcular medo ou amizade com base apenas na raça. Manter e ensinar de outra forma é prescrever a desintegração de uma sociedade pluralista, minar a aspiração do E Pluribus Unum.
– Andrew McCarthy, defendendo a expulsão de JD da National Review

“A Conversa”, da forma em que os americanos negros e os liberais a apresentam (a saber: necessitada pela malícia branca), é uma afronta cômica – porque ninguém tem permissão (vide Barro acima) de notar o contexto no qual os americanos negros estão tendo desentendimentos com a lei, uns com os outros e com outros. O contexto apropriado para entender isto, e a mania que é o Travyonicus aliás, é o medo razoável da violência. Este é o fato mais exigente aqui – e, ainda assim, você decreta que ele não pode ser falado.
– Dennis Dale, respondendo ao chamado de Josh Barro pela demissão de JD.

Tremenda experiência viver com medo, não é? É isso que é ser um escravo.
– Bladerunner

Não há nenhuma parte de Singapura, Hong Kong, Taipei, Xangai ou muitas outras cidades no Leste asiático em que seja impossível passear, com segurança, tarde da noite. Mulheres, sejam jovens ou velhas, sozinhas ou com crianças pequenas, podem ficar confortavelmente alheias aos detalhes do espaço e do tempo, pelo menos no que diz respeito à ameaça de agressão. Embora isto possa não ser bem suficiente para definir uma sociedade civilizada, chega extremamente próximo. É certamente necessário a qualquer definição dessas. O caso contrário é o barbarismo.

Essas cidades afortunadas do oeste do Círculo do Pacífico são tipificadas por localizações geográficas e perfis demográficos que ecoam de maneira conspícua as embaraçosamente bem-comportadas ‘minorias modelo’ dos países ocidentais. Elas são dominadas (de maneira não desagradável) por populações que – devido à herança biológica, a profundas tradições culturais ou ao algum emaranhamento inextricável das duas – acham interações sociais educadas, prudentes e pacíficas comparativamente fáceis e dignas de reforço contínuo. Elas são também, importantemente, sociedades abertas e cosmopolitas, notavelmente desprovidas de arrogância chauvinista ou de um sentimento etno-nacionalista paranoico. Seus cidadãos não estão inclinados a enfatizar suas próprias virtudes. Pelo contrário, eles serão tipicamente modestos quanto aos seus atributos e realizações individuais e coletivas, anormalmente sensíveis às suas falhas e deficiências e estarão constantemente alertas para oportunidades de melhoria. A complacência é quase tão rara quanto a delinquência. Nessas cidades, toda uma dimensão de terror social está simplesmente ausente  – com consequências massivas.

Em muito do mundo ocidental, em um contraste gritante, o barbarismo foi normalizado. É considerado simplesmente óbvio que cidades têm ‘áreas ruins’ que não são meramente pobres, mas letalmente ameaçadoras, para estranhos assim como para residentes. Adverte-se os visitantes para que fiquem longe, ao passo que os locais fazem o seu melhor para transformar suas casas em fortalezas, evitam se aventurar nas ruas depois do anoitecer e – especialmente se forem homens jovens – voltam-se para gangues criminosas em busca de proteção, o que degrada ainda mais a segurança de todas as outras pessoas. Predadores controlam o espaço público, parques são armadilhas mortais, a ameaça agressiva é celebrada como ‘atitude’, a aquisição de propriedade é para caretas (ou assaltantes), a aspiração educacional é ridicularizada e a atividade empresarial não-criminosa é desprezada como uma violação das normas culturais. Todo mecanismo significativo de pressão sócio-cultural, desde heranças interpretadas e influências dos pares até a retórica política e incentivos econômicos, está alinhado com o aprofundamento da depravação complacente e da extirpação cruel de todo impulso de auto-melhoria. Bastante claramente, esses são lugares em que a civilização colapsou de maneira fundamental, e uma sociedade que os inclua, em uma medida substancial, falhou.

Dentro dos países mais influentes do mundo de língua inglesa, a desintegração da civilização urbana moldou profundamente a estrutura e o desenvolvimento das cidades. Em muitos casos, o padrão ‘natural’ (agora se poderia dizer ‘asiático’), no qual a urbanização intensiva e os valores imobiliários correspondentes são maiores no centro da cidade, foi destruído ou, pelo menos, profundamente deformado. A desintegração social do centro urbano levou a um êxodo dos (sequer moderadamente) prósperos para refúgios suburbanos e extra-urbanos, produzindo um padrão grotesco e historicamente sem precedentes de desenvolvimento estilo ‘rosquinha’, com cidades que toleram – ou meramente se acomodam a – interiores arruinados e podres, nos quais pessoas sãs temem pisar. ‘Centro da cidade’ veio a significar quase exatamente o oposto do que um curso não distorcido de desenvolvimento urbano produziria. Esta é a expressão geográfica de um problema social ocidental – e especialmente americano – que é, de uma só vez, basicamente imencionável e visível do espaço sideral.

Surpreendentemente, a síndrome da rosquinha com núcleo quebrado tem um nome notavelmente insensível e ainda assim comumente aceito, que a captura em linhas gerais – pelo menos de acordo com suas características secundárias – e em um grau razoável de aproximação estatística: White Flight (Fuga dos Brancos). Este é um termo que prende, por uma variedade de razões. Ele é marcado, primeiro de tudo, pela bipolaridade racial que – como um arcaísmo vital – ressoa com a crise social crônica da América, em uma série de níveis. Embora superficialmente datado, em uma era de questões multiculturais e de imigração de muitos matizes, ele se reverte ao código morto-vivo herdado da escravidão e da segregação, perpetuamente identificada com as palavras de Faulkner: “O passado não está morto. Ele nem mesmo é passado.” Ainda assim, mesmo neste atípico momento de candura racial, a negritude é elidida e implicitamente desconectada da agência. É denotada apenas por alusão, como um resíduo, concentrado passiva e derivadamente pela função peneiradora de um pânico branco altamente adrenalinizado. O que não pode ser dito é indicado mesmo enquanto não é mencionado. Um silêncio distintivo acompanha a meia-expressão quebrantada de uma maré muda de separatismo racial, guiado por terrores e animosidades civilizacionalmente incapacitantes, cujas profundidades e estruturas de reciprocidade permanecem inconfessáveis.

O que o êxodo puritano do Antigo para o Novo Mundo foi para a fundação da modernidade anglófona global, o white flight é para o seu desgaste e dissolução. Assim como com a migração pré-fundadora, o que dá relevância inelutável ao white flight aqui é seu caráter sub-político: tudo saída e nenhuma voz. Ele é o ‘outro’ sutil, não-argumentativo e não-exigente da democracia social e seus sonhos – o impulso espontâneo do iluminismo sombrio, da maneira em que é inicialmente vislumbrado, de uma só vez desilusivo e implacável.

A rosquinha com o núcleo quebrado não é o único modelo de síndrome da cidade doente (o fenômeno da favela marginal enfatizado no Planet of Slums de Mike Davis é muito diferente). Tampouco o urbanismo do desastre-rosquinha é redutível à crise racial, pelo menos em suas origens. Fatores tecnológicos desempenharam um papel crucial (mais proeminentemente, a geografia do automóvel), assim como o fizeram outras tradições culturais de longa data (tais como a construção de subúrbios enquanto idílios burgueses). Ainda assim, todas essas linhagens foram, em medida muito grande, suplantadas ou, pelo menos, subordinadas ao ‘problema racial’ herdado e que ainda emerge.

Então, o que é este ‘problema’? Como ele está se desenvolvendo? Por que alguém fora da América deveria estar preocupado com ele? Por que levantar o tópico agora (ou jamais)? – Se o seu coração está afundando sob a sombria suspeita de que isto vai ser enorme, sinuoso, estressante e torturante, você está certo. Temos semanas pelas quais esperar nesta câmara de horrores.

As duas respostas mais simples, bastante amplamente mantidas e basicamente incompatíveis para a primeira questão merecem ser consideradas como partes importantes do problema.

Questão: Qual é o problema racial americano?

Resposta-1: Pessoas negras.

Resposta-2: Pessoas brancas.

A popularidade combinada destas opções é significantemente expandida, muito provavelmente para englobar a grande maioria de todos os americanos, quando se considera que ela inclui aqueles que assumem que uma destas duas respostas domina o pensamento do outro lado. Entre si, as proposições “O problema estaria acabado se pudéssemos simplesmente nos livrar dos vadios negros / racistas brancos” e / ou “Eles pensam que somos todos vadios / racistas e querem se livrar de nós” consomem uma proporção impressionante do espectro político, estabelecendo uma fundação sólida de terror e aversão recíprocos. Quando projeções defensivas são adicionadas (“Não somos vadios, vocês são racistas” ou “Não somos racistas, você são vadios”), o potencial para uma dialética superaquecida e não-sintetizadora se aproxima do infinito.

Não que estes ‘lados’ sejam raciais (exceto na fantasia tribal-nacionalista negra ou branca). Para estereótipos crus, é bem mais útil se voltar para a dimensão política principal e suas categorias de ‘liberal’ e ‘conservador’ no sentido americano contemporâneo. Identificar o problema racial da América com o racismo branco é a posição liberal estereotípica, ao passo que identificá-lo com a disfunção social negra é o exato complemento conservador. Embora estas posições sejam formalmente simétricas, é sua assimetria política real que investe o problema racial americano com seu extraordinário dinamismo histórico e significância universal.

Que os brancos e negros americanos – considerados grosseiramente como agregados estatísticos – coexistem em uma relação de medo recíproco e vitimização percebida é atestado pelos padrões manifestos de desenvolvimento e navegação urbana, escolha de escolas, propriedade de armas, policiamento e encarceramento, e quase todas as outras expressões de preferência revelada (ao contrário da afirmada) que estejam relacionadas à distribuição social voluntária e à segurança. Um equilíbrio objetivo de terror reina, apagado da visibilidade por perspectivas complementares, mas incompatíveis, de supremacismo e negação vitimológicos. Ainda assim, entre as posições liberal e conservadora sobre raça não há qualquer equilíbrio que seja, mas algo próximo de uma derrota. Os conservadores estão completamente aterrorizados com a questão, ao passo que, para os liberais, ela é um jardim de delícias terrenas, cujos prazeres transcendem os limites da compreensão humana. Quando qualquer discussão política chega firme e claramente ao tópico da raça, o liberalismo vence. Esta é a lei fundamental da efetividade ideológica à sombra fragante meia-luz da Catedral. Em certos aspectos, este desequilíbrio político dinâmico é até mesmo o fenômeno primário sob consideração (e muito mais precisa ser dito sobre isso, mais à frente).

A humilhação regular, excruciante e esmagadora do conservadorismo na questão da raça não deveria ser nenhuma surpresa para ninguém. Afinal, o papel principal do conservadorismo na política moderna é ser humilhado. É para isto que uma perpétua e leal oposição, ou bobo da corte, serve. O caráter essencial do liberalismo, enquanto guardião e proponente da fé espiritual neo-puritana, o investe com domínio supremo sobre a dialética, ou invulnerabilidade à contradição. Aquilo que é impossível de se pensar deve, necessariamente, ser adotado através da fé. Considere apenas a doutrina fundamental ou primeiro artigo do credo liberal, conforme promulgado através de toda discussão pública, articulação acadêmica e iniciativa legislativa relevante ao tópico: Raça não existe, exceto enquanto construto social empregado por uma raça para explorar e oprimir uma outra. Meramente entreter isso é estremecer antes à incrível majestade do absoluto, onde tudo é simultaneamente seu preciso oposto, e a razão evapora de maneira extasiante à beira do sublime.

Se o mundo fosse construído com ideologia, esta estória já estaria acabada ou, pelo menos, previsivelmente programada. Para além do aparente zigue-zague da dialética, há uma tendência dominante, que leva em uma direção única e inequívoca. Ainda assim, a solução liberal-progressista para o problema da raça – um ‘anti-racismo’ abrangentemente sistemático e dinamicamente paradoxal que se escala sem limites – confronta um obstáculo real que é apenas muito parcialmente refletido nas atitudes, retórica e ideologia conservadoras. O verdadeiro inimigo – glacial, incipiente e não-argumentativo – é o ‘white flight‘.

Neste ponto, uma referência explícita ao Caso Derbyshire se torna irresistível. Há uma quantia muito considerável de contexto histórico complexo e recente que clama por introdução – a convulsão cultural que acompanhou ao incidente Trayvon Martin em particular – mas haverá tempo para isso mais tarde (ah sim, eu temo que sim). A intervenção de Derbyshire e a explosão de palavras que ela provocou, embora em alguma medida iluminada por tal contexto, de longe o excede. Isso porque o termo crucial não dito, tanto no agora notório artigo curto de Derbyshire, quanto também – aparentemente – nas respostas que ele gerou, é ‘white flight‘. Ao publicar um conselho paternal para seus filhos (euroasiáticos) que foi – não inteiramente sem razão – resumido como ‘evite pessoas negras’, ele converteu a fuga dos brancos, de um fato muito lamentado, mas aparentemente inexorável, para um imperativo explícito, até mesmo uma causa. Não discuta, fuja.

A palavra que Derbyshire enfatiza, em sua própria penumbra de comentários e em escritos antecedentes, não é ‘fuga’ ou ‘pânico’, mas desespero. Quando perguntado pelo blogueiro Vox Day se ele concordava que a ‘race card’ (‘carta da raça’) havia se tornado menos intimidadora ao longo das últimas duas décadas, Derbyshire responde:

Um [fator], sobre o qual eu já escrevi mais de uma vez, eu acho, nos Estados Unidos, é simplesmente o desespero. Eu tenho uma certa idade e eu estava por aí 50 anos atrás. Eu lia os jornais e seguia o eventos mundiais e lembro do movimento dos direitos civis. Eu estava na Inglaterra, mas nós o acompanhávamos. Eu lembro dele, lembro do que sentíamos sobre ele e do que as pessoas estavam escrevendo sobre ele. Tinha muita esperança. A ideia na mente de todo mundo era que, se derrubássemos essas leis injustas e baníssemos toda essa discriminação, então seríamos curados. Então a América seria restaurada. Depois de um período intermediário de alguns anos, quem sabe, talvez 20 anos, com uma mão de coisas como a ação afirmativa, a América negra simplesmente se fundirá à população geral e a coisa toda simplesmente irá embora. Isso é o que todo mundo acreditava. Todo mundo pensava isso. E não aconteceu.

Aqui estamos, 50 anos mais tarde, e ainda temos essas tremendas disparidades de taxas de crimes, realizações educacionais e assim por diante. E eu acho que, embora eles ainda estejam declamando as banalidades, os americanos, em seus corações, sentem um tipo de desespero frio sobre isso. Eles sentem que Thomas Jefferson provavelmente estava certo e que não podemos viver juntos em harmonia. Acho que é por isso que você vê esse lento desagregamento étnico. Temos um sistema escolar muito segregado agora. Existem escolas a 10 milhas de onde estou sentado que são 98 por cento minorias. Na habitação residencial também é a mesma coisa. Então, eu acho que há um desespero frio e sombrio, à espreita no coração coletivo da América, sobre toda essa coisa.

Esta é uma versão da realidade que poucos querem ouvir. Como Derbyshire reconhece, os americanos são um povo predominantemente cristão, otimista, ‘dá pra fazer’, cujo ‘coração coletivo’ é incomumente mal-adaptado a um abandono da esperança. Esse é um país culturalmente programado para interpretar o desespero não meramente como erro ou fraqueza, mas como um pecado. Ninguém que entenda isto poderia ficar remotamente surpreso de encontrar o fatalismo hereditário desolador sendo rejeitado – tipicamente com hostilidade veemente – não apenas por progressistas, mas também pela esmagadora maioria dos conservadores. Na NRO, Andrew C. McCarthy sem dúvida falou por muitos ao observar:

Há um mundo de diferença, no entanto, entre a necessidade de ser capaz de discutir fatos desconfortáveis sobre QI e encarceramento, por um lado, e, por outro, insistir na raça como um fundamento para se abandonar a caridade cristã básica.

Outros foram muito além. No Examiner, James Gibson aproveitou “a torpe arenga racista de John Derbyshire” como uma oportunidade para ensinar uma lição mais ampla – “o perigo do conservadorismo divorciado do cristianismo”:

…uma vez que Derbyshire não acredita “que Jesus de Nazaré era divino …e que a Ressurreição foi um evento real”, ele não pode compreender o grande mistério da Encarnação, através da qual o Divino verdadeiramente assumiu carne humana na pessoa de Jesus de Nazaré e sofreu a morte nas mãos de uma humanidade caída, a fim de redimir esta humanidade de seu estado de queda.

Nisto jaz o perigo de uma filosofia sociopolítica conservadora divorciada de uma robusta fé cristã. Ela se torna uma ideologia morta, produzindo uma visão da humanidade que é tóxica, fatalista e (como Derbyshire prova de maneira abundante) pouco caridosa.

Foi, claro, na esquerda que os fogos de artifício realmente acenderam. Elspeth Reeve, no Atlantic Wire afirmou que Derbyshire se agarrara à sua relação com a National Review porque estava oferecendo aos “leitores menos iluminados” da revista o que eles queriam: “estereótipos raciais datados”. Assim como Gibson na direita, ela estava interessada em que as pessoas aprendessem uma lição mais ampla: não pense, nem por um minuto, que isto acaba em Derbyshire. (Vale a pena notar a seção de comentários incrivelmente pouco cooperativa de seu artigo.)

Na Gawker, Louis Peitzman diminui a qualidade (na direção aprovada) ao descrever a “horrível diatribe” de Derbyshire como “o artigo mais racista possível”, um julgamento que denuncia extrema ignorância histórica, uma vida protegida, inocência incomum e uma falta de imaginação, assim como faz o artigo soar bem mais interessante do que realmente é. Os comentadores de Peitzman são impecavelmente liberais e, claro, estão uniformemente, completamente, chocantemente assustados (ao ponto de um orgasmo). Para além do emocionar, Peitzman não oferece muito conteúdo, com exceção apenas de um pouco mais de emocionar – desta vez uma leve satisfação misturada com uma raiva residual – com as notícias de que a punição de Derbyshire havia pelo menos começado (“um passo na direção certa”) com seu “enxotamento” da National Review.

Joanna Schroeder (escrevendo em algo chamado Good Feel Blog) buscou estender o expurgo para além de Derbyshire, para incluir qualquer um que ainda não tenha irrompido em paroxismos suficientemente melodramáticos de indignação, a começar com David Weigel na Slate (que ela não conhece “na vida real, mas, ao ler este artigo, parece que você bem poderia ser um racista, cara”). “Há tantas… referências racistas e desumanizantes a pessoas negras no artigo de Derbyshire que eu tenho que me parar aqui, antes que reconte a coisa toda, ponto a ponto, fumegante de raiva”, ela compartilha. Ao contrário de Peitzman, contudo, pelo menos Schroeder tem um ponto – a dialética do terror racial – “…propagar a ideia de que deveríamos ter medo de homens negros, de pessoas negras em geral, torna este mundo perigoso para americanos inocentes”. Seu medo o torna assustador (embora aparentemente não com reciprocidade legítima).

Quanto a Weigel, ele entende o terror bem e arduamente. Em poucas horas, ele está de volta ao teclado, se desculpando por sua despreocupação anterior e pelo fato de que ele “acabou nunca dizendo o óbvio: Povo, o ensaio era repugnante”.

Então, o que Derbyshire realmente disse, de onde isso veio e o que isso significa para a política americana (e além)? Esta sub-série penteará por entre o espectro, da esquerda à direita, em busca de sugestões, com o pânico / desespero ‘branco’ sócio-geograficamente manifesto como uma linha guia…

A seguir: O Ecstasy Liberal

Original.

Re-Animador (Parte 5)

O Chamado de Haibao

Despachada do Consulado Britânico, a doutora Helen Goodwhite chega ao Hospital Especial de Jiangnan para Diabruras Estrangeiras Inexplicáveis, a fim de entrevistar um interno problemático.

Dra. Goodwhite: Como você está se sentindo hoje Senhor Vaughn? Disseram-me que você está bem mais calmo.

Vaughn: Ok, eu acho. Um pouco desorientado. Há quanto tempo…?

Dra. Goodwhite: Você se lembra por que está aqui?

Vaughn: Não exatamente

Dra. Goodwhite: Essas cicatrizes nos seus braços, alguma ideia?

Vaughn: [Hesitante] Algum tipo de acidente…?

Dra. Goodwhite: Eu tenho alguns relatos de testemunhas aqui, todos muito consistentes, talvez eles estimulem algo. Parece que você estava descendo a Nanjing East Road quando de repente você começou a guinchar “a-ya, a-ya, a-ya” com um sotaque chinês muito pouco convincente antes de mudar para o inglês e gritar “Sair. Sair. Temos que sair da cidade”. Depois disso, quando ninguém tomou nenhum conhecimento, você continuou a ‘berrar agressivamente’… Hmmm, vejamos [folheando suas anotações], ah sim, “Prole de Haibao, você são todos a maldita prole de Haibao, maldita prole zumbi do sangue-praga de Haibao”, e assim por diante, uma quantia considerável de obscenidades aparece e depois… ah, aqui somos “a maldita prole imunda intoxicada de futuro de Haibao, morrer, morrer, vamos todos morrer” et cetera, et cetera, et cetera. Aí você atravessou a rua correndo e arrebentou a janela de vidro laminado de uma loja de presentes da Expo com as mãos. [Olhando para cima] Você lembra de alguma dessas coisas, senhor Vaughn?

Vaughn: Algumas, sim. Agora que você mencionou. Está voltando. Mas não foi realmente assim.

Dra. Goodwhite: Não foi?

Vaughn: Na realidade, não. Pelo menos, essas coisas aconteceram, sim…

Dra. Goodwhite: Aconteceram?

Vaughn: Sim, mas é só, o que significam… [hesitando]

Dra. Goodwhite: Continue.

Vaughn: Bem, elas não significam nada, claro, o que eu quis dizer foi, bem, foi meio que um erro.

Dra. Goodwhite: Um ‘erro’?

Vaughn: Sim, ou, eu acho, mais um mal entendido.

Dra. Goodwhite: Temo que você vá ter que ser bem mais específico se formos fazer qualquer progresso.

Vaughn: É bem complicado.

Dra. Goodwhite: Por favor. Só comece do começo.

Vaughn: Suponho que tenha começado no pavilhão.

Dra. Goodwhite: O pavilhão do Reuno Unido na Expo?

Vaughn: Eu estava trabalhando lá, sabe.

Dra. Goodwhite: Está no arquivo.

Vaughn: Então você sabe qual a aparência dele.

Dra. Goodwhite: Sim, claro.

Vaughn: Os tentáculos, o cintilar, o nome como uma provocação… deles.

Dra. Goodwhite: Chamava-se ‘Seed Cathedral’, de acordo com isto.

Vaughn: Seed Cathedral, Sea Cthudral, que seja, foi mandado de volta, para cima, para nos mostrar sua verdadeira ‘face’.. Pelo menos, foi o que eu pensei na hora, mas isso é bem ridículo, né? Estou percebendo agora.

Dra. Goodwhite: Mas ‘na hora’ você pensou que ‘eles’ tinham ‘mandado ela de volta’?

Vaughn: Eu tinha trabalhado muito duro. Foi bem estressante, sabe. Eu não estava dormindo bem, me preocupando e foi aí que eles começaram a conversar.

Dra. Goodwhite: Quem eram ‘eles’, Senhor Vaughn?

Vaughn: Os Haibao, claro.

Dra. Goodwhite: Ah sim, o mascote da Expo…

Vaughn: Máscara, não mascote.

Dra. Goodwhite: Você sabia que o Pavilhão Corporativo de Shanghai foi desfigurado com uma tinta luminosa azul, na note de nove de setembro? [Ela passa um fotografia.]

Vaughn: [Estremece silenciosamente]

Dra. Goodwhite: A mensagem é um tanto críptica, mas suas palavras me lembraram dela, por alguma razão. É um pouco difícil de ler pela foto, mas eu tenho uma transcrição. “Somos muitos e, no entanto, singulares. Nosso nome é igual a 90, o vácuo fervilhante, que envolve a inteligência artificial e o alfa-ômega terminal. Viemos das profundezas, da tela azul no fim do mundo. Cthublue.”

Vaughn: Eu não sei nada sobre isso.

Dra. Goodwhite: É mesmo?

Vaughn: É cultismo Haibao, dos fortes. Eu nunca tocaria nisso — nunca.

Dra. Goodwhite: E no entanto, você parece reconhecer.

Vaughn: Dos sonhos — sonhos ruins, realmente ruins. Eu lhe disse, eu não estava dormindo bem. Eles não paravam de conversar, de me dizer coisas que eu não queria ouvir, não conseguia pará-los. Eu tentei, mas eles continuaram me chamando.

Dra. Goodwhite: Chamando-lhe para se curvar perante o mais elevado?

Vaughn: [Indignado] Eu nunca disse isso. Eu nunca diria isso. É absurdo, obsceno. Não é nem mesmo um código.

Dra. Goodwhite: [Verificando suas notas]. Então, você entende agora que ‘hairy crab’ não é um anagrama secreto para ‘Haibao’?

Vaughn: Sim, posso ver isso, claro.

Dra. Goodwhite: Não está nem perto, na verdade — letras demais, pra começar.

Vaughn: Bem, seis e nove são gêmeos rotacionais, e ‘o’ é um ‘cry’. [Soluça levemente]… É tudo sem sentido. Eu vejo agora. Eu estava confuso.

Dra. Goodwhite: O problema, Mister Vaughn, é que esse assunto ainda parece lhe excitar de uma maneira um tanto desproporcional. Acho que precisamos conduzir um pequeno teste. Vamos ver o que acontece quando comparamos isso [ela pega sua bolsa e tira dela a estatueta de uma abominação com tentáculos na face, esculpida há muito tempo por alguma tribo de uma ilha no Pacífico, presumida estar extinta] com isto [um boneco azul ameno, cartunesco e vagamente antropomórfico, sugestivo de um anúncio de pasta de dentes para crianças]. A similaridade não é especialmente impressionante, é?

Vaughn: Não, não, não, não, NÃOOOOOOOOOO.

Dra. Goodwhite: Perdão, o quê?

Vaughn: [Em uma voz quase indiscernível] Os profundos.

Dra. Goodwhite: Não captei essa.

Vaughn: Das profundezas, o oceano — os profundos. Eles vêm do mar — ‘tesouro do mar’ [ri morbidamente]. Até você tem que entender essa, doutora. Globalização, tecno-capitalismo, Shanghai, invasão alienígena, a Coisa — dificilmente poderia estar mais claro. Escapou do abismo, e agora está exposta. O tempo chegou. Mudança Marítima, Modernidade, chame do que quiser, não importa. Os Haibao nos contarão como pensar bem em breve, e obedeceremos, porque estão atrás de nós, sob nós, e descascaremos do que eles sempre foram como pele morta de uma cobra. Eles já nos mostraram a derradeira cidade deus, então não demorará. Suas palavras estão chegando, sussurros, murmúrios…

Dra. Goodwhite: [Inquieta] Oabiah nasce zhee ute ewoit.

Vaughn: Perdão?

Dra. Goodwhite: Isso não significa nada para você?

Vaughn: Nada

Dra. Goodwhite: Estranho, então, que esteja tatuado no seu braço.

Vaughn: Não tenho ideia de como chegou aí

Dra. Goodwhite: Certo, vamos seguir em frente, sim?

Vaughn: Seguir para onde, doutora? Já estamos aqui, na cidade no fim do mundo, a coisa que saiu do mar. Não vamos a lugar nenhum. Ela está vindo até nós, agora mesmo, e não pode ser parada. O que você esperava? Uma Nova Jerusalém? [gargalhando desagradavelmente]

Dra. Goodwhite: Certo, Senhor Vaughn, creio que estamos terminados aqui. Precisamos lhe dar uma atenção apropriada e profissional. Aí, depois de algum descanso, de volta à sua família…

Vaughn: [Gargalhada prolongada, ainda mais medonha] Tarde demais, doutora! Muito tarde demais. Os Haibao já a tomaram. Vieram até as crianças primeiro, você não percebe isso? Você sabe quantos bonecos Haibao minhas doces criancinhas acumularam? [Voz falhando] Dezessete! Elas bem podem estar com tentáculos saindo dos olhos — equivaleria à mesma coisa. Os Haibao derreteram suas almas na tela azul meses atrás. Essa geração se foi. Há muito tempo. Tinha acabado mesmo antes dos clones Haibao terem deslizado para fora da televisão.

Dra. Goodwhite: [Recuando nervosamente] Essa foi uma conversa muito interessante, mas eu realmente tenho que ir agora. Eu direi ao consulado que… que…

Vaughn: [Distraído, contemplando o azul] Eles querem nos transmutar — nos substituir — por algo indizível, por uma monstruosidade biônica de além da tela azul. Nossas metrópoles estão se tornando… Na verdade, elas nunca foram nossas. Os profundos, os Haibao, sempre as usaram para nos modificar, nos usando para fazê-las — esse é o circuito: animação alienígena. Era um jogo cósmico, uma aposta, e agora eles a estão recolhendo…

Dra. Goodwhite: [Fica pálida, uma horrível compreensão lhe ocorrendo] Cidade melhor, vida melhor…

Original.