Política Pronta Para Usar

Compre a ideologia de sua escolha e comece com guias de auto-doutrinação de fácil uso. Um recurso valioso para os perplexos. (Um pouco de educação genuína está disponível para o leitor cético.)


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Tecno-Leviatã

Escrevendo na E-International Relations, Brett Scoot levanta uma crítica de Esquerda à revolução do blockchain, em um nível estimulante de sofisticação teórica. Seu argumento central é importante: Cripto-sistemas de blockchain são a realização tecnológica do impulso "distópico e conservador" — primeiro cristalizado por Thomas Hobbes — de se estabelecer uma soberania politicamente imunizada. Esse modelo social, previamente subvertido pela falível humanidade dos líderes, está finalmente se tornando alcançável na forma de um governo algorítmico, o Tecno-Leviatã de Scott:

Libertários conservadores se mantém firmes na crença de que, se apenas direitos de propriedade fortes e regras claras de contratação fossem postos em prática, sistemas ótimos espontaneamente emergiriam. Na verdade, eles não estão tão longe de Hobbes nesse sentido, mas sua irritação com a visão de Hobbes é que ela depende de políticos que, sendo pessoas reais, não agem como um Soberano contratual desapegado deveria, mas sim tentam intervir, tornar as coisas melhores, ou roubar. Blockchains descentralizados não oferecem o prospecto derradeiro de direitos protegidos de propriedade com regras claras, mas sem a interferência política?

Scott navega o Teste de Turing Ideológico bem o suficiente para se tornar um ponto de referência em discussões futuras. Seus oponentes, sem dúvida, em muitos casos concederão (como esse blog) que a ‘distopia’ que ele descreve, embora retratada em tons agourentos e fúnebres, captura notavelmente bem os apegos — e des-apegos — dos zelosos promotores do blockchain.

Scott claramente pensa que a confiança política é um bem social que pode ser reconstruído ou recuperado (talvez reinicializando-se a democracia). Ainda que assim o seja, o tempo restante para essa operação de salvamento está acabando rápido


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Sobre o #Acelerar (#2b)

"Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo", diz o #Acelerar, de maneira incontestável. "O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social."

Como anteriormente observado, das tendência aqui referidas, o "crescimento econômico" é facilmente a mais acessível (devido a sua auto-quantificação comercial). A compreensão tecnocientífica sobre a tecnociência, embora já embriônica no começo da época moderna, ainda está a alguma distância da auto-compreensão matemática enquanto evento natural. Sua quantificação, portanto, apresenta problemas bem mais desafiadores, deixando até mesmo questões bastante básicas sobre suas linhas de tendências abertas a controvérsias significativas. (A auto-quantificação das tendências de desenvolvimento nos setores de eletrônicos e biotecnologia merecem uma atenção focada em um estágio posterior.) Qualquer tentativa de fornecer uma medida precisa e coerente de "mobilidade social" provavelmente enfrentará obstáculos ainda mais formidáveis.

O capitalismo se apresenta como o mega-objeto acelerativo exemplar porque ele é auto-propulsor e auto-abstrator (por excitação cruzada). Em ambos os seus aspectos técnico e comercial, ele tende a potenciais de propósito geral que facilitam realocações de recursos (e, assim, quantificações eficientes). A capacidade produtiva é plastificada, ficando cada vez mais sensível a mudanças nas oportunidades de mercado, ao passo em que a riqueza é fluidizada, permitindo sua rápida mobilização especulativa. O mesmo processo auto-reforçador que liquida as formas sociais tradicionais libera o capital modernizante como quantidade abstrata volátil, flexivelmente equilibrada entre aplicações técnicas e intrinsecamente inclinada a uma compreensão ‘decodificada’ ou econômica.

Sob a orientação do capital, a modernização da riqueza tende à efetivação de um potencial produtivo abstrato, o que seria dizer, é claro: ela tende ao próprio capital, no circuito de auto-propulsão que o determina como uma hiper-substância genética (ou até mesmo teleológica). Neste ponto, chega-se a uma bifurcação teórica complexa, a partir da qual os caminhos levam a uma série de direções marxianas e decididamente anti-marxianas. A questão primária é se o corpo abstrato do capital é suscetível a uma conversão matemática consistente que se conforme à Lei do Valor, que a interpreta como uma reificação da força de trabalho organicamente composta (entre variável e fixa, ou ‘viva’ e ‘morta’). A coisa acelerativa pode ser reconhecida, de maneira prática, como a capacidade coletiva alienada de uma futura humanidade sem classes?

O #Acelerar considera que esta questão foi satisfatoriamente resolvida com antecedência e respondida na afirmativa. Uma vez que ele não fornece nenhuma referência que sustente essa posição, ele tem que ser considerado um documento identitário da esquerda. Apenas aqueles que afirmam o fechamento anterior de suas questões fundamentais são capazes de acessá-lo no nível de sua própria retórica. Ele assume a solidariedade ideológica como uma preliminar extrínseca e sem marcas.

Intrometer-se, no entanto, a partir de um problema aberto da ontologia capitalista, é navegar o caos. As passagens relevantes são encontradas na segunda parte do manifesto, que consiste de sete parágrafos numerados. Tudo o que nos é dito sobre a coisa acelerativa tem que ser extraído deles … ou quase tudo.

É notável que o primeiro uso de ‘acelerar’ no manifesto é tanto crítico quanto quase desdenhosamente casual. Ela ocorre no terceiro parágrafo da introdução, onde se resume um conjunto de "catástrofes em contínua aceleração":

… colapso do sistema climático do planeta [que " ameaça a continuação da existência da população humana em todo o globo"] … O esgotamento terminal de recursos, especialmente das reservas de água e energia [elevando "a perspectiva de fome em massa, colapso dos paradigmas econômicos e novas guerras frias e quentes"] …incessante crise financeira [que] levou governos a abraçar espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial. [E] automação crescente nos processos produtivos, inclusive no trabalho intelectual, [que] evidencia a crise secular do capitalismo, em vias de se tornar incapaz de manter os atuais padrões de vida mesmo para as antigas classes médias do norte global.

Isso, de maneira bastante clara, é seu retrato introdutório lúgubre da coisa acelerativa, como ela é em si mesma, convergindo para uma singularidade histórica terminal, ou uma abrangente crise ecológica, econômica e tecnológica de super desempenho. Ela é tanto a coisa sobre a qual o #Acelerar quer falar, quanto a coisa sobre a qual ele decide explicitamente não falar — introduzida como palco teatral, ou um lembrete de algo antes e fora da discussão, que pode ser posteriormente assumido. A função retórica é completamente inequívoca: essa lista serve como uma enumeração daquilo que não precisa mais ser discutido. É infeliz, portanto, para dizer o mínimo, que essa parece ser a abordagem mais próxima, dentro do #Acelerar, ao objeto real da atenção aceleracionista, "ganha[ndo] força e velocidade, [conforme] a política abranda e recua" até que "o futuro" que nos foi prometido seja "cancelado" (ainda que apenas através de uma falha retificável do "imaginário político"). O inimigo é uma coisa acelerativa, mas o #Acelerar discutirá alguma outra coisa.

Antes que o capitalismo caia inteiramente no pano de fundo nebuloso da narrativa implícita, vale a pena fazer uma breve digressão ao "imaginário político" e sua sugestão. Se há uma única fórmula que cristaliza a apropriação esquerdista do aceleracionismo como puro colapso cognitivo é a afirmação de Frederic Jameson — obsessivamente repetida por toda a Web Esquerdista — de que Agora é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo. Para compreender a profunda falta de atenção desse pronunciamento, é necessário apenas retornar ao pensamento de abstração real, através do qual a virtualização realizada pelo capitalismo é distinguida de qualquer determinação da abstração enquanto propriedade lógica da representação intelectual. Dentro dos mercados de futuros capitalistas, o não-atual tem circulação efetiva. Ele não é um "imaginário", mas uma parte integral do corpo virtual do capital, uma realização do futuro operacionalizada. É difícil imaginar que a Esquerda esteja disposta a seguir o caminho definido aqui, portanto, a menos que seja através de uma falta de pensamento de proporções simplesmente desconcertantes, uma vez que ele necessariamente leva à conclusão: ao passo em que o capital tem um futuro cada vez mais densamente realizado, seus inimigos esquerdistas têm manifestamente apenas um de faz de conta.

Uma vez que a Seção Dois do #Acelerar é um matagal densamente emaranhado de ultrajes conceituais, vale a pena relembrar mais uma vez suas duas primeiras frases, que são excepcionais (neste contexto) por sua sanidade:

Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo. O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social.

O objeto primário do Aceleracionismo é o crescimento econômico, conforme demonstrado, de maneira capitalista, em um processo inextricavelmente vinculado ao desenvolvimento tecnológico orientado para a competição, e também à desorganização social. Se o #Acelerar concluísse aqui, não haveria nenhum argumento a ser feito contra ele. Infelizmente, ele continua por entre uma sequência de frases tão radicalmente desordenadas que nenhuma busca elegante de seu argumento é possível. Em vez disso, ele demanda uma série fragmentária de correções, objeções e reanimações de problemas obscurecidos, parcialmente enterrados e arbitrariamente suprimidos.

A descida começa imediatamente: "Em sua forma neoliberal, essa auto-apresentação ideológica é uma das forças de liberação das forças de destruição criativa, liberando inovações tecnológicas e sociais em contínua aceleração".

Por que o termo ‘destruição criativa’ (cunhado por Joseph Schumpeter em 1942) está sendo associado ao ‘neoliberalismo‘ aqui? Schumpeter o considerava aplicável ao capitalismo em geral, com abundante razão, e o #Acelerar não articula nenhuma objeção a esse uso padrão. Se o ‘neoliberalismo’ é a ideologia da destruição criativa, ele é a ideologia do capitalismo em geral.

Na introdução, nos é dito que, "desde 1979", o neoliberalismo tem sido "a ideologia política globalmente hegemônica … encontrado com algumas variantes entre os principais poderes econômicos". Ele é caracterizado, aparentemente, por "ajustes estruturais … em especial, encorajando novas e agressivas incursões do setor privado sobre o que resta das instituições e serviços socialdemocratas". Isso, também, soa como simples capitalismo (como também o faz "neoliberalismo landiano"). A vacuidade do termo apenas ressoa sonoramente com cada uso sucessivo. O ‘neoliberalismo’ é criticado porque ele não é nada além do capitalismo (pós-1979), e não é criticado por nenhuma outra razão. No #Acelerar, se não em outros lugares, ele não tem nenhum conteúdo ideológico distinguível do liberalismo clássico, tornando-a uma palavra perfeitamente inútil. A opacidade serve apenas para contrabeandear duas sugestões prepósteras: (1) A cacofonia das críticas esquerdistas ao ‘neoliberalismo’ compartilha algum cerne coerente de análise política e econômica. (2) As ideias sócio-econômicas liberais clássicas gozam de uma hegemonia essencialmente imperturbável sobre a atual ordem mundial. (Você não sabia que Keynes está morto, e que os Libertários governam a terra?)

(Então, por que não começar a chamar os marxistas fundamentalistas de hoje de ‘neo-coletivistas’, enquanto se implica que o planejamento central industrial estalinista é o arranjo econômico dominante do mundo? — Porque isso seria patentemente ridículo e insensatamente irritante, mas, na verdade, não mais do que a alternativa ‘neoliberal’.)

O tique ‘neoliberal’, embora enfurecedor em sua idiotice presunçosa, na verdade é tão vazio que importa pouco para o argumento do #Acelerar. Seu efeito é meramente servir como um truque de mãos, que apresenta um oponente cartunesco para distrair da ausência de uma atenção concentrada no alvo de uma análise e crítica realistas: a coisa acelerativa. O segundo desvio teórico a aparecer é pouco menos evasivo, o qual se trata de deslizar o problema ontológico central para um ‘esclarecimento conceitual’ de um desleixo surpreendente.

Sabemos pelo dicionário infantil que a aceleração é uma mudança de velocidade ao longo do tempo, o que não impede o #Acelerar de alegar (sem qualquer evidência óbvia):

O filósofo Nick Land captou isso [a dinâmica do capital ou a ideologia neoliberal?] de forma mais certeira, com uma crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global em direção a uma singularidade tecnológica sem paralelos. … o neoliberalismo de Land confunde velocidade com aceleração. Podemos estar nos movendo rapidamente somente dentro de um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas que jamais oscilam. Experimentamos apenas a crescente velocidade de um horizonte local, uma simples arremetida descerebrada; ao invés de uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades. É este último modo de aceleração que tomamos por essencial.

(1) Velocidade não é aceleração.
(2) Uma singularidade que se aproxima é marcada pela aceleração, não pela velocidade constante.
(3) Quem jamais falou sobre "se mover rapidamente" nesse contexto? Isso carece até mesmo da dignidade de um espantalho. O que ‘rápido’ significa? A aceleração não precisa sequer ser ‘rápida’ (apenas ‘ficando mais rápido’).
(4) O apelo para algo para além de "um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas" é mero aceno de mãos. A funcionalidade econômica é um ‘parâmetro’ confinador (para a aceleração)? Há claramente um tentativa de algum tipo de argumento transcendental aqui, marcado pelo apelo aos "parâmetros capitalistas que jamais oscilam". O próprio ‘parâmetro’ oscila entre um uso lógico e um empírico, um conceitualmente definidor e o outro materialmente constrangedor. Se o #Acelerar pensa que pode produzir um conceito significativo de aceleração sem parâmetros, seria algo emocionante de se ver (tempo, massa terrestre, leis físicas, herança biogeológica … são todos ‘parâmetros’). ‘Parâmetros’ capitalistas (indefinidos) devem ser, por alguma razão, aceitáveis como especialmente constrangedores, contudo. Argumento? Claro que não, este é um artigo de fé indisputável.
(5) Se alguém sabe o que "a crescente velocidade de um horizonte local" significa, por favor me conte. Pelo menos é algum tipo de "velocidade crescente", no entanto, ou seja, uma aceleração. Este é um sinal de que o #Acelerar pensa que a diferença entre velocidade e aceleração é trivial demais para se reconhecer, de modo que sua discussão sobre a aceleração não é, na verdade, sequer sobre aceleração, mas sobre algum muito mais profundo e ‘pós-paramétrico’? Talvez, porque…
(6) Para além da "uma simples arremetida descerebrada" (algo certamente está ‘descerebrado’) …
(7) Há "uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades". …e isso está, de alguma forma, conectado ao, é mensurável como, ou pode ser explicado em termos de algum processo rigorosamente determinável de aceleração (ainda que apenas aproximadamente) como?
(8) Independente disso: "É este último modo de aceleração que tomamos por essencial".

Esse tipo de coisa é a destruição direta e radical da inteligência. Começamos com um conceito definido (‘aceleração’) e um tópico de investigação ou crítica (a coisa acelerativa). Agora, a menos da metade do caminho do #Acelerar, não tem nenhum dos dois. Em vez disso, somos deixados com algum tipo de "modo de aceleração" supra-paramétrico trans-horizonal imaginário que foi deliberadamente destituído tanto de sentido, quanto de referência. A única realização teórica foi cinzelar de maneira brutal essa ideia política ontologicamente inefável para fora do único processo historicamente evidenciado de navegação, experimentação e descoberta acelerantes conhecido na história humana, a fim de lançá-la em um além miticamente inspirador. Começando com uma máquina sócio-técnica auto-propulsora ciberneticamente inteligível, não acabamos com nada além da declaração inflexível de que, o que quer que ‘ela’ (a aceleração histórica) seja, ela não é isso, ou qualquer coisa que possamos entender, apesar do fato de que o que sabemos sobre ‘ela’ é inteiramente extraído da realidade cumulativa sendo abandonada.

Como Marx sabia, o capitalismo não pode ser identificado como o agente da verdadeira aceleração.

Pelo contrário. O único "agente da verdadeira aceleração" reconhecido por Marx é a burguesia revolucionária — seu representante humanístico para a agência do capital. O proletariado não acelera nada, exceto em sua função enquanto força de trabalho sob os imperativos do capital. Ele herda uma pré-história acelerativa concluída, no momento de sua própria auto-dissolução revolucionária em uma humanidade universal.

Ao contrário do #Acelerar, Marx não trabalhava sob nenhuma ilusão de que a coisa acelerativa não era o capital, cujo mecanismo ele se devotou a entender, até a quase perfeita exclusão de todos os outros tópicos. Ao nos voltarmos para o entendimento de Marx sobre essa coisa [semana que vem], parcialmente nos retiramos dos erros caóticos do atual Aceleracionismo de Esquerda, embora talvez permaneçamos próximos o suficiente para irritá-lo.

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O Fascismo que Venceu

Chamar alguém de fascista tende a ser uma ótima maneira de acabar com uma conversa. Primeiro na Esquerda e mais recentemente na Direita, o valor abusivo desse termo foi avidamente aproveitado. Na medida em que tal uso merece a atribuição de uma ‘lógica’, ela é aquela do reductio ad absurdum — um argumento ou posição que possa ser identificada como fascista por implicação é, por isso, imediatamente descartado. O fascismo é analisado apenas na medida em que é necessária para colar o rótulo no outro cara.

Entre as razões para se lamentar essa situação está o véu que ela lança sobre o triunfo do fascismo enquanto fato histórico decisivo do século XX. Embora a derrota do eixo ‘fascista’ central na Segunda Guerra Mundial tenha deixado a ideologia desprovida de defensores confiantes, reduzindo-a a seu significado meramente abusivo, ela também fomentou a ilusão de que as potências vitoriosas eram essencialmente ‘anti-fascistas’ — ao ponto de uma exerção militar extrema. A realidade histórica, em contraste, é descrita de maneira bem mais precisa pela convergência dramática acerca de ideias fascistas, tanto pela Esquerda quanto pela Direita, como exemplificado pela ascensão do nacionalismo pragmático sobre o coletivismo radical no mundo comunista e do gerencialismo estatal sócio-democrata sobre o ‘liberalismo clássico’ laissez-faire no Ocidente. Com uma discussão calma sobre essa formação de ‘terceira posição’ tornada quase impossível, a tentativa crucial de entender sua especificidade sócio-histórica é desviada para uma polêmica estéril.

O arque-druida americano John Michael Greer talvez esteja suficientemente distante das previsíveis controvérsias entre esquerda e direita para fazer uma diferença com sua série em três partes de posts sobre a realidade histórica do fascismo. Ao invés de atacar o fascismo (pela Esquerda) por seu capitalismo residual ou (pela Direita) por seu anti-capitalismo inovador, Greer prioriza a tarefa filosófica de uma retificação das palavras:

Quando George Orwell escreveu sua tremenda sátira da política totalitária, 1984, um dos temas centrais que ele explorou foi o aviltamento da língua por vantagens políticas. Esse hábito encontrou seu emblema duradouro na língua inventada de Orwell, a novilíngua, que era deliberadamente projetada para ficar no caminho de um pensamento claro. A novilíngua permanece ficcional — bem, mais ou menos — mas todo o tema do fascismo e, de fato, a própria palavra ficaram emaranhados em uma rede de língua aviltada e pensamentos incoerentes tão extrema quanto qualquer coisa que Orwell tenha colocado em seu romance.

Hoje em dia, para ser mais preciso, a palavra "fascismo" funciona, em sua maior parte, como o que S. I. Hayakawa costumava chamar de palavra-grunhido — um ruído verbal livre de conteúdo que expressa emoções raivosas e nada mais. …Para se superar tais tolices, vai ser necessário tirar o tempo para se erguer para fora do pântano de novilíngua que cerca o tema do fascismo — para reconectar as palavras com seus significados, e os movimentos políticos com seus contextos históricos

A discussão de Greer é tão eloquente e penetrante que seria redundante repeti-la aqui. Ela merece a leitura cuidadosa mais ampla possível e uma reflexão subsequente. (O Urbano Futuro endossa todo o argumento, com apenas as reservas mais marginais sobre pontos comparativamente insignificantes.)

Em vez de repetição sem sentido, uma questão. Dado que a história conspirou para tornar a palavra ‘fascismo’ ilegível e, assim, não apenas obscureceu a tendência dominante na organização social mundial, mas também retirou todos os anticorpos eficazes contra movimentos ressurgentes do tipo fascista clássico, há algum caminho realista até uma restauração da lucidez política? O mundo está condenado à cegueira persistente sobre o que é e sobre o que poderia, de maneira ainda mais desanimadora, se tornar? Se existe qualquer razão para encorajamento nesse aspecto, a evidência é tênue.

A conclusão de Greer parece não menos sombria. Ao se aproximar dela, ele comenta:

Os movimentos fascistas das décadas de 1920 e 1930 estavam… intimamente sintonizados com as esperanças e medos das massas, bem mais do que qualquer um dos partidos principais ou dos grupos radicais estabelecidos de seus respectivos países. Ao contrário do "fascismo" imaginado da retórica radical moderna, eles eram uma alternativa aos negócios como de costume, uma alternativa que se posicionava firmemente no centro abandonado do discurso político de suas eras. …Antissemitismo e militarismo explícito eram socialmente aceitáveis na Alemanha do entre-guerras; eles não são socialmente aceitáveis nos Estados Unidos de hoje e, assim, não desempenharão um papel em um movimento neofascista de qualquer importância no futuro americano. O que desempenhará tais papeis, claro, são os tropos e bordões que apelam aos americanos hoje, e esses podem muito bem incluir os tropos e bordões que mais apelam a você.

[ADICIONADO]: (Para os fregeanos por aí) Sinn diferente, mesmo Bedeutung: ‘estrela da manhã’ e ‘estrela do entardecer’; ‘Neoliberalismo‘ e O Fascismo que Venceu.

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‘Neoliberalismo’

É absolutamente óbvio que qualquer engajamento com a versão atual mais proeminente do pensamento aceleracionista — ou, de fato, com qualquer discussão dominada pela esquerda hoje — vai encontrar o termo ‘neoliberalismo‘ como uma referência onipresente. Uma irritabilidade pura não servirá como resposta por muito tempo.

Por que qualquer irritação que seja? De maneira mais imediata, porque a referência desse termo é uma bagunça que se alastra. Ele é empregado de maneira ambígua para descrever uma época e uma ideologia. A evidente duplicidade disso está na suposição tácita de que a ideologia define a época — uma afirmação histórica e política vasta, assim como implausível — que evade uma interrogação sistemática através do desleixo terminológico.

Pior ainda, as características da ideologia ‘neoliberal’ são elas mesmas remendadas, primariamente por uma miscelânea de polêmicas anti-capitalistas teoricamente empobrecidas, vindas de todo o mundo, com a consequência de que sua única característica consistente é o mero fato de ter uma oposição esquerdista (em algum lugar). Como a explicação da Wikipédia (linkada acima) deixa claro, qualquer política econômica em qualquer lugar que não seja positivamente hostil ao mercado e que se encontre comentada de maneira antagonista pela esquerda é ‘neoliberal’.

Quando todos esses fatores compostos de imprecisão são levados em consideração, é fácil ver por que o significado de ‘neoliberal’ pode variar — no mínimo — de um keynesianismo marginalmente reformista do mercado (Clinton), passando por um capitalismo autocrático (Pinochet) até um ‘hiper-capitalismo’ libertário extremo (em nossos sonhos). Sua aplicação global, para incluir — por exemplo — o Círculo do Pacífico dominado por chineses étnicos (e o continente chinês após a Reforma-e-Abertura), é ainda mais descuidadamente gestual. Se a Nova Política Econômica de Lenin em 1921 não era ‘neoliberal’, é difícil ver por quê — a menos que a ausência de uma oposição de esquerda seja suficiente como explicação. Uma palavra tão desleixada — tradicionalmente enraizada na demagogia latino-americana anti-mercado, mas desde então adotada de maneira geral como o equivalente linguístico de uma camiseta do Che Guevara — não tem nenhum uso analítico sério.

A moda é imprevisível, mas parece muito improvável que essa palavra esteja indo a qualquer lugar. Seu significado totêmico dentro do esquerdismo tribal é suficiente para garantir sua persistência — o que seria dizer que a sinalização radical chique do SWPL ficaria significativamente incomodada sem ela. Seria possível, então, rigorizá-la?

Isso exigiria delimitação, ou seja: especificidade. Dada a utilidade política da palavra, existem poucas razões para otimismo nesse aspecto. David Harvey, por exemplo, que devotou um livro ao ‘tópico’ (Neoliberalismo: História e Implicações, 2005), não produz nenhuma definição clara além de capitalismo ressurgente, na medida em que isso ocorreu com a recessão parcial do planejamento central a partir do final dos anos 1970. Sem surpresas, portanto, quanto mais classicamente liberais as políticas se tornam, mais ‘neoliberal’ ela também é. O ‘neo-‘, no fim das contas, não significa mais do que um enfurecido "você deveria estar morto, porra". O neoliberalismo, então, é uma orientação capitalista que sobreviveu às expectativas, e uma vez que as expectativas foram aprofundadas até fundações imóveis, é a sobrevivência que requer uma designação explícita.

Qualquer coerência leve (e estritamente polêmica) que possa ser tirada de Harvey é jogada de volta ao caos pelo artigo de Benjamin Noys, "The Grammar of Neoliberalism" ("A Gramática do Neoliberalismo") (2010). Longe de descrever a reversão parcial a arranjos orientados ao mercado na esteira de suposições social-democráticas hegemônicas, Noys identifica o ‘neoliberalismo’ com o capitalismo supervisionado pelo estado, introduzido nas décadas de 1920 e 1930, isto é, exatamente a ordem econômica que o ‘neoliberalismo’ de Harvey derruba.

Tomado em seus próprios termos — ao invés de como uma defesa de uma palavra intrinsecamente enganosa — o argumento de Noys é altamente interessante. Sua direção geral é capturada na seguinte passagem [marcas de citação subtraídas]:

Qual é a natureza precisa, então, do neo-liberalismo? Claro, a óbvia objeção à visão ‘anti-estado’ do neo-liberalismo é que o neo-liberalismo em si é uma forma contínua de intervenção estatal, usualmente resumida na frase ‘socialismo para os ricos, capitalismo para os pobres’. Foucault observa que o neo-liberalismo concede isso: ‘a intervenção governamental neo-liberal não é menos densa, frequente, ativa e contínua do que em qualquer outro sistema’. A diferença, contudo, é o ponto de aplicação. Ele intervém na sociedade ‘de modo que mecanismos competitivos possam desempenhar um papel regulatório em todo momento e em todo ponto na sociedade e, ao intervir dessa maneira, seu objetivo se tornará possível, isto é, uma regulação geral da sociedade pelo mercado’. Portanto, perdemos o foco de simplesmente deixarmos uma crítica do neo-liberalismo no ponto de dizer ‘o neo-liberalismo é tão estatista quanto outras formas governamentais’. Em vez disso, a necessidade é analisar como o neo-liberalismo cria uma nova forma de governamentalidade na qual o estado desempenha uma função diferente: permear a sociedade para sujeitá-la ao econômico

Deixando de lado a questão do poder de persuasão desse argumento (para outra hora), a coisa essencial a se notar é que ele representa uma disputa pelo termo negligentemente trôpego ‘neoliberalismo’ que Noys tem pouca chance realista de ganhar — ‘ganhar’, isto é, com abrangência suficiente para salvar a palavra. Se ‘neoliberalismo’ significasse em geral uma variante altamente estatista da organização ‘capitalista’, originando-se primeiro na era do alto-modernismo, na qual — em contraste com o estatismo da esquerda — o papel do estado era especificamente dirigido a impor um simulacro administrativo da ordem social cataláctica, ela se tornaria uma palavra valiosa e teoricamente funcional. Isso aconteceria até mesmo se a própria teoria fosse criticada, emendada ou rejeitada — e, na verdade, a própria possibilidade de tal engajamento pressupõe que ‘neoliberalismo’ se torne um conceito localmente inteligível (local, isto é, para o argumento de Noys e qualquer halo que ele tenha conseguido estender para além de si mesmo).

Mesmo aqui na Direita Exterior, quase toda a irritabilidade terminológica retrocederia imediatamente se a expressão repetidamente encontrada fosse — mesmo que implicitamente — Neoliberalismo no sentido Noysiano. Ele então seria um termo com limites relativamente precisos, esclarecendo mais do que obscurece. Consequentemente, ele marcaria um limite na direita assim como na esquerda, distinguindo o capitalismo anti-estatista ou laissez-faire — com seu modelo em Hong Kong — da formação político-econômica dominante de nossa era. Só por essa razão, pode-se antecipar confiantemente que não se permitirá que ‘neoliberalismo’ signifique nada disso.

[ADICIONADO](http://www.sok.bz/web/media/video/ABriefHistoryNeoliberalism.pdf%5D: PDF completo de A Brief History of Neoliberalism de David Harvey.

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O Iluminismo Sombrio, Parte 4a

Parte 4a: Uma sub-digressão multiparte ao terror racial

Meu próprio sentimento da coisa é que, por debaixo de toda a conversa feliz, debaixo da adesão obstinada a ideias falhas e teorias mortas, debaixo da gritaria e do anátema contra pessoas como eu, há um desespero profundo e frio. Em nossos mais íntimos corações, não acreditamos que a harmonia racial possa ser alcançada. Daí a tendência à separação. Só queremos continuar com nossas vidas longe um dos outros. Ainda assim, para um povo moralista e otimista como os americanos, esse desespero é insuportável. Ele é empurrado para longe, para algum lugar em que não tenhamos que pensar sobre ele. Quando alguém nos força a pensar sobre ele, reagimos com fúria. Aquele menininho na estória de Andersen sobre as novas roupas do Imperador? O fim seria mais verdadeiro para com a vida se ele tivesse sido linchado por uma multidão uivante de cidadãos ultrajados.
– John Derbyshire, entrevistado na Gawker

Acreditamos na igual dignidade e na presunção de igual decência em relação a toda pessoa – não importa qual raça, não importa o que a ciência nos diga sobre inteligência comparativa e não importa o que possa ser obtido das estatísticas criminais. É importante que a pesquisa seja feita, que as conclusões não sejam fraudadas e que tenhamos liberdade de falar francamente sobre o que ela nos diz. Mas isto não é um argumento a favor de conclusões a priori sobre como pessoas individuais devem ser tratadas em diversas situações – ou a favor de calcular medo ou amizade com base apenas na raça. Manter e ensinar de outra forma é prescrever a desintegração de uma sociedade pluralista, minar a aspiração do E Pluribus Unum.
– Andrew McCarthy, defendendo a expulsão de JD da National Review

“A Conversa”, da forma em que os americanos negros e os liberais a apresentam (a saber: necessitada pela malícia branca), é uma afronta cômica – porque ninguém tem permissão (vide Barro acima) de notar o contexto no qual os americanos negros estão tendo desentendimentos com a lei, uns com os outros e com outros. O contexto apropriado para entender isto, e a mania que é o Travyonicus aliás, é o medo razoável da violência. Este é o fato mais exigente aqui – e, ainda assim, você decreta que ele não pode ser falado.
– Dennis Dale, respondendo ao chamado de Josh Barro pela demissão de JD.

Tremenda experiência viver com medo, não é? É isso que é ser um escravo.
– Bladerunner

Não há nenhuma parte de Singapura, Hong Kong, Taipei, Xangai ou muitas outras cidades no Leste asiático em que seja impossível passear, com segurança, tarde da noite. Mulheres, sejam jovens ou velhas, sozinhas ou com crianças pequenas, podem ficar confortavelmente alheias aos detalhes do espaço e do tempo, pelo menos no que diz respeito à ameaça de agressão. Embora isto possa não ser bem suficiente para definir uma sociedade civilizada, chega extremamente próximo. É certamente necessário a qualquer definição dessas. O caso contrário é o barbarismo.

Essas cidades afortunadas do oeste do Círculo do Pacífico são tipificadas por localizações geográficas e perfis demográficos que ecoam de maneira conspícua as embaraçosamente bem-comportadas ‘minorias modelo’ dos países ocidentais. Elas são dominadas (de maneira não desagradável) por populações que – devido à herança biológica, a profundas tradições culturais ou ao algum emaranhamento inextricável das duas – acham interações sociais educadas, prudentes e pacíficas comparativamente fáceis e dignas de reforço contínuo. Elas são também, importantemente, sociedades abertas e cosmopolitas, notavelmente desprovidas de arrogância chauvinista ou de um sentimento etno-nacionalista paranoico. Seus cidadãos não estão inclinados a enfatizar suas próprias virtudes. Pelo contrário, eles serão tipicamente modestos quanto aos seus atributos e realizações individuais e coletivas, anormalmente sensíveis às suas falhas e deficiências e estarão constantemente alertas para oportunidades de melhoria. A complacência é quase tão rara quanto a delinquência. Nessas cidades, toda uma dimensão de terror social está simplesmente ausente  – com consequências massivas.

Em muito do mundo ocidental, em um contraste gritante, o barbarismo foi normalizado. É considerado simplesmente óbvio que cidades têm ‘áreas ruins’ que não são meramente pobres, mas letalmente ameaçadoras, para estranhos assim como para residentes. Adverte-se os visitantes para que fiquem longe, ao passo que os locais fazem o seu melhor para transformar suas casas em fortalezas, evitam se aventurar nas ruas depois do anoitecer e – especialmente se forem homens jovens – voltam-se para gangues criminosas em busca de proteção, o que degrada ainda mais a segurança de todas as outras pessoas. Predadores controlam o espaço público, parques são armadilhas mortais, a ameaça agressiva é celebrada como ‘atitude’, a aquisição de propriedade é para caretas (ou assaltantes), a aspiração educacional é ridicularizada e a atividade empresarial não-criminosa é desprezada como uma violação das normas culturais. Todo mecanismo significativo de pressão sócio-cultural, desde heranças interpretadas e influências dos pares até a retórica política e incentivos econômicos, está alinhado com o aprofundamento da depravação complacente e da extirpação cruel de todo impulso de auto-melhoria. Bastante claramente, esses são lugares em que a civilização colapsou de maneira fundamental, e uma sociedade que os inclua, em uma medida substancial, falhou.

Dentro dos países mais influentes do mundo de língua inglesa, a desintegração da civilização urbana moldou profundamente a estrutura e o desenvolvimento das cidades. Em muitos casos, o padrão ‘natural’ (agora se poderia dizer ‘asiático’), no qual a urbanização intensiva e os valores imobiliários correspondentes são maiores no centro da cidade, foi destruído ou, pelo menos, profundamente deformado. A desintegração social do centro urbano levou a um êxodo dos (sequer moderadamente) prósperos para refúgios suburbanos e extra-urbanos, produzindo um padrão grotesco e historicamente sem precedentes de desenvolvimento estilo ‘rosquinha’, com cidades que toleram – ou meramente se acomodam a – interiores arruinados e podres, nos quais pessoas sãs temem pisar. ‘Centro da cidade’ veio a significar quase exatamente o oposto do que um curso não distorcido de desenvolvimento urbano produziria. Esta é a expressão geográfica de um problema social ocidental – e especialmente americano – que é, de uma só vez, basicamente imencionável e visível do espaço sideral.

Surpreendentemente, a síndrome da rosquinha com núcleo quebrado tem um nome notavelmente insensível e ainda assim comumente aceito, que a captura em linhas gerais – pelo menos de acordo com suas características secundárias – e em um grau razoável de aproximação estatística: White Flight (Fuga dos Brancos). Este é um termo que prende, por uma variedade de razões. Ele é marcado, primeiro de tudo, pela bipolaridade racial que – como um arcaísmo vital – ressoa com a crise social crônica da América, em uma série de níveis. Embora superficialmente datado, em uma era de questões multiculturais e de imigração de muitos matizes, ele se reverte ao código morto-vivo herdado da escravidão e da segregação, perpetuamente identificada com as palavras de Faulkner: “O passado não está morto. Ele nem mesmo é passado.” Ainda assim, mesmo neste atípico momento de candura racial, a negritude é elidida e implicitamente desconectada da agência. É denotada apenas por alusão, como um resíduo, concentrado passiva e derivadamente pela função peneiradora de um pânico branco altamente adrenalinizado. O que não pode ser dito é indicado mesmo enquanto não é mencionado. Um silêncio distintivo acompanha a meia-expressão quebrantada de uma maré muda de separatismo racial, guiado por terrores e animosidades civilizacionalmente incapacitantes, cujas profundidades e estruturas de reciprocidade permanecem inconfessáveis.

O que o êxodo puritano do Antigo para o Novo Mundo foi para a fundação da modernidade anglófona global, o white flight é para o seu desgaste e dissolução. Assim como com a migração pré-fundadora, o que dá relevância inelutável ao white flight aqui é seu caráter sub-político: tudo saída e nenhuma voz. Ele é o ‘outro’ sutil, não-argumentativo e não-exigente da democracia social e seus sonhos – o impulso espontâneo do iluminismo sombrio, da maneira em que é inicialmente vislumbrado, de uma só vez desilusivo e implacável.

A rosquinha com o núcleo quebrado não é o único modelo de síndrome da cidade doente (o fenômeno da favela marginal enfatizado no Planet of Slums de Mike Davis é muito diferente). Tampouco o urbanismo do desastre-rosquinha é redutível à crise racial, pelo menos em suas origens. Fatores tecnológicos desempenharam um papel crucial (mais proeminentemente, a geografia do automóvel), assim como o fizeram outras tradições culturais de longa data (tais como a construção de subúrbios enquanto idílios burgueses). Ainda assim, todas essas linhagens foram, em medida muito grande, suplantadas ou, pelo menos, subordinadas ao ‘problema racial’ herdado e que ainda emerge.

Então, o que é este ‘problema’? Como ele está se desenvolvendo? Por que alguém fora da América deveria estar preocupado com ele? Por que levantar o tópico agora (ou jamais)? – Se o seu coração está afundando sob a sombria suspeita de que isto vai ser enorme, sinuoso, estressante e torturante, você está certo. Temos semanas pelas quais esperar nesta câmara de horrores.

As duas respostas mais simples, bastante amplamente mantidas e basicamente incompatíveis para a primeira questão merecem ser consideradas como partes importantes do problema.

Questão: Qual é o problema racial americano?

Resposta-1: Pessoas negras.

Resposta-2: Pessoas brancas.

A popularidade combinada destas opções é significantemente expandida, muito provavelmente para englobar a grande maioria de todos os americanos, quando se considera que ela inclui aqueles que assumem que uma destas duas respostas domina o pensamento do outro lado. Entre si, as proposições “O problema estaria acabado se pudéssemos simplesmente nos livrar dos vadios negros / racistas brancos” e / ou “Eles pensam que somos todos vadios / racistas e querem se livrar de nós” consomem uma proporção impressionante do espectro político, estabelecendo uma fundação sólida de terror e aversão recíprocos. Quando projeções defensivas são adicionadas (“Não somos vadios, vocês são racistas” ou “Não somos racistas, você são vadios”), o potencial para uma dialética superaquecida e não-sintetizadora se aproxima do infinito.

Não que estes ‘lados’ sejam raciais (exceto na fantasia tribal-nacionalista negra ou branca). Para estereótipos crus, é bem mais útil se voltar para a dimensão política principal e suas categorias de ‘liberal’ e ‘conservador’ no sentido americano contemporâneo. Identificar o problema racial da América com o racismo branco é a posição liberal estereotípica, ao passo que identificá-lo com a disfunção social negra é o exato complemento conservador. Embora estas posições sejam formalmente simétricas, é sua assimetria política real que investe o problema racial americano com seu extraordinário dinamismo histórico e significância universal.

Que os brancos e negros americanos – considerados grosseiramente como agregados estatísticos – coexistem em uma relação de medo recíproco e vitimização percebida é atestado pelos padrões manifestos de desenvolvimento e navegação urbana, escolha de escolas, propriedade de armas, policiamento e encarceramento, e quase todas as outras expressões de preferência revelada (ao contrário da afirmada) que estejam relacionadas à distribuição social voluntária e à segurança. Um equilíbrio objetivo de terror reina, apagado da visibilidade por perspectivas complementares, mas incompatíveis, de supremacismo e negação vitimológicos. Ainda assim, entre as posições liberal e conservadora sobre raça não há qualquer equilíbrio que seja, mas algo próximo de uma derrota. Os conservadores estão completamente aterrorizados com a questão, ao passo que, para os liberais, ela é um jardim de delícias terrenas, cujos prazeres transcendem os limites da compreensão humana. Quando qualquer discussão política chega firme e claramente ao tópico da raça, o liberalismo vence. Esta é a lei fundamental da efetividade ideológica à sombra fragante meia-luz da Catedral. Em certos aspectos, este desequilíbrio político dinâmico é até mesmo o fenômeno primário sob consideração (e muito mais precisa ser dito sobre isso, mais à frente).

A humilhação regular, excruciante e esmagadora do conservadorismo na questão da raça não deveria ser nenhuma surpresa para ninguém. Afinal, o papel principal do conservadorismo na política moderna é ser humilhado. É para isto que uma perpétua e leal oposição, ou bobo da corte, serve. O caráter essencial do liberalismo, enquanto guardião e proponente da fé espiritual neo-puritana, o investe com domínio supremo sobre a dialética, ou invulnerabilidade à contradição. Aquilo que é impossível de se pensar deve, necessariamente, ser adotado através da fé. Considere apenas a doutrina fundamental ou primeiro artigo do credo liberal, conforme promulgado através de toda discussão pública, articulação acadêmica e iniciativa legislativa relevante ao tópico: Raça não existe, exceto enquanto construto social empregado por uma raça para explorar e oprimir uma outra. Meramente entreter isso é estremecer antes à incrível majestade do absoluto, onde tudo é simultaneamente seu preciso oposto, e a razão evapora de maneira extasiante à beira do sublime.

Se o mundo fosse construído com ideologia, esta estória já estaria acabada ou, pelo menos, previsivelmente programada. Para além do aparente zigue-zague da dialética, há uma tendência dominante, que leva em uma direção única e inequívoca. Ainda assim, a solução liberal-progressista para o problema da raça – um ‘anti-racismo’ abrangentemente sistemático e dinamicamente paradoxal que se escala sem limites – confronta um obstáculo real que é apenas muito parcialmente refletido nas atitudes, retórica e ideologia conservadoras. O verdadeiro inimigo – glacial, incipiente e não-argumentativo – é o ‘white flight‘.

Neste ponto, uma referência explícita ao Caso Derbyshire se torna irresistível. Há uma quantia muito considerável de contexto histórico complexo e recente que clama por introdução – a convulsão cultural que acompanhou ao incidente Trayvon Martin em particular – mas haverá tempo para isso mais tarde (ah sim, eu temo que sim). A intervenção de Derbyshire e a explosão de palavras que ela provocou, embora em alguma medida iluminada por tal contexto, de longe o excede. Isso porque o termo crucial não dito, tanto no agora notório artigo curto de Derbyshire, quanto também – aparentemente – nas respostas que ele gerou, é ‘white flight‘. Ao publicar um conselho paternal para seus filhos (euroasiáticos) que foi – não inteiramente sem razão – resumido como ‘evite pessoas negras’, ele converteu a fuga dos brancos, de um fato muito lamentado, mas aparentemente inexorável, para um imperativo explícito, até mesmo uma causa. Não discuta, fuja.

A palavra que Derbyshire enfatiza, em sua própria penumbra de comentários e em escritos antecedentes, não é ‘fuga’ ou ‘pânico’, mas desespero. Quando perguntado pelo blogueiro Vox Day se ele concordava que a ‘race card’ (‘carta da raça’) havia se tornado menos intimidadora ao longo das últimas duas décadas, Derbyshire responde:

Um [fator], sobre o qual eu já escrevi mais de uma vez, eu acho, nos Estados Unidos, é simplesmente o desespero. Eu tenho uma certa idade e eu estava por aí 50 anos atrás. Eu lia os jornais e seguia o eventos mundiais e lembro do movimento dos direitos civis. Eu estava na Inglaterra, mas nós o acompanhávamos. Eu lembro dele, lembro do que sentíamos sobre ele e do que as pessoas estavam escrevendo sobre ele. Tinha muita esperança. A ideia na mente de todo mundo era que, se derrubássemos essas leis injustas e baníssemos toda essa discriminação, então seríamos curados. Então a América seria restaurada. Depois de um período intermediário de alguns anos, quem sabe, talvez 20 anos, com uma mão de coisas como a ação afirmativa, a América negra simplesmente se fundirá à população geral e a coisa toda simplesmente irá embora. Isso é o que todo mundo acreditava. Todo mundo pensava isso. E não aconteceu.

Aqui estamos, 50 anos mais tarde, e ainda temos essas tremendas disparidades de taxas de crimes, realizações educacionais e assim por diante. E eu acho que, embora eles ainda estejam declamando as banalidades, os americanos, em seus corações, sentem um tipo de desespero frio sobre isso. Eles sentem que Thomas Jefferson provavelmente estava certo e que não podemos viver juntos em harmonia. Acho que é por isso que você vê esse lento desagregamento étnico. Temos um sistema escolar muito segregado agora. Existem escolas a 10 milhas de onde estou sentado que são 98 por cento minorias. Na habitação residencial também é a mesma coisa. Então, eu acho que há um desespero frio e sombrio, à espreita no coração coletivo da América, sobre toda essa coisa.

Esta é uma versão da realidade que poucos querem ouvir. Como Derbyshire reconhece, os americanos são um povo predominantemente cristão, otimista, ‘dá pra fazer’, cujo ‘coração coletivo’ é incomumente mal-adaptado a um abandono da esperança. Esse é um país culturalmente programado para interpretar o desespero não meramente como erro ou fraqueza, mas como um pecado. Ninguém que entenda isto poderia ficar remotamente surpreso de encontrar o fatalismo hereditário desolador sendo rejeitado – tipicamente com hostilidade veemente – não apenas por progressistas, mas também pela esmagadora maioria dos conservadores. Na NRO, Andrew C. McCarthy sem dúvida falou por muitos ao observar:

Há um mundo de diferença, no entanto, entre a necessidade de ser capaz de discutir fatos desconfortáveis sobre QI e encarceramento, por um lado, e, por outro, insistir na raça como um fundamento para se abandonar a caridade cristã básica.

Outros foram muito além. No Examiner, James Gibson aproveitou “a torpe arenga racista de John Derbyshire” como uma oportunidade para ensinar uma lição mais ampla – “o perigo do conservadorismo divorciado do cristianismo”:

…uma vez que Derbyshire não acredita “que Jesus de Nazaré era divino …e que a Ressurreição foi um evento real”, ele não pode compreender o grande mistério da Encarnação, através da qual o Divino verdadeiramente assumiu carne humana na pessoa de Jesus de Nazaré e sofreu a morte nas mãos de uma humanidade caída, a fim de redimir esta humanidade de seu estado de queda.

Nisto jaz o perigo de uma filosofia sociopolítica conservadora divorciada de uma robusta fé cristã. Ela se torna uma ideologia morta, produzindo uma visão da humanidade que é tóxica, fatalista e (como Derbyshire prova de maneira abundante) pouco caridosa.

Foi, claro, na esquerda que os fogos de artifício realmente acenderam. Elspeth Reeve, no Atlantic Wire afirmou que Derbyshire se agarrara à sua relação com a National Review porque estava oferecendo aos “leitores menos iluminados” da revista o que eles queriam: “estereótipos raciais datados”. Assim como Gibson na direita, ela estava interessada em que as pessoas aprendessem uma lição mais ampla: não pense, nem por um minuto, que isto acaba em Derbyshire. (Vale a pena notar a seção de comentários incrivelmente pouco cooperativa de seu artigo.)

Na Gawker, Louis Peitzman diminui a qualidade (na direção aprovada) ao descrever a “horrível diatribe” de Derbyshire como “o artigo mais racista possível”, um julgamento que denuncia extrema ignorância histórica, uma vida protegida, inocência incomum e uma falta de imaginação, assim como faz o artigo soar bem mais interessante do que realmente é. Os comentadores de Peitzman são impecavelmente liberais e, claro, estão uniformemente, completamente, chocantemente assustados (ao ponto de um orgasmo). Para além do emocionar, Peitzman não oferece muito conteúdo, com exceção apenas de um pouco mais de emocionar – desta vez uma leve satisfação misturada com uma raiva residual – com as notícias de que a punição de Derbyshire havia pelo menos começado (“um passo na direção certa”) com seu “enxotamento” da National Review.

Joanna Schroeder (escrevendo em algo chamado Good Feel Blog) buscou estender o expurgo para além de Derbyshire, para incluir qualquer um que ainda não tenha irrompido em paroxismos suficientemente melodramáticos de indignação, a começar com David Weigel na Slate (que ela não conhece “na vida real, mas, ao ler este artigo, parece que você bem poderia ser um racista, cara”). “Há tantas… referências racistas e desumanizantes a pessoas negras no artigo de Derbyshire que eu tenho que me parar aqui, antes que reconte a coisa toda, ponto a ponto, fumegante de raiva”, ela compartilha. Ao contrário de Peitzman, contudo, pelo menos Schroeder tem um ponto – a dialética do terror racial – “…propagar a ideia de que deveríamos ter medo de homens negros, de pessoas negras em geral, torna este mundo perigoso para americanos inocentes”. Seu medo o torna assustador (embora aparentemente não com reciprocidade legítima).

Quanto a Weigel, ele entende o terror bem e arduamente. Em poucas horas, ele está de volta ao teclado, se desculpando por sua despreocupação anterior e pelo fato de que ele “acabou nunca dizendo o óbvio: Povo, o ensaio era repugnante”.

Então, o que Derbyshire realmente disse, de onde isso veio e o que isso significa para a política americana (e além)? Esta sub-série penteará por entre o espectro, da esquerda à direita, em busca de sugestões, com o pânico / desespero ‘branco’ sócio-geograficamente manifesto como uma linha guia…

A seguir: O Ecstasy Liberal

Original.