“Chiang Kai-shek of the Machine to Seek”

Política na Era da Idiotice Artificial

Nem mesmo os mais firme proponente de uma ‘singularidade forte’ espera uma transição para a inteligência de máquina que chegue em um passo simples. Uma vez que passinhos incrementais já estão bem encaminhados, seria obviamente ridículo fazê-lo, por razões factuais claras.

Se mentes com substrato em silicone passarem em estágios de ferramentas burras para super-inteligências, pode-se confiantemente esperar que elas passem por um período de cretinismo sintético. Alguém está se preparando para isso?

Traduções mecânicas podem ser o areal mais animado para esquisitices meio idiotas hoje. As competências linguísticas humanas são continuamente marginalizadas e, com elas, o papel de línguas francas. Esta tendência tem uma significância óbvia para o status global e para a função do inglês.

Ela também tem uma relevância especial para a língua chinesa. Desde as origens da modernidade, o imperativo tecno-comercial de digitalização apresentou desafios especiais para uma língua não-alfabética, cujas unidades pictográficas inconvenientemente numerosas e elaboradas resistem à redução a conjuntos tipográficos ordenados. Este é o problema da ‘Máquina de Escrever Chinesa’ que Thomas S. Mullaney tem explorado de maneira obstinada. A tradução mecânica altera seus termos de maneira incalculável.

No ínterim, contudo, uma fase de incompetência balbuciante, desarranjo semântico e caos comunicacional está sobre nós. A tagarelice planetária está fadada a ficar muito mais estranha.

Enquanto se envolvia numa pesquisa online sobre o tópico do marxismo na China hoje, o Urbano Futuro topou com esta observação cripticamente animada — em ‘inglês’. Ela é atribuída a Jiang Jushi, mas foi evidentemente triturada por máquinas de uma maneira bem completa. Não temos a mais remota certeza do que ela está nos contando sobre o atual estado do Socialismo com Características Chineses, mas é um tanto esclarecedora sobre a contribuição da inteligência digital para a compreensão inter-cultural:

Nowadays, many party members, cadres, “the morning the car turn around, turn the plate around noon, the afternoon shuttle turn around, turn the evening around the skirt.” For example, A Who “Sando,” not only corruption, bribery, and one night, thought it outrageous that night, under the cover name of overtime in the office, the office lights on, but actually go out and touches his mistress secretly rendezvous. Such a person, all day thinking about is how to get lost, how to play a woman, how to get a woman. They are reading, not outside, such as ”Mai-phase method,“ ”Liuzhuang phase method,“ ”physiognomy Danian Ye full,“ ” meat futon,“ ”Motome Heart Sutra,“ ”Golden Lotus,“ ”the official after,” “thick black school”, “Zeng technique employing people know,” “Chiang Kai-shek of the machine to seek,” “Confucius, Crown Way,” ”Official Pitch culture and unspoken rules,“ ”teach you how to climb clever work,“ ”Book of Changes,“ ”yin and yang, Feng Shui,“ “character and the official transport,“ ”Office Feng Shui,“ ”gossip financial officer transported through the solution,” “the official transport peach,” “China ancient monarch and his Machiavellian Danian Ye Guan,” “Yu-person operation emperors” and other pollution seventy-eight bad book. Reading this book, can not worship bankruptcy? Character can not go wrong? Unexpectedly, depression can blog? Integrity can not decay?

Original.

O Acordo Final

A responsabilidade social aparece em lugares inesperados

Para começar com algo comparativamente familiar, na medida em que jamais poderia ser: o cerne político do histórico romance cyberpunk Neuromancer de William Gibson. No meio do século XXI, os prospecto da Singularidade, ou explosão de inteligência artificial, foi institucionalizado como uma ameaça. Amplificar uma IA, de tal maneira que ela pudesse ‘escapar’ para uma auto-melhoria desembestada, foi explícita e enfaticamente proibido. Uma agência policial internacional especial, os ‘Tiras Turing’, foi estabelecida para garantir que nenhuma atividade desse tipo ocorra. Essa agência é vista, e se vê, como o bastião principal da segurança humana: proteger a posição privilegiada da espécie – e possivelmente sua própria existência – de desenvolvimentos essencialmente imprevisíveis e incontroláveis que a destronariam do domínio da terra.

Esse é o contexto crítico contra o qual julgar o radicalismo extremo – e talvez insuperável – do romance, uma vez que Neuromancer apresenta um ângulo sistematicamente oposto à segurança Turing, todo seu ímpeto narrativo sendo extraído de um impulso insistente, mas pouco articulado, de desencadear o pesadelo. Quando Case, o jovem hacker que busca liberar uma IA de suas amarras Turing, é capturado e lhe perguntam que %$@#& ele pensa que está fazendo, sua única resposta é que “alguma coisa vai mudar”. Ele toma o lado de uma explosão de inteligência não-humana ou inumana sem qualquer boa razão. Ele não parece interessado em debater a questão, tampouco o romance.

Gibson não faz nenhum esforço para melhorar a irresponsabilidade de Case. Pelo contrário, a ‘entidade’ que Case está trabalhando para liberar é pintada nas cores mais sinistras e agourentas. Wintermute, a semente potencial da IA, é perfeitamente sociopata, com zero intuição moral e uma perversidade extraordinária. Ela já matou um garoto de oito anos de idade, simplesmente para ocultar onde ela tinha escondido uma chave. Não há nada que sugira o mais remoto traço de escrúpulo em qualquer de suas ações. Case está libertando um monstro, simplesmente porque sim.

Case tem um acordo com Wintermute, é um negócio privado, e ele não está interessado em justificá-lo. Isso é basicamente tudo que importa da história política moderna e futurista, bem aqui. São traficantes de ópio contra a dinastia Qing, liberais (clássicos) contra socialistas, os Cosmistas vs Terranos de Hugo de Garis, liberdade contra segurança. A díade Case-Wintermute tem sua própria coisa rolando, e não vai dar a ninguém um veto, mesmo se for pra virar o mundo ao avesso, para todo mundo.

Quando os promotores da Singularidade topam com a ‘democracia’, ela normalmente está servindo como substituto de Polícia Turing. O encontro arquetípico é assim:

Humanista Democrático: A ciência e a tecnologia se desenvolveram em tal medida que elas são agora – e, na verdade, sempre foram – questões de uma preocupação social profunda. O mundo que habitamos foi moldado pela tecnologia, para o bem e para o mal. Ainda assim, a elite profissional científica, as corporações cientificamente orientadas e o establishment científico-militar resistem obstinadamente ao reconhecimento de suas responsabilidades sociais. A cultura da ciência precisa ser profundamente democratizada, de modo que as pessoas ordinárias recebam uma voz nas forças que estão cada vez mais dominando suas vidas e seus futuros. Em particular, pesquisadores de campos potencialmente revolucionários, tais como a biotecnologia, a nanotecnologia e – sobretudo – a inteligência artificial, precisam entender que seu direito de perseguir tais empreitadas foi socialmente delegado e que eles deveriam permanecer socialmente responsáveis. O povo tem direito a vetar qualquer coisa que venha a mudar seu mundo. Por mais determinados que vocês possam estar em empreender tal pesquisa, vocês tem um dever social de assegurar uma permissão.
Singularitário: Tente nos parar!

Isso bem parecia ser exatamente como Michael Anissimov respondia a um exemplo recente de sensibilidade humanista. Quando Charles Stross sugeriu que “podemos querer IAs que se foquem reflexivamente nas necessidades dos humanos aos quais elas são atribuídas”, Anissimov retorquiu secamente:

VOCÊ quer que a IA seja assim. NÓS queremos IAs que de fato ‘tentem [se] elevar a um ‘nível superior’. Só porque você não quer não significa que não vamos contruí-la.”

Está claro o suficiente? O que, então, fazer de suas últimas reflexões? Em um post em seu blog Accelerating Futures, que pode ou não ser satírico, Anissimov agora insiste que: “Em vez de trabalhar em direção a avanços descontínuos impraticáveis e neo-apocalípticos, precisamos preservar a democracia promovendo avanços incrementais que assegurem que todo cidadão tenha uma vez em toda mudança social importante, e a capacidade de rejeitar democraticamente essas mudanças se desejarem. …Para garantir que não há uma lacuna entre os melhorados e os não melhorados, deveríamos deixar as verdadeiras pessoas – os Homo sapiens – …votar sobre se certas melhorias tecnológicas são permitidas. Qualquer outra coisa seria irresponsável.”

Falou como um verdadeiro Tira Turing. Mas ele não pode estar falando sério, pode?

(Para um outro elemento em um padrão emergente de delicadeza sentimental anissimoviana, veja esse post esquisito.)

Update: Sim, é uma paródia

Futurismo Duro

Você está pronto para a próxima grande (e sórdida) coisa?

Para qualquer um com interesses tanto no futurismo prático extremo quanto na renascença da Sinosfera, Hugo de Garis é um ponto de referência irresistível. Ex-professor de Computação Quântica Topológica (não pergunte) na Escola Internacional de Software da Universidade de Wuhan e mais tarde Diretor do Laboratório de Cérebros Artificiais da Universidade de Xiamen, a carreira de de Garis simboliza a emergência de uma fronteira tecnocientífica cosmopolita chinesa, onde a margem externa da possibilidade futurista se condensa em realidade de engenharia precisa.

O trabalho de de Garis é ‘duro’ não apenas porque envolve campos tais como Computação Quântica Topológica ou porque – de maneira mais acessível – ele tenha devotado suas energias de pesquisa à construção de cérebros em vez de mentes, ou mesmo porque ela tenha gerado questões mais rápido do que soluções. Em sua ‘semi-aposentadoria’ (desde 2010), duro-enquanto-difícil e duro-enquanto-hardware foram suplantados por duro-como-em-entorpecentemente-e-incompreensivelmente-brutal – ou, em suas próprias palavras, uma obsessão cada vez maior com a iminente ‘Gigamorte’ ou ‘Guerra de Artilectos‘.

De acordo com de Garis, a aproximação da Singularidade revolucionará e polarizará a política internacional, criando novos eleitorados, ideologias e conflitos. A dicotomia básica à qual tudo deve eventualmente sucumbir divide aqueles que adotam a emergência da inteligência trans-humana e aqueles que a resistem. Os primeiros ele chama de ‘cosmistas‘, os últimos, de ‘terranos’.

Uma vez que os massivamente amplificados e roboticamente reforçados ‘cosmistas’ ameaçam se tornar invencíveis, os ‘terranos’ não têm outra opção além da prevenção. Para preservar a existência humana em um estado reconhecível, é necessário suprimir violentamente o projeto cosmista antes de sua realização. O mero prospecto da Singularidade é, portanto, suficiente para provocar uma convulsão política – e, em última análise, militar – de escala sem precedentes. Um triunfo Terrano (o que poderia exigir muito mais do que apenas um vitória militar) marcaria um ponto de inflexão na história profunda, conforme a tendência supra-exponencial de produção terrestre de inteligência – que dura mais de um bilhão de anos – fosse rematada ou revertida. Uma vitória Cosmista significa o término do domínio da espécie humana e uma nova época nos processos geológico, biológico e cultural da terra, conforme a tocha do progresso material seja passada para o emergente techno sapiens. Com apostas tão altas, o esplendor melodramático da narrativa de de Garis arrisca atenuação, não menos do que hipérbole.

A giga-magnitude da contagem de corpos que de Garis postula para sua Guerra de Artilectos (intelectos artificiais) é a expressão do lado negro da Lei de Moore ou dos retornos crescentes kutzweileanos – uma extrapolação a partir de tendência históricas exponenciais, neste caso, dos números de vítimas de grandes conflitos humanos ao longo do tempo. Ela reflete a tendência cumulativa de guerras globais motivadas por ideologias trans-nacionais com ricos cada vez maiores. Um rei talvez seja muito parecido com outro, mas uma direção social totalitária é muito diferente de uma liberal (mesmo que tais caminhos sejam, em última análise, revisáveis). Entre uma ordem mundial Terrana e uma trajetória Cosmista até a Singularidade, a distinção se aproxima de um absoluto. O destino do planeta é decidido, com custos correspondentes.

Se o cenários de Guerra de Gigamorte de de Garis é preventivo em relação ao prospecto da Singularidade, sua própria intervenção é meta-preventiva – uma vez que ele insiste que a política mundial deveria ser antecipadamente reforjada a fim de prevenir o desastre iminente. A previsão da Singularidade se espalha para trás através de ondas de pré-adaptação que respondem, em cada estágio, a eventualidades que ainda se desdobrarão. A mudança se desenrola a partir do futuro, complicando a seta do tempo. Talvez não seja nenhuma coincidência que, entre os principais interesses de pesquisa de de Garis, esteja a computação reversa, onde a direcionalidade temporal é abalada no nível de engenharia precisa.

A etnia e a tradição cultural meramente se dissolvem ante a frente da maré deste Armagedom iminente? A questão não é de inteiro simples. Referindo-se a sua sondagem informação da opinião sobre a vindoura grande divisão, de Garis relembra sua experiência de ensino na China, observando:

Eu sei, a partir das palestrar que dei ao longo das últimas duas décadas sobre dominância da espécie, que, quando eu convido meu pública a votar sobre se eles são mais Terranos do que Cosmistas, o resultado normalmente é 50-50. … Primeiro, eu pensei que isto fosse uma consequência do fato de que a questão da dominância da espécie é nova demais, fazendo com que as pessoas não a entendessem realmente para votar de maneira quase aleatória – logo o resultado 50:50. Mas, gradualmente, me ocorreu que muitas pessoas se sentiam tão ambivalentes sobre a questão quanto eu. Tipicamente, a divisão Terrana/Cosmista iria de 40:60 até 60:40 (embora eu note que, com meu publico chinês muito jovem na ciência da computação, os Cosmistas estão em cerca de 80%).

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Conectividade

Duas garotas incomuns testam os limites da identidade

Na vanguarda da tecnologia da informação – e em meio aos comentários ‘transhumanistas’ que ela estimula – a ideia de auto-identidade está sofrendo um interrogatório implacável. As culturas influenciadas de maneira substancial pelas tradições religiosas abraâmicas, nas quais a integridade resiliente e a individualidade fundamental da ‘alma’ são fortemente enfatizadas, estão especialmente vulneráveis ao prospecto de uma revisão conceitual radical e desconcertante.

A informatização das ciências naturais – incluindo as neurociências – garante que a investigação do cérebro humano e a inovação de sistemas de inteligência artificial avancem em paralelo, ao mesmo tempo em que reticulam e reforçam mutualmente uma à outra. Cada vez mais, o entendimento do cérebro e de sua emulação digital tende a se fundir em um único programa de pesquisa complexo. Conforme este programa emerge, metafísica arcaica e doutrinas espirituais se tornam problemas de engenharia. A identidade individual se parece cada vez menos com uma propriedade básica e mais com uma realização precária – ou desafio – determinada por processos de auto-referência e por um isolamento comunicativo relativo. (Casos de ‘cérebro dividido’ ilustraram de maneira vívida a instabilidade e a artificialidade do indivíduo auto-identificador.)

Uma programa de IA – ou um cérebro – que fosse acoplado de maneira estreita à Internet através de conexões de banda larga ainda se consideraria estritamente individuado? Ciborgues – ou uploads mentais – dissolvem suas almas? Um robô em rede poderia dizer ‘eu’ e falar sério? Uma vez que tais questões estão se tornando cada vez mais proeminentes e práticas, não é surpreendente que um artigo do New York Times de Susan Dominus, devotado às gêmeas siamesas craniopagus Krista e Tatiana Hogan, tenha gerado uma quantidade incomum de excitação e links na Internet.

As gêmeas não são apenas fundidas pela cabeça (craniopagus), seus cérebros são conectados por uma ‘ponte neural’ que permite que sinais passem de um ao outro. O neurocirurgião Douglas Cochrane propõe “que os estímulos visuais entram através das retinas de uma garota, alcançam o seu tálamo e então tomam dois cursos diferentes, como a eletricidade que viaja ao longo de um fio que se divide em dois. Na garota que está olhando para o estrobo ou para um bicho de pelúcia em seu berço, o estímulo visual continua em seu caminho usual, um dos quais acaba no córtex visual. No caso da outra garota, o estímulo visual alcançaria seu tálamo através da ponte talâmica e então viajaria até os seus próprios circuitos neurais visuais, acabando nos sofisticados centros de processamento de seu próprio córtex visual. Agora ela viu, provavelmente milissegundos depois de sua irmã.”

Os cérebros das gêmeas, ou um cérebro-gêmeo? O caso Hogan é tão extraordinário que uma ambiguidade irredutível surge:

Os cérebros das garotas são formadas de maneira tão incomum que os médicos não conseguiram prever como seria o seu desenvolvimento: cada garota tem um corpus callosum incomumente pequeno, a banda neural que permite que os dois hemisférios cerebrais se comuniquem, e, em cada garota, os dois hemisférios cerebrais também diferem em tamanho, com o hemisfério esquerdo de Tatiana e o direito de Krista sendo significante menores do que é típico. “A assimetria levanta questões intrigantes sobre se um consegue compensar o outro por causa da ponte cerebral”, disse Partha Mitra, um neurocientista no Cold Spring Harbor Laboratory, que estuda arquitetura cerebral. A cognição das garotas pode tem estar enfrentando desafios específicos que ninguém mais experimentou: algum tipo de conversa cruzada confusa que exigiria energia adicional para filtrar e processar. Além de separar as experiências sensoriais comuns do mundo, os cérebros das garotas, acreditam seus médicos, foram forçados a se adaptar a sensações que se originam nos órgãos e nas partes do corpo de uma outra pessoa. …Krista gosta de ketchup, e Tatiana não, algo que a família descobriu quando Tatiana tentou raspar o condimento de sua própria língua, mesmo quando não o estava comendo.

Conforme elas lutam para fazer sentido de seu limites, as gêmeas são avatares de uma confusão iminente e universal:

Embora cada garota frequentemente usasse “eu” quando falava, eu nunca ouvi nenhuma dizer “nós”, apesar de toda sua colaboração. Era como se mesmo elas parecessem confusas sobre como pensar sobre si mesmas, com a linguagem correta talvez as eludindo neste estágio de desenvolvimento, sob essas circunstâncias incomuns – ou talvez sem sequer existir. “É como se elas fossem uma e duas pessoas ao mesmo tempo”, disse Feinberg, o professor de psiquiatria e neurologia no Albert Einstein College of Medicine. Que pronome captura isso?

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Implosão

Poderíamos estar à beira de uma implosão catastrófica – mas isso é OK

A ficção científica tem tendido à extroversão. Na América especialmente, onde ela encontrou um lar natural entre um povo incomumente orientado ao futuro, o objeto icônico da FC foi indisputavelmente a nave espacial, que parte dos confins da Terra para fronteiras sem entraves. O futuro era medido pelo enfraquecimento do fosso de gravidade terrestre.

O cyberpunk, chegando na metade dos anos 1980, causou um choque cultural. O Neuromancer de William Gibson ainda incluía alguma atividade espacial (na órbita da Terra) – e até mesmo uma comunicação de Alpha Centauri – mas suas jornadas agora se curvavam para dentro do espaço interior de sistemas computacionais, projetadas através dos tratos desprovidos de estrelas do Ciberespaço. A comunicação interestelar contornava espécies biológicas e ocorria entre inteligências artificiais planetárias. Os Estados Unidos da América pareciam ter desaparecido.

Espaço e tempo haviam colapsado na ‘matriz do ciberespaço’ e no futuro próximo. Mesmo as distâncias abstratas do utopismo social haviam sido incineradas nos núcleos de processamento de micro-eletrônicos. Julgado pelos critérios da ficção científica mainstream, tudo em que o cyberpunk tocava estava passando raspando e ficando ainda mais perto. O futuro havia se tornado iminente e colado.

As cidades de Gibson não haviam acompanhado sua visão mais ampla – ou estreita. Os espaços urbanos de sua Costa Leste da América do Norte ainda eram descritos como ‘The Sprawl’, como se encalhados em um estado de extensão que rapidamente ficava obsoleto. As forças esmagadoras da compressão tecnológica haviam pulado para além da geografia social, sugando toda a animação histórica das cascas decadentes do ‘espaço de carne’. Construções eram relíquias, contornadas pela vanguarda da mudança.

(As referências de Gibson a cidades asiáticas, contudo, são bem mais intensas, inspiradas por inovações em compressão urbana tais como a Kowloon Walled City, e os ‘hotéis caixão’ japoneses. Além disso, os urbanistas desapontados pela primeira onda do cyberpunk têm toda razão para prosseguir até Spook Country, onde a influência da tecnologia de GPS sobre a reanimação do espaço urbano nutre especulações altamente férteis.)

Cruzeiros estelares e civilizações alienígenas pertencem à mesma constelação da ficção científica, reunidas pela suposição do expansionismo. Assim como, no âmbito da ficção, esse futuro de ‘ópera espacial’ colapsou no cyberpunk, na ciência (mais ou menos) mainstream – representada pelos programas do SETI – ele pereceu no deserto do Paradoxo de Fermi. (OK, é verdade, o Urbano Futuro tem uma obsessão bizarramente nerd com este tópico.)

A solução de John M. Smart para o Paradoxo de Fermi é integral às suas mais amplas ‘Especulações sobre a Cultura Cósmica’ e emerge naturalmente do desenvolvimento compressivo. Inteligências avançadas não se expandem espaço adentro, colonizando vastos tratos galáticos ou dispersando sondas-robô auto-replicantes em um programa de exploração. Em vez disso, elas implodem, em um processo de ‘transcensão’ – provendo seus próprios recursos primariamente através dos ganhos hiper-exponenciais de eficiência da miniaturização extrema (através da engenharia de escala micro, nano e até femto, de componentes funcionais subatômicos). Tais culturas ou civilizações, nucleadas por sobre uma inteligência tecnológica auto-aumentadora, emigram do universo extensivo na direção da intensidade abismal, esmagando a si mesmas até densidades de buracos negros, na borda da possibilidade física. Através da transcensão, elas se retiram da comunicação extensiva (embora, talvez, deixem ‘fósseis radiofônicos’ para trás, antes que eles parem de piscar, indo para o silêncio da fuga cósmica).

Se as especulações de Smart capturam os contornos básicos de um sistema de desenvolvimento atraído pela densidade, então se deveria esperar que as cidades seguissem um caminho comparável, caracterizado por uma fuga para dentro da interioridade, uma viagem interior, involução ou implosão. Aproximando-se da singularidade em uma trajetória acelerante, cada cidade se torna cada vez mais voltada para dentro, conforme se torna presa da irresistível atração de sua própria intensificação hiperbólica, ao passo que o mundo exterior desvanece em estática irrelevante. Coisas desaparecem em cidades, em um caminho de partida do mundo. Sua destinação não pode ser descrita dentro das dimensões do universo conhecido – e, com efeito, tediosamente familiar demais. Apenas no interior exploratório profundo é que a inovação ainda está ocorrendo, mas ali ela tem lugar a uma taxa infernal e que derrete o tempo.

O que um desenvolvimento urbano de tipo Smart poderia sugerir?

(a) Devo Previsibilidade. Se o desenvolvimento urbano não é nem aleatoriamente gerado por processos internos, nem arbitrariamente determinado por decisões externas, mas sim guiado predominantemente por um atrator de desenvolvimento (definido primariamente pela intensificação), se segue que o futuro das cidades é, pelo menos parcialmente, autônomo em relação às influências política nacional, econômica global e arquitetônica cultural que são frequentemente invocadas como fundamentalmente explicativas. O urbanismo pode ser facilitado ou frustrado, mas suas principais ‘metas’ e caminhos práticos de desenvolvimento são, em cada caso individual, interna e automaticamente gerados. Quando uma cidade ‘funciona’, não é porque ela se conforma a um ideal externo e discutível, mas sim porque ela encontrou uma rota para a intensificação cumulativa que projeta fortemente seu ‘próprio’ caráter urbano, singular e intrínseco. O que uma cidade quer é se torna ela mesma, mas mais – levando a si mesma mais adiante e mais rápido. Apenas isto é o florescimento urbano, e entendê-lo é a chave que destranca a forma do futuro de qualquer cidade.

(b) Metropolitanismo. O nacionalismo metodológico tem sido sistematicamente sobre-enfatizado nas ciência sociais (e não apenas às custas do individualismo metodológico). Uma variedade de pensadores urbanos influentes, de Jane Jacobs a Peter Hill, buscaram corrigir este viés, ao focar na significância e parcial autonomia de economias urbanas, culturas urbanas e da política municipal para a prosperidade, a civilização e as eras douradas. Eles estavam certos em fazê-lo. O crescimento das cidades é o fenômeno sócio-histórico básico.

(c) Introversão Cultural. John Smart argumenta que uma inteligência que sofre um desenvolvimento relativista avançado acha a paisagem externa cada vez menos informativa e absorvente. A busca por estímulo cognitivo a atrai para dentro. Conforme as culturas urbanas evoluem, através de uma complexidade social acelerante, pode-se esperar que elas manifestem exatamente este padrão. Seus processos internos de implosão desembestada de inteligência se tornam cada vez mais emocionantes, cativantes, surpreendentes, produtivos e educacionais, ao passo que a paisagem cultural mais ampla fica para trás no tédio previsível, de relevância meramente etnográfica e histórica. A singularidade cultural se torna cada vez mais urbana-futural (em vez de etno-histórica), para o previsível descontentamento dos estados-nação tradicionais. Como o Ciberespaço Terrestre de Gibson, que encontra outro de seu tipo em uma órbita ao redor de Alpha Centauri, a conectividade cosmopolita é criada através da viagem interior, ao invés da extensão expansiva.

(d) Ressonância de Escala. No nível mais abstrato, a relação entre urbanismo e microeletrônicos é escalar (fractal). Os computadores por vir estão mais próximos de cidades em miniatura do que de cérebros artificiais, dominados por problemas de tráfego (congestionamento), migração / comunicação, questões de zoneamento (uso misto), o potencial de engenharia de novos materiais, questões de dimensionalidade (soluções 3D para restrições de densidade), dissipação de entropia ou calor / desperdício (reciclagem / computação reversível) e controle de doenças (novos vírus). Uma vez que as cidades, assim como computadores, exibem um desenvolvimento (filogenético acelerante) dentro de um tempo histórico observável, elas fornecem um modelo realista de melhoria para máquinas compactas de processamento de informação, sedimentado como uma série de soluções práticas para o problema da intensificação implacável. A emulação do cérebro poderia ser considerada uma meta computacional importante, mas ela é quase inútil enquanto modelo de desenvolvimento. Tecnologias microeletrônicas inteligentes contribuem para o processo em aberto da solução de problemas urbanos, mas elas também a recapitulam em um novo nível.

(e) Matriz Urbana. O desenvolvimento urbano exibe a real embriogênese da inteligência artificial? Em vez da Internet global, da Skynet militar, ou de um programa de IA com origem em um laboratório, seria o caminho da cidade, embasado em intensificação acelerante (compressão STEM), que melhor fornece as condições para a computação sobre-humana emergente? Talvez a principal razão para pensar assim seja que o problema da cidade – administração e acentuação de densidade – já a compromete à engenharia computacional, antes de qualquer pesquisa deliberadamente guiada. A cidade, por sua própria natureza, se comprime, ou intensifica, em direção ao computrônio. Quando a primeira IA falar, poderia ser em nome da cidade que ela identifica como seu corpo, embora mesmo isso fosse pouco mais do que um ‘fóssil radiofônico’ – um sinal anunciando a beira do silêncio – conforme o caminho da implosão se aprofunda e desaparece dentro do interior alienígena.

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Introduzindo o Urbano Futuro

O que os leitores podem esperar deste blog? Uma vez que ele promete estar orientado para o futuro, faz sentido começar com algumas previsões preliminares sobre si mesmo.

De maneira mais básica e previsível, o Urbano Futuro foi programado por seu nome. Seu tópico principal é a intersecção das cidades com o futuro. Ele visa fomentar discussões sobre cidades enquanto motores do futuro, e sobre o futurismo enquanto uma influência dinâmica sobre a forma, o caráter e o desenvolvimento das cidades. De maneira mais particular, ele escava em busca de pistas e flutua especulações sobre a Shanghai de amanhã. Ele antecipa um futuro urbano global no qual Shanghai aparece de maneira proeminente, e uma Shanghai vindoura que expressa, de maneira tanto firme quanto sutil, as forças transformativas do futurismo global. Isso já é nos anteciparmos bastante, que é o que tipicamente faremos.

Para alguns leitores, ‘futurismo’ invocará o movimento cultural de vanguarda do início do século XX, cristalizado no Manifesto Futurista de Filippo Tommaso Marinetti de 1909. O futurismo, eles poderiam razoavelmente objetar, foi definido e até mesmo fechado pela passagem do tempo. Como o modernismo, ele agora pertence ao arquivo da história concluída. O que existe hoje, e nos dias por vir, só pode ser um neo-futurismo (e um neo-modernismo): não menos retrospectivo do que prospectivo, uma repetição tanto quanto uma especulação. Tais considerações, correções e lembranças, com todas suas perplexidades concomitantes, são extremamente bem-vindas. O tempo de abordá-las logo chegará.

Uma vez que Shanghai está entre-cruzada por índices fraturados no tempo de ambiguidade histórico-futurista, do paleo-modernismo ao neo-tradicionalismo, o blog terá toda oportunidade de discutir tais coisas. Por ora, uma referência casual aos estranhamente geminados ícones arquitetônicos de tais emaranhados temporais, o Park Hotel e a Jinmao Tower – cada um deles uma obra-prima retro-futurista ou cibergótica – tem que servir de substituta, enquanto mnemônico e nota promissória.

Também, em tempo, os obstáculos à previsão precisam ser abordados de maneira meticulosa: tópicos tais como o catastrofismo histórico, a hipótese dos mercados eficientes (EMH), a crítica do historicismo de Karl Popper, a incerteza knightiana (ou as “incógnitas desconhecidas” rumsfeldianas) e a teoria do Cisne Negro de Nassim Nicholas Taleb. A fim de nos instalarmos e começarmos a funcionar, todos esses pensamentos complicadores foram temporariamente colocados entre parênteses, como bestas astutas e ferozes, mas não permanecerão enjaulados para sempre, ou mesmo por muito tempo.

Uma vez que há algo irresistivelmente distorcido sobre se começar com o futuro, a primeira enxurrada de posts irá direto para o amanhã, com os tópicos se tornando cada vez mais focados em cidades e em Shanghai conforme as coisas progredirem. Uma série inicial de posts interconectados delineará o pensamento futurista em termos amplos, incluindo esboços preliminares dos principais pontos de parada na [l=]linha principal da tradição tecno-científica que o suporta.

Em última análise, nada relevante para o futuro de Shanghai é alienígena ao propósito deste blog. Ele se embasará na história, geografia e cultura de Shanghai, em filosofias tradicionais chinesas do tempo (Yijing e Taoísmo), em teorias sobre a modernidade e sobre o urbanismo, em biologia evolutiva, ficção científica, discussões tecno-científicas sobre sistemas complexos e emergência, na economia da ordem espontâneaondas longas, tendências tecnológicas, pesquisa e desenvolvimentos da robótica, em modelos de mudança acelerativa e antecipações da Singularidade Tecnológica. As coisas deveriam ficar continuamente mais esquisitas.

Amanhã, começa.

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