Jardins do Tempo (Parte 1)

Poderia ser presunçoso assumir que há algo como a Ideia do cultivo. Seria possível imaginar a ausência de qualquer ideia desse tipo (uma deficiência que é imediatamente estimulante) como a condição que torna o cultivo necessário.

Quando a busca por um conceito conclusivo é abandonada, a tarefa cultural do jardim — em sua expressão mais elevada (a de Jiangnan) — começa a ser entendida. Não menos que as belas artes reconhecidas do Oriente ou do Ocidente, o jardim de Suzhou merece apreço como uma “declaração” filosófica na qual a realização estética é inextricável de uma profunda apreensão da realidade. Talvez, então, nenhum atalho ou resumo que buscasse economizar a criação e a preservação do próprio jardim poderia chegar ao mesmo ‘lugar’ ou — mesmo com o sentido mais restrito de influência cognitiva — descobrir as mesmas coisas.

Concebido de maneira anacrônica, o jardim de Suzhou é um experimento multimídia, que incorpora vários tipos de escrita em meio a suas partes. Ao lado ou cravado em meio a pavilhões, muros, pontes, rochas ornamentais, lagoas, animais, vegetação, mobiliários, esculturas ornamentais e pinturas, encontram-se pergaminhos e inscrições caligráficas que fazem das palavras um ingrediente do jardim. A língua é algo incluído e treinado dentro de um conjunto abrangente. Desde o princípio, as paixões imoderadas do exílio e do domínio são removidas do signo cultivado.

Recorrer a sinais ulteriores para falar sobre o jardim — especialmente o jardim genérico — introduz um problema de enquadramento, mas isso também foi meticulosamente antecipado, de várias maneiras. O enquadramento é o principal método do jardim, e é seu artifício supremo. Seja através de simples quadros de ‘imagens’, que transformam — por exemplo — um pedaço de pedra em uma obra de arte, ou de construções elaboradas de portais, entradas, janelas, aberturas, alcovas, interiores e pontos de vista, é o enquadramento da perspectiva que esteticiza. O que produz o jardim como um todo cultivado — de maneira mais fundamental — é sua subdivisão perspectiva em si mesmo. Quando o jardim é analiticamente decomposto, de acordo com sua própria ‘granulação’, ele se quebra em uma miríade de cenas. Ele é feito de peças de contemplação.

O jardim cria seus próprios exteriores — numerosos — a fim de aparecer, peça por peça. Não se pode assumir, portanto, que se deixou o jardim, simplesmente por que se o comenta ‘de fora’. Não menos provavelmente, o jardim em si forneceu os quadros que agora escapam até uma contemplação prolongada, conforme suas cenas são perseguidas em algum caminho de revelação cada vez mais aprofundada. Compreender o jardim, e a realidade através do jardim, é o jardim. O jardim é uma máquina de perspectiva.

Um dispositivo cênico arranjado no espaço, o jardim é quase infinitamente intricado, mas ainda comparativamente tratável. O enigma espacial é resolvido em estágios, conforme o visitante passa através de uma sequência de apreensões, ajustando serialmente a posição e a direção da atenção, sintonizando quadros perceptuais e sintetizando associações. Este é um processo que leva tempo, o que empresta a cada parte de cada jardim um passo característico, inversamente proporcional à densidade cênica. Onde quer que os enquadramentos se multipliquem de maneira mais cativante, seja através da segmentação do espaço por objetos e figuras estetizadas, ou através da estratificação recursiva de quadros (talvez um portal lunar, visto através de uma soleira, e depois de uma janela), o jardim retarda a progressão a um extremo, como se absorvesse a motilidade diretamente na percepção. (A compreensão da percepção como um comportamento que compartilha uma economia com a locomoção é uma das muitas lições do jardim.)

Ao tornar o tempo um chave para o decriptamento do espaço, o jardim já começou a tematizar vagamente a duração. O nome do Lingering Garden (“Jardim da Persistência”, em chinês, 留园, Liu Yuan), que combina os sentidos de ‘ficar’ e ‘observar’, captura isso de maneira especialmente incisiva. Persistir é deixar o espaço absorver o tempo. É assim que o jardim cativa e cultiva a contemplação.

Se, recuando das seduções do espaço, seja o tempo que se busca nesse caminho de jardins, o que descobrimos? Essa é a questão à qual essa série (que se desdobra languidamente) se orientará.

Original.

O Museu de Ningbo

O Museu de Ningbo, que mereceu um prêmio Pritzker para o arquiteto Wang Shu em 2012, é um edifício desafiador. Combinando elementos e materiais tradicionais com um modernismo monumental — em sua manifestação mais intransigentemente brutalista — ele efetua um complexo peculiar de delicadeza e terror.

NingboMuseum

As fachadas assinadas por Wang já exibem a mesma ambiguidade em embrião. Seus vastos planos puros, exibidos no pavilhão de Ningbo Tengtou na Expo Mundial de Shanghai em 2010, memorializam um passado demolido. Os tijolos e telhas de vilarejos obliterados são reciclados em superfícies requintadamente tesseladas e infinitamente absorvedoras, esparsamente pontuadas por janelas irregularmente orientadas e distribuídas. A tensão entre a escala esmagadora e a composição intricada é imensa (e íntima). Deslocamentos sutis de textura e cor nos materiais não uniformes transformam as paredes em exibições sensuais de padrões abstratos, enquanto seu rigor geométrico maciço se aproxima de um estado de absoluta ameaça (com uma inconfundível veia militar-totalitária).

Na estrutura do Museu de Ningbo, essa tensão é composta até um tom quase histérico por uma estrutura híbrida, que funde os mosaicos achatados dos vilarejos com blocos colossais de concreto texturizado comparativamente homogêneos. A construção parece uma fortaleza moderna, montada em uma linguagem arquitetônica de um rígido pragmatismo defensivo. Cada abertura é pressurizada na direção de uma fenda, como se mesmo aberturas mínimas fossem uma concessão relutante à fraqueza e à vulnerabilidade. Para a instituição cultural de referência de uma cidade aberta e comercial, aninhada na região tradicionalmente pacífica de Jiangnan, na China, esse vocabulário estrutural é chocante e indubitavelmente provocador. Se há uma mensagem, ela não é fácil de descriptografar

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Original.