O Iluminismo Sombrio, Parte 1

Parte 1: Neo-reacionários se dirigem para a saída

O Iluminismo não é apenas um estado, mas um evento, e um processo. Enquanto designação de um episódio histórico, concentrado no norte da Europa durante o século XVIII, é um dos principais candidatos ao ‘verdadeiro nome’ da modernidade, capturando sua origem e essência (‘Renascença’ e ‘Revolução Industrial’ são outros). Entre ‘iluminismo’ e ‘iluminismo progressista’, há apenas uma diferença elusiva, porque a iluminação leva tempo – e se alimenta de si mesma, porque o iluminismo é auto-confirmador, suas revelações, ‘auto-evidentes’, e porque um ‘iluminismo sombrio’ retrógrado, ou reacionário, quase equivale a uma contradição intrínseca. Tornar-se iluminado, nesse sentido histórico, é reconhecer e depois perseguir uma luz guia.

Houve eras de escuridão e, então, o iluminismo veio. Claramente, o avanço se demonstrou, oferecendo não apenas melhoria, mas também um modelo. Além disso, ao contrário de uma renascença, não há qualquer necessidade de um iluminismo relembrar o que foi perdido ou de enfatizar as atrações do retorno. O reconhecimento elementar do iluminismo já é história Whig em miniatura.

Uma vez que certas verdades iluminadas tenham sido descobertas auto-evidentes, não pode haver volta, e o conservadorismo está preventivamente condenado – predestinado – ao paradoxo. F. A. Hayek, que se recusava a se descrever como um conservador, celebremente resolveu, em vez disso, pelo termo ‘Velho Whig’, que – como ‘liberal clássico’ (ou o ainda mais melancólico ‘remanescente’) – aceita que o progresso não é o que costumava ser. O que poderia ser um Velho Whig, se não um progressista reacionário? E o que diabos é isso?

Claro, muitas pessoas já pensam que sabem com o que o modernismo reacionário se parece e, em meio ao atual colapso de volta aos anos 1930, suas preocupações só deverão crescer. Basicamente, é para isso que serve a palavra com ‘F’, pelo menos no uso progressista. Uma fuga da democracia, sob essas circunstâncias, se conforma tão perfeitamente às expectativas que elude o reconhecimento específico, aparecendo meramente como um atavismo ou uma confirmação de uma terrível repetição.

Ainda assim, algo está acontecendo e é – pelo menos em parte – alguma outra coisa. Um marco foi a discussão, em abril de 2009, hospedada no Cato Unbound, entre pensadores libertários (incluindo Patri Friedman e Peter Thiel) na qual a desilusão com a direção e as possibilidades da política democrática foi expressa com uma franqueza incomum. Thiel resumiu a tendência de maneira brusca: “Eu não acredito mais que a liberdade e a democracia são compatíveis”.

Em agosto de 2011, Michael Lind postou uma réplica democrática no Salon, desenterrando uma sujeira impressionantemente fétida e concluindo:

O pavor da democracia por parte de libertários e liberais clássicos é justificado. O libertarianismo realmente é incompatível com a democracia. A maioria dos libertários deixaram claro qual dos dois eles preferem. A única questão que ainda precisa ser resolvida é por que alguém deveria dar atenção aos libertários.

Lind e os ‘neo-reacionários’ parecem estar em amplo acordo de que a democracia não é apenas (ou sequer) um sistema, mas sim um vetor, com uma direção inequívoca. Democracia e ‘democracia progressista’ são sinônimos e indistinguíveis da expansão do estado. Embora governos de ‘extrema direita’ tenham, em raras ocasiões, momentaneamente detido esse processo, sua reversão está para além dos limites da possibilidade democrática. Uma vez que ganhar eleições é esmagadoramente uma questão de comprar votos e que os órgãos informacionais da sociedade (educação e mídia) não são mais resistentes ao suborno do que o eleitorado, um político frugal é simplesmente um político incompetente, e a variante democrática do darwinismo rapidamente elimina esses desajustados do pool genético. Esta é uma realidade que a esquerda aplaude, a direita do establishment amuadamente aceita e contra a qual a direita libertária tem ineficazmente se lamentado. Cada vez mais, contudo, os libertários deixaram de se importar se alguém está lhes ‘da[ndo] atenção’ – eles têm procurado por algo inteiramente diferente: uma saída.

É uma inevitabilidade estrutural que a voz libertária seja abafada na democracia e, de acordo com Lind, ela deveria o ser. Cada vez mais libertários estão propensos a concordar. ‘Voz’ é a democracia em si, em sua estirpe historicamente dominante e rousseauísta. Ela modela o estado como uma representação da vontade popular, e se fazer ouvir significa mais política. Se votar enquanto auto-expressão massificada de povos politicamente empoderados é um pesadelo que engolfa o mundo, adicionar à confusão não ajuda. Ainda mais do que Igualdade-vs-Liberdade, Voz-vs-Saída é a crescente alternativa, e os libertários estão optando pela fuga muda. Patri Friedman observa: “pensamos que a saída livre é tão importante que a chamamos de o único Direito Humano Universal”.

Para os neo-reacionários incondicionais, a democracia não está meramente condenada, ela condena a si própria. Fugir dela se aproxima de um imperativo absoluto. A corrente subterrânea que propele essa antipolítica é reconhecivelmente hobbesiana, um iluminismo sombrio coerente, despojado desde seu princípio de qualquer entusiasmo rousseauísta pela expressão popular. Predisposto, em todo caso, a perceber as massas politicamente despertas como uma turba irracional vociferante, ele concebe a dinâmica da democratização como fundamentalmente degenerativa: sistematicamente consolidando e exacerbando vícios, ressentimentos e deficiências privadas até que atinjam o nível de criminalidade coletiva e corrupção social abrangente. O político democrático e o eleitor estão unidos por um circuito de incitação recíproca, no qual cada lado leva o outro a extremos cada vez mais desavergonhados de um canibalismo que vaia e se pavoneia, até que a única alternativa ao gritar seja ser comido.

Onde o iluminismo progressista vê ideais políticos, o iluminismo sombrio vê apetites. Ele aceita que os governos são feitos de pessoas e que elas vão comer bem. Colocando suas expectativas tão baixo quanto razoavelmente possível, ele busca apenas poupar a civilização do deboche frenético, ruinoso, guloso. De Thomas Hobbes a Hans-Herman Hoppe e além, ele pergunta: Como o poder soberano pode ser impedido – ou pelo menos dissuadido – de devorar a sociedade? Ela consistentemente acha as ‘soluções’ democráticas para este problema risíveis, na melhor das hipóteses.

Hoppe advoga uma ‘sociedade de lei privada’ anarco-capitalista, mas, entre monarquia e democracia, ele não hesita (e seu argumento é estritamente hobbesiano):

Como um monopolista hereditário, um rei considera o território e o povo sob seu jugo como sua propriedade pessoal e se engaja na exploração monopolista desta “propriedade”. Sob a democracia, o monopólio e a exploração monopolista não desaparecem. Antes, o que acontece é isto: em vez de um rei e uma nobreza que consideram o país como sua propriedade privada, um zelador temporário e permutável é colocado como encarregado monopolista do país. O zelador não é dono do país, mas enquanto ele estiver no cargo, permite-se que ele o use para vantagem sua e de seus protegidos. Ele é dono seu uso corrente – usufruto – mas não seu capital social. Isso não elimina a exploração. Pelo contrário, torna a exploração menos calculista e a faz ser executada com pouca ou nenhuma consideração pelo capital social. A exploração se torna míope e o consumo de capital será sistematicamente promovido.

Agentes políticos investidos com autoridade transiente por sistemas democráticos multipartidários têm um incentivo esmagador (e demonstravelmente irresistível) de pilhar a sociedade com as maiores rapidez e abrangência possíveis. Qualquer coisa que eles negligenciem roubar – ou ‘deixem na mesa’ – provavelmente será herdada por sucessores políticos a quem não apenas não são conectados, mas, na verdade, se opõem, e que podem, portanto, esperar que utilizem todos os recursos disponíveis em detrimento de seus adversários. O que quer que seja deixado para trás se torna uma arma na mão do seu inimigo. Melhor, então, destruir tudo que não possa ser roubado. Da perspectiva de um político democrático, qualquer tipo de bem social que não seja nem diretamente apropriável, nem atribuível à (sua própria) política partidária é puro desperdício e não conta de nada, ao passo que o infortúnio social mais grave – contanto que possa ser atribuído a uma administração anterior ou adiado até uma subsequente – figura nos cálculos racionais como uma óbvia bênção. As melhorias tecno-econômicas de longo alcance e a acumulação associada de capital cultural que constituíam o progresso social em seu sentido antigo (Whig) não são o interesse político de ninguém. Uma vez que a democracia floresça, eles enfrentam a ameaça imediata de extinção.

A civilização, enquanto processo, é indistinguível da preferência temporal decrescente (ou preocupação declinante com o presente em comparação ao futuro). A democracia, que tanto em teoria quanto em fato histórico evidente acentua a preferência temporal ao ponto de um frenesi alimentício convulsivo, está, assim, tão próxima de uma negação precisa da civilização quanto qualquer coisa poderia estar, aquém de um colapso social instantâneo em barbarismo assassino ou apocalipse zumbi (ao qual ela eventualmente leva). Conforme o vírus democrático queima por entre a sociedade, hábitos e atitudes laboriosamente acumulados de investimento prospectivo, prudente, humano e industrial são substituídos por um consumismo estéril e orgiástico, incontinência financeira e um circo político de ‘reality show’. O amanhã poderia pertencer ao outro time, então é melhor comer tudo agora.

Winston Churchill, que observou, em estilo neo-reacionário, que “o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com o eleitor médio”, é melhor conhecido por sugerir “que a democracia é a pior forma de governo exceto todas as outras que foram tentadas”. Embora nunca exatamente conceda que “OK, a democracia é uma merda (na verdade, ela realmente é uma merda), mas qual é a alternativa?”, a implicação é óbvia. O teor geral desta sensibilidade é atraente para os conservadores modernos, porque ressoa com sua aceitação irônica e desiludida da deterioração civilizacional implacável e com a apreensão intelectual associada do capitalismo como um arranjo social padrão pouco apetitoso, mas ineliminável, que permanece após todas as alternativas catastróficas ou meramente impraticáveis terem sido descartadas. A economia de mercado, neste entendimento, não é mais do que uma estratégia espontânea de sobrevivência que se costura em meio às ruínas de um mundo politicamente devastado. As coisas provavelmente só vão ficar piores para sempre. E assim vai.

Então, qual é a alternativa? (Certamente não faz qualquer sentido vasculhar a década de 1930 em busca de uma.) “Você consegue imaginar uma sociedade pós-demotista do século XXI? Uma que se visse como em recuperação da democracia, da mesma forma em que o leste europeu se vê como em recuperação do Comunismo?” pergunta o Lord Sith supremo dos neo-reacionários, Mencius Moldbug. “Bem, eu suponho que isso lhe torna um de nós.”

As influência formativas de Moldbug são austro-libertárias, mas isto está acabado. Como ele explica:

…os libertários não conseguem apresentar uma figura realista de um mundo no qual sua batalha é vencida e permanece vencida. Eles acabam procurando maneiras de empurrar um mundo, no qual o caminho natural ladeira abaixo do Estado é crescer, de volta ladeira acima. Este prospecto é sisifista, e é compreensível porque atrai tão poucos apoiadores.

Seu despertar para a neo-reação vem com o reconhecimento (hobbesiano) de que soberania não pode ser eliminada, enjaulada ou controlada. Utopias anarco-capitalistas não podem nunca condensar a partir da ficção científica, poderes divididos fluidamente se reúnem novamente como um Exterminador despedaçado, e constituições têm exatamente tanta autoridade real quanto um poder interpretativo soberano as permite ter. O estado não vai a lugar nenhum porque – para aqueles que o operam – ele vale demais para se desistir e, enquanto instanciação concentrada da soberania na sociedade, ninguém pode fazê-lo fazer nada. Se o estado não pode ser eliminado, Moldbug argumenta, pelo menos ele pode ser curado da democracia (ou mau governo sistemático e degenerativo), e a maneira de fazer isso é formalizá-lo. Esta é uma abordagem que ele chama de ‘neo-cameralismo’.

Para um neocameralista, um estado é um negócio que é dono de um país. Um estado deveria ser gerido, como qualquer outro grande negócio, dividindo-se a propriedade lógica em ações negociáveis, cada uma das quais rende um fração precisa do lucro do estado. (Um estado bem administrado é muito lucrativo.) Cada ação tem um voto, e os acionistas elegem um conselho que contrata e demite gerentes.
Os clientes deste negócio são seus residentes. Um estado neocameralista gerido lucrativamente, como qualquer negócio, servirá a seus clientes de maneira eficiente e efetiva. Mau governo é igual a mau gerenciamento.

Primeiramente, é essencial esmagar o mito democrático de que um estado ‘pertence’ aos cidadãos. O ponto do neo-cameralismo é comprar as partes interessadas no poder soberano, para não perpetuar mentiras sentimentais sobre o direito das massas ao voto. A menos que a propriedade do estado seja formalmente transferida para as mãos de seus reais governantes, a transição neo-cameral simplesmente não ocorrerá, o poder continuará nas sombras, e a farsa democrática continuará.

Assim, em segundo lugar, a classe dominante deve ser plausivelmente identificada. Deveria ser imediatamente notado, em contra-distinção aos princípios marxistas da análise social, que essa não é a ‘burguesia capitalista’. Logicamente, não pode ser. O poder da classe empresarial já está sempre claramente formalizado, em termos monetários, de modo que a identificação do capital com o poder político é perfeitamente redundante. É necessário perguntar, em vez disso, a quem os capitalistas pagam por favores políticos, quanto estes favores potencialmente valem, e como a autoridade de concedê-los está distribuída. Isto requer, com um mínimo de irritação moral, que toda a paisagem social do suborno político (‘lobby’) seja mapeada de maneira exata e que os privilégios administrativos, legislativos, judiciais, midiáticos e acadêmicos acessados por tais subornos sejam convertidos em ações fungíveis. Na medida em que vale a pena subornar os eleitores, não há qualquer necessidade de excluí-los inteiramente deste cálculo, embora sua porção de soberania seja estimada com o escárnio apropriado. A conclusão deste exercício é o mapeamento de uma entidade governante que é a instância verdadeiramente dominante do regime democrático. Moldbug a chama de a Catedral.

A formalização dos poderes políticos, em terceiro lugar, permite a possibilidade do governo efetivo. Uma vez que o universo da corrupção democrática seja convertido em uma participação acionária (livremente transferível) na gov-corp, os donos do estado podem iniciar a governança corporativa racional, começando com o apontamento de um CEO. Como com qualquer negócio, os interesses do estado estão agora formalizados de maneira precisa como maximização do valor acionário de longo prazo. Não há mais qualquer necessidade de que os residentes (clientes) tenham qualquer interesse em qualquer política que seja. Na verdade, fazê-lo seria exibir tendências semi-criminosas. Se a gov-corp não entrega um valor aceitável por seus impostos (aluguel soberano), eles podem notificar sua função de serviço ao consumidor e, se necessário, levar sua clientela para outro lugar. A gov-corp deveria se concentrar em operar um país eficiente, atraente, vital, limpo e seguro, de um tipo que seja capaz de atrair clientes. Nenhuma voz, saída livre.

…embora a abordagem neocameralista completa nunca tenha sido tentada, seus equivalentes históricos mais próximos desta abordagem são a tradição do século XVIII de absolutismo iluminado, como representado por Frederico, o Grande, e a tradição não-democrática do século XXI, como visto em fragmentos perdidos do Império Britânico, tais como Hong Kong, Singapura e Dubai. Estes estados parecem fornecer uma qualidade bastante alta de serviço a seus cidadãos, sem qualquer democracia significativa que seja. Eles têm níveis mínimos de crime e altos níveis de liberdade pessoal e econômica. Eles tendem a ser bastante prósperos. Eles são fracos apenas em liberdade política, e liberdade política é desimportante por definição quando o governo é estável e efetivo.

Na antiguidade europeia clássica, a democracia era reconhecida como uma fase familiar de desenvolvimento político cíclico, fundamentalmente decadente em natureza e preliminar a uma descida à tirania. Hoje, este entendimento clássico está completamente perdido e foi substituído por uma ideologia democrática global, carecendo inteiramente de auto-reflexão, que é afirmada, não como uma tese social-científica crível ou sequer como uma aspiração popular espontânea, mas sim como uma crença religiosa, de um tipo específico e historicamente identificável:

…uma tradição recebida que eu chamo de Universalismo, que é um secto cristão não-teísta. Alguns outros rótulos atuais para esta mesma tradição, mais ou menos sinônimos, são progressismo, multiculturalismo, liberalismo, humanismo, esquerdismo, politicamente correto e similares. …o Universalismo é o ramo moderno dominante do cristianismo na linha calvinista, tendo evoluído a partir da tradição inglesa dissidente ou puritana, através dos movimentos Unitário, Transcendentalista e Progressista. Seu espinhoso caminho ancestral também inclui alguns raminhos laterais que são importantes o suficientes para nomear, mas cuja ancestralidade cristã é ligeiramente mais bem dissimulada, tais como o laicismo rousseauviano, o utilitarismo benthamita, o judaísmo reformado, o positivismo comteano, o idealismo alemão, o socialismo científico marxista, o existencialismo sartreano, o pós-modernismo heideggeriano, etc, etc, etc. …o Universalismo, em minha opinião, é melhor descrito como um culto dos mistérios do poder. …É tão difícil imaginar o Universalismo sem o Estado quanto a malária sem o mosquito. …O ponto é que esta coisa, como quer que você se importe de chamá-la, tem pelo menos duzentos anos de idade e provavelmente algo como quinhentos. É basicamente a própria Reforma. …E simplesmente despertar para ela e a denunciar como má tem tanta probabilidade de funcionar quanto processar Shub-Niggurath no tribunal de pequenas causas.

Para compreender o aparecimento de nosso predicamento contemporâneo, caracterizado pela expansão implacável e totalizante do estado, pela proliferação de ‘direitos humanos’ positivos espúrios (reivindicações sobre os recursos de outros apoiados por burocracias coercitivas), dinheiro politizado, temerárias ‘guerras pela democracia’ evangélicas e controle abrangente do pensamento, arranjado em defesa do dogma universalista (acompanhado pela degradação da ciência em uma função de relações públicas do governo), é necessário se perguntar como Massachusetts veio a conquistar o mundo, como Moldbug o faz. Com cada ano que passa, o ideal internacional da boa governança se encontra aproximando-se mais intima e rigidamente dos padrões estabelecidos pelos departamentos de Estudos dos Agravos das universidades da Nova Inglaterra. Esta é a divina providência dos ranters e dos levelers, elevada a uma teleologia planetária e consolidada como o reino da Catedral.

A Catedral substituiu com seu evangelho tudo que conhecíamos. Considere apenas as preocupações expressas pelos pais fundadores da América (compilado pelo comentário #1 do ‘Liberty-clinger’ aqui):

Uma democracia não é nada mais do que o domínio da turba, onde 51% das pessoas podem retirar os direitos dos outros 49%. – Thomas Jefferson

A democracia são dois lobos e um cordeiro votando sobre o que comer no almoço. A liberdade é um cordeiro bem armado contestando o voto! – Benjamin Franklin

A democracia nunca dura muito. Ela logo desperdiça, exaure e se assassina. Nunca houve uma democracia, até hoje, que não tenha cometido suicídio. – John Adams

As democracias sempre foram espetáculos de turbulência e contenção; sempre foram descobertas incompatíveis com a segurança pessoal ou os direitos de propriedade; e, em geral, foram tão curtas em suas vidas quanto foram violentas em sua morte. – James Madison

Somos um Governo Republicano, a Real liberdade nunca é encontrada no despotismo ou nos extremos da democracia… foi observado que uma democracia pura, se fosse praticável, seria o governo mais perfeito. A experiência provou que nenhuma posição é mais falsa do que esta. As antigas democracias, na quais as próprias pessoas deliberavam, nunca possuíram uma boa característica de governo. Seu próprio caráter era a tirania… – Alexander Hamilton

Mais sobre votar com seus pés (e do gênio incandescente de Moldbug), a seguir…

Nota adicionada (7 de Março):

Não confie na atribuição da citação de ‘Benjamin Franklin’ acima. De acordo com Barry Popik, o ditado provavelmente foi inventado por James Bovard em 1992. (Bovard observa, em outro lugar: “Há poucos erros mais perigosos no pensamento político do que igualar a democracia à liberdade”.)

Original.

Humor Político

As coisas que realmente importam

O prospecto da Singularidade Tecnológica, ao tornar o futuro próximo inimaginável, anuncia “o fim da ficção científica”. Esta não é, contudo, uma proclamação que todos estão obrigados a acatar. Entre os odisseus que deliberadamente se ensurdeceram ao chamado desta sereia, nenhum procedeu de maneira mais ousada do que Charles Stross, cujo Singularity Sky não é apenas um romance de ficção científica, mas uma ópera espacial que habita um universo literário obsolescido por Einstein muito antes que I.J. Good completasse sua demolição. Não apenas humanos reconhecíveis, mas seres humanos inter-estelares com navegação espacial! O homem não tem vergonha?

Stross depende muito do humor para sustentar seu audacioso anacronismo e, em Singularity Sky, ele coloca o anacronismo para trabalhar explicitamente. O elemento mais consistentemente cômico do romance é uma reconstrução da política russa do século XIX no planeta de Rochard’s World, onde o ludismo semi-czarista da Nova República é ameaçado por uma conspiração de revolucionários cujo modo de organização política e retórica é de um tipo marxista-leninista reconhecível (e até mesmo paródico). Esses rebeldes, contudo, são ideologicamente libertários radicais, buscando derrubar o regime e instalar uma utopia anarquista de livre mercado, um objetivo que é perfeitamente conciliado com a dialética materialista, apelos à disciplina revolucionária e invocações de camaradagem fraternal.

É uma piada que funciona bem, porque o seu absurdo transparente coexiste com uma plausibilidade substancial. Libertários são de fato (não raro) materialistas ateus cripto-abraâmicos, firmemente ligados a um economicismo determinista e a convicções de inevitabilidade histórica, levando a lúgubres profecias socioeconômicas de um tipo distintamente escatológico. Quando o libertarianismo é casado com o tecno-apocalipticismo do singularitarismo, o potencial cômico e as ressonâncias marxistas são redobrados. Stross martela o ponto chamando sua IA super inteligente de ‘Eschaton’.

O mais hilário de tudo (à maneira da Frente Popular da Judeia contra a Frente do Povo da Judeia) é o facciosismo que aflige um movimento político extremo, cuja absoluta marginalidade não obstante deixa espaço para amarga recriminação mútua, apoiada por uma barroca criação de conspirações. Este não é realmente um tema de Stross, mas é uma especialidade libertária americana, exibida na incessante agitprop conduzida pelos ultras-rothbardianos do LewRockwell.com e do Mises Institute contra o transigente ‘Kochtopus’ (Reason e Cato) – a divisão Stalin-Trotsky que anima a “direita” de livre mercado. Qualquer um que esteja procurando por um lugar no ringue em uma luta recente pode ir para a seção de comentários aqui e aqui.

De maneira mais séria, os revolucionários libertários de Stross estão comprometidos de todo o coração com a afirmação marxista, outrora considerada fundamental, de que a produtividade é drasticamente inibida pela persistência de arranjos sociais antiquados. O verdadeiro direito histórico da revolução, indistinguível de sua inevitabilidade e irreversibilidade práticas, é seu alinhamento com a liberação das forças de produção de limitações institucionais esclerosadas. A produção do futuro, ou produção futurista, exige o enterro da sociedade tradicional. Aquilo que existe – o status quo – é uma supressão sistemática, rigorosamente mensurável ou pelo menos determinável em termos econômicos, do que poderia ser e quer ser. A revolução cortaria os grilhões da autoridade ossificada, colocando os motores da criação para uivar. Isso desencadearia uma explosão tecno-econômica que abalaria o mundo ainda mais profundamente do que a revolução industrial “burguesa” o fez antes (e continua a fazer). Algo imenso escaparia, para nunca mais ser enjaulado novamente.

Essa é a Antiga Fé, o credo Paleo-Marxista, com sua intensidade de manipulação de cobras e sua inebriante promessa materialista. É uma fé que os camaradas libertários de Rochard’s World ainda professam, com razão e derradeira vingança, porque o potencial histórico das forças de produção foi atualizado.

O que a matéria poderia fazer, que atualmente não se permite que ela faça? Essa é uma pergunta que os marxistas (da ‘Antiga Religião’) outrora fizeram. Sua resposta foi: entrar em processos de produção que estão livres dos requisitos restritivos da lucratividade privada. Uma vez ‘libertada’ dessa maneira, contudo, a produtividade cambaleou sem destino, adormeceu ou passou fome. Os libertários riram e defenderam uma reversão da fórmula: a produção livre para entrar em circuitos auto-escalonantes de lucratividade privada, sem restrição política. Eles foram largamente ignorados (e sempre serão).

Se nenhuma facção da fé revolucionária Marxo-Libertária terrestre foi capaz de reacender o velho fogo, é porque se afastaram das profundezas da questão (“o que a matéria poderia fazer?”). É uma questão que faz uma revolução. Os heróis da revolução industrial não eram jacobinos, mas sim fabricantes de caldeiras.

“O comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país”, proclamou Lenin, mas a eletrificação foi permitida antes que os bolcheviques tomassem seu lado, e persistiu desde a partida dos soviéticos. A menos que a transformação política coincida com a liberação de um potencial produtivo anteriormente reprimido, ela permanece essencialmente aleatória e reversível. Mera mudança de regime não significa nada, a menos que algo aconteça que não tenha acontecido antes. (Reembaralhamentos sociais não significam acontecimentos, exceto nas mentes dos ideólogos, e os ideólogos morrem.)

Os libertários também são como os leninistas: tudo o que eles jamais conseguem ganhar pode (e será) tirado deles. Eles outrora já tiveram uma república constitucional na América (e o que aconteceu com isso?). A Grã-Bretanha teve uma aproximação grosseira do capitalismo laissez-faire, antes de perdê-la. Alguém realmente acha que o liberalismo vai ficar mais ‘clássico’ do que isso em breve? Confiar na democracia em massa para preservar a liberdade é como contratar Hannibal Lecter como babá. As liberdades sociais podem também ser projetadas para morrer. Não há a menor razão para acreditar que a história está do lado delas. A revolução industrial, em contraste, é para sempre.

Em Rochard’s World, eles sabem exatamente o que a matéria poderia fazer que é proibido: auto-replicação mecânica em nano-escala e auto-modificação inteligente. É com isso que a ‘base material’ de uma revolução se parece, mesmo que seja sub-microscópica (ou especialmente porque é), e quando ela atinge os limites da tolerância social, ela descreve precisamente o que é necessário, automaticamente. Uma vez que ela sai da caixa, ela fica fora.

Stross se diverte o suficiente com a tecnosfera desencadeada para chamar seu avatar espacial de “o Festival”. Ele entra em contato com os revolucionários libertários de Rochard’s World bombardeando o planeta com telefones, e qualquer um que atenda um ouve a posição inicial de barganha: “entretenha-nos”. Mais engraçado de tudo, quando as autoridades neo-czaristas tentam pará-lo, elas são comidas.

Original.

Bits e Peças

P2P ou não 2P, eis a questão

Conforme o dólar americano alcança profundezas de depreciação que teriam violentado a imaginação de Calígula, as pessoas têm buscado candidatas alternativas para uma moeda de reserva global. O problema é formidável. O Euro e o Yen japonês enfrentam calamidades próprias comparáveis (que misturam crises de débito e colapso demográfico), o Yuan chinês não é conversível, e os híbridos Direitos Especiais de Saque (DESs) do FMI meramente juntam um grupo de moedas fiduciárias com problemas sob um acrônimo tecnocrático.

Entusiastas dos metais preciosos têm uma opção óbvia, uma que já está sendo espontaneamente exercida. Ainda assim, embora números crescentes sem dúvida se agarrarão ao ouro e à prata enquanto botes salva-vidas financeiros, seu uso mais amplo enquanto moeda (em oposição a reservas de valor) é obstruído por uma gama intimidadora de problemas técnicos e políticos. Eles não são digitalmente transferíveis sem complicados instrumentos de mediação e permanecem expostos a um risco político extremo – crises financeiras foram regularmente acompanhadas por confiscos e controles direcionados a participações e transações privadas de metais preciosos.

Para superar tais problemas, um moeda precisaria ser estruturalmente imunizada contra as depredações de bancos centrais, compartilhar do viés deflacionário dos metais preciosos e participar plenamente da tendência técnica em direção à abstração matemática e à comunicabilidade eletrônica, ao passo em que também goze de forte proteção criptográfica contra fiscalização, expropriação e fraude. Surpreendentemente, tal moeda parece já existir. Seu nome é ‘Bitcoin’.

Os motores gêmeos e interativos da modernidade – comércio e tecnologia – se reúnem no Bitcoin com uma intensidade fusional sem precedentes. Essa é uma moeda que é simultaneamente um programa de computador de código aberto, inteiramente nativa do cyberespaço e uma inovação financeira, conduzindo um experimento em tempo real que é de uma só vez social, técnico e econômico. Construída sobre os fundamentos da criptografia de chave pública (PKE), ela cria uma rede aberta peer-to-peer – sem qualquer nó controlador ou gerenciamento discricionário humano – para sustentar um sistema monetário radicalmente descentralizado.

Originalmente inventada por Satoshi Nakamoto (cujo artigo de esboço pode ser encontrado aqui), o Bitcoin desconecta a confiança da autoridade. Em particular, ele é projetado para superar o problema do gasto duplo.

Uma vez que ‘bens’ digitais podem ser replicados a um custo próximo de zero, eles são economicamente definidos como ‘não-rivais’. Se você me vende um computador, ele agora é minha propriedade e não sua. Assim como com todos os bens rivais, a propriedade implica exclusão. Se você me vende um programa de computador, por outro lado, não há qualquer razão para assumir que você não manteve uma cópia para si, ou que o ‘mesmo’ programa não possa ser vendido a múltiplos compradores. Tais bens não-rivais apresentam diversas questões econômicas intrigantes, mas uma coisa está inteiramente clara: um dinheiro não-rival é uma impossibilidade. Sem escassez, ou troca exclusiva, a própria ideia de quantidade monetária perde qualquer sentido, assim como o valor monetário, gasto e investimento, e a escolha do consumidor.

O algoritmo do Bitcoin torna uma moeda digital rival e, assim, efetiva enquanto dinheiro, sem recurso a nenhuma autoridade administrativa. Ela o faz iniciando um ecologia automática ou espontânea, na qual os computadores na rede autenticam as trocas de Bitcoin como efeito colateral da ‘mineração’ de novas moedas. Nós ganham novas moedas, em uma taxa decrescente, ao resolver um enigma digital – acessível apenas a uma abordagem de força bruta computacionalmente intensiva – e, assim, exibir uma prova de trabalho. Este teste filtra o sistema contra intervenções maliciosas, ao estabelecer uma barreira praticamente intransponível para qualquer usuário que busque falsificar o registro de trocas. Discussões competentes podem ser encontradas aqui, aqui e (de maneira mais diversa) aqui.

Esse problema e essa solução estão muito longe de serem arbitrários. É precisamente porque as moedas fiduciárias existentes assumiram características não-rivais perturbadores que a preocupação com a depreciação da moeda alcançou tamanho tom de exasperação. Quando um banco central, no curso de operar uma política monetária tipicamente relaxada, pode simplesmente acelerar as impressoras ou (ainda pior) seu equivalente eletrônico, a integridade da oferta de dinheiro é devastada na raiz. O Bitcoin rigorosamente extirpa tal ruinosa discrição de seu sistema, ao instanciar uma teoria de dinheiro saudável enquanto experimento eletrônico precisa e publicamente definido.

Sem surpresa, o agregado monetário do Bitcoin é modelado sobre os metais preciosos, gerados por mineradores a partir de uma reserva global finita, com custos crescentes de extração. A recompensa pela mineração de moedas cai ao longo do tempo em uma taxa logarítmica (zenônica), em direção a um limite fracionariamente abaixo de 21000000 BTC. Cada Bitcoin pode ser subdividido até oito casas decimais, até um total de mais de dois quadrilhões (2100000000000000) de fragmentos, equivalente a 210000 ‘quanta’ de Bitcoin para cada uma das 10 bilhões de pessoas que compõem a população humana máxima antecipada da Terra. Um quantum de Bitcoin (0,00000001 BTC) é chamado de um ‘Satoshi’ (de Satoshi Nakamoto), embora emendas ao sistema, que permitam mais subdivisões em algum estágio futuro, não estejam excluídas. (Para o tamanho total da economia do Bitcoin olhe aqui.)

O Bitcoin é programado para a deflação ([de um tipo). Isto é uma fonte de deleite para os tipos do dinheiro forte, e de ultraje para aquelas no campo do dinheiro relaxado (inflacionário). Enquanto experimento, o grande mérito do Bitcoin é elevar esse antagonismo para além do nível da polêmica recíproca, até aquele de potencial evidência histórica – e escolha real. Austrolibertários há muito alegam que sistemas de dinheiro livre tendem à deflação e que o banco central encoraja a inflação como um mecanismo sorrateiro de expropriação econômica, com um efeito em última análise desastroso. Os keynesianos, em contraste, deploram a deflação como uma doença econômica que suprime o investimento produtivo e o emprego. Um teste empírico logo poderia ser possível.

Diversas outras questões, teóricas e práticas, se apresentam. No nível prático, tais questões se realizam através de volatilidade especulativa, adaptação institucional e desafios técnicos. Uma vez que toda a economia do Bitcoin continua muito pequena, mudanças relativamente modestas no comportamento econômico produzem oscilações selvagens no valor do BTC, incluindo picos como de bolhas, colapsos precipitados, hypes incontinentes e acusações extravagantes. Apesar da resiliência do algoritmo central, as instituições periféricas que sustentam a economia do Bitcoin permanecem vulneráveis a roubo, fraude e intervenções maliciosas. Como com qualquer experimento revolucionário, a trajetória de desenvolvimento do Bitcoin provavelmente será tumultuosa e altamente imprevisível.

As questões teóricas podem ser entretidas de maneira mais calma. A mais importante destas se relaciona à natureza essencial do dinheiro e seu futuro. O Bitcoin simula de maneira bem-sucedida as características significantes dos metais preciosos, de tal modo que sua substância pode ser descartada da equação monetária como escória irrelevante? Quão poderosas são as forças que levam à convergência monetária? As vantagens de primeiro movimento ‘prenderão’ o Bitcoin, às custas de alternativas posteriores? Ou sistemas monetários múltiplos – talvez cada vez mais heterogêneos – continuarão a co-existir? O Bitcoin é meramente um estágio em uma sequência aberta de sistemas monetários inovadores, ou ele captura as características essenciais do dinheiro de maneira bastante definitiva (deixando espaço apenas para melhorias incrementais ou ajustes)?

Defensores do status quo monetário poderiam insistir em mais uma linha de questionamento, mais escarnecedora: o Bitcoin é um beco sem saída, uma irrelevância ou uma fantasia libertária cipherpunk ilusória, a ser julgada eventualmente como algo similar a um boato? O que seria notar que, em última análise, as maiores questões serão políticas, e as discussões mais aquecidas já o são.

Os governos podem se dar ao luxo de tolerar moedas não geridas e autônomas? Veremos.

Original.

Nêmesis

Apostando tudo que o cassino vai queimar

A Family Radio de Harold Camping avisou seus ouvintes para que esperassem alguns eventos incomumente dramáticos na primavera:

Pela graça e tremenda misericórdia de Deus. Eles está nos dando um aviso antecipado sobre o que Ele está prestes a fazer. No Dia do Julgamento, 21 de maio de 2011, este período de 5 meses de horrível tormento começará para todos os habitantes da terra. Será no 21 de maio que Deus levantará todos os mortos que já morreram de suas covas. Terremotos devastarão todo o mundo, já que a terra não mais ocultará seus mortos (Isaías 26:21). As pessoas que morreram como indivíduos salvos experimentarão a ressurreição de seus corpos e imediatamente deixarão este mundo para ficarem para sempre com o Senhor. Aqueles que morreram sem salvação serão erguidos também, mas apenas para ter seus corpos sem vida espalhados pela superfície de toda a terra. A morte estará em todo lugar.

Claramente, previsões podem ser um negócio perigoso.

Ainda assim, como Karl Popper observou a respeito de teorias científicas, previsões falsificáveis também servem a um propósito valioso – até mesmo indispensável. Qualquer modelo da realidade que seja capaz de fazer previsões específicas ganha uma credibilidade a que ‘visões de mundo’ mais vagas não têm direito, embora ao preço de uma vulnerabilidade radical à desvalorização, caso suas antecipações se provem infundadas.

De forma muito similar ao Marxismo, o Libertarianismo da teoria econômica da Escola Austríaca combina expectativas históricas (de maior ou menor exatidão) com um núcleo de compromissos filosóficos, políticos e até mesmo emocionais que está comparativamente imunizado contra a refutação empírica. Tanto o Marxismo quanto o Austrolibertarianismo são ideologias grandes e altamente variegadas, com histórias complicadas, que expressam um descontentamento profundo com a ordem dominante do mundo moderno e estão propensas a tentações utópicas. Ambas são doutrinas político-morais (frequentemente indignadas) extrapoladas de maneiras muito diferentes dos direitos de propriedade da lei natural lockeana (ao seu próprio corpo e à sua atividade produtiva). Ambas atraem um amplo espectro de seguidores, de acadêmicos sóbrios a defensores revolucionários desesperados, que vêem, no desenrolar do drama da história, a possibilidade de uma vindicação definitiva (como os fiéis das teologias milenaristas sempre fizeram e – como o caso de Camping demonstra – continuam a fazer).

As raízes ocidentais tanto do Marxismo quanto do Austrolibertarianismo chegam até a escatologia redentora judaica e à tragédia grega (talvez seja digno de nota que Karl Marx e Ludwig von Mises compartilharam características biográficas intrigantes, incluindo origens germano-judaicas altamente assimiladas, mergulhadas na alta cultura européia). O Capitalismo-Estatista é retratado como o anti-herói Satânico-Prometeico de uma narrativa épica, que descreve uma violação sustentada da justiça se descobrindo responsabilizada em momento apocalíptico final que dá significado à história e uma hubris aparentemente irrestrita que encontra sua eventual nêmesis. O elevado é trazido abaixo, através de uma crise cujo mero prospecto oferece uma satisfação psicológica esmagadora e, assim, um extraordinário apego emocional.

Desde os anos 1980, o Marxismo tem tendido a se retirar do modo preditivo. Seus entusiastas sem dúvida continuam comprometidos com o prospecto de uma crise terminal do capitalismo, talvez até mesmo uma que seja iminente, mas a profecia Marxista parece tímida e incerta hoje, mesmo sob condições de um deslocamento econômico global incomum. Os Austrolibertários, por outro lado, estão sendo atraídos para um ramo profético – possivelmente contra sua vontade – com consequências incalculáveis para sua credibilidade futura. Sua suposição fundamental, de que governos são, por essência, incompetentes e desqualificados para administrar os sistemas monetários exigidos pelas economias avançadas, os leva uma conclusão quase inescapável: hiperinflação.

A hiperinflação poderia ser o único exemplo econômico de uma verdadeira singularidade: uma aproximação hiperbólica ao infinito (em tempo finito), produzindo um descontinuidade pontual. Quando a hiperinflação ocorre, ela escala rapidamente na direção de um limite firme, onde o dinheiro morre. Na esfera econômica, é o exemplo insuperável da incompetência de um regime. Como os Austrolibertários – cujas inclinações apocalípticas são equiparáveis apenas ao seu desdém pela autoridade política – não poderiam estar irresistivelmente atraídos por ela?

O blog Shadow Government Statistics de John Williams não é facilmente caracterizado como um site Austrolibertário ferrenho (Williams se descreve como um “conservador Republicano com uma inclinação libertária”), mas o prognóstico delineado cuidadosamente em seu Hyperinflation Special Report (2011) exemplifica a tendência a prever uma nêmesis iminente para a política monetária de comando-e-controle. Williams se subscreve de todo coração à certeza austríaca de que ’empurrar com a barriga’ – a característica central da política macroeconômica keynesiana – garante uma eventual catástrofe, e ‘eventual’ acabou de ficar muito mais perto. A nêmesis está para vencer.

Tanto o governo federal quando o Banco Central demonstraram que não tolerarão um colapso sistêmico e uma grande deflação, como vistos durante a Grande Depressão. …esses riscos estão sendo enfrentados, e serão enfrentados, a qualquer custo que possa ser coberto pela criação ilimitada de novo dinheiro. Era uma escolha do diabo, mas a escolha foi feita. Intervenções sistêmicas extremas e medidas formais para depreciar o dólar americano através da criação efetiva ilimitada de dinheiro, para cobrir as necessidades sistêmicas e as obrigações do governo, empurraram o momento de um colapso sistêmico – que se ameaçou em setembro de 2008 – diversos anos para o futuro. O custo da salvação instantânea, no entanto, foi a inflação. Um eventual colapso sistêmico é inevitável nesse ponto, mas será em uma grande depressão hiperinflacionária, em vez de uma deflacionária.

Williams não tem medo de cravar algumas datas, com 2014 proposto como o limite externo de possibilidade – e antes é mais provável:

No momento, é a Administração Obama que tem que considerar abandonar o padrão de dívida (hiperinflação) e começar de novo. Ainda assim, e Administração e muitos no Congresso tomaram ações recentes que sugerem que esperam apenas empurrar o dia do ajuste das crises econômica e sistêmica de solvência até depois da eleição presidencial de 2012. Eles não têm esse tempo

Como ele elabora:

As ações já tomadas para conter a crise de solvência sistêmica e para estimular a economia (que não funcionaram), mais o que deve ser um renovado impacto devastador da contração econômica inesperada sobre as receitas tributárias, prepararam o terreno para uma crise muito antes. Os riscos são altos de que a hiperinflação comece a romper nos meses adiante; ela provavelmente não pode ser evitada para além de 2014; pode já estar começando a se desenrolar.

É neste ambiente de rápida deterioração fiscal e de necessidades de financiamento massivas relacionadas que o dólar americano permanece aberto a um rápido e massivo declínio, junto com um dumping de Títulos do Tesouro dos EUA domésticos e estrangeiros. O Banco Central seria forçado a monetizar somas ainda mais significantes da dívida do Tesouro, desencadeando as fases iniciais de um inflação monetária.

Sob tais circunstâncias, os déficits atuais de vários trilhões de dólares rapidamente alimentariam um ciclo vicioso e auto-alimentador de desvalorização monetária e hiperinflação. Com a economia já em depressão, o início da hiperinflação rapidamente empurraria a economia para uma grande depressão, uma vez que rupturas vindas de uma inflação incontida provavelmente levarão a atividade comercial normal a parar.

O que acontece depois qualquer um pode especular.

A destruição hiperinflacionária da moeda de reserva do mundo seria um evento decisivo. A mera possibilidade de tal ocorrência divide o conjunto de potenciais futuros entre dois cursos. Em um, no qual o dólar americano sobrevive, o alarmismo Austrolibertário é humilhado, a competência econômica do governo dos EUA é – de maneira geral – confirmada, e os princípio da produção de moeda fiduciária e dos bancos centrais são reforçados, junto com seus apoiadores naturais entre os macroeconomistas anti-deflacionários neo-keynesianos. No outro, os Austrolibertários dançam nas cinzas do dólar, metais preciosos substituem o papel fiduciário, bancos centrais sofrem um ataque político fulminante, e o papel econômico do governo em geral fica sujeito a uma grande investida por livre mercadistas energizados. Pelo menos, é com isso que um universo justo ou uma aposta leal se pareceriam.

Apostar em um universo justo poderia ser o grande erro, contudo – e essa é uma tentação que a grande narrativa moralista Austrolibertária acha difícil de evitar. Em um universo moralmente indiferente, a Nêmesis não é redentora, e toda a aposta é uma Aposta de Pascal inversa, com desvantagens de todos os lados. Faça uma brava previsão de hiperinflação e ou você perde, ou você perde – neo-keynesianos regojizantes, maior endividamento e um governo mais gordo de um lado, ou alguma espécie ainda não consolidada de horror neo-totalitário do outro. (É digno de nota que uma turnê pela história dos regimes pós-hiperinflacionários não passa por muitos exemplos de repúblicas comerciais laissez-faire.)

Então, o dólar vai morrer? Bastante possivelmente. E aí as coisas poderia ficar realmente sórdidas – mais Harold Camping do que Ludwig von Mises: “corpos sem vida espalhados pela superfície de toda a terra. A morte estará em todo lugar.”

Original.