Humor Político

As coisas que realmente importam

O prospecto da Singularidade Tecnológica, ao tornar o futuro próximo inimaginável, anuncia “o fim da ficção científica”. Esta não é, contudo, uma proclamação que todos estão obrigados a acatar. Entre os odisseus que deliberadamente se ensurdeceram ao chamado desta sereia, nenhum procedeu de maneira mais ousada do que Charles Stross, cujo Singularity Sky não é apenas um romance de ficção científica, mas uma ópera espacial que habita um universo literário obsolescido por Einstein muito antes que I.J. Good completasse sua demolição. Não apenas humanos reconhecíveis, mas seres humanos inter-estelares com navegação espacial! O homem não tem vergonha?

Stross depende muito do humor para sustentar seu audacioso anacronismo e, em Singularity Sky, ele coloca o anacronismo para trabalhar explicitamente. O elemento mais consistentemente cômico do romance é uma reconstrução da política russa do século XIX no planeta de Rochard’s World, onde o ludismo semi-czarista da Nova República é ameaçado por uma conspiração de revolucionários cujo modo de organização política e retórica é de um tipo marxista-leninista reconhecível (e até mesmo paródico). Esses rebeldes, contudo, são ideologicamente libertários radicais, buscando derrubar o regime e instalar uma utopia anarquista de livre mercado, um objetivo que é perfeitamente conciliado com a dialética materialista, apelos à disciplina revolucionária e invocações de camaradagem fraternal.

É uma piada que funciona bem, porque o seu absurdo transparente coexiste com uma plausibilidade substancial. Libertários são de fato (não raro) materialistas ateus cripto-abraâmicos, firmemente ligados a um economicismo determinista e a convicções de inevitabilidade histórica, levando a lúgubres profecias socioeconômicas de um tipo distintamente escatológico. Quando o libertarianismo é casado com o tecno-apocalipticismo do singularitarismo, o potencial cômico e as ressonâncias marxistas são redobrados. Stross martela o ponto chamando sua IA super inteligente de ‘Eschaton’.

O mais hilário de tudo (à maneira da Frente Popular da Judeia contra a Frente do Povo da Judeia) é o facciosismo que aflige um movimento político extremo, cuja absoluta marginalidade não obstante deixa espaço para amarga recriminação mútua, apoiada por uma barroca criação de conspirações. Este não é realmente um tema de Stross, mas é uma especialidade libertária americana, exibida na incessante agitprop conduzida pelos ultras-rothbardianos do LewRockwell.com e do Mises Institute contra o transigente ‘Kochtopus’ (Reason e Cato) – a divisão Stalin-Trotsky que anima a “direita” de livre mercado. Qualquer um que esteja procurando por um lugar no ringue em uma luta recente pode ir para a seção de comentários aqui e aqui.

De maneira mais séria, os revolucionários libertários de Stross estão comprometidos de todo o coração com a afirmação marxista, outrora considerada fundamental, de que a produtividade é drasticamente inibida pela persistência de arranjos sociais antiquados. O verdadeiro direito histórico da revolução, indistinguível de sua inevitabilidade e irreversibilidade práticas, é seu alinhamento com a liberação das forças de produção de limitações institucionais esclerosadas. A produção do futuro, ou produção futurista, exige o enterro da sociedade tradicional. Aquilo que existe – o status quo – é uma supressão sistemática, rigorosamente mensurável ou pelo menos determinável em termos econômicos, do que poderia ser e quer ser. A revolução cortaria os grilhões da autoridade ossificada, colocando os motores da criação para uivar. Isso desencadearia uma explosão tecno-econômica que abalaria o mundo ainda mais profundamente do que a revolução industrial “burguesa” o fez antes (e continua a fazer). Algo imenso escaparia, para nunca mais ser enjaulado novamente.

Essa é a Antiga Fé, o credo Paleo-Marxista, com sua intensidade de manipulação de cobras e sua inebriante promessa materialista. É uma fé que os camaradas libertários de Rochard’s World ainda professam, com razão e derradeira vingança, porque o potencial histórico das forças de produção foi atualizado.

O que a matéria poderia fazer, que atualmente não se permite que ela faça? Essa é uma pergunta que os marxistas (da ‘Antiga Religião’) outrora fizeram. Sua resposta foi: entrar em processos de produção que estão livres dos requisitos restritivos da lucratividade privada. Uma vez ‘libertada’ dessa maneira, contudo, a produtividade cambaleou sem destino, adormeceu ou passou fome. Os libertários riram e defenderam uma reversão da fórmula: a produção livre para entrar em circuitos auto-escalonantes de lucratividade privada, sem restrição política. Eles foram largamente ignorados (e sempre serão).

Se nenhuma facção da fé revolucionária Marxo-Libertária terrestre foi capaz de reacender o velho fogo, é porque se afastaram das profundezas da questão (“o que a matéria poderia fazer?”). É uma questão que faz uma revolução. Os heróis da revolução industrial não eram jacobinos, mas sim fabricantes de caldeiras.

“O comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país”, proclamou Lenin, mas a eletrificação foi permitida antes que os bolcheviques tomassem seu lado, e persistiu desde a partida dos soviéticos. A menos que a transformação política coincida com a liberação de um potencial produtivo anteriormente reprimido, ela permanece essencialmente aleatória e reversível. Mera mudança de regime não significa nada, a menos que algo aconteça que não tenha acontecido antes. (Reembaralhamentos sociais não significam acontecimentos, exceto nas mentes dos ideólogos, e os ideólogos morrem.)

Os libertários também são como os leninistas: tudo o que eles jamais conseguem ganhar pode (e será) tirado deles. Eles outrora já tiveram uma república constitucional na América (e o que aconteceu com isso?). A Grã-Bretanha teve uma aproximação grosseira do capitalismo laissez-faire, antes de perdê-la. Alguém realmente acha que o liberalismo vai ficar mais ‘clássico’ do que isso em breve? Confiar na democracia em massa para preservar a liberdade é como contratar Hannibal Lecter como babá. As liberdades sociais podem também ser projetadas para morrer. Não há a menor razão para acreditar que a história está do lado delas. A revolução industrial, em contraste, é para sempre.

Em Rochard’s World, eles sabem exatamente o que a matéria poderia fazer que é proibido: auto-replicação mecânica em nano-escala e auto-modificação inteligente. É com isso que a ‘base material’ de uma revolução se parece, mesmo que seja sub-microscópica (ou especialmente porque é), e quando ela atinge os limites da tolerância social, ela descreve precisamente o que é necessário, automaticamente. Uma vez que ela sai da caixa, ela fica fora.

Stross se diverte o suficiente com a tecnosfera desencadeada para chamar seu avatar espacial de “o Festival”. Ele entra em contato com os revolucionários libertários de Rochard’s World bombardeando o planeta com telefones, e qualquer um que atenda um ouve a posição inicial de barganha: “entretenha-nos”. Mais engraçado de tudo, quando as autoridades neo-czaristas tentam pará-lo, elas são comidas.

Original.

Nêmesis

Apostando tudo que o cassino vai queimar

A Family Radio de Harold Camping avisou seus ouvintes para que esperassem alguns eventos incomumente dramáticos na primavera:

Pela graça e tremenda misericórdia de Deus. Eles está nos dando um aviso antecipado sobre o que Ele está prestes a fazer. No Dia do Julgamento, 21 de maio de 2011, este período de 5 meses de horrível tormento começará para todos os habitantes da terra. Será no 21 de maio que Deus levantará todos os mortos que já morreram de suas covas. Terremotos devastarão todo o mundo, já que a terra não mais ocultará seus mortos (Isaías 26:21). As pessoas que morreram como indivíduos salvos experimentarão a ressurreição de seus corpos e imediatamente deixarão este mundo para ficarem para sempre com o Senhor. Aqueles que morreram sem salvação serão erguidos também, mas apenas para ter seus corpos sem vida espalhados pela superfície de toda a terra. A morte estará em todo lugar.

Claramente, previsões podem ser um negócio perigoso.

Ainda assim, como Karl Popper observou a respeito de teorias científicas, previsões falsificáveis também servem a um propósito valioso – até mesmo indispensável. Qualquer modelo da realidade que seja capaz de fazer previsões específicas ganha uma credibilidade a que ‘visões de mundo’ mais vagas não têm direito, embora ao preço de uma vulnerabilidade radical à desvalorização, caso suas antecipações se provem infundadas.

De forma muito similar ao Marxismo, o Libertarianismo da teoria econômica da Escola Austríaca combina expectativas históricas (de maior ou menor exatidão) com um núcleo de compromissos filosóficos, políticos e até mesmo emocionais que está comparativamente imunizado contra a refutação empírica. Tanto o Marxismo quanto o Austrolibertarianismo são ideologias grandes e altamente variegadas, com histórias complicadas, que expressam um descontentamento profundo com a ordem dominante do mundo moderno e estão propensas a tentações utópicas. Ambas são doutrinas político-morais (frequentemente indignadas) extrapoladas de maneiras muito diferentes dos direitos de propriedade da lei natural lockeana (ao seu próprio corpo e à sua atividade produtiva). Ambas atraem um amplo espectro de seguidores, de acadêmicos sóbrios a defensores revolucionários desesperados, que vêem, no desenrolar do drama da história, a possibilidade de uma vindicação definitiva (como os fiéis das teologias milenaristas sempre fizeram e – como o caso de Camping demonstra – continuam a fazer).

As raízes ocidentais tanto do Marxismo quanto do Austrolibertarianismo chegam até a escatologia redentora judaica e à tragédia grega (talvez seja digno de nota que Karl Marx e Ludwig von Mises compartilharam características biográficas intrigantes, incluindo origens germano-judaicas altamente assimiladas, mergulhadas na alta cultura européia). O Capitalismo-Estatista é retratado como o anti-herói Satânico-Prometeico de uma narrativa épica, que descreve uma violação sustentada da justiça se descobrindo responsabilizada em momento apocalíptico final que dá significado à história e uma hubris aparentemente irrestrita que encontra sua eventual nêmesis. O elevado é trazido abaixo, através de uma crise cujo mero prospecto oferece uma satisfação psicológica esmagadora e, assim, um extraordinário apego emocional.

Desde os anos 1980, o Marxismo tem tendido a se retirar do modo preditivo. Seus entusiastas sem dúvida continuam comprometidos com o prospecto de uma crise terminal do capitalismo, talvez até mesmo uma que seja iminente, mas a profecia Marxista parece tímida e incerta hoje, mesmo sob condições de um deslocamento econômico global incomum. Os Austrolibertários, por outro lado, estão sendo atraídos para um ramo profético – possivelmente contra sua vontade – com consequências incalculáveis para sua credibilidade futura. Sua suposição fundamental, de que governos são, por essência, incompetentes e desqualificados para administrar os sistemas monetários exigidos pelas economias avançadas, os leva uma conclusão quase inescapável: hiperinflação.

A hiperinflação poderia ser o único exemplo econômico de uma verdadeira singularidade: uma aproximação hiperbólica ao infinito (em tempo finito), produzindo um descontinuidade pontual. Quando a hiperinflação ocorre, ela escala rapidamente na direção de um limite firme, onde o dinheiro morre. Na esfera econômica, é o exemplo insuperável da incompetência de um regime. Como os Austrolibertários – cujas inclinações apocalípticas são equiparáveis apenas ao seu desdém pela autoridade política – não poderiam estar irresistivelmente atraídos por ela?

O blog Shadow Government Statistics de John Williams não é facilmente caracterizado como um site Austrolibertário ferrenho (Williams se descreve como um “conservador Republicano com uma inclinação libertária”), mas o prognóstico delineado cuidadosamente em seu Hyperinflation Special Report (2011) exemplifica a tendência a prever uma nêmesis iminente para a política monetária de comando-e-controle. Williams se subscreve de todo coração à certeza austríaca de que ’empurrar com a barriga’ – a característica central da política macroeconômica keynesiana – garante uma eventual catástrofe, e ‘eventual’ acabou de ficar muito mais perto. A nêmesis está para vencer.

Tanto o governo federal quando o Banco Central demonstraram que não tolerarão um colapso sistêmico e uma grande deflação, como vistos durante a Grande Depressão. …esses riscos estão sendo enfrentados, e serão enfrentados, a qualquer custo que possa ser coberto pela criação ilimitada de novo dinheiro. Era uma escolha do diabo, mas a escolha foi feita. Intervenções sistêmicas extremas e medidas formais para depreciar o dólar americano através da criação efetiva ilimitada de dinheiro, para cobrir as necessidades sistêmicas e as obrigações do governo, empurraram o momento de um colapso sistêmico – que se ameaçou em setembro de 2008 – diversos anos para o futuro. O custo da salvação instantânea, no entanto, foi a inflação. Um eventual colapso sistêmico é inevitável nesse ponto, mas será em uma grande depressão hiperinflacionária, em vez de uma deflacionária.

Williams não tem medo de cravar algumas datas, com 2014 proposto como o limite externo de possibilidade – e antes é mais provável:

No momento, é a Administração Obama que tem que considerar abandonar o padrão de dívida (hiperinflação) e começar de novo. Ainda assim, e Administração e muitos no Congresso tomaram ações recentes que sugerem que esperam apenas empurrar o dia do ajuste das crises econômica e sistêmica de solvência até depois da eleição presidencial de 2012. Eles não têm esse tempo

Como ele elabora:

As ações já tomadas para conter a crise de solvência sistêmica e para estimular a economia (que não funcionaram), mais o que deve ser um renovado impacto devastador da contração econômica inesperada sobre as receitas tributárias, prepararam o terreno para uma crise muito antes. Os riscos são altos de que a hiperinflação comece a romper nos meses adiante; ela provavelmente não pode ser evitada para além de 2014; pode já estar começando a se desenrolar.

É neste ambiente de rápida deterioração fiscal e de necessidades de financiamento massivas relacionadas que o dólar americano permanece aberto a um rápido e massivo declínio, junto com um dumping de Títulos do Tesouro dos EUA domésticos e estrangeiros. O Banco Central seria forçado a monetizar somas ainda mais significantes da dívida do Tesouro, desencadeando as fases iniciais de um inflação monetária.

Sob tais circunstâncias, os déficits atuais de vários trilhões de dólares rapidamente alimentariam um ciclo vicioso e auto-alimentador de desvalorização monetária e hiperinflação. Com a economia já em depressão, o início da hiperinflação rapidamente empurraria a economia para uma grande depressão, uma vez que rupturas vindas de uma inflação incontida provavelmente levarão a atividade comercial normal a parar.

O que acontece depois qualquer um pode especular.

A destruição hiperinflacionária da moeda de reserva do mundo seria um evento decisivo. A mera possibilidade de tal ocorrência divide o conjunto de potenciais futuros entre dois cursos. Em um, no qual o dólar americano sobrevive, o alarmismo Austrolibertário é humilhado, a competência econômica do governo dos EUA é – de maneira geral – confirmada, e os princípio da produção de moeda fiduciária e dos bancos centrais são reforçados, junto com seus apoiadores naturais entre os macroeconomistas anti-deflacionários neo-keynesianos. No outro, os Austrolibertários dançam nas cinzas do dólar, metais preciosos substituem o papel fiduciário, bancos centrais sofrem um ataque político fulminante, e o papel econômico do governo em geral fica sujeito a uma grande investida por livre mercadistas energizados. Pelo menos, é com isso que um universo justo ou uma aposta leal se pareceriam.

Apostar em um universo justo poderia ser o grande erro, contudo – e essa é uma tentação que a grande narrativa moralista Austrolibertária acha difícil de evitar. Em um universo moralmente indiferente, a Nêmesis não é redentora, e toda a aposta é uma Aposta de Pascal inversa, com desvantagens de todos os lados. Faça uma brava previsão de hiperinflação e ou você perde, ou você perde – neo-keynesianos regojizantes, maior endividamento e um governo mais gordo de um lado, ou alguma espécie ainda não consolidada de horror neo-totalitário do outro. (É digno de nota que uma turnê pela história dos regimes pós-hiperinflacionários não passa por muitos exemplos de repúblicas comerciais laissez-faire.)

Então, o dólar vai morrer? Bastante possivelmente. E aí as coisas poderia ficar realmente sórdidas – mais Harold Camping do que Ludwig von Mises: “corpos sem vida espalhados pela superfície de toda a terra. A morte estará em todo lugar.”

Original.