Bitcoin e Correntes

Doug Henwood, escrevendo no The Nation, explica as atrações do Bitcoin para a Direita:

Houve muitos outros relatos de roubos, fraudes e invasões, que os partidários do Bitcoin descartam como meras dores de crescimento. Mas sem nenhum regulador, sem nenhum depósito segurador e sem nenhum banco central, esse tipo de coisa é inevitável – é apenas sua má sorte. Introduza reguladores e esquemas de seguro, no entanto, e o Bitcoin perderá todo o seu anarco-charme.

Keynes certa vez chamou o ouro de "parte do aparato do conservadorismo" por seu apelo aos rentistas que amavam a austeridade porque ela preservava o valor de seus ativos. O Bitcoin serve a um objetivo igualmente totêmico para os cyber-libertários de hoje, que amam não apenas a ausência de estado dele enquanto dinheiro, mas também seu poder de sujeitar o sistema bancário institucional a "ruptura" (uma das palavras favoritas desse conjunto). E, como ouro, o Bitcoin é deflacionário. Há um limite de quantas bitcoins podem ser produzidas e fica mais difícil produzi-las ao longo do tempo até que esse limite seja atingido. Obviamente, novas criptomoedas podem surgir. Mas a existência do limite reflete as simpatias deflacionárias da mente libertária – em uma economia do Bitcoin, seria impossível criar dinheiro para aliviar uma depressão econômica. O que não seria dizer que apenas os libertários amam o Bitcoin.

Apesar dos cuidadosos sinais da distância política, não há nada de fora do normal na substância. Nos parágrafos subsequentes, Henwood escava um pouco mais fundo, preservando a mesma abertura equilibrada à informação. Ele até – momentaneamente – passa no derradeiro teste direitista de ideias, ao colapsar a epistemologia no mercado: “O Bitcoin não deixa de ter amigos em Wall Street. Gil Luria, da Wedbush Securities, o está acompanhando; ele descreve a volatilidade recente como "descoberta de preço estendida", que é uma maneira de dizer que ninguém sabe o que ele é, o que ele será ou o que ele vale. Sua empresa está vendendo sua pesquisa sobre o Bitcoin com pagamento em bitcoins”.

Sua descoberta inesperada, contudo, é um eleitorado esquerdista do Bitcoin, atraído pelas mesmas prioridades que podem tornar o ‘libertarianismo’ tão ideologicamente escorregadio enquanto categoria, mais obviamente: o potencial de “evasão à vigilância e policiamento estatais – que, na era pós-Snowden, não é nada a se desprezar”. Enquanto vasculhava em busca de trechos de histórias em uma ‘festa’ do Bitcoin em Nova York, ele se encanta ao encontrar a ‘Mistress Magpie’:

Uma marxista-feminista, dominatrix profissional com exercício na Grã-Bretanha … [e] uma defensora entusiasta do Bitcoin. Ela explica seu entusiasmo como tendo origem com sua profunda tecno-nerdisse, e acrescenta que o Bitcoin também é prático para alguém em sua linha de trabalho – o anonimato é importante, seja na vida real ou online. Ao contrário dos libertários, que vêem as criptomoedas como um possível portal para uma nova sociedade, a socialista na Mistress Magpie as vê como uma maneira de operar furtivamente sob o capitalismo, de uma maneira que poderia não ser necessária em uma sociedade socialista mais aberta.

Embora seja superficialmente tentador tirar sarro desse socialismo com características anarco-capitalistas, ele brilha em comparação com a funesta defesa da autoridade monetária fiduciária estatal com a qual Henwood – obedientemente – conclui o artigo.

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Prontidão para o Impacto

Qualquer que seja o status da Singularidade enquanto evento de mídia, uma premonição irradia dela em uma cascata. O recente veículo hollywoodiano com Johnny Depp, Trancendence, estimulou uma onda de respostas, incluindo comentários de Steven Hawking (que sabe uma uma coisa ou outra sobre a popularização de tópicos científicos). Um artigo de Hawking em um grande jornal trouxe a conversa a um novo nível de animação. (Meu feed no Twitter não pode ter sido o único a ficar entupido a ponto de explodir com ela.)

Transcendence

  • Isso pode ser bem brusco

O argumento de Hawking, montado de maneira lúcida para uma audiência geral, é de que a IA é plausível, já está em uma medida considerável demonstrada, é suscetível em teoria a uma amplificação cibernética radical (‘explosão de inteligência’), é bastante possivelmente calamitosa para a espécie humana e ainda precisa ser engajada socialmente com a seriedade apropriada. Como ele concede, "é tentador descartar a noção de máquinas altamente inteligentes como mera ficção científica. Mas isso seria um erro, e potencialmente nosso pior erro na história".

Dinâmicas explosivas já são evidentes na trajetória de desenvolvimento da IA, que está sofrendo uma aceleração, guiada por uma "corrida armamentista de TI, alimentada por investimentos sem precedentes e se embasando em uma fundação teórica cada vez mais madura".

Olhando para o futuro, não há limites fundamentais para o que pode ser alcançado: não há nenhuma lei física que impeça que partículas estejam organizadas em maneiras que desempenhem computações ainda mais avançadas que os arranjos de partículas nos cérebros humanos. Uma transição explosiva é possível, embora ela possa terminar diferente do filme: como Irving Good percebeu em 1965, máquinas com inteligência sobre-humana poderiam repetidamente melhorar seu design ainda mais, desencadeando o que Vernos Vinge [aqui] chamou de uma "singularidade" e o personagem de Johnny Depp chama de "transcendência".

Hawking emprega sua plataforma na mídia para argumentar que algo deveria ser feito:

O sucesso em se criar uma IA seria o maior evento na história humana. […] Infelizmente, ele também seria o último, a menos que aprendamos como evitar os riscos. […] Embora estejamos potencialmente enfrentando a melhor ou pior coisa a acontecer à humanidade na história, pouca pesquisa séria é devotada a essas questões fora de institutos sem fins lucrativos tais como o Cambridge Centre for the Study of Existential Risk, o Future of Humanity Institute, o Machine Intelligence Research Institute, e o Future of Life Institute.

Conforme seu prospecto se condensa, a Singularidade Tecnológica já está operando como uma influência cultural e, assim, como um fator causal no processo social. Neste estágio, contudo, como Hawking observa, ela ainda está relativamente limitada. Quais seriam as implicação de ela vir a importar ainda mais?

A cibernética sócio-histórica é compelida a perguntar: um problema da Singularidade incandescente funcionaria como um inibidor, ou ele excitaria ainda mais os desenvolvimentos sob consideração? Certamente é difícil imaginar uma resposta preventiva sofisticada à emergência da Inteligência Artificial que não canalizasse recursos adicionais para técnicos de elite trabalhando na área da cognição sintética avançada, mesmo antes da quase inevitável captura de instituições reguladoras pelas indústrias que elas visam.

Respostas institucionais ao hackeamento de computadores têm sido caracterizadas por exercícios de recrutamento estrategicamente ambíguos em que o "caçador vira o guarda-caça", e algum análogo próximo desses jogos de caça seriam uma parte inevitável de qualquer tentativa de se controlar o desenvolvimento da cognição de máquina. Jogar jogos de traição extremamente complicados contra uma super-inteligência virtual poderia ser bastante divertido, por um tempo…

ADICIONADO: Daniel Dewey, do FHI, chegou.


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Filosofia em Gráfico

Como a filosofia se conecta? Simon Raper, no Drunks & Lampposts transforma essa questão em um problema prático de visualização. Quando reduzida a um gráfico, ela se parece com isso:

Philosophy Graph

(Clique para aumentar.)

Ao exibir a ‘história da filosofia’ como um conjunto de conexões simultâneas, ele faz um ponto sobre referência temporal que demandaria muitas palavras para se igualar.

Seria altamente intrigante ver este livro receber o mesmo tratamento.


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Sem Opressão

Zachary Keck está estupefato com os achados de uma pesquisa recente da Global Scan, que descobriu uma ampla satisfação chinesa com a mídia e o ambiente de vigilância do país. Entre os achados, 76% dos chineses se sentem "livres de vigilância", comparado com apenas 54% dos americanos. Na medida em que a opressão pode ser avaliada subjetivamente, o ‘comunismo totalitário’ chinês não está fazendo ela muito bem.

Pode haver alguma maneira de minerar essas informações de maneira rigorosa, mas isso está para além do escopo da discussão até o momento. Keck devaneia sobre a possibilidade de que os vazamentos de Edward Snowden azedaram a opinião ocidental, embora "seja difícil saber quanto as visões podem ser atribuídas a expectativas diferentes que o chineses têm sobre liberdade, quando comparados com suas contrapartes em países democráticos, e quanto suas respostas podem ser atribuídas à ignorância geral sobre a vigilância e a censura do governo chinês. Eu suspeito que ambos os fatores provavelmente desempenham um papel, mas que o primeiro provavelmente é mais importante".

Um explicação alternativa é que as culturas ocidentais se desenvolveram de uma maneira que santifica a dissidência, e encontra a exemplificação da liberdade no ato ou na expressão do desafio. A suposição alternativa chinesa, de que a liberdade é principalmente sobre ser deixado em paz, é classicamente capturada pelo provérbio "As montanhas são altas, e o Imperador está bem longe" (山高皇帝远). Sem surpresas, pensa-se que esse ditado tenha se originado na empreendedora Província de Zhejiang (talvez o lugar mais civilizado do mundo).

Por que alguém, além de um idiota, iria procurar o imperador, simplesmente para espetar um dedo em seu olho? Não faça nada desse tipo, e não há muito chance de encontrar opressão. Um pouco de conexões de internet com falhas não se parecem com "uma bota pisando em um rosto humano — para sempre". Parece-se com uma inconveniência menor. Pelo menos, é isso que as evidências da pesquisa sugerem.

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Como o Terror Funciona

O motivo primário do terrorismo é atrair a atenção da mídia para as queixas dos perpetradores.

Quando a mídia ocidental cobre um incidente terrorista, ela foca reflexivamente nas queixas dos perpetradores.

Uma cobertura desse tipo não é sobre o terrorismo. Ela é um componente orgânico do terrorismo.

ADICIONADO: Kaiser Kuo faz um argumento importante: "…as pessoas estão, em sua maioria, escrevendo e falando sobre a situação como se ela estivesse ocorrendo em completo isolamento, como se a ascensão do Islã radical no resto do mundo desde a década de 1980 não estivesse presente".

ADICIONADO: O Departamento de Estado dos EUA faz a coisa certa.

ADICIONADO: Gordon Moore: A Jihad Global Alcançou a China?

ADICIONADO: Um pouco de justa indignação do People’s Daily Online: "Há extensa evidência na cena do crime para não deixar dúvidas de que o ataque à estação de trem em Kunming não foi nada além de um crime terrorista violento. Mas, independente dessa evidência, algumas organizações midiáticas ocidentais não estavam dispostas a usar o termo ‘terrorismo’ em sua cobertura. A reportagem da CNN em 3 de março [de 2014] colocava a palavra ‘terroristas’ entre aspas e oferecia a visão de que ‘ataques em massa com facas’ não são ‘sem precedentes’ na China. A intenção aqui era associar esse incidente terrorista a uma série de ataques que ocorreram em 2010 e 2012, o que é ainda mais repugnante porque esses ataques aconteceram em escolas, foram conduzidos por indivíduos que claramente tinha distúrbios mentais e sua vítimas eram crianças. Nenhum dos perpetradores tinha qualquer conexão política ou motivos políticos. A reportagem da Associated Press usava o termo ‘descrito pelas autoridades como’ para qualificar seu uso da palavra ‘terroristas’. O New York Times e o Washington Post chamaram os terroristas de ‘agressores’".
— Lições de decência básica vinda da mídia chinesa (de nada).

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Mediado

As estudantes mulheres nos EUA passam uma média de 12 horas por dia em imersão midiática. Supondo que os alunos normalmente durmam bastante, isso equivale a aproximadamente 75% de todas as horas de vigília, na média. É claro que é hora de recategorizar a sociologia como um sub-campo dentro dos estudos de mídia.

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Mente de Twitter

“O quê o Twitter nos diz sobre a aceleração tecnossocial? (Você muito provavelmente já esqueceu)

Conforme novos sistemas de mídia se tornam partes (intimamente anexadas) dos cérebros das pessoas, o pensar sobre eles é conduzido através deles. Em medida considerável, eles são retorcidos por entre as pessoas, a fim de pensar sobre si mesmos. A espiral de envolvimento já está funcionando. Fica cada vez mais forçoso pensar (sobre) como eles pensam.

Os blogs aceleraram os circuitos midiáticos de composição, publicação, interatividade de comentários e revisão. A escrita tornou-se "conversacional" de uma forma sem precedentes e rapidamente ficou sensível aos seus próprios efeitos, o que significa dizer: não-linear. Conforme a cultura se adaptou ao Ciberespaço, ela for moldada por uma torsão, suscetível como nunca antes à captura por turbilhões auto-sustentadores ou ‘singularidades’ com seus próprios vetores errantes imprevistos. Perseguir uma linha de pensamento, embora sempre experimental, agora estava intricadamente entrelaçado com o estranhamento como nunca antes. As linhas ‘interiores’ de memória — que ligam a cognição a uma experiência de integridade subjetiva — foram esticadas para além de suas tolerâncias naturais e sucumbiram à substituição técnica.

O Twitter acelera ainda mais esse processo — muito mais. Cada tweet é uma micro-conclusão e, assim, uma oportunidade para o término da memória. Em vez de seguir a cadeia interna de seus próprios pensamentos, ou de lembrar sobre o que se está pensando, a mente do twitter se imerge no fluxo de informação, onde a interação toma o controle. Estímulo e resposta frenéticos vindos de mensagens recebidas pulverizam a atenção, devolvendo a continuidade por meio da exterioridade, como uma sucessão em staccato de sinais de feedback — respostas, favoritamentos, e retweets. A linha de pensamento foi liberada da mente auto-contida e orgânica (ou de sua ilusão persuasiva de longa duração).

A ‘crítica cultural’ dessa inteligência amnésica, distraída, obsessiva e instável quase escreve a si mesma. O Twitter indubtavelmente é porcaria. O fato de ser viciante, contudo, de forma alguma é a menor de suas lições. Circuitos de feedback estreitos (ou intensidade cibernética) são inerentemente fascinantes, independentemente de quaisquer "recompensas" externas. O cérebro tende automaticamente a uma interconexão dinâmica, mesmo quando o custo é uma rendição abrangente da identidade. O que quer que esteja a caminho terá nos sugado para dentro, antes que consigamos decidir o que queremos pensar sobre ela. A tendência seria resolutamente óbvia, se apenas conseguíssemos lembrar de onde estivémos.

ADICIONADO: Twitter e polarização (via @benedict)

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