Nossa Causa

"Então, sobre o que, realmente, é o Urbano Futuro?"

Basicamente isso:

Octopus City eating the world

(É isso que o capitalismo de compras pelos correios parecia ameaçar em 1939. A monstruosidade cefalocomercial tem que ter se tornado bem mais tentacular desde então. Imagem via @SlateVault.)


Original.

#Acelerar Anotado (#1)

Meus rabiscos marginais foram adicionados em negrito. Por questão de clareza, portanto, eu subtraí os negritos usados no texto de Williams e Srnicek. Em todos os outros aspectos, o texto base foi plenamente respeitado. A maior parte das anotações feitas são espaços reservados para um engajamento futuro. O texto foi quebrado em três posts, em conformidade com a organização do original

#ACELERAR MANIFESTO: por uma Política Aceleracionista Por Alex Williams e Nick Srnicek | Trad. Bruno Stehling • 14 de maio de 2013

O aceleracionismo impulsiona rumo um futuro que é mais moderno, uma modernidade alternativa que o neoliberalismo é incapaz de gerar intrinsecamente.

Uma vez que isso é um slogan, o número bastante incrível de problemas que ele consegue comprimir em dezenove palavras está sendo colocado de lado, como efeitos da compressão

I. INTRODUÇÃO: Sobre a Conjuntura

  1. No começo da segunda década do século 21, a civilização global enfrenta uma nova espécie de cataclismo. Os apocalipses a caminho tornam ridículas normas e estruturas organizacionais da política forjadas com o nascimento do estado-nação, a ascensão do capitalismo e um século 20 de guerras sem precedentes.

De fato

  1. Ainda mais significante, é o colapso do sistema climático do planeta. Com o tempo, se ameaça a continuação da existência da população humana em todo o globo. [Então a análise cascateia a partir da climatologia institucional? Como essa previsão hipotética alcança prestígio tão extraordinário?] Ainda que essa seja a mais crítica das ameaças que a humanidade enfrenta, coexiste e se entrecruza uma série de problemas menores, mas potencialmente tão desestabilizadores. O esgotamento terminal de recursos, especialmente das reservas de água e energia, oferece uma perspectiva de fome em massa, colapso dos paradigmas econômicos e novas guerras frias e quentes. [Sim, a descoberta de preços politicamente inibida tem esse efeito] A incessante crise financeira levou governos a abraçar espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial. [E, ainda assim, nenhum sinal de diminuição do estado pode ser encontrado em qualquer lugar] A automação crescente nos processos produtivos, inclusive no trabalho intelectual, evidencia a crise secular do capitalismo, em vias de se tornar incapaz de manter os atuais padrões de vida mesmo para as antigas classes médias do norte global.[Se a automação é um sintoma de crise, esta ‘crise’ coincidiu perfeitamente com a produção de capital, desde sua concepção.]

Visto pela Direita, o único desastre social abrangente em andamento é a expansão não compensada do estado, em termos tanto absolutos quanto proporcionais. (Este é um prognóstico da teoria dos sistemas, antes de ser qualquer tipo de objeção moral.) É notável que o Aceleracionismo de Esquerda não parece achar esse desenvolvimento mórbido de forma alguma, a despeito do fato de que sua linha de tendência é manifestamente insustentável e, assim, prevê resolutamente uma catástrofe. Pelo contrário, aquelas tentativas mais mínimas de se moderar a tendência em direção a uma administração política total são depreciadas como "espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial". Nesse aspecto, o manifesto ecoa de maneira fiel o processo sócio-cultural mais amplo através do qual a catástrofe se faz necessária. Ele é a voz de um desastre deliberado (supra-investido politicamente).

  1. Em contraste com essas catástrofes em contínua aceleração, a política atual está assolada pela inabilidade de gerar novas ideias e modos de organização, necessários para transformar as nossas sociedades, de modo a enfrentar e solucionar as aniquilações futuras. Enquanto a crise ganha força e velocidade, a política abranda e recua. Nessa paralisia do imaginário político, o futuro foi cancelado.

A "a crise [que] ganha força e velocidade" é a política. Qualquer futuro que não seja um que a política comanda foi cancelado por proclamação. É apenas na medida em que a realidade for politicamente solúvel, contudo, que essa proclamação pode ser decisiva. Sobre essa questão, há muito mais por vir.

  1. Desde 1979, a ideologia política globalmente hegemônica é o neoliberalismo, encontrado com algumas variantes entre os principais poderes econômicos. Apesar dos desafios profundamente estruturais que os novos problemas globais lhe apresentam, mais imediatamente as crises financeiras, fiscais e de crédito, em curso desde 2007-8, os programas neoliberais só evoluíram no sentido de aprofundá-los. A continuação do projeto neoliberal, ou neoliberalismo 2.0, começou a aplicar outra rodada de ajustes estruturais, em especial, encorajando novas e agressivas incursões do setor privado sobre o que resta das instituições e serviços socialdemocratas. Isso tudo apesar dos efeitos econômicos e sociais imediatamente negativos, e das barreiras de longo prazo impostas pelas novas crises globais.

Dentro das democracias anglófonas, 1979 marcou uma transição limitada do consenso keynesiano dominante, uma transição que nunca foi resolutamente perseguida e que foi rapidamente revertida (dentro de cerca de uma década). O princípio da politização econômica (macroeconomia) nunca foi destronado. O ‘neoliberalismo’ não é um conceito sério. Dentro da China (e, mais tarde, de maneira menos audaciosa, em outros ‘mercados emergentes’) uma transformação bem mais substancial ocorreu, mas em nenhum desses casos a descrição ‘neoliberal’ fornece iluminação — a menos que seu significado seja redutível a um repúdio dos métodos crus de uma economia de comando para a subordinação social ao estado.

  1. Que as forças do poder governamental, não-governamental e corporativo, de direita, tenham sido capazes de fazer pressão com a neoliberalização é, ao menos em parte, um resultado da paralisia contínua e da natureza ineficaz de muito do que resta da esquerda. Trinta anos de neoliberalismo tornaram a maioria dos partidos políticos de esquerda desprovida de pensamento radical, esvaziada e sem um mandato popular. Na melhor das hipóteses, eles responderam a nossa presente crise com chamados a um retorno à economia keynesiana, apesar da evidência de que as condições que possibilitaram a socialdemocracia do pós-guerra não existem mais. Não podemos absolutamente retornar por decreto ao trabalho industrial-fordista de massa. Mesmo os regimes neossocialistas da Revolução Bolivariana da América do Sul, ainda que animadores em sua habilidade de resistir aos dogmas do capitalismo contemporâneo, se mantêm lamentavelmente incapazes de apresentar uma alternativa para além do socialismo de meados do século 20. O trabalho organizado, sistematicamente enfraquecido pelas mudanças introduzidas no projeto neoliberal, está esclerosado em um nível institucional e – quando muito – é capaz apenas de mitigar ligeiramente os novos ajustes estruturais. Mas sem uma abordagem sistemática para construir uma nova economia, ou uma solidariedade estrutural para promover mudanças, por hora o trabalho permanece relativamente impotente. Os novos movimentos sociais que emergiram a partir do fim da guerra fria, experimentando um ressurgimento nos anos após 2008, foram igualmente incapazes de conceber uma nova visão ideológico-política. Ao invés disso, eles consomem uma considerável energia em processos direto-democráticos internos e numa autovalorização afetiva dissociada da eficácia estratégica, e frequentemente propõem alguma variante de um localismo neoprimitivista, como se, para fazer oposição à violência abstrata do capital globalizado, fosse suficiente a frágil e efêmera “autenticidade” do imediatismo comunal.

A direita foi destruída, quase completamente, nos anos 1930. Desde então, ela existiu apenas como uma voz simbólica de dissidência impotente, resmungando distraidamente, conforme o rolo compressor do Leviatã avançou adiante. Nem o New Deal, nem a Great Society foram revogados. Em vez disso, o vetor para a politização total foi perseguido até os redutos finais de uma sociedade civil quebrada. A Esquerda não enfrente nehuma restrição política séria que seja, mas apenas aquelas restrições ‘ontológicas’ impostas por uma realidade intratável e politicamente indiferente — exemplificada pelo ‘Problema do Cálculo Econômico’ de Mises. São essas que estão agora derrubando o Socialismo Bolivariano. O ‘Capital Globalizado’ é primariamente denominado na moeda politizada emitida pelo Banco Central dos EUA. Sua subserviência é radical e explícita.

  1. Na ausência de uma visão social, política, organizacional e econômica radicalmente nova, os poderes hegemônicos da direita continuarão capazes de impor o seu imaginário obtuso, a despeito de toda e qualquer evidência. Quando muito, a esquerda será capaz momentaneamente de resistir parcialmente a algumas das piores incursões. Mas isso será irrisório contra uma maré inexorável em última instância. Gerar uma nova hegemonia global de esquerda implica na recuperação de futuros possíveis que foram perdidos, e, de fato, na recuperação do futuro como tal.

Então está claro, por ora, que a Direita e a Esuqerda pelo menos concordam em uma coisa — os outros caras têm uma hegemonia quase total e estão levando o mundo ao desastre. Uma Esquerda cada vez mais esquerdista consegue acelerar o processo?

Explorar essa ideia requer um exame da ideia de aceleração… [a seguir]

Original.

O Delta Decopunk

Conforme este blog espirala até seu ponto de re-começo, ele recupera as tarefas sobre as quais ainda tem que avançar, incluindo a mais básica (anunciada em seu sub-título). Por quê o ‘Delta Decopunk’? Em sua maior parte, por que é onde o tempo se desfia.

+ A Era de Ouro de Shanghai é um negócio irresolvido e, conforme as coisas disparam adiante, elas voltam para trás.
+ A Art Déco é a modernidade perdida do mundo, como todo mundo pressente, sem saber bem por quê.
+ A Art Déco escapava de sua época, na época. Ela é a relíquia preeminente de viagens no tempo na terra.
+ O que a Art Déco comunica é vívido, embora ainda não verbalizado.
+ A Art Déco fascina novamente, hoje, porque ela é obscuramente reconhecida como a chave do significado criptografado da história mundial, e em nenhum lugar isso é mais insistentemente indicado do que na Shanghai reaberta.

– O sufixo ‘-punk’ é o código das revistas pulp para qualquer ferramenta cultural de viagem no tempo que esteja sofrendo um desenvolvimento contemporâneo.

As duas metades do termo ‘Decopunk’ se ligam através de uma semi-simetria peculiar. Cada uma delas está presa no tempo de uma ‘voga’ identificável, ao passo em que simultaneamente fazem do tempo um problema e da história, um tópico. A Art Déco é, de uma só vez, a característica mais evocativa de uma época — aquela da alta-modernidade / capitalismo — e uma exploração super-histórica, que se estende dos remanescentes arcaicos de civilizações perdidas até vôos de especulação ficcional-científica, atraindo todo o cosmos de possibilidade estética e arquitetônica para dentro de si. O sufixo ‘-punk’, que ainda se prolifera, designa, de maneira similar, tanto uma erupção de gêneros literários pulp semi-contemporâneos, quanto um método de pilhagem temporal, vagando extensamente por entre passado e futuro, em buscas por conjuntos extraíveis ou estilos tecno-culturais. Algo como uma epocalidade abstrata, ou valor de re-uso histórico, é caçado de cada um dos lados. Quando os dois se conectam, a ocorrência original é espiralada em uma máquina de reciclagem com processos gêmeos.

Se o Decopunk descreve um entrelaçamento através do tempo, feito com engenharia de precisão, ele também marca uma tensão, ou gradiente, do histórico ao contemporâneo, da opulência à miséria, do otimismo ao pessimismo, e do tangível ao digital. O que o presente virtual do passado tende a superestimar, o passado virtual do presente tende a enfraquecer, e é apenas no circuito instável de uma valorização oscilante que qualquer um dos pólos encontra sua real circulação (que é igualmente aquela do outro). Um cinismo eufórico, aprimorado através de um desapego espiralado para com o parcial e o atual, funde o Decopunk poli-fracionário em uma coisa única e investigável.

***

O conteúdo conceitual do ‘-punk’ da história alternativa foi uma consideração central de uma série neste blog, Um Guia de Shanghai para o Viajante no Tempo (Parte 1, Parte 2, Parte 3). O termo mais encardido e popular — embora, para os nossos propósitos, bem menos exato — ‘Dieselpunk’ foi empregado nessas peças, como um espaço reservado para o problema emergente do deslocamento no tempo.

Algumas das questões culturais-históricas mais proeminentes levantadas pelo legado da Art Déco em Shanghai foram brevemente indicados no guia Urbanatomy à Expo Mundial de 2010, em uma curta seção, repetida aqui:

Modernidade Tropical

O cosmopolitismo é um traço essencial para qualquer cidade com aspirações a um status global. Em si, contudo, a ideia cosmopolita é abstrata e vazia – ou pelo menos indeterminada – demais para fornecer orientação quanto às tradições culturais dominantes de Shanghai.

O encolhimento econômico e comunicativo do mundo torna a modernidade, não menos que o urbanismo, inerentemente cosmopolita. Desde os anos 1960, críticos pós-modernos têm reconstruído (e ‘desconstruído’) um modelo de modernismo cosmopolita que se conforma à visão de seus proponentes arquitetônicos mais verbalmente articulados. Esta visão é identificada com o ‘Estilo Internacional’, caracterizado por designs austeramente funcionais e geometricamente puros. Ao eliminar todos os elementos de referência histórica ou cultural discernível, tais designs aspiravam a validade e relevância universais. O resultado foi um cosmopolitismo negativo, concebido como uma escapada da armadilha da peculiaridade nativa. Esta reivindicação de neutralidade cultural e autoridade universal tem sido o objeto básico da depreciação pós-modernista, e o desastre social generalizado associado a essa filosofia de construção urbana nos países ocidentais (os ‘conjuntos habitacionais’) fizeram muito para legitimar o argumento pós-moderno. Na opinião tanto popular quanto da elite, o alto modernismo, conforme representado por suas tradições supostamente dominantes no planejamento urbano e na arquitetura, ficou associado com uma insensibilidade arrogante para com as realidade locais e com uma confiança auto-ilusória em sua própria inevitabilidade objetiva.

A importância de Shanghai para essa discussão é que ela desdenhou inteiramente do modernismo do Internacional, pelo menos até tempos muito recentes (após a abertura de Pudong). Sua alta modernidade foi construída nos estilos mais luxuriantes e tropicais que hoje são agrupados em conjunto sob o rótulo ‘Art Déco’, em referência retrospectiva à Exposition Internationale des Arts Decoratifs de Paris em 1925. Onde o Estilo Internacional rejeitava todo tipo de superfluidade, a Art Déco se esbaldava em complexidade cultural, simbolismo arcano e opulência de referências, emprestando livremente de tempos egípcios e mesopotâmios antigos, tecnologia balística, objetos de ficção científica, glifos herméticos e sonhos alienígenas. Fundindo tendências de design simplificado com formas cubistas fracionadas e as descobertas da etnografia comparativa, ela criava um estilo cosmopolita voluptuoso, perfeitamente adaptado à Shanghai do começo do século XX.

Shanghai foi tão completamente saturada de herança e influência Art Déco quanto qualquer cidade no mundo. Exemplos incluem tesouros tais como o Capitol Building (146 Huqiu Lu, CH Gonda, 1928), o Grande Teatro (agora Grande Cinema, 216 Nanjing W, Rd, Hudec, 1928), o Peace Hotel (Bund 19-20, Palmer & Turner, 1929) e o Paramount Ballroom (Yang Ximiao, 218 Yuyuan Rd, 1932). Um cluster Art Déco especialmente impressionante pode ser encontrado na ‘Praça Municipal’, intersecção entre a Jiangxi Middle Road e a Fuzhou Road, dominada pela Hamilton House (Palmer & Turner,1931), o Metropole Hotel (Palmer & Turner, 1934) e o Banco Comercial da China (Davies, Brooke and Gran, 1936). Muito desse fabuloso legado arquitetônico foi documentado no trabalho do fotógrafo local Deke Erh.

O estilo Art Déco tornou-se tão profundamente infundido no tecido da cidade que seus motivos padronizados e distintos (como raios solares, ziguezagues e signos místicos) podem ser vistos em inúmeros portais de lilong das décadas de 1920 a 1940. Em um outro extremo, a ultramoderna Jin Mao Tower da cidade, em Lujiazui (88 Century Avenue) sintetiza formas cristalinas, segmentação em pagodes e padrões derivados da numerologia tradicional chinesa, sob a orientação de inconfundíveis influências Art Déco. Um exemplo ainda mais pronunciado de construção e decoração Art Déco contemporânea é fornecido pelo novo Peninsula Hotel, que foi meticulosamente projetado como um tributo consciente (e uma revitalização) do estilo alto modernista de Shanghai.

Em contraste com a austeridade do Estilo Internacional, a abundância tropical da Art Déco produz um cosmopolitismo positivo, que avança até o universal por meio de abrangência e síntese, em vez de purificação exclusiva. Ela se torna global ao atrair tudo de estrangeiro para si, ao invés de se livrar de traços nativos. Dessa diferença, muito se segue.

No Ocidente, uma desilusão generalizada com o modernismo, que resulta de experiências históricas severas, culpa civilizatória e um declínio geoestratégico relativo, encontrou uma expressão articulada em argumentos e, mais popularmente, atitudes pós-modernas. Essas posições alcançaram uma medida de coerência através de uma construção crítica do modernismo, modelada sobre o Estilo Internacional. Tendências do pós-guerra no desenvolvimento urbano, embasadas em zoneamento rígido, racionalização geométrica da paisagem urbana e blocos residenciais em massa insossamente uniformes, pareciam exemplificar uma mentalidade modernista arquetípica. A modernidade urbana foi interpretada como algo que havia sido tentado, visto, entendido, julgado e rejeitado. O episódio cultural pós-moderno se seguiu.

A Art Déco, no entanto, escapou de toda essa desoladora progressão. Um estilo afirmativamente moderno e abrangente que havia abraçado a era das máquinas e um mundo comunicativamente intercomunicado, ela permanecia inteiramente imaculada pelo minimalismo e pelos planos-mestres dos Estilistas Internacionais. O trovejante choque cultural entre ‘modernistas’ e pós-modernistas que ressoou através do mundo ocidental no final do século XX a ignorou completamente. A Art Déco representa, assim, uma modernidade não processada e não digerida, ainda pulsando com enigmas históricos e potencialidade não exauridas. A vivacidade contínua da Art Déco é mal compreendida por noções de anacronismo ou nostalgia, uma vez que é um estilo que nunca foi concluído, delimitado, superado ou avaliado de maneira adequada. Ela é o símbolo quase infinitamente complexo de um espírito moderno prematuramente descartado, reanimado espontaneamente pela renovação da própria modernidade. A reivindicação da Art Déco a uma atenção estética, intelectual e até mesmo política não são em nenhum lugar mais óbvias do que na Shanghai contemporânea.

Original.

O Museu de Ningbo

O Museu de Ningbo, que mereceu um prêmio Pritzker para o arquiteto Wang Shu em 2012, é um edifício desafiador. Combinando elementos e materiais tradicionais com um modernismo monumental — em sua manifestação mais intransigentemente brutalista — ele efetua um complexo peculiar de delicadeza e terror.

NingboMuseum

As fachadas assinadas por Wang já exibem a mesma ambiguidade em embrião. Seus vastos planos puros, exibidos no pavilhão de Ningbo Tengtou na Expo Mundial de Shanghai em 2010, memorializam um passado demolido. Os tijolos e telhas de vilarejos obliterados são reciclados em superfícies requintadamente tesseladas e infinitamente absorvedoras, esparsamente pontuadas por janelas irregularmente orientadas e distribuídas. A tensão entre a escala esmagadora e a composição intricada é imensa (e íntima). Deslocamentos sutis de textura e cor nos materiais não uniformes transformam as paredes em exibições sensuais de padrões abstratos, enquanto seu rigor geométrico maciço se aproxima de um estado de absoluta ameaça (com uma inconfundível veia militar-totalitária).

Na estrutura do Museu de Ningbo, essa tensão é composta até um tom quase histérico por uma estrutura híbrida, que funde os mosaicos achatados dos vilarejos com blocos colossais de concreto texturizado comparativamente homogêneos. A construção parece uma fortaleza moderna, montada em uma linguagem arquitetônica de um rígido pragmatismo defensivo. Cada abertura é pressurizada na direção de uma fenda, como se mesmo aberturas mínimas fossem uma concessão relutante à fraqueza e à vulnerabilidade. Para a instituição cultural de referência de uma cidade aberta e comercial, aninhada na região tradicionalmente pacífica de Jiangnan, na China, esse vocabulário estrutural é chocante e indubitavelmente provocador. Se há uma mensagem, ela não é fácil de descriptografar

NMus02

Original.