Queixas contra Moldbug

Ser um reacionário, minimamente falando, não exige mais do que um reconhecimento de que as coisas estão indo para o inferno. Conforme a fonte da decadência é traçada cada vez mais para trás e atribuída a suposições sociopolíticas cada vez mais profundamente enraizadas – e seguramente convencionais – a atitude reacionária se torna cada vez mais extrema. Se elementos inovadores são introduzidos, seja no diagnóstico ou no remédio proposto, uma mentalidade neo-reacionária nasce.

Conforme os Estados Unidos, junto com o mundo que ele construiu, voa para a calamidade, o extremismo neo-reacionário está embaraçosamente próximo de se tornar uma moda. Se evidências forem necessárias, considere o Vacate Movement, uma facção dissidente dentro dos 0.0000001% que cresce rapidamente. Este é um desenvolvimento que dificilmente teria sido imaginável, não fosse pelas provocações meticulosamente elaboradas, mas retoricamente efervescentes de Mencius Moldbug.

Com Moldbug, a neo-reação imoderada aprendeu muitos fatos essenciais e surpreendentes sobre a genealogia e a tendência da aflição central da história, recém batizada de a Catedral. Ela foi liberada do mesmerismo do ‘universalismo democrático’ – ou ultra-puritanismo evangélico – e treinada de volta na direção de livros honestos (e, assim, proibidos). Ela reaprendeu a análise de classes, com um poder explicativo sem precedentes. Muito mais poderia ter sido adicionado, antes de chegarmos ao nosso destino: o esboço esquemático de uma alternativa ‘neocameral’ à manifestamente moribunda ordem política global. (Sobre uma questão trivial de etiqueta: Moldbug educadamente pede para ser tratado como ‘Mencius’ – pedidos semelhantes de Platão Jiggabug e Siddhartha Moldbucket também foram evadidos.)

Moldbug escrupulosamente distancia sua propostas de qualquer indício de agitação revolucionária, ou sequer das variedades mais brandas de desobediência civil. O neocameralismo não é projetado para antagonizar, mas sim para restaurar a ordem a corpos sociais que a desperdiçaram, através da elaboração de um quadro compatível com a arte há muito perdida do governo eficaz. (‘Há muito perdida’, isto é, para o Ocidente – o exemplo de Singapura, entre aqueles de outras cidades-estado e zonas econômicas especiais, nunca está muito distante.) O neocameralismo não derrubaria nada, mas sim surgiria em meio às ruínas. É uma solução que aguarda a configuração terminal de um problema.

O programa neocameral segue aproximadamente os seguinte passos:

Fase-1: Lamentação construtivamente disciplinada

Fase-2: A civilização colapsa

Fase-3: Re-inicialização até uma forma modernizada de monarquia absoluta, na qual os cidadão são abrangentemente despojados de todos os direitos políticos historicamente acumulados

Apesar de suas óbvias atrações para partidários da liberdade, esse programa não carece de suas características dúbias, algumas das quais pode-se abordar aqui enquanto se ensaia o argumento de Moldbug a favor do governo neocameral um pouco mais detalhadamente. Formulado de maneira sucinta e preliminar, nossas reservas entram em foco quando aquele cara no cavalo branco aparece. De onde exatamente ele vem?

Responder ‘Carlyle’ seria fácil e não exatamente impreciso, mas também se desviaria da coerência estrutural da questão. Moldbug se recusa a chamar seu ditador neocameral de ‘CEO nacional’ (o que ele é), preferindo descrevê-lo como um ‘monarca’ (o que – enquanto nomeado executivo não dinástico – ele não é), por razões tanto estilísticas quanto substanciais. Estilisticamente, o monarquismo é uma provocação e uma dramatização da fidelidade reacionária. Substancialmente, isso enfatiza a questão da soberania.

A filosofia política de Moldbug é fundada em uma revisão do conceito de propriedade, suficiente para apoiar a afirmação de que o poder soberano é propriamente entendido como o dono de um país. É apenas nesse nível de organização política que direitos de propriedade reais – isto é, proteções – são sustentados.

Propriedade é qualquer estrutura estável de controle monopolístico. Você é dono de algo se apenas você o controla. Seu controle é estável se ninguém mais pode tirá-lo de você. Esse controle pode ser assegurado pelos seus próprios poderes de violência, ou pode ser delegado por um poder superior. Se o último, ela é propriedade secundária. Se o primeiro, ela é propriedade primária ou soberana.

O poder soberano (a corporação soberana, ou ‘sovcorp’), sozinha, é capaz de assegurar seus próprios direitos de propriedade. Seu poder e seus direitos são absolutamente idênticos e, a partir dessa identidade primária, direitos subordinados (à ‘propriedade secundária’) cascateiam através da hierarquia social. O neocameralismo não é nada além do reconhecimento sistemático e institucional dessa realidade. (Se ela é, de fato, uma ‘realidade’ é uma questão à qual em breve procederemos.)

Talvez surpreendentemente, as conclusões de Moldbug podem ser apresentadas em termos que libertários em recuperação acharam atraente:

O neocameralismo é a ideia de que um estado soberano, ou corporação primária, não é organizacionalmente distinto de uma corporação secundária ou privada. Desta forma, podemos alcançar uma boa administração e, assim, um governo libertário, ao converter as sovcorps ao mesmo modelo administrativo que funciona bem no setor privado atual – a corporação de sociedade anônima.

Uma maneira de se abordar o neocameralismo é vê-lo como o refinamento do monarquismo, um sistema antigo no qual a sovcorp é um tipo de negócio familiar. Sob o neocameralismo, os caprichos biológicos do monarquismo são eliminados e o Estado “abre seu capital”, contratando os melhores executivos, independentemente de sua linhagem ou mesmo nacionalidade.

Ou você pode simplesmente ver o neocameralismo como parte do padrão capitalista comum, no qual os serviços são otimizados ao se alinhar os interesses do prestador de serviços com os do consumidor de serviços. Se isso funciona para mercados, por que não funcionaria para o governo? Eu tenho dificuldade em aceitar a possibilidade de que o constitucionalismo democrático geraria preços mais baixos ou melhores produtos na Safeway…

A fim de dar um passo para trás desta visão, em direção às suas fundações, é útil examinar seus blocos de construção. Quando Moldbug define a propriedade como “qualquer estrutura estável de controle monopolístico”, o que realmente se quer dizer com ‘controle’? Poderia parecer simples o bastante. Controlar algo é usá-lo, ou fazer uso dele – colocá-lo para funcionar, de tal forma que um resultado desejado seja de fato alcançado. A ‘propriedade’ seria representada como direito exclusivo de uso, ou utilização instrumental, concebida com amplitude suficiente para abranger o consumo, e talvez (chegaremos a isso), doação ou troca.

Complicações surgem rapidamente. ‘Controle’, nesse caso, envolveria competência técnica, ou a capacidade de fazer algo funcionar. Se o controle exige que alguém consiga usar algo efetivamente, então ele exige conformidade com um fato natural (através de um entendimento tecno-científico e habilidades práticas). Mesmo o consumo é um tipo de uso. Essa variável histórica – vastamente distante de noções intuitivas de soberania – realmente é apropriada a uma definição de propriedade?

Poderia ser realista conceber a propriedade através do controle, e o controle através da competência técnica, mas seria difícil defender isso como um avanço no formalismo. Uma vez que este problema infunde totalmente o tema do ‘poder’, ou soberania operacional, também é difícil isolá-lo, ou colocá-lo entre parênteses. As digressões frequentes e entusiásticas de Moldbug sobre as praticidades de aparatos militares cripto-bloqueados atestam fortemente isso. Começa a emergir a impressão de que a própria possibilidade de uma propriedade soberana está vinculada a uma investigação irredutivelmente nebulosa, historicamente dinâmica e empiricamente intricada da micro-mecânica do poder, que se dissolve em uma névoa ácida de ‘fricção’ clausewitziana (ou imprevisibilidade ineliminável).

Mais promissor, de longe – para os propósitos de argumento tratável – é um uso estritamente formal ou contratual de ‘controle’ para designar o direito exclusivo à livre disposição ou alienação comercial. Definida desta maneira, a propriedade é uma categoria legal, co-original com a ideia de contrato, que se refere àquelas coisas que se tem o direito de trocar (baseado na lei natural). A propriedade é essencialmente comercializável. Ela não pode existir a menos que possa ser alienada através de uma negociação. Um príncipe que não pode negociar seu território não o “possui” em nenhum sentido que importe.

Moldbug parece reconhecer isso, de pelo menos três maneiras. Em primeiro lugar, sua formalização do poder soberano, através de sua conversão em ações soberanas, o comercializa. Dentro do regime neocameral, o poder toma a forma de uma propriedade geradora de receita, disponível para a livre disposição daqueles que a manejam. Esta é a única base para a analogia corporativa. Se as ações soberanas não fossem livremente disponíveis, seus ‘donos’ seriam meros administradores, sujeitos a obrigações, responsabilidade políticas não alienáveis, ou deveres administrativos que demonstram, com absoluta clareza, a subordinação a uma soberania superior. (Esta é, em termos gerais, a atual situação e a teoria política inofensivamente convencional.)

Em segundo lugar, o estado neocameral existe dentro de um patchwork, ou sistema de interações, através do qual eles competem por população e no qual redistribuições pacíficas (ou comerciais) – incluindo aquisições e rompimentos – são facilitadas. A menos que as ações soberanas possam ser comercializadas dentro do patchwork, elas não são propriedade de forma alguma. Isto, por sua vez, indica que a legislação positiva ‘interna’, conforme ditada pelo ‘soberano’ doméstico, está inserida em uma sistema normativo bem mais expansivo, e que definição de ‘propriedade’ não pode ser exaurida por sua determinação local dentro da micro-pólis neocameral. Como Moldbug repetidamente observa, se poderia esperar que um despotismo introvertido que violasse as normas mais amplas do patchwork – tais como aquelas que governam a saída livre – sofresse um colapso no valor das ações soberanas (o que implica que a substância das ações soberanas é determinada de maneira sistêmica, e não local). Se todo o estado neocameral é disciplinado através do patchwork, quão real pode ser sua soberania local? Esta disciplina sistêmica ou subversão da soberania local, deve-se notar, é a única atração do esquema neocameral para os defensores da geografia dinâmica (que não querem nada mais além de que o governo nacional se torne a cadela do sistema do patchwork).

Em terceiro lugar (e de maneira relacionada), o neocameralismo é circulado como um modelo de governo experimental, guiado ciberneticamente até a efetividade pelos mesmos tipos de mecanismos de feedback que controlam corporações ‘secundárias’. Em particular, o tráfego populacional entre estados neocamerais é concebido como um regulador fundamental, medindo continuamente a funcionalidade do governo e corrigindo-o na direção da atratividade. A estrutura de incentivo do regime neocameral – e, assim, sua reivindicação de racionalidade prática – repousa inteiramente sobre isso. Mais uma vez, contudo, é evidentemente a limitação radical da soberania local, em vez de sua expressão irrestrita, que promete fazer tais governos funcionarem. A saída livre – para tomar a instância mais importante – é uma regra imposta em um nível superior àquele da soberania nacional, operando como uma lei natural de todo o patchwork. Sem saída livre, um estado neocameral não é mais do que um despotismo paroquial. O soberano absoluto do estado deve escolher se sujeitar a uma regra que ele não legislou… algo está se soltando aqui (é hora de enviar o cavalo branco para os tanques de biodiesel).

O neocameralismo necessariamente comercializa a soberania e, ao fazê-lo, ele acomoda o poder à lei natural. As ações soberanas (a ‘propriedade primária’) e a ‘propriedade secundária’ se tornam comercialmente intercambiáveis, dissolvendo a distinção original, enquanto a soberania local é tornada compatível com a ordem comercial mais ampla e, assim, se torna uma forma de ‘soberania secundária’, restrita em relação à soberania primária ou absoluta do sistema em si. A autoridade final sangra para o conjunto cataláctico, a agora ou commercium, onde o que pode realmente acontecer é decidido pela lei natural. É a isso que os acionistas soberanos, se quiserem ser eficazes e prosperar, devem se submeter.

O ponto fundamental, e a razão pela qual o pretendente no cavalo branco é tão enganador, é que a soberania não pode, em princípio, ser inerente a qualquer agente social em particular – seja ele indivíduo ou grupo. Isto é melhor demonstrado em referência ao conceito de lei natural (que James Donald esboça com brilhantismo inigualado). Quando propriamente entendida, ou articulada, a lei natural não pode ser violada. Colocar sua mão no fogo e se queimar não desafia a lei natural de que temperaturas para além de uma certa faixa causam dano tecidual e dor. Similarmente, suprimir a propriedade privada e produzir um cataclisma econômico não desafia a lei natural que o comportamento econômico humano é sensível a incentivos.

A lei positiva, como criada por legisladores, toma a forma: faça (ou não faça) isso. Violações serão punidas.

A lei natural, como descoberta por qualquer ser racional, toma a forma: faze o que tu queres e aceita as consequências. Recompensas e punições são intrínsecas a ela. Ela não pode ser desafiada, mas apenas mal compreendida. Ela é, portanto, absolutamente soberana (Deus sive Natura). Como qualquer outro ser, governos, não importa o quão poderosos, podem apenas se submeter a ela, seja através de adaptação inteligente e florescimento, ou através de ignorância, incompetência, degeneração e morte. Para Deus-ou-Natureza, não importa de forma alguma. A lei natural é indistinguível do verdadeiro poder soberano que realmente decide o que pode funcionar, o que não funciona, o que pode então – ‘secundariamente’ – ser aprendido por seres racionais, ou não.

Moldbug sabe disso – de verdade. Ele o demonstra – para tomar apenas um exemplo altamente informativo – através de sua insistência de um estado neocameral tenderia a tributar no ótimo de Laffer. Isto é, tal estado provaria sua efetividade maximizando o retorno sobre a propriedade soberana em conformidade com a realidade. Ele não legisla a curva de Laffer, ou escolhe que ela exista, mas em vez disso reconhece que ela foi descoberta e, com ela, um aspecto da lei natural. Qualquer coisa a menos, ou outra, seria inconsistente com sua legitimidade enquanto protetor competente de propriedade. Para sobreviver, prosperar e sequer pretender soberania, ele não pode fazer nada além disso. Seu poder é delegado pelo commercium.

Certamente não é nenhuma coincidência que Canuto, o Grande tenha sido descrito por Norman Cantor como “o rei mais efetivo da história Anglo-Saxã”. Conforma a Wikipédia relata sua estória:

Sua ascensão ao trono dinamarquês em 1018 reuniu as coroas da Inglaterra e da Dinamarca. Canuto manteve sua base de poder junta ao unir dinamarqueses e ingleses sob vínculos culturais de riqueza e costume, em vez de pura brutalidade.

De maneira mais importante:

Henrique de Huntingdon, o cronista do século XII, conta como Canuto colocou seu trono à beira-mar e ordenou que a maré parasse e não molhasse seus pés e robes. Ainda assim, “continuando a subir como de costume, [a maré] salpicou seus pés e pernas sem respeito por sua pessoa real. Então, o rei pulou para trás, dizendo: ‘Que todos os homens saibam o quão vazio e insignificante é o poder dos reis, pois não há nenhum digno do nome, além d’Ele a quem o céu, a terra e o mar obedecem pelas leis eternas'”.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4f(inal)

Parte 4f: Aproximando-se do Horizonte Biônico

É hora de dar a esta longa digressão uma conclusão, esticando-se impacientemente em direção ao fim. O tema básico tem sido controle mental, ou supressão de pensamento, como demonstrado pelo complexo midiático-acadêmico que domina as sociedades ocidentais contemporâneas e ao qual Mencius Moldbug dá o nome de Catedral. Quando as coisas são esmagadas, elas raramente desaparecem. Pelo contrário, elas são deslocadas, fugindo para dentro de sombras acolhedoras e, às vezes, virando monstros. Hoje, conforme a ortodoxia supressora da Catedral se desfaz, de várias maneiras e em numerosos sentidos, um tempo de monstros está se aproximando.

O dogma central da Catedral tem sido formalizado como o Modelo Padrão das Ciências Sociais (SSSM, na sigla em inglês) ou ‘teoria da tábula rasa’. É a crença, completada em sua essência pela antropologia de Franz Boas, de que toda questão legítima sobre a humanidade está restrita à esfera da cultura. A natureza permite que ‘o homem’ seja, mas nunca determina o que o homem é. Questões direcionadas às características e variações naturais entre humanos são, elas mesmas, apropriadamente compreendidas como peculiaridades, ou mesmo patologias, culturais. Falhas de ‘educação’ (nurture) são a única coisa que temos permissão de ver.

Uma vez que a Catedral tem uma orientação ideológica consistente e peneira seus inimigos de acordo, uma avaliação científica comparativamente independente do SSSM facilmente vira antagonismo bruto. Como Simon Blackburn observa (em uma análise criteriosa do Tábula Rasa de Steven Pinker), “A dicotomia entre natureza e educação (nurture) rapidamente adquire implicações políticas e emocionais. Para colocar de maneira crua, a direita gosta de genes e a esquerda gosta de cultura…”.

No limite do ódio recíproco, o determinismo hereditário confronta o construtivismo social, com cada um deles comprometido com um modelo radicalmente reduzido de causalidade. Ou a natureza se expressa como cultura, ou a cultura se expressa em suas imagens (‘construções’) da natureza. Ambas estas posições estão presas em lados opostos de um circuito incompleto, estruturalmente cegas à cultura do naturalismo prático, o que seria dizer: à manipulação tecno-científica / industrial do mundo.

Adquirir conhecimento e usar ferramentas é um único circuito dinâmico, que produz a tecnociência como um sistema integral, sem divisibilidade real em aspectos teóricos e práticos. A ciência se desenvolve em loops, através da técnica experimental e da produção de uma instrumentação cada vez mais sofisticada, ao passo em que está incorporada dentro de um processo industrial mais amplo. Seu avanço é o aperfeiçoamento de uma máquina. Esse caráter intrinsecamente tecnológico da ciência (moderna) demonstra a eficiência da cultura enquanto força natural complexa. Ela nem expressa uma circunstância natural pré-existente, tampouco meramente constroi representações sociais. Em vez disso, natureza e cultura compõem um circuito dinâmico, à beira da natureza, onde o destino é decidido.

De acordo com o pressuposto auto-reforçador da modernização, ser compreendido é ser modificável. É de se esperar, portanto, que a biologia e a medicina evoluam em conjunto. A mesma dinâmica histórica que subverte abrangentemente o SSSM através de ondas inundantes de descoberta científica, simultaneamente volatiliza a identidade biológica humana através da biotecnologia. Não há qualquer diferença essencial entre aprender o que realmente somos e nos redefinirmos como contingências tecnológicas, ou seres tecnoplásticos, suscetíveis a transformações precisas e cientificamente informadas. A ‘humanidade’ se torna inteligível conforme é subsumida na tecnosfera, onde o processamento de informação do genoma – por exemplo – coloca a leitura e a edição em perfeita coincidência.

Descrever esse circuito, conforme ele consome a espécie humana, é definir nosso horizonte biônico: o limiar de uma fusão conclusiva entre natureza e cultura, no qual uma população se torna indistinguível de sua tecnologia. Isto não é nem determinismo hereditário, nem construtivismo social, mas é ao que ambos teriam feito referência, tivessem eles indicado qualquer coisa real. É uma síndrome vividamente antecipada por Octavia Butler, cuja trilogia Xenogenesis é devotada ao exame de uma população de além do horizonte biônico. Seus ‘comerciantes de genes’ Oankali não têm nenhuma identidade separável do programa biotecnológico que eles perpetuamente implementam sobre si mesmos, conforme adquirem comercialmente, produzem industrialmente e reproduzem sexualmente sua população dentro de um único processo integral. Entre o que os Oankali são e a maneira em que eles vivem, ou se comportam, não existe nenhuma diferença firme. Uma vez que eles criam a si mesmos, sua natureza é sua cultura e (claro) reciprocamente. O que eles são é exatamente o que eles fazem.

Os tradicionalistas da Ortosfera Ocidental estão certos em identificar o iminente horizonte biônico com um evento teológico (negativo). A auto-produção tecno-científica suplanta de maneira específica a essência fixa e sacralizada do homem enquanto um ser criado, em meio à maior reviravolta na ordem natural desde o surgimento da vida eucarionte, há meio bilhão de anos. Não é meramente um evento evolutivo, mas o limiar de uma nova fase evolutiva. John H. Campbell anuncia a emergência do Homo autocatalyticus, enquanto argumenta: ‘De fato, é difícil imaginar como um sistema de herança poderia ser mais ideal para a engenharia do que o nosso é’.

John H. Campbell? – um profeta da monstruosidade e a desculpa perfeita para uma citação monstruosa:

Os biólogos suspeitam que novas formas evoluem rapidamente a partir de exogrupos bastante pequenos de indivíduos (talvez até mesmo uma única fêmea fertilizada; Mayr, 1942) à margem de uma espécie existente. Ali, a pressão de um ambiente praticamente inabitável, a endogamia forçada entre membros isolados da família, a “introgressão” de genes estranhos de espécies vizinhas, a falta de outros membros da espécie contra quem competir, ou o que seja, promove uma grande reorganização do programa genômico, possivelmente a partir de uma mudança modesta na estrutura genética. Quase todos esses fragmentos transmutados de espécies se extinguem, mas ocasionalmente um deles é afortunado o suficiente para se encaixar em um novo nicho viável. Ele prospera e se expande até uma nova espécie. Sua conversão em um pool genético estatisticamente constrito então estabiliza a espécie contra maiores mudanças evolutivas. Espécies estabelecidas são bem mais notáveis por sua estase do que por mudanças. Mesmo produzir uma nova espécie filha não parece mudar uma espécie existente. Ninguém nega que as espécies possam gradualmente se transformar e o fazer em várias medidas, mas essa chamada “anagênese” é relativamente pouco importante, se comparada à grande saltação, geologicamente súbita, na geração de novidade.

Três implicações são importantes.

1. A maior parte das mudanças evolutivas estão associadas com a origem de novas espécies.

2. Diversos modos de evolução podem operar simultaneamente. Neste caso, o mais efetivo domina o processo.

3. Pequenas minorias de indivíduos fazem a maior parte da evolução, ao invés da espécie como um todo.

Uma segunda característica importante da evolução é a autorreferência (Campbell, 1982). A caricatura cartesiana de um “ambiente” externo autônomo que dita a forma de um espécie, como um cortador de biscoitos corta estêncis a partir de folhas de massa, está completamente errada. A espécie molda seu ambiente tão profundamente quanto o ambiente “evolui” a espécie. Em particular, os organismos causam as condições limitadoras do ambiente sobre o qual eles competem. Portanto, os genes desempenham dois papéis na evolução. Eles são os alvos da seleção natural e são eles também que, em última análise, induzem e determinam as pressões seletivas que agem sobre si. Esta causalidade circular submerge o caráter mecânico da evolução. A evolução é dominada pelo feedback das atividades evoluídas dos organismos sobre sua evolução.

A terceira percepção seminal é de que a evolução se estende para além da mudança nos organismos enquanto produtos da evolução, a uma mudança no próprio processo. A evolução evolui (Jantsch, 1976; Balsh, 1989; Dawkins, 1989; Campbell, 1993). Os evolucionistas sabem deste fato mas nunca concederam ao fato a importância que ele merece, porque é incomensurável com o darwinismo. Os darwinistas, e especialmente os neodarwinistas modernos, equacionam a evolução com a operação de um princípio lógico simples, que é anterior à biologia: A evolução é meramente o princípio darwiniano da seleção natural em ação e é disso que a ciência da evolução trata. Uma vez que princípios não podem mudar com o tempo ou as circunstâncias, a evolução tem que ser fundamentalmente estática.

Claro, a evolução biológica não é assim de forma alguma. Ela é um processo complexo real, não um princípio. A maneira em que ela ocorre pode mudar com o tempo e indisputavelmente o faz. Isto é de máxima importância, porque o processo de evolução avança conforme procede (Campbell, 1986). A matéria pré-viva na sopa primordial da terra era capaz de evoluir apenas através de mecanismos “químicos” sub-darwinianos. Uma vez que estes processos insignificantes criaram moléculas genéticas com informação para sua autorreplicação, então a evolução foi capaz de se engajar na seleção natural. A evolução então embrulhou os genomas auto-replicantes dentro de organismos auto-replicantes para controlar a maneira em que a vida responderia aos ventos da seleção vindos do ambiente. Mais tarde, ao criar organismos multicelulares, a evolução ganhou acesso à mudança morfológica enquanto alternativa a uma evolução bioquímica mais lenta e menos versátil. Mudanças nas instruções em programas de desenvolvimento substituíram mudanças nos catalisadores enzimáticos. Sistemas nervosos abriram caminho para uma evolução comportamental, social e cultural ainda mais rápida e mais potente. Finalmente, esses modos mais elevados produziram a organização necessária para uma evolução racional e propositada, guiada e propelida por mentes orientadas a metas. Cada um desses passos representou um novo nível emergente de capacidade evolutiva.

Desta forma, existem dois processos evolutivos distintos, mas entrelaçados. Eu os chamo de “evolução adaptativa” e “evolução geradora”. A primeira é a familiar modificação darwiniana de organismos para aumentar sua sobrevivência e sucesso reprodutivo. A evolução geradora é inteiramente diferente. Ela é a mudança em um processo, em vez de uma estrutura. Além disso, esse processo é ontológico. Evolução literalmente significa “se desdobrar” e o que está se desdobrando é a capacidade de evoluir. Animais superiores se tornaram cada vez mais hábeis em evoluir. Em contraste, eles não são nem um pouco mais aptos do que seus ancestrais ou as formas mais baixas de micróbios. Toda espécie hoje teve exatamente o mesmo histórico de sobrevivência; na média, todo organismo mais elevado vivo hoje ainda deixará apenas duas proles, como era o caso cem milhões de anos atrás, e as espécies modernas têm tanta probabilidade de serem extintas quanto aquelas do passado. As espécies não podem se tornar cada vez mais aptas porque o sucesso reprodutivo não é um parâmetro cumulativo.

Para os nacionalistas raciais, preocupados com que seus netos sejam parecidos consigo, Campbell é o abismo. Miscigenação não chega nem perto da questão. Pense em tentáculos faciais.

Campbell também é um secessionista, embora não tenha quaisquer distrações com as preocupações da política de identidade (pureza racial) ou do elitismo cognitivo tradicional (eugenia). Ao se aproximar do horizonte biônico, o secessionismo assume uma atitude completamente mais selvagem e mais monstruosa – em direção à especiação. O pessoal no euvolution captura bem o cenário:

Raciocinando que a maior parte da humanidade não vai voluntariamente aceitar políticas de gerenciamento populacional qualitativo, Campbell aponta que qualquer tentativa de elevar o QI de toda a raça humana seria tediosamente lento. Ele ainda aponta que o ímpeto geral da eugenia primordial não era tanto melhoria da espécie quanto prevenção do declínio. A eugenia de Campbell, portanto, advoga o abandono do Homo sapiens enquanto ‘relíquia’ ou ‘fóssil vivo’ e a aplicação de tecnologia genética para se intrometer no genoma, provavelmente escrevendo novos genes a partir do zero usando um sintetizador de DNA. Tal eugenia seria praticada por grupos da elite, cujas realizações ultrapassariam tão rápida e radicalmente o andamento comum da evolução que, dentro de dez gerações, os novos grupos terão avançado para além de nossa atual forma, no mesmo grau em que nós transcendemos os símios.

Quando visto do horizonte biônico, o que quer que venha a emergir da dialética do terror racial permanece preso em trivialidades. É hora de seguir em frente.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4

Parte 4: Recorrendo a raça à ruína.

Os liberais estão confusos e furiosos que os brancos pobres votam em Republicanos, embora votar com fundamentos tribais seja uma característica de todas as democracias multi-étnicas, seja [na] Irlanda do Norte, no Líbano ou no Iraque. Quanto mais uma maioria se torna uma minoria, mais tribal se torna sua votação, de modo que cada vez mais os Republicanos se tornaram o “partido branco”; fazer este ponto de maneira indelicada mandou Pat Buchanan para o saco, mas muitos outros o fazem também.

O que vai acontecer aqui [no Reino Unido]? Os padrões não são dissimilares. Na eleição de 2010, os Conservadores conseguiram apenas 16 por cento do voto étnico minoritário, ao passo que o Labour conseguiu o apoio de 72 por cento dos bangladeshis, 78 por cento dos afro-caribenhos e 87 por cento dos africanos. Os Tories são ligeiramente mais fortes entre os hindus e sikhs britânicos – espelhando o apoio Republicano entre os ásio-americanos – que têm maior probabilidade de serem profissionais proprietários de imóveis e de se sentirem menos alienados.

A The Economist recentemente perguntou se os Tories tinham um “problema de raça”, mas pode ser só que a democracia tenha um problema de raça.
– Ed West (Aqui)

Sem um gosto pela ironia, Mencius Moldbug é praticamente insuportável e certamente ininteligível. Vastas estruturas de ironia histórica moldam seus escritos, às vezes mesmo os engolfando. De que outra maneira poderia um proponente de configurações tradicionais de ordem social – um auto-proclamado jacobita – compor um corpo de trabalho é que teimosamente dedicado à subversão?

A ironia é o método de Moldbug, assim como seu ambiente. Isto pode ser visto, de forma mais reveladora, em seu nome escolhido para o iluminismo usurpado, a fé dominante do mundo moderno: Universalismo. Esta é uma palavra de que ele se apropria (e que coloca em letra maiúscula) dentro de um diagnóstico reacionário cuja força inteira jaz em sua exposição de uma particularidade exorbitante.

Moldbug se volta continuamente para a história (ou, mais rigorosamente, para a cladística) para especificar de maneira acurada aquilo que afirma sua própria significância universal enquanto ascende a um estado de dominância geral que se aproxima do universal. Sob este exame, o que conta como razão Universal, determinando a direção e o significado da modernidade, é revelado como o ramo ou subespécie minuciosamente determinado de uma tradição cultual, descendente de ‘ranters’, ‘levelers’ e variantes intimamente relacionadas de fanatismo dissidente ultra-protestante e que deve infimamente pouco às conclusões dos lógicos.

Ironicamente, então, a fé democrática-igualitária Universalista reinante do mundo é um culto particular ou peculiar que irrompeu, ao longo de caminhos históricos e geográficos identificáveis, com uma virulência epidêmica que é disfarçada como iluminação global progressiva. A rota que ela tomou, através da Inglaterra e da Nova Inglaterra, Reforma e Revolução, é registrada por um acúmulo de traços que fornecem material abundante para a ironia e para variedades mais baixas de comédia. O desmascaramento do intelectual ‘liberal’ moderno ou do ‘contador de verdades’ ‘de mente aberta’ da mídia como um puritano pálido, fervoroso e estritamente doutrinário, reconhecivelmente descendente da espécie de zelotes queimadores de bruxas, é confiantemente – e irresistivelmente – divertido.

Ainda assim, conforme a Catedral se estende e intensifica seu controle sobre tudo, em todo lugar, de acordo com seu mandato divino, a resposta que ela desencadeia é apenas atipicamente cômica. Mais comumente, quando incapaz de extrair humilde complacência, ela encontra raiva inarticulada ou, pelo menos, um ressentimento incompreensível e fumegante, como convém à imposição de dogmas culturais paroquiais ainda envoltos na pompa de uma linhagem específica e alienígena, mesmo que confessem seriamente uma racionalidade universal.

Considere, por exemplo, as palavras mais famosas da Declaração de Independência da América: “Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis…”. Pode-se honestamente manter que submeter-se, de maneira escrupulosa e sincera, a tais verdades ‘auto-evidentes’ equivale a qualquer coisa além de um ato de reconfirmação ou conversão religiosa? Ou ser negado que, nestas palavras, razão e evidência são explicitamente colocadas de lado, para criar espaço para princípios de fé? Poderia qualquer coisa ser menos científica do que tal declaração, ou mais indiferente aos critérios do raciocínio genuinamente universal? Como poderia se esperar que alguém que não fosse já um crente consentisse com tais suposições?

Que a declaração fundante do credo democrático-republicano seja formulada como uma declaração de pura (e doutrinariamente reconhecível) fé é uma espécie de informação, mas ainda não é ironia. A ironia começa com o fato de que, entre as elites da Catedral de hoje, estas palavras da Declaração de Independência (assim como muitas outras) seriam consideradas – quase universalmente – curiosamente sugestivas, na melhor das hipóteses, talvez vagamente embaraçosas e, mais certamente, incapazes de sustentar um assentimento literal. Mesmo em meio a conservadores inclinados ao libertarianismo, é pouco provável que um compromisso firme com os ‘direitos naturais’ proceda confiante e enfaticamente até sua origem divina. Para os ‘liberais’ modernos, crentes do Estado concessor de direitos (ou intitulamentos), essas ideias arcaicas não estão apenas absurdamente datadas, mas são positivamente obstrutivas. Por esta razão, elas são associadas menos com predecessores venerados do que com o pensamento retardado e fundamentalista de inimigos políticos. Sofisticados do núcleo da Catedral entendem, como o fazia Hegel, que Deus não é mais do que o governo profundo apreendido por infantes e, como tal, um desperdício de fé (que os burocratas poderiam colocar em melhores usos).

Uma vez que a Catedral já ascendeu à supremacia global, ela não tem mais necessidade de Pais Fundadores, que desajeitadamente relembram sua ancestralidade paroquial e impedem suas relações públicas transnacionais. Em vez disso, ela busca revigoramento perpétuo através da difamação deles. O fenômeno do ‘Novo Ateísmo’, com suas transparentes afiliações progressistas, atesta isso abundantemente. O paleo-puritanismo deve ser ridicularizado, a fim de que o neo-puritanismo floresça – o meme está morto, vida longa ao meme!

No limite da auto-paródia, o parricídio neo-puritano toma a forma da ridícula ‘Guerra ao Natal’, na qual os aliados da Catedral santificam a (radicalmente não ameaçada) separação entre Igreja e Estado, através da incômoda agitação contra expressões públicas da piedade cristã tradicional, e seus patetas dos ‘Red States’ respondem com dispéptica indignação em programas de TV à cabo. Como toda outra guerra contra substantivos indefinidos (seja ‘pobreza’, ‘drogas’ ou ‘terror’), o resultado é previsivelmente perverso. Se a resistência à Guerra ao Natal ainda não está estabelecida como o centro sólido das festividades natalinas, pode-se confiantemente esperar que se tornem no futuro. Os propósitos da Catedral são servidos, não obstante, através da promoção de um secularismo sintético que separa a fé progressista de seus fundamentos religiosos, ao passo que direciona a atenção para longe do conteúdo etnicamente específico e dogmático do credo em seu âmago.

Até onde vão os reacionários, os cristão tradicionais são geralmente considerados como sendo até bem fofinhos. Mesmo os fanáticos com os olhos mais arregalado da ortodoxia neo-puritana têm dificuldades em ficarem genuinamente excitados com eles (embora ativistas do aborto cheguem perto). Para um pouco de carne realmente vermelha, com os nervos expostos e se contorcendo com os choques de forte estimulação, faz bem mais sentido se voltar para uma outra quadra descartada e cerimonialmente abominada da linhagem progressista: a Política Identitária Branca, ou (o termo pelo qual Moldbug opta) ‘nacionalismo branco’.

Da mesma forma em que a catraca do progresso da democracia social neo-puritana é radicalmente facilitada pela tortura orquestrada de suas formas religiosas embriônicas no pelourinho, assim também a sua tendência à economia política neo-fascista é suavizada pelo repúdio concertado de uma ameaça ‘neo-nazi’ (ou paleo-fascista). É extremamente conveniente, quando se constrói estruturas cada vez mais abertamente corporatistas ou ‘de terceira posição’ de pseudo-capitalismo dirigido pelo estado, ser capaz de desviar a atenção para expressões irritadas de paranoia racial branca, especialmente quando estas são ornamentadas por insígnias nazistas desajeitadamente modificadas, capacetes com chifres, estética de Leni Riefenstahl e slogans livremente emprestados do Mein Kampf. Nos Estados Unidos (e, assim, com um lapso de tempo que se encolhe, internacionalmente) os ícones do Ku Klux Klan, de lençóis brancos, títulos semi-maçônicos e cruzes em chamas até cordas de linchamento, têm adquirido um valor teatral comparável.

Moldbug oferece uma lista higienizada de leitura de blogs nacionalistas brancos, que consiste de autores que – com diferentes graus de sucesso – evitam uma reversão imediata à auto-paródia paleo-fascista. O primeiro passo para além da fronteira da opinião respeitável é representado por Lawrence Auster, um cristão, anti-darwinista e ‘Conservador Tradicionalista’ que defende uma identidade nacional ‘substancial’ (etno-racial) e se opõe ao princípio-mestre liberal de não discriminação. No momento em que chegamos a ‘Tanstaafl‘, na dilacerada borda exterior do espectro cuidadosamente truncado de Moldbug, já entramos em uma órbita decadente, que se espirala para dentro do grande buraco negro que está escondido no centro morto da possibilidade política moderna.

Antes de seguir os tipos de Tanstaafl para dentro do abismo esmagador onde a luz morre, há alguma observações preliminares a serem feitas sobre a perspectiva nacionalista branca e sobre suas implicações. Ainda mais do que os cristãos tradicionalistas (que, mesmo no meio de seu inverno cultural, podem se aquecer no calor do endosso sobrenatural), a política identitária branca se considera sitiada. Uma preocupação moderada ou comedida não oferece qualquer equilíbrio para aqueles que cruzam a linha e começam a se auto-identificar nesses termos. Em vez disso, o caminho de envolvimento demanda uma rápida aceleração até um estado de alerta extremo, ou pânico racial, que se conforma a uma análise focada na maliciosa substituição populacional nas mãos de um governo que, nas palavras frequentemente citadas de Bertold Brecht, “decidiu dissolver o povo e apontar um outro”. A ‘branqueza’ (quer seja concebida de maneira biológica, mística ou ambas) é associada com vulnerabilidade, fragilidade e perseguição. Este tema é tão básico, e tão multifário, que é difícil de abordar de maneira sucinta. Ele engloba tudo, desde predação criminosa (especialmente assassinatos, estupros e espancamentos racialmente carregados), exações econômicas e discriminação inversa, agressão cultural por parte de sistemas acadêmicos e midiáticos hostis até, em última análise, ‘genocídio’ – ou destruição racial definitiva.

Tipicamente, a aniquilação prospectiva da raça branca é atribuída à sua própria vulnerabilidade sistemática, quer seja devido a traços culturais característicos (altruísmo excessivo, susceptibilidade à manipulação moral, hospitalidade excessiva, confiança, reciprocidade universal, culpa ou desdém individualista pela identidade de grupo), ou a fatores biológicos mais imediatos (genes recessivos que suportam os frágeis fenótipos arianos). Embora seja improvável que este senso de ameaça de extinção única seja redutível à fórmula cromática ‘Branco + Cor = Cor’, a estrutura fundamental é deste tipo. Em sua descrição abstrata da vulnerabilidade não recíproca, ela reflete a ‘regra da uma gota’ (e a combinação genética mendeliana recessivo / dominante). Ela descreve a mistura como essencialmente anti-branca.

Uma vez que ‘branqueza’ é um limite (pura ausência de cor), ela desliza suavemente da factualidade biológica da subespécie caucasiana para ideias metafísicas e místicas. Em vez de acumular variação genética, uma raça branca é contaminada ou poluída por misturas que comprometem sua negatividade definidora – escurecê-la é destruí-la. A densidade mitológica destas associações – predominantemente subliminares – investe a política identitária branca de uma resiliência que frustra os esforços iluminados de denúncia racionalista, ao passo que contradiz sua própria auto-representação paranoica. Ela também enfraquece as promoções nacionalistas brancas recentes de uma ameaça racial que é estritamente comparável àquela que enfrentam os povos indígenas, de maneira universal, e descreve os brancos como ‘nativos’ cruelmente privados de igual proteção contra a extinção. Não há nenhuma rota de retorno para a inocência tribal ou para a diversidade biológica rasa. A branqueza foi compactada indissoluvelmente com a ideologia, seja qual for a estrada tomada.

“Se os negros podem ter, e os hispânicos podem ter, e os judeus podem ter, por que não podemos ter?” – Esse é o alicerce final do agravo nacionalista branco, a maldição do lobisomem que significa que ele só pode ser, para sempre, um monstro. Há exatamente um único caminho de saída para os caras pálidas perseguidos, e ele leva direitamente para dentro de um buraco negro. Prometemos que voltaríamos a Tanstaafl, e aqui estamos, no final do verão de 2007, logo depois que pegou ‘a coisa judia‘. Não há nada de muito original quanto à sua epifania, o que é exatamente o ponto. Ele cita a si mesmo:

Não é absurdo que alguém sequer pensasse em culpar o cristianismo ou os WASPs pelo surgimento do politicamente correto e de suas consequências catastróficas? Isto, na verdade, não é uma inversão da verdade? O surgimento e disseminação do PC não erodiu o poder do cristianismo, dos WASPs e dos brancos em geral? Culpá-los é, com efeito, culpar a vítima.
Sim, existem cristãos, WASPs e brancos que caíram na lavagem cerebral do PC. Sim, existem alguns que o levaram tão a fundo no coração que trabalham para expandi-lo e protege-lo. Esta é a natureza do PC. Este é seu propósito. Controlar as mentes das pessoas que ele busca destruir. A esquerda, em sua raiz, é totalmente sobre destruição.
Você não tem que ser um anti-semita para notar de onde essas ideias se originam e quem se beneficia. Mas você têm que violar o PC para dizer: Judeus.

Este é o labirinto, a armadilha, com seu circuito lamentavelmente restrito e estereotipado. “Por que não podemos ser preservacionistas raciais fofinhos, como os índios amazônicos? Como é que sempre viramos os Neo-Nazis? É algum tipo de conspiração, o que significa que tem que ser os Judeus.” Desde o meio do século XX, a intensidade política do mundo globalizado tem corrido, quase exclusivamente, a partir da pilha de cinzas craterada do Terceiro Reich. Até que você entenda o padrão, parece misterioso que não haja maneira de fugir dele. Depois de listar alguns blogs que caem sobre a categoria relativamente distinta de ‘nacionalismo branco’, Moldbug adverte:

A Internet também é lar de muitos blogs inquestionavelmente racistas. A maioria é simplesmente ilegível. Mas alguns são mantidos por escritores relativamente capazes. …Nestes blogs racistas, você encontrará, epítetos raciais, antisemitismo (veja why I am not an anti-Semite) e coisa do tipo. Obviamente, eu não posso recomendar nenhum desse blogs e tampouco eu os linkarei. Contudo, se você estiver interessado na mente do racista moderno, o Google lhe levará lá.

Google é um exagero. Um pouco de pesca de links lhe levará lá. É um problema de ‘seis graus de separação’ (e mais algo como dois, ou menos). Comece a cavar na ‘reactosfera’ realmente existente, e as coisas ficam bastante assombrosamente feias muito rápido. Sim, realmente existe ‘ódio’, pânico e nojo, assim como uma abundância morbidamente viciante de sagacidade sombria e mordaz e um peso desconcertantemente impressionante de fatos críveis (esses caras simplesmente amam de morrer estatísticas). Acima de tudo, logo além do horizonte, há o buraco negro. Se a reação jamais se tornasse um movimento popular, suas poucas linhas esguias de civilidade burguesa (ou talvez sonhadoramente ‘aristocrática’) não segurariam a besta por muito tempo.

Conforme a decência liberal se separou da integridade intelectual e exilou verdades duras, estas verdades encontraram novos aliados e se tornaram consideravelmente mais duras. O resultado é mecânica e monotonamente previsível. Toda ‘guerra de causa’ liberal-democrática fortalece e torna mais selvagem aquilo contra o que luta. A guerra à pobreza cria uma subclasse cronicamente disfuncional. A guerra às drogas cria super-drogas cristalizadas e mega-mafias. Adivinha? A guerra ao politicamente incorreto cria lobisomens empoderados por dados, coordenados via web, paranoicos e poli-conspiratórios, soberbamente posicionados para tirar vantagem do iminente encontro da democracia liberal com a ruinosa realidade e, então, desempenhar sua parte na deflagração de dissabores que mal são imagináveis (exceto por uma analogia histórica perturbadora). Quando uma negociação sã, pragmática e embasada em fatos das diferenças humanas é proibida por decreto ideológico, a alternativa não é um reino de paz perpétua, mas uma putrefação de crimideias cada vez mais auto-conscientes e militantemente desafiadoras, nutridas por realidades publicamente inconfessáveis e energizada por mitologias poderosas, atávicas e palpavelmente dissidentes. Isso é óbvio na ‘Net.

Moldbug considera que o perigo do nacionalismo branco foi tanto exagerado quanto minimizado. Por um lado, a ‘ameaça’ é simplesmente ridícula e meramente reflete o dogma espiritual neo-puritano em sua forma mais histericamente opressiva e teimosamente estúpida. “Deveria ser óbvio que, embora eu não seja um nacionalista branco, eu não sou exatamente alérgico à coisa”, Moldbug observa, antes de descrevê-la como “o sistema de crença mais marginalizado e socialmente excluído na história do mundo …um irritante social obnóxio em qualquer círculo que não inclua motoqueiros tatuados viciados em anfetamina”.

Ainda assim, o perigo permanece, ou melhor, está em construção.

Eu consigo imaginar uma possibilidade que poderia tornar o nacionalismo branco genuinamente perigoso. O nacionalismo branco seria perigoso se houvesse alguma questão sobre a qual os nacionalistas brancos estivessem certos, e todo o resto estivesse errado. A verdade é sempre perigosa. Ao contrário da crença popular, ela nem sempre prevalece. Mas é sempre uma má ideia virar as costas para ela. …Ao passo que a evidência para a biodiversidade cognitiva humana é, de fato, discutível, o que não é discutível é que ela é discutível …[muito embora] todo mundo que não seja um nacionalista branco tenha passado os últimos 50 anos nos informando que não é discutível…

Há bem mais no ensaio de Moldbug, como sempre há. Eventualmente, ele explica porque ele rejeita o nacionalismo branco, por razões que não devem nada aos reflexos convencionais. Mas o coração sombrio do ensaio, que o eleva, para além do brilhantismo, à beira da genialidade, é encontrado logo no início, na borda de um buraco negro:

Por que o nacionalismo branco nos parece mau? Porque Hitler era um nacionalista branco, e Hitler era mau. Nenhuma dessas afirmações é remotamente controversa. Há exatamente um grau de separação entre o nacionalismo branco e o mal. E esse grau é Hitler. Deixe-me repetir: Hitler.

O argumento parece à prova d’água. (À prova de Hitler?) Mas ele não segura qualquer água que seja.

Por que o socialismo nos parece mau? Porque Stalin era um socialista, e Stalin era mau. Qualquer um que queira seriamente argumentar que Stalin era menos mau do que Hitler tem um trabalho horrivelmente grande pela frente. Não apenas Stalin ordenou mais assassinatos, sua máquina de assassinatos teve seu auge em tempos de paz, ao passo que a de Hitler pode pelo menos ser vista como um crime de guerra contra civis inimigos. Se isso faz alguma diferença pode ser debatido, mas se faz, coloca Stalin no topo.

E, ainda assim, eu nunca tive, nem vi, nada parecido com as respostas de “alerta vermelho” ao socialismo [“o sentimento da presença do mal”]. Se eu visse uma multidão de pessoas jovens e elegantes fazendo fila na bilheteria de uma cinebiografia hagiográfica de Reinhard Heydrich, arrepios subiriam e desceriam pelo meu pescoço. De Ernesto Guevara, eu não tenho qualquer resposta emocional. Talvez eu achasse que é estúpido e triste. De fato, eu acho que é estúpido e triste. Mas não me assusta.

Qualquer tentativa de ser nuançado, equilibrado ou proporcional no caso moral contra Hitler é interpretar inteiramente mal a natureza do fenômeno. Isto pode ser notado, com bastante regularidade, nas sociedades asiáticas, por exemplo, porque o fantasma do Terceiro Reich não ocupa uma posição central em sua história, ou melhor, em sua religião, embora – enquanto sacrário interno da Catadral – esteja determinado a fazê-lo (e mostra quase todo sinal de estar sendo bem sucedido). Uma breve digressão sobre o mal-entendido transcultural e a cegueira recíproca poder ser merecida neste ponto. Quando os ocidentais prestam atenção no estilo ‘Deus-Imperador’ de devoção política que tem acompanhado o totalitarismo moderno no Leste Asiático, a conclusão tipicamente tirada é que este padrão de sentimento político é exoticamente alienígena, morbidamente divertido e, em última análise, – arrepiantemente – incompreensível. Comparações contemporâneas com líderes democráticos ocidentais risivelmente não-numinosos apenas aprofundam a confusão, assim como o fazem referência semi-marxistas a sensibilidades ‘feudais’ (como se a monarquia absolutista não tivesse sido uma alternativa ao feudalismo, e como se os monarcas absolutos tivessem sido adorados). Como uma figura histórica e política jamais poderia ter sido investida com a dignidade transcendente do significado religioso absoluto? Parece absurdo…

“Olha, eu não estou dizendo que Hitler era um cara particularmente legal…” – imaginar tais palavras já é ver muitas coisas. Poderia até mesmo provocar a questão: Alguém dentro do mundo globalizado (da Catedral) ainda pensa que Adolf Hitler era menos mau do que o próprio Príncipe da Escuridão? Talvez apenas alguns paleo-cristãos espalhados (que teimosamente insistem que Satã é realmente, realmente, mau) e um número ainda menor de ultra-neo-nazis (que pensam que Hitler era meio legal). Para basicamente todo o resto, Hitler personifica perfeitamente a monstruosidade demoníaca, transcendendo a história e a política para alcançar a estatura de um absoluto metafísico: o mal encarnado. Para além de Hitler é impossível ir, ou pensar. Isto certamente é interessante, uma vez que indica uma erupção do infinito dentro da história – uma revelação religiosa, de tipo abraâmico, invertida, mas ainda estruturalmente familiar. (A ‘Teologia do Holocausto’ já implica nisso.)

A este respeito, em vez de Satã, seria mais útil comparar Hitler ao Anticristo, isto é: a um espelho do Messias, de polaridade moral invertida. Houve até mesmo uma tumba vazia. O Hitlerismo, concebido de forma neutra, portanto, é menos uma ideologia pró-nazi do que uma fé universal, especiada dentro da superfamília abraâmica e unida no reconhecimento da vinda do puro mal sobre a terra. Embora não seja exatamente adorado (fora dos círculos extraordinariamente vergonhosos em que já nos aventuramos), Hitler é sacramentalmente abominado, de uma maneira que toca em teológicas ‘coisas primeiras’. Se abraçar Hitler como Deus é um sinal de uma confusão político-espiritual altamente lamentável (na melhor das hipóteses), reconhecer sua singularidade histórica e significado sagrado é quase obrigatório, uma vez que ele é afirmado por todos os homens de fé sólida como o exato complemento do Deus encarnado (o anti-Messias revelado, ou Adversário), e esta identificação tem a força de uma ‘verdade auto-evidente’. (Alguém já precisou perguntar por que a reductio ad Hitlerum funciona?)

Convenientemente, assim como o neopuritanismo secularizado que ele engole, o Hitlerismo (aversivo) pode ser seguramente ensinado nas escolas americanas, com um notável alto nível de intensidade religiosa. Na medida em que a história progressiva ou programática continua, isto sugere que a Igreja da Sagrada Abominação Hitlerista eventualmente suplantará suas predecessoras abraâmicas, para se tornar a fé ecumênica triunfante do mundo. Como ela poderia não o fazer? Afinal, ao contrário do deísmo padrão, esta é uma fé que reconcilia completamente o entusiasmo religioso com a opinião iluminada, igualmente adaptada, com capacidade anfíbia consumada, aos êxtases convulsivos do ritual popular e às páginas de cartas do New York Times. “O mal absoluto já andou por entre nós, e vive ainda…” Como esta já não é a principal mensagem religiosa de nossos tempos? Tudo que permanece inacabado é a consolidação mitológica e isso há muito tem estado a caminho.

Há ainda algum catar de ossos fragmentados a ser feito entre as cinzas e destroços [na Parte 5], antes de nos voltarmos para coisas mais saudáveis…

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 3

O fascículo anterior desta série acabou com nosso herói, Mencius Moldbug, até a cintura (ou pior) no pântano mefítico do politicamente incorreto, aproximando-se do coração sombrio de sua meditação político-religiosa em How Dawkins Got  Pwned. Moldbug pegou Dawkins no meio de uma denúncia sintomaticamente significante e excruciantemente beata dos “sentimentos vitorianos” racistas de Thomas Huxley – um sermão que conclui com a estranha declaração de que ele está citando as palavras de Huxley, apesar de sua  auto-evidente e totalmente intolerável pavorosidade, “apenas para ilustrar como o Zeitgeist segue em frente”.

Moldbug dá o bote, perguntando mordazmente: “O que, exatamente, é essa coisa do Zeitgeist?”. É, indiscutivelmente, uma extraordinária captura. Eis aqui um pensador (Dawkins), treinado como biólogo e especialmente fascinado pelos tópicos (disjuntivamente) geminados da evolução naturalista e da religião abraâmica, tropeçando no que ele apreende como uma tendência unidirecional de desenvolvimento espiritual histórico-mundial, que ele então – enfaticamente, mas sem o menor apelo à razão disciplinada ou à evidência – nega que tenha qualquer conexão séria com o avanço da ciência, com a biologia humana ou com a tradição religiosa. O disparate balbuciante que daí se resulta é uma coisa de se admirar, mas, para Moldbug, tudo faz sentido:

Na verdade, o Zeitgeist do Professor Dawkins é… indistinguível do… antigo conceito anglo-calvinista ou puritano de Providência. Talvez esta seja uma falsa correspondência. Mas é uma bem próxima.

Uma outra palavra para Zeitgeist é Progresso. Não é de se surpreender que os Universalistas tendam a acreditar no Progresso – na verdade, em um contexto político, eles frequentemente se denominam progressistas. O universalismo de fato fez um bom bocado de progresso desde [a época da embaraçosa observação de Huxley em] 1913. Mas isto dificilmente refuta a proposição de que o Universalismo é uma tradição parasita. Progresso para o carrapato não é progresso para o cão.

O que, exatamente é essa coisa de Zeitgeist? Vale a pena repetir a questão. Não é espantoso, para começar, que quando um darwinista inglês busca uma arma para golpear outro, o cacete mais conveniente à mão seja uma palavra alemã – associada com uma linhagem abstrusa de filosofia idealista adoradora do estado – fazendo referência explícita a uma concepção de tempo histórico que não tem qualquer conexão discernível com o processo de evolução naturalista? É como se, de maneira dificilmente imaginável, durante uma contenda comparável entre físicos (sobre o tópico da indeterminação quântica), de repente se ouvisse gritar que “Deus não joga dados com o universo”. Na verdade, os dois exemplos estão intimamente emaranhados, uma vez que a fé de Dawkins no Zeitgeist é combinada com uma adesão ao progressismo dogmático da ‘Religião Einsteiniana’ (meticulosamente dissecada, claro, por Moldbug).

O despudor é notável, ou pelo menos seria, se ingenuamente se acreditasse que os protocolos da racionalidade científica ocupavam uma posição soberana em tal disputa, mesmo que apenas em princípio. Na verdade – e aqui a ironia é amplificada à própria beira da psicose uivante – o Old One de Einstein ainda reina. Os critérios de julgamento devem tudo à higiene espiritual neo-puritana e nada que seja à realidade testável. A elocução científica é filtrada para a conformidade com uma agenda social progressista, cuja autoridade parece não ser afetada por sua completa indiferença para com a integridade científica. O que lembra Moldbug de Lysenko, por razões compreensíveis.

“Se os fatos não concordam com a teoria, tanto pior para os fatos” afirmou Hegel. É o Zeitgeist que é Deus, historicamente encarnado no estado, espezinhando meros dados de volta na poeira. A esta altura, todo mundo sabe onde isso acaba. Um ideal moral igualitário, endurecido em um axioma universal ou dogma cada vez mais incontestável, completa a ironia histórica suprema da modernidade, ao tornar a ‘tolerância’ o critério de ferro para os limites da tolerância (cultural). Uma vez que seja aceito de maneira universal ou, falando de maneira mais prática, por todas as forças sociais que empunham um poder cultural significante, que a intolerância é intolerável, a autoridade política legitimou toda e qualquer coisa que seja conveniente para si mesma, sem restrição.

Essa é a mágica da dialética, ou da perversidade lógica. Quando apenas a tolerância é tolerável, e todo mundo (que importa) aceita esta fórmula manifestamente absurda como não apenas racionalmente inteligível, mas como o princípio universalmente afirmado da fé democrática moderna, nada resta exceto a política. A tolerância perfeita e a intolerância absoluta se tornaram logicamente indistinguíveis, com qualquer uma sendo igualmente interpretável como a outra, A = não-A, ou o inverso, e, no mundo abertamente orwelliano que daí resulta, apenas o poder tem as chaves da articulação. A tolerância progrediu em tal grau que tem se tornado uma função de policiamento social, fornecendo o pretexto existencial para novas instituições inquisitoriais. (“Devemos lembrar que aqueles que toleram a intolerância abusam da própria tolerância, e um inimigo da tolerância é um inimigo da democracia”, ironiza Moldbug.)

A tolerância espontânea que caracterizava o liberalismo clássico, enraizada em um conjunto modesto de direitos estritamente negativos que restringiam o domínio da política, ou intolerância governamental, se rende, durante a maré democrática, a um direito positivo a ser tolerado, definido de maneira cada vez mais expansiva como intitulação substancial, envolvendo afirmações públicas de dignidade, garantias impostas pelo estado de tratamento igual por parte de todos os agentes (públicos e privados), proteções governamentais contra desfeitas e humilhações não-físicas, subsídios econômicos e – em última análise – representação estatisticamente proporcional dentro de todos os campos de emprego, realização e reconhecimento. Que a culminação escatológica desta tendência seja simplesmente impossível não importa de maneira alguma para a dialética. Pelo contrário, isso energiza o processo político, comburindo qualquer ameaça de saciação política no combustível do agravo infinito. “I will not cease from Mental Fight, Nor shall my Sword sleep in my hand: Till we have built Jerusalem, In England’s green and pleasant land.”[1] Em algum lugar antes de que Jerusalém fosse alcançada, o pluralismo inarticulado de uma sociedade livre foi transformado no multiculturalismo assertivo de uma democracia totalitária suave.

Os judeus da Amsterdam do século XVII ou os huguenotes da Londres do século XVIII gozaram do direito de serem deixados em paz e enriqueceram suas sociedades anfitriãs em troca. Os grupos de agravo democraticamente empoderados dos tempos modernos posteriores são incitados por líderes políticos a exigirem um (fundamentalmente iliberal) direito de ser ouvido, com consequências sociais que são predominantemente malignas. Para os políticos, contudo, que se identificam e se promovem como a voz dos não ouvidos ou dos ignorados, o auto-interesse em jogo dificilmente poderia ser mais óbvio.

A tolerância, que já pressupôs a negligência, agora a condena e, ao fazê-lo, se torna seu oposto. Fosse este um desenvolvimento partidário, a política partidária de um tipo democrático poderia sustentar a possibilidade de reversão, mas ele não é nada do tipo. “Quando alguém está sofrendo, o governo tem que se mover” declarou o Presidente ‘conservador compassivo’ dos EUA George W. Bush, em um fútil esforço de canalizar a Catedral. Quando a ‘direita’ soa assim, ela não está apenas morta, mas inequivocamente fedendo a decomposição avançada. O ‘Progresso’ venceu, mas isso é ruim? Moldbug aborda a questão de  maneira rigorosa:

Se uma tradição faz com que seus hospedeiros cometam erros de cálculo que comprometem suas metas pessoais, ela exibe um morbidez misesiana. Se ela faz com que seus hospedeiros ajam de maneiras que comprometam os interesses reprodutivos de seus genes, ela exibe uma morbidez darwiniana. Se se subscrever à tradição é individualmente vantajoso ou neutro (desertores são recompensados ou pelo menos não são punidos), mas coletivamente prejudicial, a tradição é parasitária. Se se subscrever é individualmente desvantajoso, mas coletivamente benéfico, a tradição é altruísta. Se é tanto individual quanto coletivamente benigna, ela é simbiótica. Se é tanto individual quanto coletivamente danosa, é maligna. Cada um desses rótulos podem ser aplicados tanto à morbidez misesiana quanto à darwiniana. Um tema que seja arracional, mas não exiba nem morbidez misesiana, nem darwiniana, é trivialmente mórbido.

Considerados de maneira comportamental, os sistemas misesiano e darwiniano são aglomerações de incentivos ‘egoístas’, orientados, respectivamente, à acumulação de propriedade e à propagação de genes. Ao passo que os darwinistas concebem a esfera ‘misesiana’ como um caso especial da motivação geneticamente auto-interessada, a tradição austríaca, enraizada em um anti-naturalismo neokantiano altamente racionalizado, está predisposta a resistir a tal reducionismo. Embora as consequências finais desta disputa sejam consideráveis, sob as atuais condições ela é uma querela de urgência menor, uma vez que ambas as formações estão unidas no ‘ódio’, isto é, em sua tolerância reacionária a estruturas de incentivos que punem os mal adaptados.

‘Ódio’ é uma palavra sobre a qual se deter. Ela testemunha com especial clareza a ortodoxia religiosa da Catedral, e suas peculiaridades merecem uma observação cuidadosa. Talvez sua característica mais notável seja sua perfeita redundância, quando avaliada da perspectiva de qualquer análise das normas legais e culturais que não esteja inflamada pelo entusiamo evangélico neo-puritano. Um ‘crime de ódio’, se for qualquer coisa que seja, é apenas um crime, mais ‘ódio’, e o que o ‘ódio’ adiciona é revelador. Para nos restringirmos, momentaneamente, a exemplos de criminalidade incontroversa, se poderia perguntar: o que é, exatamente, que agrava um assassinato, ou uma agressão, se a motivação for atribuída ao ‘ódio’? Dois fatores parecem especialmente proeminentes, e nenhum tem qualquer conexão óbvia com as normas legais comuns.

Primeiramente, o crime é aumentado por um elemento puramente ideacional, ideológico ou mesmo ‘espiritual’, que atesta não apenas uma violação da conduta civilizada, mas também uma intenção herética. Isto facilita a abstração completa do ódio em relação à criminalidade, após a qual ele toma a forma de ‘discurso de ódio’ ou simplesmente ‘ódio’ (que deve sempre ser contrastado com a ‘paixão’, ‘injúria’ ou ‘ira’ justificada representada pela linguagem crítica, controversa ou meramente abusiva que é dirigida contra grupos, categorias sociais ou indivíduos não protegidos). ‘Ódio’ é uma ofensa contra a própria Catedral, uma recusa de sua orientação espiritual e um ato mental de provocação contra o destino religioso manifesto do mundo.

Em segundo lugar, e de maneira relacionada, o ‘ódio’ é deliberadamente e mesmo estrategicamente assimétrico em relação à polaridade política de equilíbrio das sociedades democráticas avançadas. Entre a implacável marcha do progresso e o resmungo ineficaz do conservadorismo, ele não vacila. Como vimos, apenas a direita pode ‘odiar’. Conforme o sistema imunológico doxológico da supressão de ‘ódio’ é consolidado dentro dos sistemas educacional da elite e midiático, a distribuição altamente seletiva de proteções garante que o ‘discurso’ – especialmente o discurso empoderado – seja consistentemente reajustado para a esquerda, o que quer dizer, na direção de um Universalismo cada vez mais abrangentemente radicalizado. A morbidez desta tendência é extrema.

Uma vez que o status de agravo é concedido como compensação política para a incompetência econômica, ele constrói um mecanismo cultural automático que advoga a disfunção. O credo Universalista, com sua identificação reflexiva da igualdade com a injustiça, não consegue conceber nenhuma alternativa à proposição de que, quanto mais baixo a situação ou o status de alguém, mais convincente é a sua revindicação sobre a sociedade, mais pura e mais nobre é a sua causa. A falha temporal é a o sinal da eleição espiritual (marxo-calvinista) e disputar qualquer parte disso é claramente ‘ódio’.

Isto não força nem mesmo o neo-reacionário de coração mais duro a sugerir, em uma caricatura do estilo cultural alto-vitoriano, que a desvantagem social, como manifesta em violência política, criminalidade, falta de moradia, insolvência e dependência do bem-estar social, é um índice simples da culpabilidade moral. Em grande parte – talvez uma parte esmagadoramente grande – ela reflete o puro infortúnio. Pessoas obscuras, impulsivas, sem saúde e pouco atraentes, criadas caoticamente em famílias abusivas e encalhadas em comunidades despedaçadas e assoladas pelo crime, têm toda razão de amaldiçoaram os deuses antes de si mesmas. Além disso, um desastre pode atingir qualquer um.

Em relação a estruturas efetivas de incentivos, contudo, nada disto é da menor importância. A realidade comportamental conhece apenas uma lei de ferro: O que quer que seja subsidiado é promovido. Com uma necessidade não mais fraca do que aquela da própria entropia, na medida em que a democracia social busca suavizar as más consequências – para grandes corporações não menos do que para indivíduos batalhadores e culturas desafortunadas – as coisas ficam piores. Não há maneira de contornar ou ir além desta fórmula, só pensamento positivo e cumplicidade com a degeneração. Claro, esta compreensão reacionária definidora está condenada à inconsequência, uma vez que equivale à conclusão supremamente impalatável de que toda tentativa de melhoria ‘progressiva’ está fadada a se reverter, ‘perversamente’, em uma falha horrível. Nenhuma democracia poderia aceitar isto, o que significa que toda democracia falhará.

A excitada espiral da fuga degeneradora misesiana-darwiniana é nitidamente capturada nas palavras da libertária mais fofa do Beltway, Megan McArdle, escrevendo na embocadura central da Catedral, The Atlantic:

É um pouco irônico que as primeiras tensões sérias causadas pelas mudanças demográficas da Europa estejam aparecendo nos orçamentos de bem-estar social do continente, porque os próprios sistemas de pensão podem bem ter moldado e limitado o crescimento da Europa. O século XX viu a adoção internacional de sistemas de seguridade social que prometiam benefícios definidos, pagos a partir da receita tributária futura – conhecidos pelos especialistas em pensão como sistemas de “paygo” e pelos críticos como esquemas de Ponzi. Estes sistemas tem aliviado grandemente os medos de uma velhice destituída, mas múltiplos estudos mostram que conforme os sistemas seguridade social se tornam mais generosos (e a velhice mais segura), as pessoas têm menos filhos. De acordo com uma estimativa, de 50 as 60 por cento da diferença entre a taxa de natalidade (acima da taxa de reposição) da América e da Europa pode explicada pelos sistemas mais generosos da última. Em outras palavras, o sistema de pensão da Europa pode ter posto em ação o próprio declínio demográfico que ajudou a tornar esse sistema – e alguns governos europeus – insolvente.

Apesar da ridícula sugestão de McArdle de que os Estados Unidos da América, de alguma maneira, se isentaram do caminho mortuário da Europa, o esboço geral do diagnóstico é claro e cada vez mais aceito como senso comum (embora melhor ignorado). De acordo com o credo ascendente, o bem-estar social alcançado através da progenitura e da poupança não é universal e, assim, é moralmente ignorante. Ele deveria ser suplantado, tão ampla e rapidamente quanto possível, por benefícios universais ou ‘direitos positivos’, distribuídos universalmente ao cidadão democrático e, assim, inevitavelmente, roteado através do Estado altruísta. Se, como resultado, devido à irremediável incorreção política da realidade, economias e populações colapsarem em concerto, pelo menos isso não danificará nossas almas. Ó, democracia! Sua idiota moribunda doce como sacarina, você acha que as hordas zumbis se preocuparão com a sua alma?

Moldbug comenta:

O Universalismo, na minha opinião, é melhor descrito como um culto dos mistérios do poder. É um culto do poder porque um estágio crítico em seu ciclo replicador de vida é uma criaturazinha chamada Estado. Quando olhamos para as proteínas de superfície dos grandes Us, notamos que a maioria delas podem ser explicadas por sua necessidade de capturar, reter e manter o Estado e dirigir seus poderes à criação de condições que favoreçam a replicação continuada do Universalismo. É tão difícil imaginar o Universalismo sem o Estado quanto a malaria sem o mosquito.

É um culto dos mistérios porque ele desloca as tradições teístas, substituindo as superstições metafísicas por mistérios filosóficos, tais como humanidade, progresso, igualdade, democracia, justiça, meio ambiente, comunidade, paz, etc.

Nenhum destes conceitos, como definidos na doutrina Universalista ortodoxa, é sequer ligeiramente coerente. Todos podem absorver uma energia mental arbitrária sem produzir nenhum pensamento racional. Nisto, eles são melhor comparados aos
absurdos plotinianos, talmúdicos ou escolásticos.

Como bônus, eis aqui o guia do Urbano Futuro para a sequência principal dos regimes políticos modernos:

Regime(1): Tirania Comunista
Crescimento Típico: ~0%
Voz / Saída: Baixa / Baixa
Clima cultural: Utopismo psicótico
A vida é… dura, mas ‘justa’
Mecanismo de transição: Redescobre os mercados no grau zero econômico

Regime(2): Capitalismo Autoritário
Crescimento Típico: 5-10%
Voz / Saída: Baixa / Alta
Clima cultural: Realismo insensível
A vida é… dura, mas produtiva
Mecanismo de transição: Pressurizado pela Catedral a se democratizar

Regime(3): Social Democracia
Crescimento Típico: 0-3%
Voz / Saída: Alta / Alta
Clima cultural: Desonestidade beata
A vida é… suave e insustentável
Mecanismo de transição: Empurrar com a barriga até sair da pista

Regime(4): Apocalipse Zumbi
Crescimento Típico: N/A
Voz / Saída: Alta (em sua maioria gritaria inútil) / Alta (com combustível, munição, comida seca, moedas de metais preciosos)
Clima cultural: Sobrevivencialismo
A vida é… de dura a impossível
Mecanismo de transição: Desconhecido

Para todos os regimes, as expectativas de crescimento assumem uma população moderadamente competente, de outra forma, vá direto para (4).

________________________
[1] Nota do Tradutor: Estrofe final do poema “And did those feet in ancient time” de William Blake, na introdução de seu épico Milton (1808). Tradução livre: “Eu não deixarei de Lutar com a Mente, Tampouco minha Espada dormirá em minha mão: Até que tenhamos construído Jerusalém, na terra verde e agradável da Inglaterra”.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 2

Parte 2: O arco da história é longo, mas se curva em direção a um apocalipse zumbi

David Graeber: Parece-me que se você for perseguir isto à sua conclusão lógica, a única maneira de se ter uma sociedade verdadeiramente democrática também seria abolir o capitalismo neste estado.

Marina Sitrin: Não podemos ter democracia com capitalismo… Democracia e capitalismo não funcionam juntos.
(Aqui, via John J. Miller)

Esse é sempre o problema com a história. Sempre parece que acabou. Mas nunca acaba.
(Mencius Moldbug)

Pesquisar ‘democracia’ e ‘liberdade’ junto no Google é altamente iluminador, de uma maneira sombria. No ciberespaço, pelo menos, está claro que apenas uma minoria distinta pensa nestes termos como positivamente acoplados. Se a opinião deve ser julgada em termos da aranha do Google e de sua presa digital, de longe a associação mais predominante é disjuntiva ou antagonista, embasada na compreensão reacionária de que a democracia apresenta uma ameaça letal à liberdade, quase garantindo sua eventual erradicação. A democracia é para a liberdade o que Gargântua é para uma torta. (“Por certo você pode ver que amamos a liberdade, ao ponto de roncos no estômago e salivação…”).

Steve H. Hanke estabelece o caso com autoridade em seu pequeno ensaio On Democracy Versus Liberty, focado na experiência americana:

A maioria das pessoas, incluindo a maioria dos americanos, ficaria surpresa em aprender que a palavra “democracia” não aparece na Declaração de Independência (1776) ou na Constituição dos Estados Unidos da América (1789). Elas também ficariam chocadas de aprender a razão para a ausência da palavra democracia nos documentos fundantes dos E.U.A. Ao contrário do que a propaganda levou o público a acreditar, os Pais Fundadores da América estavam céticos e ansiosos quanto à democracia. Eles estavam cientes dos males que acompanham a tirania da maioria. Os Criadores da Constituição fizeram um grande esforço para garantir que o governo federal não fosse embasado na vontade da maioria e não fosse, portanto, democrático.
Se os Criadores da Constituição não abraçavam a democracia, ao que eles aderiam? A um homem, os Criadores concordaram que o propósito do governo era assegurar aos cidadãos a trilogia de John Locke de direitos à vida, à liberdade e à propriedade.

Ele elabora:

A Constituição é primariamente um documento estrutural e procedural que especifica quem deve exercer o poder e como eles devem exercê-lo. Um bom tanto de ênfase é colocado na separação de poderes e nos freios e contrapesos do sistema. Estes não eram um construto ou fórmula cartesiano visando a engenharia social, mas um escudo para proteger as pessoas do governo. Em suma, a Constituição foi desenhada para governar o governo, não as pessoas.
A Bill of Rights estabelece os direitos do povo contra violações pelo Estado. A única coisa que os cidadãos podem exigir do Estado, sob a Bill of Rights, é um julgamento por um júri. O resto dos direitos dos cidadãos são proteções contra o Estado. Por cerca de um século depois que a Constituição foi ratificada, a propriedade privada, os contratos e o livre comércio interno dentro dos Estados Unidos eram sagrados. O escopo e a escala do governo permaneceram muito constritos. Tudo isso era muito consistente com o que era entendido ser liberdade.

Conforme o espírito da reação estende seus tentáculos-Sith pelo cérebro, fica difícil lembrar como a narrativa progressista clássica (ou não-comunista) pôde já ter feito sentido. O que as pessoas estavam pensando? O que elas estavam esperando do emergente estado super-empoderado, populista, canibal? A eventual calamidade não era inteiramente previsível? Como já foi possível ser um Whig?

A credibilidade ideológica da democratização radical não está, claro, em questão. Como pensadores que vão desde (o cristão progressista) Walter Russell Mead até o (reacionário ateu) Mencius Moldbug detalharam exaustivamente, ela se conforma tão exatamente ao entusiamo religioso ultra-protestante que seu poder de animar a alma revolucionária não deveria surpreender a ninguém. Dentro de apenas alguns anos desde o desafio de Martinho Lutero ao establishment papal, insurrecionistas camponeses estavam enforcando seus inimigos de classe por toda a Alemanha.

A credibilidade empírica do avanço democrático é bem mais estarrecedora e também genuinamente complexa (o que é dizer, controversa ou, mais precisamente, digna de uma controvérsia embasada em dados e rigorosamente argumentada). Em parte, isso é porque a configuração moderna da democracia emerge dentro do alcance de uma tendência modernista bem mais ampla, cujas linhas tecno-científica, econômica, social e política estão obscuramente inter-relacionadas, costuradas por correlações enganadoras e pelas subsequentes falsas causalidades. Se, como Schumpeter argumenta, o capitalismo industrial tende a engendrar uma cultura democrática-burocrática que se conclui em estagnação, poderia, ainda assim, parecer como se a democracia estivesse ‘associada’ com o progresso material. É fácil interpretar erroneamente um indicador atrasado como um fator causal positivo, especialmente quando o zelo ideológico empresta seu viés à má apreensão. Na mesma linha, uma vez que o câncer aflige apenas pessoas vivas, ele poderia – com aparente razão – ser associado à vitalidade.

Robin Hanson (gentilmente) observa:

Sim, muitas tendências foram positivas por um século mais ou menos, e, sim, isto sugere que elas continuarão a crescer por mais ou menos um século. Mas, não, isto não significa que os estudantes estão empírica ou moralmente errados por pensarem ser uma “fantasia utópica” que se pudesse “acabar com a pobreza, a doença, a tirania e a guerra” ao se juntar à empreitada política de um Kennedy moderno. Por quê? Porque as tendências positivas recentes nestas áreas não foram muito causadas por tais movimentos políticos! Elas foram, em sua maioria, causadas por nós termos ficado ricos com a revolução industrial, um evento que os movimentos políticos tenderam, se qualquer coisa, a tentar retardar, na média.

A cronologia histórica simples sugere que a industrialização apoia a democratização progressista, em vez de ser derivada dela. Esta observação já até mesmo deu origem a uma escola amplamente aceita da teorização pop em ciências sociais, de acordo com a qual a ‘maturação’ das sociedades em uma direção democrática é determinada por limites de afluência, ou formação de classe média. O correlativo lógico estrito de tais ideias, de que a democracia é fundamentalmente não-produtiva em relação ao progresso material, é tipicamente sub-enfatizado. A democracia consome o progresso. Quando percebida da perspectiva do iluminismo sombrio, o modo apropriado de análise para estudar o fenômeno democrático é a parasitologia geral.

Respostas semi-libertárias ao surto aceitam isto implicitamente. Dada uma população profundamente infectada pelo vírus zumbi e que bamboleia para dentro do colapso social, a opção preferida é a quarentena. Não é o isolamento comunicativo que é essencial, mas uma dessolidarização funcional da sociedade, que estreite os loops de feedback e exponha as pessoas com intensidade máxima às consequências de suas ações. A solidariedade social, em contraste preciso, é a amiga do parasita. Ao recortar todos os mecanismos de feedback de alta frequência (tais como os sinais de mercado) e substituí-los por loops lerdos em infravermelho que passam através de um fórum centralizado de ‘vontade geral’, uma sociedade radicalmente democratizada isola o parasitismo do que ele faz, transformando padrões de comportamento locais, dolorosamente disfuncionais, intoleráveis e, assim, urgentemente corrigidos em patologias sócio-políticas globais, anestesiadas e crônicas.

Roa as partes do corpo de outras pessoas e pode ser difícil conseguir um emprego – este é o tipo de lição que uma ordem de feedback estreito, ciberneticamente intensa e laissez faire permitiria que fosse aprendida. É também exatamente o tipo de descriminação zumbifóbica insensível que qualquer democracia compassiva denunciaria como uma crimideia, ao passo que reforça o orçamento público para os deficientes vitais, empreende campanhas de conscientização em nome daqueles que sofrem da síndrome de impulso canibal involuntário, afirma a dignidade do estilo de vida zumbi nos currículos da educação superior e regula rigorosamente os espaços de trabalho para garantir que os mortos-vivos que se misturam não sejam vitimados por empregadores obcecados com lucros, desempenhocêntricos ou mesmo animacionistas não reconstruídos.

Conforme uma iluminada tolerância-zumbi floresce ao abrigo do mega-parasita democrático, um pequeno remanescente dos reacionários, atentos aos efeitos de incentivos reais, levantam a estereotipada questão : “Vocês percebem que estas políticas inevitavelmente levam a uma expansão massiva da população zumbi?” O vetor dominante da história pressupõe que tais objeções incômodas sejam marginalizadas, ignoradas e – sempre que possível – silenciadas através do ostracismo social. O remanescente ou fortifica o porão, enquanto estoca comida seca, munição e moedas de prata, ou acelera o processo de pedido de um segundo passaporte e começa a fazer suas malas.

Se tudo isso parece estar vindo sem rumo da concretude histórica, há um remédio convenientemente atual: uma pequena troca de canal para a Grécia. Enquanto modelo microcósmico para a morte do Ocidente, que se desenrola em tempo real, a estória grega é hipnótica. Ela descreve um arco de 2500 anos que está longe de elegante, mas é irresistivelmente dramático, de proto-democracia a apocalipse zumbi realizado. Sua virtude preeminente é que ela ilustra perfeitamente o mecanismo democrático in extremis, que separa indivíduos e populações locais das consequências de suas decisões, ao bagunçar seu comportamento através de sistemas centralizados de redistribuição em larga escala. Você decide o que você faz, mas então vota nas consequências. Como alguém poderia dizer ‘não’ para isso?

Não é surpresa que, ao longo de 30 anos de adesão à UE, os gregos tenham avidamente cooperado com um megaprojeto de engenharia social que retira todos os sinais sociais de onde curta e re-roteia o feedback através do grandioso circuito da solidariedade europeia, garantindo que toda informação economicamente relevante seja desviada para o vermelho através do cárter de morte por calor do Banco Central Europeu. Mais especificamente, ele tem conspirado com a ‘Europa’ para obliterar toda a informação que poderia estar contida nas taxas de juros gregas, assim efetivamente incapacitando todo feedback financeiro sobre escolhas de política doméstica.

Isto é a democracia em uma forma consumada, que desafia qualquer aperfeiçoamento adicional, uma vez que nada se conforma mais exatamente à ‘vontade geral’ do que a abolição legislativa da realidade, e nada entrega a cicuta à realidade mais definitivamente do que acoplar taxas de juros teutônicas com decisões de gasto do leste do Mediterrâneo. Viva como helenos e pague como germânicos – qualquer partido político que falhasse em subir ao poder sobre esta plataforma merece catar sucata sendo picado por urubus no deserto. É o no-brainer final, em praticamente todos os sentidos imagináveis da expressão. O que poderia dar errado?

Mais ao ponto, o que deu errado? Mencius Moldbug começa sua séria no Unqualified Reservations “How Dawkins got pwned” (“Como Dawkins foi pwnado”, ou tomado através de uma “vulnerabilidade explorável”) com o delineamento das regras de design para um hipotético “parasita memético ótimo” que seria “tão virulento quanto possível. Ele será altamente contagioso, altamente mórbido e altamente persistente. Um inseto realmente feio.” Em comparação com esta super-praga ideológica, o monoteísmo vestigial ridicularizado em Deus: Um Delírio figuraria como nada pior do que um resfriado moderadamente desagradável. O que começa como uma brincadeira abstrata com um meme se conclui como uma grande varredura da história, à moda do iluminismo sombrio:

Minha crença é que o Professor Dawkins não é apenas um ateu cristão. Ele é um ateu protestante. E ele não é apenas um ateu protestante. Ele é um ateu calvinista. E ele não é apenas um ateu calvinista. Ele é um ateu anglo-calvinista. Em outras palavras, ele também pode ser descrito como um ateu puritano, um ateu dissidente, um ateu não conformista, um ateu evangélico, etc, etc.

Esta taxonomia cladística remonta a ancestralidade intelectual do Professor Dawkins até cerca de 400 anos atrás, à era da Guerra Civil Inglesa. Exceto, claro, pelo tema do ateísmo, o cerne do Professor Dawkins é uma combinação notável para as tradições Ranter, Leveller, Digger, Quaker, Quintomonarquista ou qualquer uma das mais extremas tradições dissidentes inglesas que floresceram durante o interregno cromwelliano.

Francamente, esses caras eram aberrações. Maníacos fanáticos. Qualquer pensador inglês mainstream dos séculos XVII, XVIII ou XIX, informado de que esta tradição (ou sua descendente moderna) é agora a denominação cristã dominante do planeta, consideraria isto como um sinal do apocalipse iminente. Se você está seguro de que eles estão errados, você está mais seguro do que eu.

Felizmente, o próprio Cromwell era comparativamente moderado. Os sectos ultrapuritanos extremos nunca conseguiram se agarrar solidamente ao poder sob o Protetorado. Ainda mais felizmente, Cromwell ficou velho e morreu, e o cromwellismo morreu com ele. O governo legítimo foi restaurado na Grã-Bretanha, assim como a Igreja da Inglaterra, e os dissidentes se tornaram uma franja marginal novamente. E francamente, que alívio danado que foi.

Contudo, você não consegue reprimir um bom parasita. Uma comunidade de puritanos fugiu para a América e fundou as colônias teocráticas da Nova Inglaterra. Depois de suas vitórias militares na Rebelião Americana e na Guerra de Secessão, o puritanismo americano estava bem no caminho para a dominação mundial. Sua vitórias na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria confirmaram sua hegemonia global. Todo pensamento mainstream legítimo sobre a Terra hoje é descendente dos puritanos americanos e, através deles, dos dissidentes ingleses.

Dado a ascensão deste “inseto realmente feio” à dominação mundial, poderia parecer estranho azucrinar figuras tangenciais tais como Dawkins, mas Moldbug seleciona seu alvo por razões estratégicas primorosamente julgadas. Moldbug se identifica com o darwinismo de Dawkins, com seu repúdio intelectual do teísmo abraâmico e com seu amplo comprometimento para com a racionalidade científica. Ainda assim, ele reconhece, de maneira crucial, que as faculdades críticas de Dawkins se desligam – de maneira abrupta e frequentemente cômica – no ponto em que elas poderiam colocar em risco um comprometimento ainda mais amplo para com o progressismo hegemônico. Desta maneira, Dawkins é poderosamente indicativo. O secularismo militante é, ele mesmo, uma variante modernizada do meta-meme abraâmico, em seu ramo taxonômico anglo-protestante e democrático radical cuja tradição específica é o anti-tradicionalismo. O clamoroso ateísmo de Deus: Um Delírio representa um estratagema protetivo e uma atualização consistente da reforma religiosa, guiada por um espírito de entusiasmo progressista que supera o empirismo e a razão, ao passo que exemplifica um dogmatismo irritável que rivaliza com qualquer coisa a ser encontrada nas estirpes anteriores com temas divinos.

Dawkins não é meramente um progressista moderno iluminado e um democrata radical implícito, ele é um cientista impressionantemente credenciado, mais especificamente um biólogo e (assim) um evolucionista darwiniano. O ponto no qual ele toca o limite do pensamento aceitável, como definido pelo super-inseto memético é, portanto, bastante fácil de antecipar. Sua tradição, herdada do ultra-protestantismo do baixo clero, substituiu Deus pelo Homem como local de investimento espiritual, e o ‘Homem’ tem estado no processo de dissolução através da pesquisa darwiniana por mais de 150 anos. (Como a pessoa sã e decente que eu seu que você é, tendo chegado até aqui com Moldbug, você provavelmente já está murmurando sob a sua respiração, não mencione raça, não mencione raça, não mencione raça, por favor, ó, por favor, em nome do Zeitgeist e do querido e doce não-deus do progresso, não mencione raça…) …mas Moldbug  está citando Dawkins, que cita Thomas Huxley “…em um contexto em que deve ser executado por pensamentos e não por mordidas. Os lugares mais altos na hierarquia da civilização certamente não estarão dentro do alcance de nossos primos escuros”. Que Dawkins enquadra observando: “Tivesse Huxley… sido nascido e educado em nosso tempo, [ele] teria sido o primeiro a se encolher conosco por seus sentimentos vitorianos e tom untuoso. Eu lhes cito apenas para ilustrar como o Zeitgeist segue em frente”.

Fica pior. Moldbug parece estar segurando a mão de Huxley e… (ewww!) fazendo aquela coisa de acariciar as palmas com seus dedos. Isto por certo não é mais a reação libertária padrão – está ficando seriamente sombria e assustadora. “Em toda seriedade, qual é a evidência para o fraternismo? Por que, exatamente, o Professor Dawkins acredita que todos os neohominídeos são nascidos com potencial idêntico para o desenvolvimento neurológico? Ele não diz. Talvez ele pense que é óbvio.”

Qualquer que seja sua opinião sobre os méritos científicos respectivos da diversidade ou da uniformidade biológica humana, está, certamente, para além de qualquer argumento que a última hipótese, apenas, é tolerada. Mesmo se as crenças progressistas-universalistas sobre a natureza humana forem verdadeiras, elas não são mantidas porque são verdadeiras ou porque se chegou a elas através de qualquer processo que passe no teste de risada para a racionalidade científica crítica. Elas são recebidas como princípios religiosos, com toda a intensidade passional que caracteriza itens essenciais da fé, e questioná-las não é uma questão de inexatidão científica, mas do que agora chamamos de politicamente incorreto, e já conhecemos como heresia.

Sustentar esta postura moral transcendente em relação ao racismo não é mais racional do que a subscrição à doutrina do pecado original, da qual ela é, em todo caso, a inequívoca substituta moderna. A diferença, claro, é que o ‘pecado original’ é uma doutrina tradicional, à qual se subscreve um grupo social aguerrido, significantemente sub-representado entre os intelectuais públicos e as figuras da mídia, profundamente antiquada na cultura mundial dominante e largamente criticada – se não ridicularizada – sem qualquer suposição imediata de que o crítico está defendendo assassinato, roubo ou adultério. Questionar o status do racismo enquanto pecado social supremo e definidor, por outro lado, é cortejar a condenação universal das elites sociais e despertar suspeitas de crimideias que vão desde a apologética pró-escravidão até fantasias genocidas. O racismo é o mal puro ou absoluto, cuja esfera apropriada é o infinito e o eterno, ou as profundezas pecaminosas incendiárias da alma hiper-protestante, em vez dos confins mundanos da interação civil, do realismo social científico ou da legalidade eficiente e proporcional. A dissimetria de afeto, sanção e poder social cru que acompanha antigas heresias e suas substitutas, uma vez notada, é um indicador enervante. Um novo secto reina, e ele não está nem mesmo especialmente bem escondido.

Ainda assim, mesmo entre as circunscrições BDH mais endurecidas, a santificação histérica da raça-ideia mais-que-boa dificilmente é suficiente para emprestar à democracia radical a aura de profunda morbidez que Moldbug detecta. Isto requer um relação devocional com o Estado.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 1

Parte 1: Neo-reacionários se dirigem para a saída

O Iluminismo não é apenas um estado, mas um evento, e um processo. Enquanto designação de um episódio histórico, concentrado no norte da Europa durante o século XVIII, é um dos principais candidatos ao ‘verdadeiro nome’ da modernidade, capturando sua origem e essência (‘Renascença’ e ‘Revolução Industrial’ são outros). Entre ‘iluminismo’ e ‘iluminismo progressista’, há apenas uma diferença elusiva, porque a iluminação leva tempo – e se alimenta de si mesma, porque o iluminismo é auto-confirmador, suas revelações, ‘auto-evidentes’, e porque um ‘iluminismo sombrio’ retrógrado, ou reacionário, quase equivale a uma contradição intrínseca. Tornar-se iluminado, nesse sentido histórico, é reconhecer e depois perseguir uma luz guia.

Houve eras de escuridão e, então, o iluminismo veio. Claramente, o avanço se demonstrou, oferecendo não apenas melhoria, mas também um modelo. Além disso, ao contrário de uma renascença, não há qualquer necessidade de um iluminismo relembrar o que foi perdido ou de enfatizar as atrações do retorno. O reconhecimento elementar do iluminismo já é história Whig em miniatura.

Uma vez que certas verdades iluminadas tenham sido descobertas auto-evidentes, não pode haver volta, e o conservadorismo está preventivamente condenado – predestinado – ao paradoxo. F. A. Hayek, que se recusava a se descrever como um conservador, celebremente resolveu, em vez disso, pelo termo ‘Velho Whig’, que – como ‘liberal clássico’ (ou o ainda mais melancólico ‘remanescente’) – aceita que o progresso não é o que costumava ser. O que poderia ser um Velho Whig, se não um progressista reacionário? E o que diabos é isso?

Claro, muitas pessoas já pensam que sabem com o que o modernismo reacionário se parece e, em meio ao atual colapso de volta aos anos 1930, suas preocupações só deverão crescer. Basicamente, é para isso que serve a palavra com ‘F’, pelo menos no uso progressista. Uma fuga da democracia, sob essas circunstâncias, se conforma tão perfeitamente às expectativas que elude o reconhecimento específico, aparecendo meramente como um atavismo ou uma confirmação de uma terrível repetição.

Ainda assim, algo está acontecendo e é – pelo menos em parte – alguma outra coisa. Um marco foi a discussão, em abril de 2009, hospedada no Cato Unbound, entre pensadores libertários (incluindo Patri Friedman e Peter Thiel) na qual a desilusão com a direção e as possibilidades da política democrática foi expressa com uma franqueza incomum. Thiel resumiu a tendência de maneira brusca: “Eu não acredito mais que a liberdade e a democracia são compatíveis”.

Em agosto de 2011, Michael Lind postou uma réplica democrática no Salon, desenterrando uma sujeira impressionantemente fétida e concluindo:

O pavor da democracia por parte de libertários e liberais clássicos é justificado. O libertarianismo realmente é incompatível com a democracia. A maioria dos libertários deixaram claro qual dos dois eles preferem. A única questão que ainda precisa ser resolvida é por que alguém deveria dar atenção aos libertários.

Lind e os ‘neo-reacionários’ parecem estar em amplo acordo de que a democracia não é apenas (ou sequer) um sistema, mas sim um vetor, com uma direção inequívoca. Democracia e ‘democracia progressista’ são sinônimos e indistinguíveis da expansão do estado. Embora governos de ‘extrema direita’ tenham, em raras ocasiões, momentaneamente detido esse processo, sua reversão está para além dos limites da possibilidade democrática. Uma vez que ganhar eleições é esmagadoramente uma questão de comprar votos e que os órgãos informacionais da sociedade (educação e mídia) não são mais resistentes ao suborno do que o eleitorado, um político frugal é simplesmente um político incompetente, e a variante democrática do darwinismo rapidamente elimina esses desajustados do pool genético. Esta é uma realidade que a esquerda aplaude, a direita do establishment amuadamente aceita e contra a qual a direita libertária tem ineficazmente se lamentado. Cada vez mais, contudo, os libertários deixaram de se importar se alguém está lhes ‘da[ndo] atenção’ – eles têm procurado por algo inteiramente diferente: uma saída.

É uma inevitabilidade estrutural que a voz libertária seja abafada na democracia e, de acordo com Lind, ela deveria o ser. Cada vez mais libertários estão propensos a concordar. ‘Voz’ é a democracia em si, em sua estirpe historicamente dominante e rousseauísta. Ela modela o estado como uma representação da vontade popular, e se fazer ouvir significa mais política. Se votar enquanto auto-expressão massificada de povos politicamente empoderados é um pesadelo que engolfa o mundo, adicionar à confusão não ajuda. Ainda mais do que Igualdade-vs-Liberdade, Voz-vs-Saída é a crescente alternativa, e os libertários estão optando pela fuga muda. Patri Friedman observa: “pensamos que a saída livre é tão importante que a chamamos de o único Direito Humano Universal”.

Para os neo-reacionários incondicionais, a democracia não está meramente condenada, ela condena a si própria. Fugir dela se aproxima de um imperativo absoluto. A corrente subterrânea que propele essa antipolítica é reconhecivelmente hobbesiana, um iluminismo sombrio coerente, despojado desde seu princípio de qualquer entusiasmo rousseauísta pela expressão popular. Predisposto, em todo caso, a perceber as massas politicamente despertas como uma turba irracional vociferante, ele concebe a dinâmica da democratização como fundamentalmente degenerativa: sistematicamente consolidando e exacerbando vícios, ressentimentos e deficiências privadas até que atinjam o nível de criminalidade coletiva e corrupção social abrangente. O político democrático e o eleitor estão unidos por um circuito de incitação recíproca, no qual cada lado leva o outro a extremos cada vez mais desavergonhados de um canibalismo que vaia e se pavoneia, até que a única alternativa ao gritar seja ser comido.

Onde o iluminismo progressista vê ideais políticos, o iluminismo sombrio vê apetites. Ele aceita que os governos são feitos de pessoas e que elas vão comer bem. Colocando suas expectativas tão baixo quanto razoavelmente possível, ele busca apenas poupar a civilização do deboche frenético, ruinoso, guloso. De Thomas Hobbes a Hans-Herman Hoppe e além, ele pergunta: Como o poder soberano pode ser impedido – ou pelo menos dissuadido – de devorar a sociedade? Ela consistentemente acha as ‘soluções’ democráticas para este problema risíveis, na melhor das hipóteses.

Hoppe advoga uma ‘sociedade de lei privada’ anarco-capitalista, mas, entre monarquia e democracia, ele não hesita (e seu argumento é estritamente hobbesiano):

Como um monopolista hereditário, um rei considera o território e o povo sob seu jugo como sua propriedade pessoal e se engaja na exploração monopolista desta “propriedade”. Sob a democracia, o monopólio e a exploração monopolista não desaparecem. Antes, o que acontece é isto: em vez de um rei e uma nobreza que consideram o país como sua propriedade privada, um zelador temporário e permutável é colocado como encarregado monopolista do país. O zelador não é dono do país, mas enquanto ele estiver no cargo, permite-se que ele o use para vantagem sua e de seus protegidos. Ele é dono seu uso corrente – usufruto – mas não seu capital social. Isso não elimina a exploração. Pelo contrário, torna a exploração menos calculista e a faz ser executada com pouca ou nenhuma consideração pelo capital social. A exploração se torna míope e o consumo de capital será sistematicamente promovido.

Agentes políticos investidos com autoridade transiente por sistemas democráticos multipartidários têm um incentivo esmagador (e demonstravelmente irresistível) de pilhar a sociedade com as maiores rapidez e abrangência possíveis. Qualquer coisa que eles negligenciem roubar – ou ‘deixem na mesa’ – provavelmente será herdada por sucessores políticos a quem não apenas não são conectados, mas, na verdade, se opõem, e que podem, portanto, esperar que utilizem todos os recursos disponíveis em detrimento de seus adversários. O que quer que seja deixado para trás se torna uma arma na mão do seu inimigo. Melhor, então, destruir tudo que não possa ser roubado. Da perspectiva de um político democrático, qualquer tipo de bem social que não seja nem diretamente apropriável, nem atribuível à (sua própria) política partidária é puro desperdício e não conta de nada, ao passo que o infortúnio social mais grave – contanto que possa ser atribuído a uma administração anterior ou adiado até uma subsequente – figura nos cálculos racionais como uma óbvia bênção. As melhorias tecno-econômicas de longo alcance e a acumulação associada de capital cultural que constituíam o progresso social em seu sentido antigo (Whig) não são o interesse político de ninguém. Uma vez que a democracia floresça, eles enfrentam a ameaça imediata de extinção.

A civilização, enquanto processo, é indistinguível da preferência temporal decrescente (ou preocupação declinante com o presente em comparação ao futuro). A democracia, que tanto em teoria quanto em fato histórico evidente acentua a preferência temporal ao ponto de um frenesi alimentício convulsivo, está, assim, tão próxima de uma negação precisa da civilização quanto qualquer coisa poderia estar, aquém de um colapso social instantâneo em barbarismo assassino ou apocalipse zumbi (ao qual ela eventualmente leva). Conforme o vírus democrático queima por entre a sociedade, hábitos e atitudes laboriosamente acumulados de investimento prospectivo, prudente, humano e industrial são substituídos por um consumismo estéril e orgiástico, incontinência financeira e um circo político de ‘reality show’. O amanhã poderia pertencer ao outro time, então é melhor comer tudo agora.

Winston Churchill, que observou, em estilo neo-reacionário, que “o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com o eleitor médio”, é melhor conhecido por sugerir “que a democracia é a pior forma de governo exceto todas as outras que foram tentadas”. Embora nunca exatamente conceda que “OK, a democracia é uma merda (na verdade, ela realmente é uma merda), mas qual é a alternativa?”, a implicação é óbvia. O teor geral desta sensibilidade é atraente para os conservadores modernos, porque ressoa com sua aceitação irônica e desiludida da deterioração civilizacional implacável e com a apreensão intelectual associada do capitalismo como um arranjo social padrão pouco apetitoso, mas ineliminável, que permanece após todas as alternativas catastróficas ou meramente impraticáveis terem sido descartadas. A economia de mercado, neste entendimento, não é mais do que uma estratégia espontânea de sobrevivência que se costura em meio às ruínas de um mundo politicamente devastado. As coisas provavelmente só vão ficar piores para sempre. E assim vai.

Então, qual é a alternativa? (Certamente não faz qualquer sentido vasculhar a década de 1930 em busca de uma.) “Você consegue imaginar uma sociedade pós-demotista do século XXI? Uma que se visse como em recuperação da democracia, da mesma forma em que o leste europeu se vê como em recuperação do Comunismo?” pergunta o Lord Sith supremo dos neo-reacionários, Mencius Moldbug. “Bem, eu suponho que isso lhe torna um de nós.”

As influência formativas de Moldbug são austro-libertárias, mas isto está acabado. Como ele explica:

…os libertários não conseguem apresentar uma figura realista de um mundo no qual sua batalha é vencida e permanece vencida. Eles acabam procurando maneiras de empurrar um mundo, no qual o caminho natural ladeira abaixo do Estado é crescer, de volta ladeira acima. Este prospecto é sisifista, e é compreensível porque atrai tão poucos apoiadores.

Seu despertar para a neo-reação vem com o reconhecimento (hobbesiano) de que soberania não pode ser eliminada, enjaulada ou controlada. Utopias anarco-capitalistas não podem nunca condensar a partir da ficção científica, poderes divididos fluidamente se reúnem novamente como um Exterminador despedaçado, e constituições têm exatamente tanta autoridade real quanto um poder interpretativo soberano as permite ter. O estado não vai a lugar nenhum porque – para aqueles que o operam – ele vale demais para se desistir e, enquanto instanciação concentrada da soberania na sociedade, ninguém pode fazê-lo fazer nada. Se o estado não pode ser eliminado, Moldbug argumenta, pelo menos ele pode ser curado da democracia (ou mau governo sistemático e degenerativo), e a maneira de fazer isso é formalizá-lo. Esta é uma abordagem que ele chama de ‘neo-cameralismo’.

Para um neocameralista, um estado é um negócio que é dono de um país. Um estado deveria ser gerido, como qualquer outro grande negócio, dividindo-se a propriedade lógica em ações negociáveis, cada uma das quais rende um fração precisa do lucro do estado. (Um estado bem administrado é muito lucrativo.) Cada ação tem um voto, e os acionistas elegem um conselho que contrata e demite gerentes.
Os clientes deste negócio são seus residentes. Um estado neocameralista gerido lucrativamente, como qualquer negócio, servirá a seus clientes de maneira eficiente e efetiva. Mau governo é igual a mau gerenciamento.

Primeiramente, é essencial esmagar o mito democrático de que um estado ‘pertence’ aos cidadãos. O ponto do neo-cameralismo é comprar as partes interessadas no poder soberano, para não perpetuar mentiras sentimentais sobre o direito das massas ao voto. A menos que a propriedade do estado seja formalmente transferida para as mãos de seus reais governantes, a transição neo-cameral simplesmente não ocorrerá, o poder continuará nas sombras, e a farsa democrática continuará.

Assim, em segundo lugar, a classe dominante deve ser plausivelmente identificada. Deveria ser imediatamente notado, em contra-distinção aos princípios marxistas da análise social, que essa não é a ‘burguesia capitalista’. Logicamente, não pode ser. O poder da classe empresarial já está sempre claramente formalizado, em termos monetários, de modo que a identificação do capital com o poder político é perfeitamente redundante. É necessário perguntar, em vez disso, a quem os capitalistas pagam por favores políticos, quanto estes favores potencialmente valem, e como a autoridade de concedê-los está distribuída. Isto requer, com um mínimo de irritação moral, que toda a paisagem social do suborno político (‘lobby’) seja mapeada de maneira exata e que os privilégios administrativos, legislativos, judiciais, midiáticos e acadêmicos acessados por tais subornos sejam convertidos em ações fungíveis. Na medida em que vale a pena subornar os eleitores, não há qualquer necessidade de excluí-los inteiramente deste cálculo, embora sua porção de soberania seja estimada com o escárnio apropriado. A conclusão deste exercício é o mapeamento de uma entidade governante que é a instância verdadeiramente dominante do regime democrático. Moldbug a chama de a Catedral.

A formalização dos poderes políticos, em terceiro lugar, permite a possibilidade do governo efetivo. Uma vez que o universo da corrupção democrática seja convertido em uma participação acionária (livremente transferível) na gov-corp, os donos do estado podem iniciar a governança corporativa racional, começando com o apontamento de um CEO. Como com qualquer negócio, os interesses do estado estão agora formalizados de maneira precisa como maximização do valor acionário de longo prazo. Não há mais qualquer necessidade de que os residentes (clientes) tenham qualquer interesse em qualquer política que seja. Na verdade, fazê-lo seria exibir tendências semi-criminosas. Se a gov-corp não entrega um valor aceitável por seus impostos (aluguel soberano), eles podem notificar sua função de serviço ao consumidor e, se necessário, levar sua clientela para outro lugar. A gov-corp deveria se concentrar em operar um país eficiente, atraente, vital, limpo e seguro, de um tipo que seja capaz de atrair clientes. Nenhuma voz, saída livre.

…embora a abordagem neocameralista completa nunca tenha sido tentada, seus equivalentes históricos mais próximos desta abordagem são a tradição do século XVIII de absolutismo iluminado, como representado por Frederico, o Grande, e a tradição não-democrática do século XXI, como visto em fragmentos perdidos do Império Britânico, tais como Hong Kong, Singapura e Dubai. Estes estados parecem fornecer uma qualidade bastante alta de serviço a seus cidadãos, sem qualquer democracia significativa que seja. Eles têm níveis mínimos de crime e altos níveis de liberdade pessoal e econômica. Eles tendem a ser bastante prósperos. Eles são fracos apenas em liberdade política, e liberdade política é desimportante por definição quando o governo é estável e efetivo.

Na antiguidade europeia clássica, a democracia era reconhecida como uma fase familiar de desenvolvimento político cíclico, fundamentalmente decadente em natureza e preliminar a uma descida à tirania. Hoje, este entendimento clássico está completamente perdido e foi substituído por uma ideologia democrática global, carecendo inteiramente de auto-reflexão, que é afirmada, não como uma tese social-científica crível ou sequer como uma aspiração popular espontânea, mas sim como uma crença religiosa, de um tipo específico e historicamente identificável:

…uma tradição recebida que eu chamo de Universalismo, que é um secto cristão não-teísta. Alguns outros rótulos atuais para esta mesma tradição, mais ou menos sinônimos, são progressismo, multiculturalismo, liberalismo, humanismo, esquerdismo, politicamente correto e similares. …o Universalismo é o ramo moderno dominante do cristianismo na linha calvinista, tendo evoluído a partir da tradição inglesa dissidente ou puritana, através dos movimentos Unitário, Transcendentalista e Progressista. Seu espinhoso caminho ancestral também inclui alguns raminhos laterais que são importantes o suficientes para nomear, mas cuja ancestralidade cristã é ligeiramente mais bem dissimulada, tais como o laicismo rousseauviano, o utilitarismo benthamita, o judaísmo reformado, o positivismo comteano, o idealismo alemão, o socialismo científico marxista, o existencialismo sartreano, o pós-modernismo heideggeriano, etc, etc, etc. …o Universalismo, em minha opinião, é melhor descrito como um culto dos mistérios do poder. …É tão difícil imaginar o Universalismo sem o Estado quanto a malária sem o mosquito. …O ponto é que esta coisa, como quer que você se importe de chamá-la, tem pelo menos duzentos anos de idade e provavelmente algo como quinhentos. É basicamente a própria Reforma. …E simplesmente despertar para ela e a denunciar como má tem tanta probabilidade de funcionar quanto processar Shub-Niggurath no tribunal de pequenas causas.

Para compreender o aparecimento de nosso predicamento contemporâneo, caracterizado pela expansão implacável e totalizante do estado, pela proliferação de ‘direitos humanos’ positivos espúrios (reivindicações sobre os recursos de outros apoiados por burocracias coercitivas), dinheiro politizado, temerárias ‘guerras pela democracia’ evangélicas e controle abrangente do pensamento, arranjado em defesa do dogma universalista (acompanhado pela degradação da ciência em uma função de relações públicas do governo), é necessário se perguntar como Massachusetts veio a conquistar o mundo, como Moldbug o faz. Com cada ano que passa, o ideal internacional da boa governança se encontra aproximando-se mais intima e rigidamente dos padrões estabelecidos pelos departamentos de Estudos dos Agravos das universidades da Nova Inglaterra. Esta é a divina providência dos ranters e dos levelers, elevada a uma teleologia planetária e consolidada como o reino da Catedral.

A Catedral substituiu com seu evangelho tudo que conhecíamos. Considere apenas as preocupações expressas pelos pais fundadores da América (compilado pelo comentário #1 do ‘Liberty-clinger’ aqui):

Uma democracia não é nada mais do que o domínio da turba, onde 51% das pessoas podem retirar os direitos dos outros 49%. – Thomas Jefferson

A democracia são dois lobos e um cordeiro votando sobre o que comer no almoço. A liberdade é um cordeiro bem armado contestando o voto! – Benjamin Franklin

A democracia nunca dura muito. Ela logo desperdiça, exaure e se assassina. Nunca houve uma democracia, até hoje, que não tenha cometido suicídio. – John Adams

As democracias sempre foram espetáculos de turbulência e contenção; sempre foram descobertas incompatíveis com a segurança pessoal ou os direitos de propriedade; e, em geral, foram tão curtas em suas vidas quanto foram violentas em sua morte. – James Madison

Somos um Governo Republicano, a Real liberdade nunca é encontrada no despotismo ou nos extremos da democracia… foi observado que uma democracia pura, se fosse praticável, seria o governo mais perfeito. A experiência provou que nenhuma posição é mais falsa do que esta. As antigas democracias, na quais as próprias pessoas deliberavam, nunca possuíram uma boa característica de governo. Seu próprio caráter era a tirania… – Alexander Hamilton

Mais sobre votar com seus pés (e do gênio incandescente de Moldbug), a seguir…

Nota adicionada (7 de Março):

Não confie na atribuição da citação de ‘Benjamin Franklin’ acima. De acordo com Barry Popik, o ditado provavelmente foi inventado por James Bovard em 1992. (Bovard observa, em outro lugar: “Há poucos erros mais perigosos no pensamento político do que igualar a democracia à liberdade”.)

Original.