China, Cripto-Moedas e a Ordem Mundial, Parte 2

Eu tenho muitos amigos que são programadores. Os programadores sempre foram tipo "Esses caras [do Bitcoin] são loucos".

E então, quase 100 por cento do tempo, eles sentam, leem o artigo, leem o código — demora umas duas semanas — e eles saem do outro lado. E eles ficam tipo: "Meu deus, é isso. Esse é o grande avanço. Essa é a coisa pela qual estivemos esperando. Ele resolveu todos os problemas. Quem quer que ele seja deveria ganhar o Prêmio Nobel — ele é um gênio. É isso! Essa é a rede de confiança distribuída que a Internet sempre precisou e nunca teve".

Então, um dos desafios é você pegar pessoas que não são programadores profissionais ou matemáticos e então esperar que elas entendam desde o início. E é intimidador. E então uma palavra é anexada a isso, como ‘moeda’ ou do que quer que você queira chamar isso, e aí as pessoas acham que é algo que não é. E você tem uma noção disso, mas é um conceito muito mais profundo do que moeda. É a ideia de confiança distribuída.

—Marc Andreessen (em conversa com Brian Fing)

Fotografia secreta do BTC Guild, o maior pool de mineração de Bitcoin e um dos mais antigos pools restantes de Bitcoin (crédito: Jakub Szypulka CC-BY)

Observou-se, na primeira parte dessa série de ensaios, que a ordem econômica do mundo está sendo radicalmente remoldada por duas transformações aproximadamente coincidentes de consequências estupendas: uma mudança secular da capacidade industrial, do Ocidente para o Oriente, e uma revolução baseada na Internet na natureza do dinheiro. Desses eventos, o primeiro já está profundamente estabelecido, e é reconhecido de maneira geral, ao passo que o último ainda está em um estágio inicial de emergência e, até o momento, é bem menos óbvio em suas implicações. A intersecção entre eles permanece profundamente obscura.

Um tópico que parece, tentadoramente, conectar esses fios históricos é a morte em perspectiva – ou pelo menos o rebaixamento radical – do dólar dos EUA. O Dilema de Triffin argumenta que qualquer moeda que alcance o status de reserva mundial tende, de maneira talvez irresistível, a se destruir.[1] O declínio econômico relativo da América parece pronto para exacerbar o ‘inverno’ desse grande ciclo. Do outro lado, o dólar é ameaçado pela emergência fragmentada de um sistema monetário não estatal totalmente sem precedentes, livre de todas as instituições familiares de gestão monetária. No horizonte histórico do dólar americano globalizado, o yuan chinês e o bitcoin estão obscuramente reunidos.

Abstratamente antecipada, essa ameaça gêmea se integra em um único evento de significância composta, mas previsões concretas podem facilmente se perder em suas novas complexidades. Por cerca de meio milênio, as transições na liderança econômica mundial foram suavizadas por afinidades culturais e colaboração estratégica íntima, dentro de uma tradição comercial protestante que compartilhava de uma língua comum, e de inimigos comuns, desde o final do século XVIII[2]. Nada comparável é concebível hoje, conforme a supremacia global americana é erodida em um contexto de intensa competição estratégica e marcada diferença entre civilizações.

Dentro de um dos armazéns na Islândia estão as plataformas de mineração da Cointerra, da KnCMiner e da recém-chegada spondoolies-tech. Esses equipamentos empilhadas indicam claramente que a mineração de bitcoin agora é um empreendimento profissional e que estudantes minerando bitcoins inteiros em seus dormitórios logo serão coisa do passado. A CloudHashing está pronta para expandir suas operações. Fonte: cryptocoinsnews.com. Todos os direitos reservados.

Em relação à passagem da libra esterlina para o dólar dos EUA, a adoção sistemática do yuan chinês exigiria "cruzar o grande oceano" – uma expedição tão intimidadora que é improvável, em qualquer sentido simples, que ela ocorra. Superficialmente, as criptomoedas digitais estão situadas em um grau ainda mais distante de separação, alheias até aos pontos em comum que abrangem o abismo entre civilizações. E, ainda assim, elas são positivamente promovidas pela proximidade do iminente precipício monetário mundial, porque representam uma solução para a ausência de confiança.

A palavra "bitcoin" representa duas coisas muito diferentes (embora uma contenha a outra). Em seu uso estrito e exato, ela designa uma moeda específica, abreviada como BTC, que encarna um um sistema monetário radicalmente inovador, cujo projeto foi plenamente especificado no artigo "Bitcoin" de Satoshi Nakamoto em 2008.[3] A moeda se tornou operacional em 2009.

O artigo de 2008 é tanto uma invenção prática quanto uma contribuição substancial para a filosofia do dinheiro. Seu discernimento central é de que o dinheiro funciona como um sistema de racionamento, adquirindo valor ou aplicação a bens e serviços comercializáveis através de uma função de escassez. Se for para o dinheiro digital efetuar essa função, ele tem dois problemas interconectados para resolver. Ele tem que ser intrinsecamente limitado e tem que ser exclusivamente alienável.

O Bitcoin resolve o primeiro desses problemas ao emular um metal precioso. Ele é obtido através de um processo de mineração que requer trabalho criptográfico, a fim de acessar bitcoins de uma ‘reserva’ finita, liberados em estágios e somando, no total, 21 milhões de BTC. Preservar a finitude desse estoque monetário de bitcoins depende da solução para o segundo problema — o de ‘gasto duplo’. Considerado o principal obstáculo para a criação de um dinheiro digital, o problema do gasto duplo surge automaticamente em um meio que efetua transferências através de cópias. A menos que o dinheiro seja deduzido do pagador enquanto é creditado ao beneficiário, despesas que conservem o valor são impossíveis, e, contudo, essa simples operação — que vai na contramão da troca digital de informações — parecia exigir a introdução de um garantidor, ou parte externa confiável, que o sistema em si era incapaz de fornecer integralmente.

Equipamento privado de mineração. Fonte: bitcoinexaminer.org. Todos os direitos reservados.

Este é o avanço mais inconfundível do Bitcoin. Toda transação que ocorre dentro do sistema é incluída em um livro público sequencial, ou blockchain, que tem que ser atualizado como um todo para que qualquer troca seja registrada. O trabalho criptográfico da atividade mineradora do sistema agora adquire uma segunda função automática, a de validar cada iteração do blockchain e de defender o livro da usurpação por parte de agentes fraudulentos. O garantidor de cada transferência – preservadora de valor – ’em dinheiro’ é, portanto, todo o blockchain em si, operando como um mecanismo de confiança espontâneo ou independente de agentes. Através desse registro continuamente atualizado e integrado de todos os eventos comerciais, o blockchain sustenta um relato consistente da escassez sintética comunicável pela Internet, ou racionamento digital auto-regulado — em outras palavras, o primeiro sistema monetário eletrônico totalmente descentralizado do mundo. A escassez do Bitcoin é descentralizada devido a sua independência em relação às promessas de uma autoridade emissora.

Ao descrever esse sistema, passa-se muito rapidamente do singular para o genérico, de uma maneira que é facilmente entendida por analogia e digna de reflexão momentânea. Tivesse "Netscape" sido adotado como o nome de navegadores web em geral, certas confusões teriam certamente surgido. De maneira mais significativa, a questão "o Netscape sobreviverá?" teria sido fatalmente ambígua. Como a história real demonstrou, o Netscape nesse sentido contra-factual era tanto capaz de morrer quanto de florescer para além de qualquer expectativa anterior. Muitas centenas de milhões de pessoas usam um ‘Netscape’ todos os dias, embora sob outros nomes (gerais e específicos), ao passo que apenas uma fração extremamente pequena está ciente de que o Netscape jamais existiu. Não está claro se o Bitcoin, em seu sentido específico, jamais poderia ser inteiramente extinto, mas ele certamente poderia ser marginalizado para a borda da irrelevância: expulso do mercado por criptomoedas competitivas, através das quais o Bitcoin, no sentido geral, avança em direção à ubiquidade.

Em sua evocação mais ampla, o Bitcoin simboliza uma revolução crescente da Internet, de escala e profundidade que são difíceis de exagerar. A capacidade técnica exigida para operar o BTC — software instalado de sustentação para o blockchain — tem potencial para se estender muito além da moeda em si, e apenas uma fração muito pequena disso tem sido explorada até o momento. Isso é mais dramaticamente evidenciado no crescimento de altcoins, uma extensa ecologia de ramificações do bitcoin, ou sistemas de contrato P2P parecidos com o Bitcoin, marcadas pelo sufixo "-coin". Altcoins proeminentes incluem Darkcoin, Dogecoin, Litecoin, Namecoin e Truthcoin, com muitas outras a caminho. Na borda exterior da abstração do blockchain estão aplicações tais como o Ethereum, cuja linguagem de programação Turing-completa pode dar suporte a smart contracts e até mesmo agentes inteligentes autônomos. Neste ponto de sofisticação, a potencialidade últimas do sistema não são meramente subdeterminadas, mas indetermináveis em princípio, e o portal para um cosmos tecno-comercial previamente não visitado está aberto.

É essa extrema generalidade que Eli Dourado celebra em seu artigo "Bitcoin isn’t Money — It’s the Internet of Money" ("O Bitcoin não é Dinheiro — Ele é a Internet do Dinheiro", argumentando:

"O Bitcoin não é apenas um substituto para o dinheiro; ele pode ser uma forma de contratação generalizada, programável e descentralizada. […] A maior parte dos críticos do Bitcoin estão cometendo um erro categórico. Eles estão mirando na moeda do Bitcoin, quando, na verdade, o Bitcoin é muito mais que uma moeda, da mesma maneira que a Internet é muito mais do que os serviços de telecomunicação que a precederam. […] O Bitcoin é uma nova camada de transporte para finanças, que permite o desenvolvimento descentralizado, disruptivo e sem permissão[4] de aplicações em uma camada separada. Ele tem a capacidade de fazer pelas finanças o que a Internet fez pela comunicação."

Entre as facilidades embasadas no blockchain que Dourado vislumbra estão contratos de garantia, mercados de previsão e micropagamentos contínuos, além de um notário, identidades vinculadas e serviços de classificação de reputação. É fácil de ver porque ‘sacar’ o Bitcoin desencadeia algo similar a um choque metafísico. Como um depositário digital auto-suficiente de identidades legais, ele exibe — virtualmente — um potencial para absorver a infraestrutura cultural das transações formais sem limites óbvios. Talvez não exista nenhum ‘negócio’ concebível sem compatibilidade com o blockchain e, portanto, nenhum horizonte definitivo para sua utilidade comercial, legal ou mesmo política.

De particular relevância aqui é a inovação do blockchain da confiança artificial, frequentemente referido como ausência de confiança, uma vez que ela substitui a confiança e está, assim, pré-adaptada para um mundo no qual a confiança não está disponível.[5] Sob as condições atualmente iminentes, de uma transição hegemônica que ocorre para além do consenso internacional ou da continuidade civilizacional, essa característica profunda do Bitcoin parece certa de ser colocada em primeiro plano. Por uma coincidência aparentemente notável, uma ordem em colapso de promessas, ou de autoridades globais críveis, é acompanhada pela emergência de um sistema alternativo de credibilidade. Conforme os sustentáculos tradicionais da arquitetura institucional do mundo são sujeitados a uma erosão acelerante[6], o prêmio para uma funcionalidade sem confiança só pode aumentar. O Bitcoin se sugere como um substituto para autoridades garantidoras, ao passo em que abre visões inteiramente novas de criação institucional descentralizada. O contexto de fricção, disfunção e desacordo de um mundo em desordem hegemônica apenas reforça sua atração.

Em comparação com as transições suaves em supremacia econômica, das Províncias Unidas, para o Reino Unido, para os Estados Unidos, a passagem para além da ordem mundial americana só pode ser considerada dura. É essa dureza que molda a tomada, para a qual o Bitcoin — em seu sentido mais expansivo — é o plugue. A instalação de sistemas sem confiança se encaixa em um buraco no mundo.

Como o surgimento de tecnologias sem confiança na Internet modifica a paisagem estratégica das grande potências e dos outros principais atores mundiais? Em que medida suas respostas podem ser antecipadas? Apenas abordando essas questões é que alguma concretude pode ser introduzida em nosso entendimento do caminho adiante. Elas, portanto, fornecem o tópico para a terceira (e última) parte dessa série.


Notas:

[1] O mecanismo, descrito de maneira aproximada, é que os déficits crônicos exigidos para a distribuição internacional de uma moeda de reserva minam os fundamentos econômicos domésticos dos quais a credibilidade dessa mesma moeda inicialmente, e em última análise, depende. Esse mecanismo endógeno é afiado por rivalidades geoestratégicas e é ainda mais desestabilizado por fatores complicadores e parcialmente independentes, tais como as vicissitudes da convenção do petrodólar. Em combinação, seu efeito tem exibido uma direcionalidade clara nos tempos recentes, com a proporção de reservas estrangeiras internacionais mantidas em dólares dos EUA caindo de 55% para 33% desde 2000.

[2] A transição da liderança econômica mundial das Províncias Unidades para o Reino Unido foi institucionalmente facilitada pela integração transnacional de elites, coroada pela Revolução Gloriosa de 1688. A sucessão posterior dos Estados Unidos à preeminência econômica global envolveu um grau menos claramente formalizado, mas não obstante inconfundível de coordenação do regimes, construída em grande parte sobre a cooperação militar, administrativa e de inteligência forjada no crisol da Segunda Guerra Mundial. Inúmeros indicadores podem ser mencionados, incluindo até mesmo o fator dinástico da ancestralidade híbrida anglo-americana de Winston Churchill.

[3] A identidade de Satoshi Nakamoto permanece um tópico de especulação intensa, que excede os limites da atual discussão.

[4] Dourado cita o artigo de 2012 "Keep the Internet Open" ("Mantenha a Internet Aberta") de Vinton Cerf, onde a noção de "inovação sem permissão" desempenha um papel conceitual crucial.

[5] Pesquise a combinação "sem confiança + bitcoin" no Google para uma confirmação abundante.

[6] As autoridades monetárias são o exemplo mais relevante aqui, mas qualquer instituição dependente de alguma medida de confiança pública está, em princípio, suscetível a uma concorrência implícita com alternativas embasadas no blockchain (ou seja, sem confiança).


Original.

Quebrado

zizek!

Slavoj Žižek traça algumas linhas de batalha intrigantes em uma discussão sobre Thomas Piketty:

Então, o que estou dizendo é que acho que ele é utópico porque ele simplesmente diz que o modo de produção tem que permanecer o mesmo; vamos apenas mudar a distribuição através de, nada muito original, impostos radicalmente maiores.

Ora, aqui os problemas começam, aqui entra a utopia. Não estou dizendo que não deveríamos fazer isso, só estou dizendo que fazer isso e nada mais não é possível. Esta é a utopia dele. Que basicamente podemos ter o capitalismo de hoje, que basicamente – como um maquinário – permanece o mesmo: ó ó ó, quando você ganhar seus bilhões, ó ó, aqui vou taxar, me dá 80 por cento. Eu não acho que isso é factível. Eu acho que, imagine um governo fazendo isso, Piketty está ciente de que isso precisa ser feito globalmente. Porque se você o fizer em [um] país, então o capital se move para outro lugar. Esse é outro aspecto do utopismo dele, minha afirmação é de que, se você imaginar uma organização mundial em que a medida proposta por Piketty possa efetivamente ser promulgada, então os problemas já estão resolvidos. Neste caso, você já tem uma reorganização política total, você tem um poder global que pode efetivamente controlar o capital, nós já ganhamos.

A perversidade da ‘utopia’ é previsivelmente zizekiana – parte de alguma manobra tática meio louca que não leva a lugar nenhum – mas o argumento a favor de uma autoridade global soberana como único telos coerente da política de Esquerda é decididamente perspicaz. Dada esta convincente tese, a insignificância de iniciativas internacionalistas sérias na discussão predominante na política de esquerda é impressionante. A aparência é de que qualquer coisa abaixo do nível da governança global é evidentemente irrelevante – ou até contraproducente – para fins socialistas.

Notícias recentes, estou certo, não ajudam

ADICIONADO: Mais de Žižek sobre o tópico da governança global (através do mesmo link) —

Definitivamente é hora de ensinar às superpotências, velhas e novas, algumas maneiras, mas quem o fará? Obviamente, apenas uma entidade transnacional pode conseguir isso — mais de 200 anos atrás, Immanuel Kant viu a necessidade de uma ordem legal transnacional fundamentada no surgimento da sociedade global. Em seu projeto para a paz perpétua, ele escreveu: "Uma vez que comunidade mais estreita ou mais ampla dos povos da terra se desenvolveu tanto que uma violação dos direitos em um lugar é sentida por todo o mundo, a ideia de uma lei da cidadania mundial não é nenhum voo alto ou noção exagerada".

Isso, contudo, nos leva ao que é, sem dúvidas, a "contradição principal" da nova ordem mundial (se pudermos usar esse antigo termo maoista): a impossibilidade de se criar uma ordem política global que corresponda à economia capitalista global.

E, para um leve alívio:

Zizek sempre expressou seu desprezo geral pelos estudantes e pela humanidade. Certa vez, ele admitiu em 2008 que ver pessoas estúpidas felizes o deixa deprimido, antes de descrever o ensino como o pior trabalho que ele já teve.

"Eu odeio estudantes", ele disse, "eles são (como todas as pessoas) em sua maioria estúpidos e tediosos."

[…]

"Eu não consigo [sic] imaginar uma experiência pior do que algum idiota vir e começar a fazer perguntas, o que ainda é tolerável. O problema é que aqui nos Estados Unidos, os estudantes tendem a ser tão abertos que, mais cedo ou mais tarde, se você for gentil com eles, eles começam até mesmo a lhe fazer perguntas pessoais [sobre] problemas privados… O que eu deveria lhes dizer?"*

"Eu não ligo", ele continua. "Se mate. Não é problema meu."

(Esse tipo de coisa me faz ser caloroso com o cara.)

ADICIONADO: A rebugenta do Slate, Rebecca Schuman não está feliz.


Original.

Promovida pela PPC

Ilusões monetárias têm sido algo como uma obsessão aqui recentemente (por exemplo. Como exemplo de quanta diferença elas podem fazer, a ordem econômica do mundo, que é confortavelmente dominada pelos Estados Unidos em taxas de câmbio internacionais, está à beira de sua maior transição em meio milênio se a contabilidade for conduzida de acordo com a PPC.

Do Bloomberg:

A China está pronta para ultrapassar os EUA como a maior economia do mundo, enquanto a Índia saltou para o terceiro lugar, à frente do Japão, usando cálculos que levam em consideração as taxas de câmbio.

A economia da China era 87 por cento do tamanho da dos E.U.A. em 2011, avaliada de acordo com a chamada paridade do poder de compra, O Programa Internacional de Comparação disse em comunicado ontem em Washington. O programa, que envolve organizações como o Banco Mundial e as Nações Unidas, colocou o número em 43% em 2005.

Original.

Dores de Cabeça Hegemônicas

… há, sem dúvidas, uma série delas. Uma que se destaca por sua clareza conceitual, contudo, é o Dilema de Triffin. Formulado por Robert Triffin e divulgado em testemunho ao Congresso dos EUA em 1960, ele se baseia na simples necessidade aritmética de que qualquer país cuja moeda seja privilegiada com o status de reserva mundial é compelido a incorrer em déficits comerciais crônicos, a fim de fornecer liquidez monetária global. A hegemonia econômica mundial é, portanto, inseparável de uma perda de controle sobre a política monetária doméstica — uma vez que medidas que poderiam ser requeridas para sustentar o valor da moeda comumente seriam inconsistentes com a responsabilidade de se exportar dinheiro (através de um saldo atual em conta negativo).

A ‘Chimérica‘ é o Dilema de Triffon exemplificado em uma forma binária conveniente. Por um lado, a liderança econômica e o ‘privilégio exorbitante’ da senhoriagem (através da qual meros signos financeiros são trocados por produtos e serviços substanciais), por outro, a disfunção na política econômica e a desindustrialização, conforme a atividade empresarial americana é terceirizada para a China em troca de uma dominância monetária simbólica. Neste processo e paradoxo do poder, a atual instanciação da ordem mundial é capturada em suas características essenciais. A maneira em que a modernidade funciona, atual e concretamente, não pode ser tornada inteligível sem referência a Triffin.

A implicação forte do Dilema de Triffin — talvez até mesmo ‘Paradoxo de Triffin’ — é que a hegemonia monetária global é, em última análise, ruinosa para a nação financeiramente soberana. Ele envolve algo similar a um análogo ou variante econômica da ‘endo-colonização’ de Paul Virilio, que "acontece quando um poder político se volta contra seu próprio povo", progredindo suavemente da predação para a auto-canibalização. O ‘privilégio exorbitante’ de acessar recursos reais em troca de mero papel promissório é mantido apenas ao custo de uma terceirização absoluta — uma divisão internacional do trabalho na qual o mestre é compelido a se especializar em signos financeiros, submetendo-se a uma atrofia acelerante da capacidade produtiva. Uma moeda de reserva internacional é, portanto, auto-esvaziadora, em uma ciclo causal vicioso que substitui por pura proeza política — prestígio simbólico — as vantagens industriais que originalmente a promoviam. A cultura que ela impõe acentua o consumismo, a politização financeira e a sensibilidade histérica às vicissitudes dos signos. No final, apenas a mágica do poder permanece.

O caminho para fora dessa estrutura em deterioração foi há muito vislumbrada como uma moeda internacional politicamente administrada, seja o ‘bancor’ keynesiano, ou os DESs (Direitos Especiais de Saque) do FMI. O apelo que tal esquema faz a uma governança internacional coerente excedeu confiavelmente a praticidade diplomática e política. É notável, contudo, que uma certa fantasia globalista seja previsivelmente gerada pelas pressões da hegemonia da moeda, independentemente de todos os compromissos ideológicos anteriores ou posteriores.

Se a hegemonia do dolar dos EUA é insustentável, e os remédios globalistas estão realisticamente inacessíveis, a ordem econômica mundial tem um horizonte catastrófico. De maneira crucial: com a hegemonia da moeda agora entendida como uma armadilha, não pode-se esperar que nenhum regime nacional são se proponha como a próxima América. O que quer que esteja esperando para além do show de mágica tem que ser algo novo. É sob essas condições que — ‘coincidentemente’ — as primeiras crito-moedas digitais pós-nacionais e radicalmente despolitizadas começaram a aparecer no palco mundial…

Original.