Leitura Rápida

No Dark Alien Social Ecologies, Craig Hickman embarca em uma recapitulação do Aceleracionismo em múltiplas partes. Sua decisão de enquadrá-lo como ‘Prometeico’ gera uma abundância de material para discussão, mesmo antes de se deixar o título. Com a primeira parte pairando à beira do Manifesto por uma Política Aceleracionista de Williams e Srnicek, ela está pronta para fornecer a visão geral mais abrangente da corrente até o momento. (Vide a contribuição de Hickman aos seus próprios comentários para um senso da estrutura geral).

Um tema emergente — a partir do texto de Hickman e de seu halo — é a significância irredutível do Aceleracionismo enquanto sintoma, o que seria dizer: enquanto registro do estímulo capitalista. Questões relacionadas ao seu potencial de resistência cultural se retorcem, quase imediatamente, em estimativas da provocação teconômica. A crítica arquetípica do aceleracionismo toma a forma de: O Capital não tem nenhum direito de nos excitar. Há um escorregão para dentro de uma controvérsia ético-estética altamente carregada (como Hickman observa). Ele não deveria ser fascinante.

HK3

(Em lugar nenhum no Reino Unido)

"… o capitalismo é qualquer coisa menos excitante. Ele é mundano, chato" diz Edmund Berger, nos comentários. Por mais vazia que uma afirmação dessas possa soar, ela transmite uma tese complexa, de pertinência, insistência e significância notáveis e de importância prática bem maior do que qualquer objeção meramente técnica poderia ter. Será necessário dizer muito mais sobre ela, em algum ponto futuro. Por ora, a resposta mais premente é superficialmente trivial: Quanta tristeza geo-histórica se encontra refletida em tal posição?

ADICIONADO: Accelerationism: The New Prometheans por Craig Hickman Parte Dois: Seção Um Parte Dois: Seção Dois Cyberlude Red Stack Attack! Automate Architecture

Também:
Accelerationism: Ray Brassier as Promethean Philosopher
no boredom – Arran James on Mark Fisher and Accelerationism beyond Boredom
Accelerationism, Boredom and the Trauma of Futurity
Nick Land and Teleoplexy – The Schizoanalysis of Acceleration
Science Fiction, Technology, and Accelerationist Politics: Final Thoughts on an Williams and Srnicek’s Manifesto


Original.

Quebrado

zizek!

Slavoj Žižek traça algumas linhas de batalha intrigantes em uma discussão sobre Thomas Piketty:

Então, o que estou dizendo é que acho que ele é utópico porque ele simplesmente diz que o modo de produção tem que permanecer o mesmo; vamos apenas mudar a distribuição através de, nada muito original, impostos radicalmente maiores.

Ora, aqui os problemas começam, aqui entra a utopia. Não estou dizendo que não deveríamos fazer isso, só estou dizendo que fazer isso e nada mais não é possível. Esta é a utopia dele. Que basicamente podemos ter o capitalismo de hoje, que basicamente – como um maquinário – permanece o mesmo: ó ó ó, quando você ganhar seus bilhões, ó ó, aqui vou taxar, me dá 80 por cento. Eu não acho que isso é factível. Eu acho que, imagine um governo fazendo isso, Piketty está ciente de que isso precisa ser feito globalmente. Porque se você o fizer em [um] país, então o capital se move para outro lugar. Esse é outro aspecto do utopismo dele, minha afirmação é de que, se você imaginar uma organização mundial em que a medida proposta por Piketty possa efetivamente ser promulgada, então os problemas já estão resolvidos. Neste caso, você já tem uma reorganização política total, você tem um poder global que pode efetivamente controlar o capital, nós já ganhamos.

A perversidade da ‘utopia’ é previsivelmente zizekiana – parte de alguma manobra tática meio louca que não leva a lugar nenhum – mas o argumento a favor de uma autoridade global soberana como único telos coerente da política de Esquerda é decididamente perspicaz. Dada esta convincente tese, a insignificância de iniciativas internacionalistas sérias na discussão predominante na política de esquerda é impressionante. A aparência é de que qualquer coisa abaixo do nível da governança global é evidentemente irrelevante – ou até contraproducente – para fins socialistas.

Notícias recentes, estou certo, não ajudam

ADICIONADO: Mais de Žižek sobre o tópico da governança global (através do mesmo link) —

Definitivamente é hora de ensinar às superpotências, velhas e novas, algumas maneiras, mas quem o fará? Obviamente, apenas uma entidade transnacional pode conseguir isso — mais de 200 anos atrás, Immanuel Kant viu a necessidade de uma ordem legal transnacional fundamentada no surgimento da sociedade global. Em seu projeto para a paz perpétua, ele escreveu: "Uma vez que comunidade mais estreita ou mais ampla dos povos da terra se desenvolveu tanto que uma violação dos direitos em um lugar é sentida por todo o mundo, a ideia de uma lei da cidadania mundial não é nenhum voo alto ou noção exagerada".

Isso, contudo, nos leva ao que é, sem dúvidas, a "contradição principal" da nova ordem mundial (se pudermos usar esse antigo termo maoista): a impossibilidade de se criar uma ordem política global que corresponda à economia capitalista global.

E, para um leve alívio:

Zizek sempre expressou seu desprezo geral pelos estudantes e pela humanidade. Certa vez, ele admitiu em 2008 que ver pessoas estúpidas felizes o deixa deprimido, antes de descrever o ensino como o pior trabalho que ele já teve.

"Eu odeio estudantes", ele disse, "eles são (como todas as pessoas) em sua maioria estúpidos e tediosos."

[…]

"Eu não consigo [sic] imaginar uma experiência pior do que algum idiota vir e começar a fazer perguntas, o que ainda é tolerável. O problema é que aqui nos Estados Unidos, os estudantes tendem a ser tão abertos que, mais cedo ou mais tarde, se você for gentil com eles, eles começam até mesmo a lhe fazer perguntas pessoais [sobre] problemas privados… O que eu deveria lhes dizer?"*

"Eu não ligo", ele continua. "Se mate. Não é problema meu."

(Esse tipo de coisa me faz ser caloroso com o cara.)

ADICIONADO: A rebugenta do Slate, Rebecca Schuman não está feliz.


Original.

Bitcoin e Correntes

Doug Henwood, escrevendo no The Nation, explica as atrações do Bitcoin para a Direita:

Houve muitos outros relatos de roubos, fraudes e invasões, que os partidários do Bitcoin descartam como meras dores de crescimento. Mas sem nenhum regulador, sem nenhum depósito segurador e sem nenhum banco central, esse tipo de coisa é inevitável – é apenas sua má sorte. Introduza reguladores e esquemas de seguro, no entanto, e o Bitcoin perderá todo o seu anarco-charme.

Keynes certa vez chamou o ouro de "parte do aparato do conservadorismo" por seu apelo aos rentistas que amavam a austeridade porque ela preservava o valor de seus ativos. O Bitcoin serve a um objetivo igualmente totêmico para os cyber-libertários de hoje, que amam não apenas a ausência de estado dele enquanto dinheiro, mas também seu poder de sujeitar o sistema bancário institucional a "ruptura" (uma das palavras favoritas desse conjunto). E, como ouro, o Bitcoin é deflacionário. Há um limite de quantas bitcoins podem ser produzidas e fica mais difícil produzi-las ao longo do tempo até que esse limite seja atingido. Obviamente, novas criptomoedas podem surgir. Mas a existência do limite reflete as simpatias deflacionárias da mente libertária – em uma economia do Bitcoin, seria impossível criar dinheiro para aliviar uma depressão econômica. O que não seria dizer que apenas os libertários amam o Bitcoin.

Apesar dos cuidadosos sinais da distância política, não há nada de fora do normal na substância. Nos parágrafos subsequentes, Henwood escava um pouco mais fundo, preservando a mesma abertura equilibrada à informação. Ele até – momentaneamente – passa no derradeiro teste direitista de ideias, ao colapsar a epistemologia no mercado: “O Bitcoin não deixa de ter amigos em Wall Street. Gil Luria, da Wedbush Securities, o está acompanhando; ele descreve a volatilidade recente como "descoberta de preço estendida", que é uma maneira de dizer que ninguém sabe o que ele é, o que ele será ou o que ele vale. Sua empresa está vendendo sua pesquisa sobre o Bitcoin com pagamento em bitcoins”.

Sua descoberta inesperada, contudo, é um eleitorado esquerdista do Bitcoin, atraído pelas mesmas prioridades que podem tornar o ‘libertarianismo’ tão ideologicamente escorregadio enquanto categoria, mais obviamente: o potencial de “evasão à vigilância e policiamento estatais – que, na era pós-Snowden, não é nada a se desprezar”. Enquanto vasculhava em busca de trechos de histórias em uma ‘festa’ do Bitcoin em Nova York, ele se encanta ao encontrar a ‘Mistress Magpie’:

Uma marxista-feminista, dominatrix profissional com exercício na Grã-Bretanha … [e] uma defensora entusiasta do Bitcoin. Ela explica seu entusiasmo como tendo origem com sua profunda tecno-nerdisse, e acrescenta que o Bitcoin também é prático para alguém em sua linha de trabalho – o anonimato é importante, seja na vida real ou online. Ao contrário dos libertários, que vêem as criptomoedas como um possível portal para uma nova sociedade, a socialista na Mistress Magpie as vê como uma maneira de operar furtivamente sob o capitalismo, de uma maneira que poderia não ser necessária em uma sociedade socialista mais aberta.

Embora seja superficialmente tentador tirar sarro desse socialismo com características anarco-capitalistas, ele brilha em comparação com a funesta defesa da autoridade monetária fiduciária estatal com a qual Henwood – obedientemente – conclui o artigo.

Original.

Golpe Duro

Ao escalar a alturas extremas de cinismo gélido, Zachary Keck situa a campanha anti-corrupção de Xi Jinping dentro de um framework de complexidade institucional vertiginosa. Após relatos de que os ex-líderes Jiang Zemin e Hu Jintao expressaram advertência sobre os potenciais excessos da campanha, ele observa:

A intervenção relatada de Jiang e Hu ressalta a natureza delicada das campanhas anti-suborno dentro do Partido Comunista Chinês (PCC). Por um lado, as campanhas anti-corrupção são um tradição consagrada pelo tempo na RPC e são essenciais para que cada novo líder consolide seu poder, eliminando adversários e promovendo aliados. Xi provavelmente vê a campanha anti-corrupção como particularmente útil para superar a resistência intrapartidária ao reequilíbrio econômico da China, que inevitavelmente prejudicará de maneira desproporcional os interesses dos membros do Partido.

Ao mesmo tempo, a corrupção é a força vital que atrai os chineses para o PCC em uma era em que a ideologia não é mais relevante. Se os membros do PCC não puderem se beneficiar pessoalmente de sua filiação ao Partido, não está claro exatamente o que manteria o Partido unido. Levar uma campanha anti-corrupção longe demais também traz o risco de fazer com que as massas chinesas percam a fé no PCC e no atual sistema de governo

(Os links internos, ambos para artigos anteriores de Keck, valem bastante a pena.)

Passou-se, certamente, do ponto em que qualquer um poderia negar a seriedade dessa campanha, sejam quais forem as dúvidas sobre seus motivos e perspectivas derradeiros. Tantos aspectos do desenvolvimento chinês estão emaranhados com seu resultado que mal é possível acompanhá-la de perto o suficiente.

Se o Partido Comunista Chinês está se encaminhando, ainda que lentamente, na direção do PAP de Singapura, as consequências para o país só podem ser positivas. Possibilidades muito mais caóticas são, é claro, muito facilmente imagináveis.

Original.

Sobre o #Acelerar (#2b)

"Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo", diz o #Acelerar, de maneira incontestável. "O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social."

Como anteriormente observado, das tendência aqui referidas, o "crescimento econômico" é facilmente a mais acessível (devido a sua auto-quantificação comercial). A compreensão tecnocientífica sobre a tecnociência, embora já embriônica no começo da época moderna, ainda está a alguma distância da auto-compreensão matemática enquanto evento natural. Sua quantificação, portanto, apresenta problemas bem mais desafiadores, deixando até mesmo questões bastante básicas sobre suas linhas de tendências abertas a controvérsias significativas. (A auto-quantificação das tendências de desenvolvimento nos setores de eletrônicos e biotecnologia merecem uma atenção focada em um estágio posterior.) Qualquer tentativa de fornecer uma medida precisa e coerente de "mobilidade social" provavelmente enfrentará obstáculos ainda mais formidáveis.

O capitalismo se apresenta como o mega-objeto acelerativo exemplar porque ele é auto-propulsor e auto-abstrator (por excitação cruzada). Em ambos os seus aspectos técnico e comercial, ele tende a potenciais de propósito geral que facilitam realocações de recursos (e, assim, quantificações eficientes). A capacidade produtiva é plastificada, ficando cada vez mais sensível a mudanças nas oportunidades de mercado, ao passo em que a riqueza é fluidizada, permitindo sua rápida mobilização especulativa. O mesmo processo auto-reforçador que liquida as formas sociais tradicionais libera o capital modernizante como quantidade abstrata volátil, flexivelmente equilibrada entre aplicações técnicas e intrinsecamente inclinada a uma compreensão ‘decodificada’ ou econômica.

Sob a orientação do capital, a modernização da riqueza tende à efetivação de um potencial produtivo abstrato, o que seria dizer, é claro: ela tende ao próprio capital, no circuito de auto-propulsão que o determina como uma hiper-substância genética (ou até mesmo teleológica). Neste ponto, chega-se a uma bifurcação teórica complexa, a partir da qual os caminhos levam a uma série de direções marxianas e decididamente anti-marxianas. A questão primária é se o corpo abstrato do capital é suscetível a uma conversão matemática consistente que se conforme à Lei do Valor, que a interpreta como uma reificação da força de trabalho organicamente composta (entre variável e fixa, ou ‘viva’ e ‘morta’). A coisa acelerativa pode ser reconhecida, de maneira prática, como a capacidade coletiva alienada de uma futura humanidade sem classes?

O #Acelerar considera que esta questão foi satisfatoriamente resolvida com antecedência e respondida na afirmativa. Uma vez que ele não fornece nenhuma referência que sustente essa posição, ele tem que ser considerado um documento identitário da esquerda. Apenas aqueles que afirmam o fechamento anterior de suas questões fundamentais são capazes de acessá-lo no nível de sua própria retórica. Ele assume a solidariedade ideológica como uma preliminar extrínseca e sem marcas.

Intrometer-se, no entanto, a partir de um problema aberto da ontologia capitalista, é navegar o caos. As passagens relevantes são encontradas na segunda parte do manifesto, que consiste de sete parágrafos numerados. Tudo o que nos é dito sobre a coisa acelerativa tem que ser extraído deles … ou quase tudo.

É notável que o primeiro uso de ‘acelerar’ no manifesto é tanto crítico quanto quase desdenhosamente casual. Ela ocorre no terceiro parágrafo da introdução, onde se resume um conjunto de "catástrofes em contínua aceleração":

… colapso do sistema climático do planeta [que " ameaça a continuação da existência da população humana em todo o globo"] … O esgotamento terminal de recursos, especialmente das reservas de água e energia [elevando "a perspectiva de fome em massa, colapso dos paradigmas econômicos e novas guerras frias e quentes"] …incessante crise financeira [que] levou governos a abraçar espirais mortíferas de políticas de austeridade, privatização de serviços do estado de bem-estar social, desemprego em massa e estagnação salarial. [E] automação crescente nos processos produtivos, inclusive no trabalho intelectual, [que] evidencia a crise secular do capitalismo, em vias de se tornar incapaz de manter os atuais padrões de vida mesmo para as antigas classes médias do norte global.

Isso, de maneira bastante clara, é seu retrato introdutório lúgubre da coisa acelerativa, como ela é em si mesma, convergindo para uma singularidade histórica terminal, ou uma abrangente crise ecológica, econômica e tecnológica de super desempenho. Ela é tanto a coisa sobre a qual o #Acelerar quer falar, quanto a coisa sobre a qual ele decide explicitamente não falar — introduzida como palco teatral, ou um lembrete de algo antes e fora da discussão, que pode ser posteriormente assumido. A função retórica é completamente inequívoca: essa lista serve como uma enumeração daquilo que não precisa mais ser discutido. É infeliz, portanto, para dizer o mínimo, que essa parece ser a abordagem mais próxima, dentro do #Acelerar, ao objeto real da atenção aceleracionista, "ganha[ndo] força e velocidade, [conforme] a política abranda e recua" até que "o futuro" que nos foi prometido seja "cancelado" (ainda que apenas através de uma falha retificável do "imaginário político"). O inimigo é uma coisa acelerativa, mas o #Acelerar discutirá alguma outra coisa.

Antes que o capitalismo caia inteiramente no pano de fundo nebuloso da narrativa implícita, vale a pena fazer uma breve digressão ao "imaginário político" e sua sugestão. Se há uma única fórmula que cristaliza a apropriação esquerdista do aceleracionismo como puro colapso cognitivo é a afirmação de Frederic Jameson — obsessivamente repetida por toda a Web Esquerdista — de que Agora é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo. Para compreender a profunda falta de atenção desse pronunciamento, é necessário apenas retornar ao pensamento de abstração real, através do qual a virtualização realizada pelo capitalismo é distinguida de qualquer determinação da abstração enquanto propriedade lógica da representação intelectual. Dentro dos mercados de futuros capitalistas, o não-atual tem circulação efetiva. Ele não é um "imaginário", mas uma parte integral do corpo virtual do capital, uma realização do futuro operacionalizada. É difícil imaginar que a Esquerda esteja disposta a seguir o caminho definido aqui, portanto, a menos que seja através de uma falta de pensamento de proporções simplesmente desconcertantes, uma vez que ele necessariamente leva à conclusão: ao passo em que o capital tem um futuro cada vez mais densamente realizado, seus inimigos esquerdistas têm manifestamente apenas um de faz de conta.

Uma vez que a Seção Dois do #Acelerar é um matagal densamente emaranhado de ultrajes conceituais, vale a pena relembrar mais uma vez suas duas primeiras frases, que são excepcionais (neste contexto) por sua sanidade:

Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo. O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social.

O objeto primário do Aceleracionismo é o crescimento econômico, conforme demonstrado, de maneira capitalista, em um processo inextricavelmente vinculado ao desenvolvimento tecnológico orientado para a competição, e também à desorganização social. Se o #Acelerar concluísse aqui, não haveria nenhum argumento a ser feito contra ele. Infelizmente, ele continua por entre uma sequência de frases tão radicalmente desordenadas que nenhuma busca elegante de seu argumento é possível. Em vez disso, ele demanda uma série fragmentária de correções, objeções e reanimações de problemas obscurecidos, parcialmente enterrados e arbitrariamente suprimidos.

A descida começa imediatamente: "Em sua forma neoliberal, essa auto-apresentação ideológica é uma das forças de liberação das forças de destruição criativa, liberando inovações tecnológicas e sociais em contínua aceleração".

Por que o termo ‘destruição criativa’ (cunhado por Joseph Schumpeter em 1942) está sendo associado ao ‘neoliberalismo‘ aqui? Schumpeter o considerava aplicável ao capitalismo em geral, com abundante razão, e o #Acelerar não articula nenhuma objeção a esse uso padrão. Se o ‘neoliberalismo’ é a ideologia da destruição criativa, ele é a ideologia do capitalismo em geral.

Na introdução, nos é dito que, "desde 1979", o neoliberalismo tem sido "a ideologia política globalmente hegemônica … encontrado com algumas variantes entre os principais poderes econômicos". Ele é caracterizado, aparentemente, por "ajustes estruturais … em especial, encorajando novas e agressivas incursões do setor privado sobre o que resta das instituições e serviços socialdemocratas". Isso, também, soa como simples capitalismo (como também o faz "neoliberalismo landiano"). A vacuidade do termo apenas ressoa sonoramente com cada uso sucessivo. O ‘neoliberalismo’ é criticado porque ele não é nada além do capitalismo (pós-1979), e não é criticado por nenhuma outra razão. No #Acelerar, se não em outros lugares, ele não tem nenhum conteúdo ideológico distinguível do liberalismo clássico, tornando-a uma palavra perfeitamente inútil. A opacidade serve apenas para contrabeandear duas sugestões prepósteras: (1) A cacofonia das críticas esquerdistas ao ‘neoliberalismo’ compartilha algum cerne coerente de análise política e econômica. (2) As ideias sócio-econômicas liberais clássicas gozam de uma hegemonia essencialmente imperturbável sobre a atual ordem mundial. (Você não sabia que Keynes está morto, e que os Libertários governam a terra?)

(Então, por que não começar a chamar os marxistas fundamentalistas de hoje de ‘neo-coletivistas’, enquanto se implica que o planejamento central industrial estalinista é o arranjo econômico dominante do mundo? — Porque isso seria patentemente ridículo e insensatamente irritante, mas, na verdade, não mais do que a alternativa ‘neoliberal’.)

O tique ‘neoliberal’, embora enfurecedor em sua idiotice presunçosa, na verdade é tão vazio que importa pouco para o argumento do #Acelerar. Seu efeito é meramente servir como um truque de mãos, que apresenta um oponente cartunesco para distrair da ausência de uma atenção concentrada no alvo de uma análise e crítica realistas: a coisa acelerativa. O segundo desvio teórico a aparecer é pouco menos evasivo, o qual se trata de deslizar o problema ontológico central para um ‘esclarecimento conceitual’ de um desleixo surpreendente.

Sabemos pelo dicionário infantil que a aceleração é uma mudança de velocidade ao longo do tempo, o que não impede o #Acelerar de alegar (sem qualquer evidência óbvia):

O filósofo Nick Land captou isso [a dinâmica do capital ou a ideologia neoliberal?] de forma mais certeira, com uma crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global em direção a uma singularidade tecnológica sem paralelos. … o neoliberalismo de Land confunde velocidade com aceleração. Podemos estar nos movendo rapidamente somente dentro de um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas que jamais oscilam. Experimentamos apenas a crescente velocidade de um horizonte local, uma simples arremetida descerebrada; ao invés de uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades. É este último modo de aceleração que tomamos por essencial.

(1) Velocidade não é aceleração.
(2) Uma singularidade que se aproxima é marcada pela aceleração, não pela velocidade constante.
(3) Quem jamais falou sobre "se mover rapidamente" nesse contexto? Isso carece até mesmo da dignidade de um espantalho. O que ‘rápido’ significa? A aceleração não precisa sequer ser ‘rápida’ (apenas ‘ficando mais rápido’).
(4) O apelo para algo para além de "um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas" é mero aceno de mãos. A funcionalidade econômica é um ‘parâmetro’ confinador (para a aceleração)? Há claramente um tentativa de algum tipo de argumento transcendental aqui, marcado pelo apelo aos "parâmetros capitalistas que jamais oscilam". O próprio ‘parâmetro’ oscila entre um uso lógico e um empírico, um conceitualmente definidor e o outro materialmente constrangedor. Se o #Acelerar pensa que pode produzir um conceito significativo de aceleração sem parâmetros, seria algo emocionante de se ver (tempo, massa terrestre, leis físicas, herança biogeológica … são todos ‘parâmetros’). ‘Parâmetros’ capitalistas (indefinidos) devem ser, por alguma razão, aceitáveis como especialmente constrangedores, contudo. Argumento? Claro que não, este é um artigo de fé indisputável.
(5) Se alguém sabe o que "a crescente velocidade de um horizonte local" significa, por favor me conte. Pelo menos é algum tipo de "velocidade crescente", no entanto, ou seja, uma aceleração. Este é um sinal de que o #Acelerar pensa que a diferença entre velocidade e aceleração é trivial demais para se reconhecer, de modo que sua discussão sobre a aceleração não é, na verdade, sequer sobre aceleração, mas sobre algum muito mais profundo e ‘pós-paramétrico’? Talvez, porque…
(6) Para além da "uma simples arremetida descerebrada" (algo certamente está ‘descerebrado’) …
(7) Há "uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades". …e isso está, de alguma forma, conectado ao, é mensurável como, ou pode ser explicado em termos de algum processo rigorosamente determinável de aceleração (ainda que apenas aproximadamente) como?
(8) Independente disso: "É este último modo de aceleração que tomamos por essencial".

Esse tipo de coisa é a destruição direta e radical da inteligência. Começamos com um conceito definido (‘aceleração’) e um tópico de investigação ou crítica (a coisa acelerativa). Agora, a menos da metade do caminho do #Acelerar, não tem nenhum dos dois. Em vez disso, somos deixados com algum tipo de "modo de aceleração" supra-paramétrico trans-horizonal imaginário que foi deliberadamente destituído tanto de sentido, quanto de referência. A única realização teórica foi cinzelar de maneira brutal essa ideia política ontologicamente inefável para fora do único processo historicamente evidenciado de navegação, experimentação e descoberta acelerantes conhecido na história humana, a fim de lançá-la em um além miticamente inspirador. Começando com uma máquina sócio-técnica auto-propulsora ciberneticamente inteligível, não acabamos com nada além da declaração inflexível de que, o que quer que ‘ela’ (a aceleração histórica) seja, ela não é isso, ou qualquer coisa que possamos entender, apesar do fato de que o que sabemos sobre ‘ela’ é inteiramente extraído da realidade cumulativa sendo abandonada.

Como Marx sabia, o capitalismo não pode ser identificado como o agente da verdadeira aceleração.

Pelo contrário. O único "agente da verdadeira aceleração" reconhecido por Marx é a burguesia revolucionária — seu representante humanístico para a agência do capital. O proletariado não acelera nada, exceto em sua função enquanto força de trabalho sob os imperativos do capital. Ele herda uma pré-história acelerativa concluída, no momento de sua própria auto-dissolução revolucionária em uma humanidade universal.

Ao contrário do #Acelerar, Marx não trabalhava sob nenhuma ilusão de que a coisa acelerativa não era o capital, cujo mecanismo ele se devotou a entender, até a quase perfeita exclusão de todos os outros tópicos. Ao nos voltarmos para o entendimento de Marx sobre essa coisa [semana que vem], parcialmente nos retiramos dos erros caóticos do atual Aceleracionismo de Esquerda, embora talvez permaneçamos próximos o suficiente para irritá-lo.

Original.

‘Neoliberalismo’

É absolutamente óbvio que qualquer engajamento com a versão atual mais proeminente do pensamento aceleracionista — ou, de fato, com qualquer discussão dominada pela esquerda hoje — vai encontrar o termo ‘neoliberalismo‘ como uma referência onipresente. Uma irritabilidade pura não servirá como resposta por muito tempo.

Por que qualquer irritação que seja? De maneira mais imediata, porque a referência desse termo é uma bagunça que se alastra. Ele é empregado de maneira ambígua para descrever uma época e uma ideologia. A evidente duplicidade disso está na suposição tácita de que a ideologia define a época — uma afirmação histórica e política vasta, assim como implausível — que evade uma interrogação sistemática através do desleixo terminológico.

Pior ainda, as características da ideologia ‘neoliberal’ são elas mesmas remendadas, primariamente por uma miscelânea de polêmicas anti-capitalistas teoricamente empobrecidas, vindas de todo o mundo, com a consequência de que sua única característica consistente é o mero fato de ter uma oposição esquerdista (em algum lugar). Como a explicação da Wikipédia (linkada acima) deixa claro, qualquer política econômica em qualquer lugar que não seja positivamente hostil ao mercado e que se encontre comentada de maneira antagonista pela esquerda é ‘neoliberal’.

Quando todos esses fatores compostos de imprecisão são levados em consideração, é fácil ver por que o significado de ‘neoliberal’ pode variar — no mínimo — de um keynesianismo marginalmente reformista do mercado (Clinton), passando por um capitalismo autocrático (Pinochet) até um ‘hiper-capitalismo’ libertário extremo (em nossos sonhos). Sua aplicação global, para incluir — por exemplo — o Círculo do Pacífico dominado por chineses étnicos (e o continente chinês após a Reforma-e-Abertura), é ainda mais descuidadamente gestual. Se a Nova Política Econômica de Lenin em 1921 não era ‘neoliberal’, é difícil ver por quê — a menos que a ausência de uma oposição de esquerda seja suficiente como explicação. Uma palavra tão desleixada — tradicionalmente enraizada na demagogia latino-americana anti-mercado, mas desde então adotada de maneira geral como o equivalente linguístico de uma camiseta do Che Guevara — não tem nenhum uso analítico sério.

A moda é imprevisível, mas parece muito improvável que essa palavra esteja indo a qualquer lugar. Seu significado totêmico dentro do esquerdismo tribal é suficiente para garantir sua persistência — o que seria dizer que a sinalização radical chique do SWPL ficaria significativamente incomodada sem ela. Seria possível, então, rigorizá-la?

Isso exigiria delimitação, ou seja: especificidade. Dada a utilidade política da palavra, existem poucas razões para otimismo nesse aspecto. David Harvey, por exemplo, que devotou um livro ao ‘tópico’ (Neoliberalismo: História e Implicações, 2005), não produz nenhuma definição clara além de capitalismo ressurgente, na medida em que isso ocorreu com a recessão parcial do planejamento central a partir do final dos anos 1970. Sem surpresas, portanto, quanto mais classicamente liberais as políticas se tornam, mais ‘neoliberal’ ela também é. O ‘neo-‘, no fim das contas, não significa mais do que um enfurecido "você deveria estar morto, porra". O neoliberalismo, então, é uma orientação capitalista que sobreviveu às expectativas, e uma vez que as expectativas foram aprofundadas até fundações imóveis, é a sobrevivência que requer uma designação explícita.

Qualquer coerência leve (e estritamente polêmica) que possa ser tirada de Harvey é jogada de volta ao caos pelo artigo de Benjamin Noys, "The Grammar of Neoliberalism" ("A Gramática do Neoliberalismo") (2010). Longe de descrever a reversão parcial a arranjos orientados ao mercado na esteira de suposições social-democráticas hegemônicas, Noys identifica o ‘neoliberalismo’ com o capitalismo supervisionado pelo estado, introduzido nas décadas de 1920 e 1930, isto é, exatamente a ordem econômica que o ‘neoliberalismo’ de Harvey derruba.

Tomado em seus próprios termos — ao invés de como uma defesa de uma palavra intrinsecamente enganosa — o argumento de Noys é altamente interessante. Sua direção geral é capturada na seguinte passagem [marcas de citação subtraídas]:

Qual é a natureza precisa, então, do neo-liberalismo? Claro, a óbvia objeção à visão ‘anti-estado’ do neo-liberalismo é que o neo-liberalismo em si é uma forma contínua de intervenção estatal, usualmente resumida na frase ‘socialismo para os ricos, capitalismo para os pobres’. Foucault observa que o neo-liberalismo concede isso: ‘a intervenção governamental neo-liberal não é menos densa, frequente, ativa e contínua do que em qualquer outro sistema’. A diferença, contudo, é o ponto de aplicação. Ele intervém na sociedade ‘de modo que mecanismos competitivos possam desempenhar um papel regulatório em todo momento e em todo ponto na sociedade e, ao intervir dessa maneira, seu objetivo se tornará possível, isto é, uma regulação geral da sociedade pelo mercado’. Portanto, perdemos o foco de simplesmente deixarmos uma crítica do neo-liberalismo no ponto de dizer ‘o neo-liberalismo é tão estatista quanto outras formas governamentais’. Em vez disso, a necessidade é analisar como o neo-liberalismo cria uma nova forma de governamentalidade na qual o estado desempenha uma função diferente: permear a sociedade para sujeitá-la ao econômico

Deixando de lado a questão do poder de persuasão desse argumento (para outra hora), a coisa essencial a se notar é que ele representa uma disputa pelo termo negligentemente trôpego ‘neoliberalismo’ que Noys tem pouca chance realista de ganhar — ‘ganhar’, isto é, com abrangência suficiente para salvar a palavra. Se ‘neoliberalismo’ significasse em geral uma variante altamente estatista da organização ‘capitalista’, originando-se primeiro na era do alto-modernismo, na qual — em contraste com o estatismo da esquerda — o papel do estado era especificamente dirigido a impor um simulacro administrativo da ordem social cataláctica, ela se tornaria uma palavra valiosa e teoricamente funcional. Isso aconteceria até mesmo se a própria teoria fosse criticada, emendada ou rejeitada — e, na verdade, a própria possibilidade de tal engajamento pressupõe que ‘neoliberalismo’ se torne um conceito localmente inteligível (local, isto é, para o argumento de Noys e qualquer halo que ele tenha conseguido estender para além de si mesmo).

Mesmo aqui na Direita Exterior, quase toda a irritabilidade terminológica retrocederia imediatamente se a expressão repetidamente encontrada fosse — mesmo que implicitamente — Neoliberalismo no sentido Noysiano. Ele então seria um termo com limites relativamente precisos, esclarecendo mais do que obscurece. Consequentemente, ele marcaria um limite na direita assim como na esquerda, distinguindo o capitalismo anti-estatista ou laissez-faire — com seu modelo em Hong Kong — da formação político-econômica dominante de nossa era. Só por essa razão, pode-se antecipar confiantemente que não se permitirá que ‘neoliberalismo’ signifique nada disso.

[ADICIONADO](http://www.sok.bz/web/media/video/ABriefHistoryNeoliberalism.pdf%5D: PDF completo de A Brief History of Neoliberalism de David Harvey.

Original.

#Acelerar Anotado (#2)

[Continuando daqui]

II. INTERREGNO: Sobre Aceleracionismos

  1. Se há algum sistema associado a ideias de aceleração, é o capitalismo. O metabolismo essencial do capitalismo demanda crescimento econômico, com competição entre entidades capitalistas individuais, mobilizando desenvolvimentos tecnológicos crescentes, na tentativa de alcançar vantagem competitiva, tudo acompanhado por uma crescente mobilidade social. Em sua forma neoliberal, essa autoapresentação ideológica é uma das forças de liberação das forças de destruição criativa, liberando inovações tecnológicas e sociais em contínua aceleração.

A invocação do ‘neoliberalismo’, que machuca o cérebro, à parte, essas observações são todas perfeitamente sãs

  1. O filósofo Nick Land captou isso de forma mais certeira, com uma crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global em direção a uma singularidade tecnológica sem paralelos. Nessa visão do capital, o humano pode eventualmente ser descartado como mero obstáculo a uma abstrata inteligência planetária, que se constrói rapidamente a partir da bricolagem de fragmentos das civilizações passadas. Contudo, o neoliberalismo [cada uso dese termo aprofunda sua insensatez] de Land confunde velocidade com aceleração. Podemos estar nos movendo rapidamente somente dentro de um enquadramento estritamente definido de parâmetros capitalistas que jamais oscilam. Experimentamos apenas a crescente velocidade de um horizonte local, uma simples arremetida descerebrada; ao invés de uma aceleração que também seja navegável, um processo experimental de descoberta dentro de um espaço universal de possibilidades. É este último modo de aceleração que tomamos por essencial.

A diferença entre ‘velocidade‘ e ‘aceleração’ é aquela entre a derivativa zero e a primeira. Isso é rigoroso e, em geral, compreendido. A diferença proposta aqui é outra coisa. Eu não tenho nenhuma ideia clara do que ela é. (Parece equivaler, aproximadamente, a uma distinção entre Direita e Esquerda — isto é, a mera asserção de que o ‘capitalismo’ é compreensível como um ‘interior’ — sem qualquer outro conteúdo identificável.)

  1. Ainda pior, como Deleuze e Guattari reconheciam, desde o começo, o que a velocidade capitalista desterritorializa com uma mão, ela reterritorializa com a outra. O progresso se torna restrito a um enquadramento de mais-valor, exército proletário de reserva, e capital de livre flutuação. A modernidade é reduzida a medidas estatísticas de crescimento econômico, e a inovação social fica incrustrada com as sobras kitsch de nosso passado comunal. A desregulação de Tatcher-Reagan senta-se confortavelmente ao lado da família vitoriana “back-to-basics” e valores religiosos.

A Esquerda não é o agente principal da reterritorialização ‘capitalista’?

  1. Uma tensão mais profunda dentro do neoliberalismo ocorre em termos da sua autoimagem como o veículo de modernidade, como sinônimo para modernização, enquanto promete um futuro cuja constituição interna é incapaz de promover. De fato, conforme o neoliberalismo progrediu, ao invés de possibilitar a criatividade individual, tendeu a eliminar a inventividade cognitiva, em favor de uma linha de produção afetiva de interações roteirizadas, junto a cadeias globais de suprimentos e uma zona oriental de produção neo-fordista. Um minúsculo cognitariado de trabalhadores da elite intelectual encolhe com o passar dos anos – e de maneira crescente na medida em que a automação algorítmica adentra as esferas de trabalho afetivo e intelectual. O neoliberalismo, ainda que se postulando como um desenvolvimento histórico necessário, foi de fato um meio meramente contingente para afastar a crise do valor que emergiu nos anos 1970. Era inevitavelmente uma sublimação da crise, ao invés de sua superação final.

— É a política que faz promessas (o capitalismo faz negócios). Se você pensa que o ‘capitalismo’ já te prometeu algo, você pode estar dando ouvidos a um político.
— Qual é o mecanismo através do qual a ‘inventividade cognitiva’ é progressivamente eliminada, dado que a inovação é uma fonte de vantagem competitiva, pela qual o mercado seleciona?
— O ‘cognitariado’ está diminuindo? A resposta para isso parece ser um dado que a ciência social poderia fornecer.
— Por que (ah, por quê) ainda estamos falando sobre o ‘neoliberalismo’? O capitalismo como tal não é o ‘problema’ que define isso como um projeto político-cultural da Esquerda? Essa palavra ridícula é meramente uma profissão de fé, que serve bem mais como sinal de solidariedade tribal do que como ferramenta analítica. (Ironicamente, esse tique de ‘neoliberalismo’, como uma torneira pingando, perturba significantemente o projeto aqui. A renovação aceleracionista da Esquerda, como toda espécie de renovação modernista profunda, visa reativar linhas de desenvolvimento que remontam ao alto-modernismo do começo do século XX, quando — como os autores entendem de maneira plena, ainda que apenas intuitiva — a dinâmica fundamental da modernidade chegou à crista e quebrou. Ou devemos seriamente acreditar que "de volta para o meio dos anos 1970!" é o grito de guerra implícito?)

Eu estou, é claro, fortemente inclinado a aceitar que a paródia aleijada de capitalismo que existe hoje tem um desempenho pequeno comparado ao seu potencial sobre condições de desinibição laissez-faire — isto é, sem ser compensada pela Esquerda. Mas é Keynes e os anos 1930, não o ‘neoliberalismo’ e os anos 1970, que estabelecem os termos da subordinação do capital ao planejamento macroeconômico.

  1. É Marx, junto com Land, que continua a ser o pensador aceleracionista paradigmático. Ao contrário da crítica bastante familiar, e mesmo ao comportamento de alguns marxianos contemporâneos, devemos lembrar que o próprio Marx usou as mais avançadas ferramentas teóricas e dados empíricos disponíveis, na tentativa de entender e transformar completamente seu mundo. Ele não foi um pensador que resistiu à modernidade, mas antes um que procurou analisar e intervir dentro dela, compreendendo que apesar de toda sua exploração e corrupção, o capitalismo permanecia como o mais avançado sistema econômico em sua época. Suas conquistas não deveriam ser revertidas, mas aceleradas para além das restrições da forma valor capitalista.

Um micro-retrato sólido. Que a ‘forma-valor’ capitalista (a quantificação formatada no comércio) possa ser descrita, de maneira realista, como uma ‘restrição’ é a proposta mais básica em jogo aqui.

  1. De fato, como Lênin escreveu no texto de 1918, intitulado “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”: O socialismo é inconcebível sem a engenharia capitalista de larga escala baseada nas últimas descobertas da ciência moderna. É inconcebível sem a organização estatal planificada que mantém dezenas de milhões de pessoas na observância mais estrita de um padrão unificado de produção e distribuição. Nós, marxistas, sempre falamos disso, e não vale a pena perder dois segundos que seja falando com pessoas que não entendem nem mesmo isso (anarquistas e uma boa parte dos revolucionários da esquerda socialista).

Tal adesão ao princípio do planejamento central é esclarecedora

  1. Como Marx sabia, o capitalismo não pode ser identificado como o agente da verdadeira aceleração. [Argumento?] Da mesma forma, a avaliação de políticas de esquerda como antitéticas à aceleração tecnossocial também é, pelo menos em parte, uma deturpação grave. [OK, contanto que seja o ‘ideal desconhecido’ da política de Esquerda do qual estejamos falando] De fato, se a esquerda política tiver um futuro, ele deve ser um que abraça ao máximo essa tendência aceleracionista suprimida.

A frase final nessa seção é, de uma só vez, crucial e escorregadia. O que é — de maneira prática — "abraçar" uma tendência? Como e por quê essa tendência foi "suprimida"? "Ter" ou perder um futuro seriam coisas interessantes, então é o futuro que vem a seguir…

Original.