Aleatoriedades sobre a Redecoração o Regime

Qual sortudo vai ficar com a culpa?

Aqui em Shanghai, recebemos os resultados da eleição presidencial dos EUA na quarta-feira de manhã, fazendo desta a última chance de se aventurar em previsões incautas. Quem vai conseguir se apoderar do cálice envenenado e assumir a responsabilidade pelo colapso financeiro dos Estados Unidos da América?

Sinta o ódio. A negatividade reina suprema nessa eleição, com motivações opositivas ou defensivas quase totalmente purificadas de contaminação positiva. De acordo com a The Economist, anúncios políticos negativos representaram inéditos 90% do total. As palavras do comentador Subotai Bahadur no PJ Media destilam o sentimento perfeitamente: “Romney não era minha primeira, segunda ou terceira escolha, mas eu me rastejaria sobre vidro moído para votar nele”. A ser ternamente relembrada como a ‘eleição do vidro moído‘.

O Caminho da Salamandra. O Urbano Futuro não está inclinado a ridicularizar o mormonismo como esquisito (ser esquisito é o propósito das religiões), mas por certo há implicações culturais significativas na inauguração de um presidente mórmon em uma época incomumente apocalíptica. A fé mórmon é a versão de ficção científica da religião abraâmica, estendendo uma ponte evolutiva do homem até Deus – um caminho de divinização prática. Nenhuma surpresa, então, em se descobrir que há uma Associação Transhumanista Mórmon. Quando combinada com a irreverência que se prende a qualquer administração decadente e destruída pelo caos, poderia ficar seriamente divertido… mas aí perderíamos a versão clássica da Catedral II (O Retorno dos Clérigos), substituída por um remake estranho. Os eleitores precisam escolher seu sabor de vidro moído com cuidado.

Motivo do profeta. No Zero Hedge, teórico dos ciclos geracionais de Strauss & Howe, Jom Quinn, se agarra ao tema apocalíptico. Ele argumenta que – à beira do ‘Quarto Giro’ – a idade de Mitt Romney, que o coloca na ‘geração dos profetas’, faz com que ele tenha chances de liderar a superpotência global ao Armagedom (então temos isso pelo que esperar).

Previsões incautas?

(1) Descontar a desonestidade sistemática da mídia aponta para uma vitória substancial de Romney.

(2) Vencer essa vai ter sido a coisa mais estúpida que o partido estúpido jamais fez.

Original.

Nêmesis

Apostando tudo que o cassino vai queimar

A Family Radio de Harold Camping avisou seus ouvintes para que esperassem alguns eventos incomumente dramáticos na primavera:

Pela graça e tremenda misericórdia de Deus. Eles está nos dando um aviso antecipado sobre o que Ele está prestes a fazer. No Dia do Julgamento, 21 de maio de 2011, este período de 5 meses de horrível tormento começará para todos os habitantes da terra. Será no 21 de maio que Deus levantará todos os mortos que já morreram de suas covas. Terremotos devastarão todo o mundo, já que a terra não mais ocultará seus mortos (Isaías 26:21). As pessoas que morreram como indivíduos salvos experimentarão a ressurreição de seus corpos e imediatamente deixarão este mundo para ficarem para sempre com o Senhor. Aqueles que morreram sem salvação serão erguidos também, mas apenas para ter seus corpos sem vida espalhados pela superfície de toda a terra. A morte estará em todo lugar.

Claramente, previsões podem ser um negócio perigoso.

Ainda assim, como Karl Popper observou a respeito de teorias científicas, previsões falsificáveis também servem a um propósito valioso – até mesmo indispensável. Qualquer modelo da realidade que seja capaz de fazer previsões específicas ganha uma credibilidade a que ‘visões de mundo’ mais vagas não têm direito, embora ao preço de uma vulnerabilidade radical à desvalorização, caso suas antecipações se provem infundadas.

De forma muito similar ao Marxismo, o Libertarianismo da teoria econômica da Escola Austríaca combina expectativas históricas (de maior ou menor exatidão) com um núcleo de compromissos filosóficos, políticos e até mesmo emocionais que está comparativamente imunizado contra a refutação empírica. Tanto o Marxismo quanto o Austrolibertarianismo são ideologias grandes e altamente variegadas, com histórias complicadas, que expressam um descontentamento profundo com a ordem dominante do mundo moderno e estão propensas a tentações utópicas. Ambas são doutrinas político-morais (frequentemente indignadas) extrapoladas de maneiras muito diferentes dos direitos de propriedade da lei natural lockeana (ao seu próprio corpo e à sua atividade produtiva). Ambas atraem um amplo espectro de seguidores, de acadêmicos sóbrios a defensores revolucionários desesperados, que vêem, no desenrolar do drama da história, a possibilidade de uma vindicação definitiva (como os fiéis das teologias milenaristas sempre fizeram e – como o caso de Camping demonstra – continuam a fazer).

As raízes ocidentais tanto do Marxismo quanto do Austrolibertarianismo chegam até a escatologia redentora judaica e à tragédia grega (talvez seja digno de nota que Karl Marx e Ludwig von Mises compartilharam características biográficas intrigantes, incluindo origens germano-judaicas altamente assimiladas, mergulhadas na alta cultura européia). O Capitalismo-Estatista é retratado como o anti-herói Satânico-Prometeico de uma narrativa épica, que descreve uma violação sustentada da justiça se descobrindo responsabilizada em momento apocalíptico final que dá significado à história e uma hubris aparentemente irrestrita que encontra sua eventual nêmesis. O elevado é trazido abaixo, através de uma crise cujo mero prospecto oferece uma satisfação psicológica esmagadora e, assim, um extraordinário apego emocional.

Desde os anos 1980, o Marxismo tem tendido a se retirar do modo preditivo. Seus entusiastas sem dúvida continuam comprometidos com o prospecto de uma crise terminal do capitalismo, talvez até mesmo uma que seja iminente, mas a profecia Marxista parece tímida e incerta hoje, mesmo sob condições de um deslocamento econômico global incomum. Os Austrolibertários, por outro lado, estão sendo atraídos para um ramo profético – possivelmente contra sua vontade – com consequências incalculáveis para sua credibilidade futura. Sua suposição fundamental, de que governos são, por essência, incompetentes e desqualificados para administrar os sistemas monetários exigidos pelas economias avançadas, os leva uma conclusão quase inescapável: hiperinflação.

A hiperinflação poderia ser o único exemplo econômico de uma verdadeira singularidade: uma aproximação hiperbólica ao infinito (em tempo finito), produzindo um descontinuidade pontual. Quando a hiperinflação ocorre, ela escala rapidamente na direção de um limite firme, onde o dinheiro morre. Na esfera econômica, é o exemplo insuperável da incompetência de um regime. Como os Austrolibertários – cujas inclinações apocalípticas são equiparáveis apenas ao seu desdém pela autoridade política – não poderiam estar irresistivelmente atraídos por ela?

O blog Shadow Government Statistics de John Williams não é facilmente caracterizado como um site Austrolibertário ferrenho (Williams se descreve como um “conservador Republicano com uma inclinação libertária”), mas o prognóstico delineado cuidadosamente em seu Hyperinflation Special Report (2011) exemplifica a tendência a prever uma nêmesis iminente para a política monetária de comando-e-controle. Williams se subscreve de todo coração à certeza austríaca de que ’empurrar com a barriga’ – a característica central da política macroeconômica keynesiana – garante uma eventual catástrofe, e ‘eventual’ acabou de ficar muito mais perto. A nêmesis está para vencer.

Tanto o governo federal quando o Banco Central demonstraram que não tolerarão um colapso sistêmico e uma grande deflação, como vistos durante a Grande Depressão. …esses riscos estão sendo enfrentados, e serão enfrentados, a qualquer custo que possa ser coberto pela criação ilimitada de novo dinheiro. Era uma escolha do diabo, mas a escolha foi feita. Intervenções sistêmicas extremas e medidas formais para depreciar o dólar americano através da criação efetiva ilimitada de dinheiro, para cobrir as necessidades sistêmicas e as obrigações do governo, empurraram o momento de um colapso sistêmico – que se ameaçou em setembro de 2008 – diversos anos para o futuro. O custo da salvação instantânea, no entanto, foi a inflação. Um eventual colapso sistêmico é inevitável nesse ponto, mas será em uma grande depressão hiperinflacionária, em vez de uma deflacionária.

Williams não tem medo de cravar algumas datas, com 2014 proposto como o limite externo de possibilidade – e antes é mais provável:

No momento, é a Administração Obama que tem que considerar abandonar o padrão de dívida (hiperinflação) e começar de novo. Ainda assim, e Administração e muitos no Congresso tomaram ações recentes que sugerem que esperam apenas empurrar o dia do ajuste das crises econômica e sistêmica de solvência até depois da eleição presidencial de 2012. Eles não têm esse tempo

Como ele elabora:

As ações já tomadas para conter a crise de solvência sistêmica e para estimular a economia (que não funcionaram), mais o que deve ser um renovado impacto devastador da contração econômica inesperada sobre as receitas tributárias, prepararam o terreno para uma crise muito antes. Os riscos são altos de que a hiperinflação comece a romper nos meses adiante; ela provavelmente não pode ser evitada para além de 2014; pode já estar começando a se desenrolar.

É neste ambiente de rápida deterioração fiscal e de necessidades de financiamento massivas relacionadas que o dólar americano permanece aberto a um rápido e massivo declínio, junto com um dumping de Títulos do Tesouro dos EUA domésticos e estrangeiros. O Banco Central seria forçado a monetizar somas ainda mais significantes da dívida do Tesouro, desencadeando as fases iniciais de um inflação monetária.

Sob tais circunstâncias, os déficits atuais de vários trilhões de dólares rapidamente alimentariam um ciclo vicioso e auto-alimentador de desvalorização monetária e hiperinflação. Com a economia já em depressão, o início da hiperinflação rapidamente empurraria a economia para uma grande depressão, uma vez que rupturas vindas de uma inflação incontida provavelmente levarão a atividade comercial normal a parar.

O que acontece depois qualquer um pode especular.

A destruição hiperinflacionária da moeda de reserva do mundo seria um evento decisivo. A mera possibilidade de tal ocorrência divide o conjunto de potenciais futuros entre dois cursos. Em um, no qual o dólar americano sobrevive, o alarmismo Austrolibertário é humilhado, a competência econômica do governo dos EUA é – de maneira geral – confirmada, e os princípio da produção de moeda fiduciária e dos bancos centrais são reforçados, junto com seus apoiadores naturais entre os macroeconomistas anti-deflacionários neo-keynesianos. No outro, os Austrolibertários dançam nas cinzas do dólar, metais preciosos substituem o papel fiduciário, bancos centrais sofrem um ataque político fulminante, e o papel econômico do governo em geral fica sujeito a uma grande investida por livre mercadistas energizados. Pelo menos, é com isso que um universo justo ou uma aposta leal se pareceriam.

Apostar em um universo justo poderia ser o grande erro, contudo – e essa é uma tentação que a grande narrativa moralista Austrolibertária acha difícil de evitar. Em um universo moralmente indiferente, a Nêmesis não é redentora, e toda a aposta é uma Aposta de Pascal inversa, com desvantagens de todos os lados. Faça uma brava previsão de hiperinflação e ou você perde, ou você perde – neo-keynesianos regojizantes, maior endividamento e um governo mais gordo de um lado, ou alguma espécie ainda não consolidada de horror neo-totalitário do outro. (É digno de nota que uma turnê pela história dos regimes pós-hiperinflacionários não passa por muitos exemplos de repúblicas comerciais laissez-faire.)

Então, o dólar vai morrer? Bastante possivelmente. E aí as coisas poderia ficar realmente sórdidas – mais Harold Camping do que Ludwig von Mises: “corpos sem vida espalhados pela superfície de toda a terra. A morte estará em todo lugar.”

Original.