O Iluminismo Sombrio, Parte 4e

Parte 4e: História transcodificada

Democracia é o oposto de liberdade, quase inerente ao processo democrático é que ele tende na direção de menos liberdade, em vez de mais, e a democracia não é algo que pode ser consertado. A democracia está inerentemente quebrada, assim como o socialismo. A única maneira de consertá-la é romper com ela.
Frank Karsten

O historiador (principalmente da ciência) Doug Fosnow pediu que os condados “vermelhos” dos EUA se separassem dos “azuis”, formando uma nova federação. Isso foi recebido com muito ceticismo pela audiência, que notou que a federação “vermelha” não ficaria com praticamente nenhum litoral. Doug realmente pensou que uma secessão dessas tinha alguma probabilidade de ocorrer? Não, ele admitiu alegremente, mas qualquer coisa seria melhor do que a guerra racial que ele acha provável que ocorra, e é dever dos intelectuais propor possibilidade menos horríveis.
John Derbyshire

Assim, em vez de por meio de uma reforma de cima para baixo, sob as atuais condições, sua estratégia deve ser a de uma revolução de baixo para cima. A princípio, a compreensão dessa visão pareceria tornar a tarefa de uma revolução social liberal-libertária impossível, pois isso não implica que ter-se-ia que persuadir uma maioria do público a votar pela abolição da democracia e pôr um fim a todos os impostos e legislações? E isso não é pura fantasia, dado que as massas são sempre estúpidas e indolentes, ainda mais dado que a democracia, como explicado acima, promove a degeneração moral e intelectual? Como alguém pode esperar que uma maioria de pessoas cada vez mais degeneradas, acostumadas com o “direito” de votar, jamais renunciasse voluntariamente à oportunidade de saquear a propriedade alheia? Colocado desta maneira, tem-se que admitir que o prospecto de uma revolução social deve, de fato, ser considerado como virtualmente nulo. Em vez disso, é apenas com base em uma reconsideração, ao considerar a secessão como uma parte integral de qualquer estratégia de baixo para cima, que a tarefa de uma revolução liberal-libertária parece menos do que impossível, mesmo que ainda continue sendo intimidadora.
Hans-Herman Hoppe

Concebida de maneira genérica, a modernidade é uma condição social definida por uma tendência integral, resumida como taxas de crescimento econômico sustentadas que excedem os aumentos de população e, assim, marcam uma escapada da história normal, aprisionada dentro da armadilha malthusiana. Quando, no interesse da apreciação desapaixonada, a análise é restrita aos termos deste padrão quantitativo básico, ela suporta uma subdivisão nos componentes positivo (crescimento) e negativo da tendência: contribuições tecno-industriais (científicas e comerciais) à aceleração do desenvolvimento, por um lado, e as contra-tendências sócio-políticas à captura do produto econômico por parte de interesses especiais de rent-seeking democraticamente empoderados (demosclerose), por outro. O que o liberalismo clássico dá (a revolução industrial), o liberalismo maduro leva embora (por meio do cancerígeno estado de intitulações). Na geometria abstrata, isso descreve uma curva em S de fuga auto-limitante. Assim como um drama de liberação, é uma promessa quebrada.

Concebida de maneira particular, como uma singularidade ou coisa real, a modernidade tem características etno-geográficas que complicam e qualificam sua pureza matemática. Ela veio de algum lugar, se impôs de maneira mais ampla e levou os vários povos do mundo a uma extraordinária gama de novas relações. Estas relações eram caracteristicamente ‘modernas’ se envolviam um transbordamento dos limites malthusianos anteriores, permitiam a acumulação de capital e iniciavam novas tendências demográficas, mas elas reuniam grupos concretos em vez de funções econômicas abstratas. Pelo menos em aparência, portanto, a modernidade foi algo feito por pessoas de um certo tipo com – e não incomumente a (ou mesmo contra) – outras pessoas, que eram conspicuamente diferentes delas. No momento em que hesitava no declive de desvanecimento da curva em S, no começo do século XX, a resistência às suas características genéricas (‘alienação capitalista’) havia se tornado quase inteiramente indistinguível da oposição à sua particularidade (‘imperialismo europeu’ e ‘supremacia branca’). Como consequência inevitável, a auto-consciência modernista do núcleo etno-geográfico do sistema deslizou em direção ao pânico racial, em um processo que só foi reprimido pelo surgimento e imolação do Terceiro Reich.

Dada a tendência inerente da modernidade à degeneração ou auto-cancelamento, três prospectos amplos se abrem. Estes não são estritamente exclusivos e não são, portanto, verdadeiras alternativas, mas, para propósitos esquemáticos, é útil apresentá-los como tal.

(1) Modernidade 2.0. A modernização global é revigorada a partir de um novo núcleo etno-geográfico, liberado das estruturas degeneradas de seu predecessor eurocêntrico, mas sem dúvida confrontando tendências de longo prazo de um caráter igualmente mortuário. Este é de longe o cenário mais encorajante e plausível (de uma perspectiva pró-modernista) e, se a China permanecer, mesmo que aproximadamente, em seu curso atual, será certamente realizado. (A Índia, infelizmente, parece ter ido muito longe em sua versão nativa da demosclerose para competir à sério.)

(2) Pós-Modernidade. Equivalendo essencialmente a uma nova idade das trevas, na qual os limites malthusianos se reimpõem brutalmente, este cenário assume que a Modernidade 1.0 globalizou tão radicalmente sua própria morbidez que todo o futuro do mundo colapsa ao seu redor. Se a Catedral ‘vencer’, estas são as consequências.

(3) Renascença Ocidental. Para renascer é primeiro necessário morrer, então, quanto mais forte a ‘reinicialização forçada’, tanto melhor. Crise abrangente e desintegração oferecem as melhores chances (mais realisticamente como um subtema da opção #1).

Visto que a concorrência é boa, uma pitada de Renascença Ocidental apimentaria as coisas, mesmo que – como é extremamente provável – a Modernidade 2.0 seja a principal rodovia do mundo para o futuro. Isso depende do Ocidente parar e reverter basicamente tudo que vem fazendo há mais de um século, com exceção apenas de inovações científicas, tecnológicas e empresariais. É aconselhável manter a disciplina retórica dentro de um modo estritamente hipotético, porque a possibilidade de qualquer uma dessas coisas é profundamente colorida pela incredulidade:

(1) Substituição da democracia representativa pelo republicanismo constitucional (ou por mecanismos governamentais anti-políticos ainda mais extremos).

(2) Redução massiva do governo e seu confinamento rigoroso a funções centrais (no máximo).

(3) Restauração da moeda lastreada (moedas de metais preciosos e notas de depósito desses metais) e abolição do banco central.

(4) Desmantelamento da discrição monetária e fiscal do estado, abolindo assim a macroeconomia prática e liberando a economia autônoma (ou ‘catalática’). (Este ponto é redundante, uma vez que ele se segue rigorosamente de 2 & 3 acima, mas é o verdadeiro prêmio e, logo, digno de enfatização.)

Há mais – isto é, menos política – mas já está absolutamente claro que nada disso vai acontecer aquém de um cataclisma existencial da civilização. Pedir que os políticos limitem seus próprios poderes é um não-começo, mas nada a menos nem remotamente leva na direção certa. Este, contudo, não é sequer o problema mais amplo ou profundo.

A democracia poderia começar como um mecanismo procedural defensável para se limitar o poder do governo, mas ela rápida e inexoravelmente se desenvolve em algo bastante diferente: uma cultura de roubo sistemático. Tão logo os políticos tenham aprendido a comprar apoio político com o ‘dinheiro público’ e tenham condicionado os eleitorados a abraçar a pilhagem e o suborno, o processo democrático se reduz à formação das ‘coalizões distributivas’ (de Mancur Olson) – maiorias eleitorais cimentadas juntas pelo interesse comum em um padrão coletivamente vantajoso de roubo. Pior ainda, uma vez que as pessoas não são, na média, muito brilhantes, a escala de depredação disponível para o establishment político de longe excede até mesmo o saqueamento insano que está aberto ao escrutínio público. Pilhar o futuro, através de degradação monetária, acúmulo de dívidas, destruição do crescimento e retardamento tecno-industrial, é especialmente fácil de ocultar e, assim, confiavelmente popular. A democracia é essencialmente trágica porque fornece à população uma arma para se destruir, uma que sempre é avidamente aproveitada e usada. Ninguém jamais diz ‘não’ para coisas de graça. Quase ninguém sequer vê que não existem coisas de graça. A ruína cultural total é a conclusão necessária.

Dentro da fase final da Modernidade 1.0, a história americana se torna a narrativa mestra do mundo. É ali que o grande transmissor cultural abraâmico culmina no neo-puritanismo secularizado da Catedral, conforme estabelece sua Nova Jerusalém em Washington DC. O aparato do propósito messiânico-revolucionário é consolidado no estado evangélico, que está autorizado, por quaisquer meios necessários, a instalar uma nova ordem mundial de fraternidade universal, em nome da igualdade, dos direitos humanos, da justiça social e – sobretudo – da democracia. A confiança moral absoluta da Catedral garante a busca entusiasta de um poder centralizado irrestrito, otimamente ilimitado em sua penetração intensiva e em seu escopo extensivo.

Com uma ironia completamente escondida da própria prole dos queimadores de bruxas, a ascensão dessa corte de sombrios fanáticos morais a alturas previamente inescaláveis de poder global coincide com a decadência da democracia de massas a profundidades previamente inimagináveis de corrupção gulosa. A cada cinco anos, a América rouba-se de si mesma novamente e se revende em troca de apoio político. Essa coisa de democracia é fácil – você simplesmente vota no cara que lhe promete mais coisas. Um idiota conseguiria fazê-lo. Na verdade, ela gosta de idiotas, os trata com aparente gentileza e faz tudo o que pode para fabricar mais deles.

A tendência implacável da democracia à degeneração apresenta um caso implícito a favor da reação. Uma vez que cada um dos principais limiares de ‘progresso’ sócio-político levou a civilização ocidental em direção a uma ruína abrangente, um retraçamento de seus passos sugere uma reversão da sociedade de pilhagem a uma ordem mais antiga de auto-suficiência, indústria e comércio honestos, aprendizado pré-propagandístico e auto-organização cívica. As atrações desta visão reacionária são evidenciadas pela voga de vestuário, símbolos e documentos constitucionais do século XVII entre a minoria substancial (Tea Party) que claramente vê o curso desastroso da história política americana.

O alarme de ‘raça’ já soou na sua cabeça? Seria surpreendente se não tivesse. Cambaleie de volta, em imaginação, até antes de 2008, e o sussurro tenso da consciência já está questionando seus preconceitos contra revolucionários quenianos e professores marxistas negros. Continue em reverso até a era da Grande Sociedade / Direitos Civis e os avisos alcançam um tom histérico. É perfeitamente óbvio, neste ponto, que a história política americana progrediu ao longo de trajetórias gêmeas e entrelaçadas, que correspondem à capacidade e à legitimação do estado. Lançar dúvidas sobre sua escala e escopo é, simultaneamente, disputar a santidade de seu propósito e a necessidade moral-espiritual de que ele comande quaisquer recursos e imponha quaisquer restrições legais que possam ser requeridas para cumpri-lo. Mais especificamente, recuar da magnitude do Leviatã é demonstrar insensibilidade à imensidão – de fato, quase infinitude – de culpa racial herdada e ao único imperativo categórico sobrevivente da modernidade senescente – o governo precisa fazer mais. A possibilidade, de fato quase certeza, de que as consequências patológicas do ativismo governamental crônico tenham há muito suplantado os problemas que ele originalmente visava é uma contenção tão completamente mal-adaptada à época da religião democrática que sua insignificância prática é garantida.

Mesmo na esquerda, seria extraordinário encontrar muitos que genuinamente acreditam, após continuada reflexão, que o motor primário da expansão e centralização do governo tenha sido o desejo ardente de fazer o bem (não que intenções importem). Ainda assim, conforme as trajetórias gêmeas se cruzam, tamanho é o choque elétrico do drama moral, saltando o fosso entre o Gólgota racial e o Leviatã intrusivo, que o ceticismo é suspenso, e o grande mito progressista, instalado. A alternativa a mais governo, fazendo cada vez mais, era ficar lá, negligentemente, enquanto eles linchavam outro negro. Esta proposição contém todo o conteúdo essencial da educação progressista americana.

As trajetórias históricas gêmeas de capacidade e propósito estatal podem ser concebidas como um protocolo de tradução, que permite que qualquer restrição recomendada ao poder do governo seja ‘decodificada’ como obstrução maligna da justiça racial. Este sistema de substituições funciona tão suavemente que fornece todo um vocabulário de ‘code-words‘ ou ‘dog-whistles‘ (bipartidários) – ‘welfare’, ‘liberdade de associação’, ‘direitos dos estados’ – garantindo que qualquer elocução inteligível na Dimensão Política Principal (esquerda-direita) ocupe um registro duplo, semi-saturado de evocações raciais. A regressão reacionária cheira a frutos estranhos.

…e isso é antes de se sair do calamitoso século XX. Não foi a Era dos Direitos Civis, mas a ‘Guerra Civil Americana’ (nos termos dos vencedores) ou ‘Guerra entre os Estados’ (naqueles dos vencidos) que primeiro transcodificou indissoluvelmente a questão prática do Leviatã com a dialética racial (negro/branco), estabelecendo o centro de junção do antagonismo político e retórico subsequente. O passo primário indispensável em compreender esta fatalidade serpenteia ao longo de uma estranha diagonal entre o relato estatista mainstream e o revisionista, porque a conflagração que consumou a nação americana no início dos anos 1860 foi inteiramente, mas não exclusivamente, sobre a emancipação da escravidão e sobre direitos dos estados, sem nenhuma ‘causa’ sendo redutível a outra ou suficiente para suprimir as duradouras ambiguidades da guerra. Embora exista algum número de ‘liberais’ felizes em celebrar a consolidação de um poder governamental centralizado na triunfante União, e, simetricamente, um número (bem menor) de neo-confederados apologistas da instituição da escravidão nos estados do sul, nenhuma dessas posições não conflituosas capturam o legado cultural dinâmico de uma guerra através dos códigos.

A guerra é um nó. Ao dissociar, na prática, a liberdade em emancipação e independência e então arremessar uma contra a outra em meia década de carnificina, azul contra cinza, estabeleceu-se que a liberdade seria quebrada no campo de batalha, qualquer que fosse o resultado do conflito. A vitória da União determinou que o sentido emancipatório da liberdade prevaleceria, não apenas na América, mas ao redor do mundo, e o eventual reino da Catedral foi garantido. Não obstante, o esmagamento da segunda guerra de secessão da América fez piada da primeira. Se a instituição da escravidão deslegitimava uma guerra de independência, o que sobrevivia de 1776? A coerência moral da causa da União exigia que os fundadores fossem reconcebidos como proprietários de escravos brancos patriarcais politicamente ilegítimos e a história americana comburida na educação progressista e nas guerras culturais.

Se a independência é a ideologia dos donos de escravos, a emancipação requer a destruição programática da independência. Dentro de uma história transcodificada, a efetuação da liberdade é indistinguível de sua abolição.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4b

Parte 4b: Observações Desagradáveis

Embora famílias negras e pais de garotos não sejam os únicos que se preocupam com a segurança dos adolescentes, Tillman, Brown e outros pais dizem que criar garotos negros é talvez o aspecto mais estressantes de ser pai, porque estão lidando com uma sociedade que é temerosa e hostil em relação a eles, simplesmente por causa da cor de sua pele.

“Não acredita? Fique um dia em meu lugar”, disse Brown.

Brown disse que, aos 14, seu filho está naquela idade crítica em que ele está sempre preocupado com sua segurança por causa da criação de perfis.

“Eu não quero assustá-lo ou fazê-lo generalizar as pessoas, mas, historicamente, nós homens negros temos sido estigmatizados como os perpetradores de crimes e, onde quer que estejamos, somos suspeitos”, disse Brown.

Pais negros que não deixam esse fato claro, ele e outros disseram, o fazem arriscando seus filhos.

“Qualquer pai afro-americano que não esteja tendo essa conversa está sendo irresponsável”, Brown disse. “Eu vejo toda esta coisa como uma oportunidade para falarmos francamente, abertamente e honestamente sobre relações raciais.”
– Gracie Bonds Staples (Star-Telegram)

Quando as comunidades resistem a um influxo de titulares de vales-habitação da Seção 8 vindos do centro da cidade, digamos, elas estão reagindo esmagadoramente a comportamentos. A cor da pele é um indicador desse comportamento. Se os negros do centro da cidade se comportassem como Asiáticos — atulhando tanto conhecimento em seus filhos quanto conseguem colocar em seus crânios — a persistente cautela em relação aos negros de renda mais baixa, que muitos americanos inquestionavelmente nutrem, desapareceria. Existem racistas irremediáveis entre os americanos? Por certo. Eles vêm em todas as cores, e deveríamos lamentá-los todos. Mas a questão da raça nos Estados Unidos é mais complexa do que companhias educadas geralmente se permissão de expressar.
– Heather Mac Donald (City Journal)

“Vamos falar sobre o elefante na sala. Eu sou negra, OK?” disse a mulher, recusando-se a se identificar porque antecipou uma reação devido à sua raça. Ela se inclinou para olhar para o repórter direto nos olhos. “Haviam garotos negros roubando casas nesta vizinhança”, ela disse. “É por isto que George suspeitou de Trayvon Martin.”
— Chris Francescani (Reuters)

“Em suma, a dialética pode ser definida como a doutrina da unidade dos opostos. Isto incorpora a essência da dialética”, Lenin observa, “mas isso requer explicações e desenvolvimento”. Isto é: mais discussão.

A sublimação (Aufhebung) do marxismo no leninismo é uma eventualidade que é melhor compreendida de maneira crua. Ao forjar um política comunista revolucionária de ampla aplicação, quase inteiramente divorciada das condições materiais maduras ou das contradições sociais avançadas que foram anteriormente antecipadas, Lenin demonstrou que a tensão dialética coincidia, exaustivamente, com sua politização (e que toda referência a uma ‘dialética da natureza’ não é mais do que uma subordinação retrospectiva do domínio científico a um modelo político). Dialéticas são tão reais quanto são feitas ser.

A dialética começa com uma agitação política e não se estende para além de sua ‘lógica’ prática, antagonista, faccional e de coalizão. Ela é a ‘superestrutura’ por si só, ou contra a limitação natural, apropriando-se de maneira prática da esfera política, em sua extensão inteligível mais ampla, como uma plataforma para a dominação social. Onde quer que haja discussão, há uma oportunidade não resolvida de se governar.

A Catedral encarna estas lições. Ela não tem qualquer necessidade de esposar o leninismo, ou dialética operacional comunista, porque não reconhece nada além. Dificilmente há um fragmento da ‘superestrutura’ social que tenha escapado da reconstrução dialética através de antagonismo articulado, polarização, estruturação binária e reversão. Dentro da academia, da mídia e mesmo das belas artes, a super-saturação política prevaleceu, identificando mesmo os elementos mais minúsculos da percepção com uma ‘crítica social’ conflituosa e com a teologia igualitária. O comunismo é a implicação universal.

Mais dialética é mais política, e mais política significa ‘progresso’ – ou migração social para a esquerda. A produção de concordância pública leva apenas em uma direção e, dentro da discordância pública, tal ímpeto já existe em embrião. É apenas na ausência de concordância e de uma discordância publicamente articulada, ou seja, na não-dialética, no não-argumento, na diversidade sub-política ou iniciativa politicamente descoordenada que o refúgio ‘direitista’ da ‘economia’ (e, de maneira mais ampla, da sociedade civil) será encontrado.

Quando nenhuma concordância é necessária ou coercitivamente exigida, a liberdade negativa (ou ‘libertária’) ainda é possível, e este ‘outro’ não argumentativo da dialética é facilmente formulado (mesmo que, em uma sociedade livre, ele não precise ser): Faça suas próprias coisas. Bastante claramente, este imperativo irresponsável e negligente é politicamente intolerável. Ele coincide exatamente com a depressão esquerdista, com o retrocesso ou a despolitização. Nada clama mais urgentemente por ser contra argumentado.

No extremo oposto está o êxtase dialético da justiça teatral, na qual a estrutura argumentativa dos procedimentos legais é associada à divulgação por meio da mídia. O entusiasmo dialético encontra sua expressão definitiva em um drama de tribunal que combina advogados, jornalistas, ativistas comunitários e outros agentes da superestrutura revolucionária na produção de um julgamento-show. Contradições sociais são encenadas, casos antagonistas articulados, e uma resolução institucionalmente esperada. Isto é Hegel para o horário nobre da televisão (e agora para a Internet). É a maneira em que a Catedral compartilha sua mensagem com as pessoas.

Às vezes, em suas paixão impaciente pelo progresso, essa mensagem pode tropeçar em si mesma, porque, muito embora os agentes da Catedral sejam infinitamente razoáveis, eles são cada vez menos sensatos, muitas vezes surpreendentemente incompetentes e estão propensos a cometer erros. Isto deve ser esperado com bases teológicas. Conforme o estado se torna Deus, ele se degenera em imbecilidade, no modelo do santo tolo. A política midiática do espetáculo de Trayvon Martin fornece um exemplo pertinente.

Nos Estados Unidos, como em qualquer outro país grande, muitas coisas acontecem todos os dias, exibindo inúmeros padrões de obscuridade variante. Por exemplo, em um dia médio, há aproximadamente 3400 crimes violentos, incluindo 40 assassinatos, 230 estupros, 1000 assaltos e 2100 agressões agravadas, ao lado de 25.000 crimes não violentos de propriedade (roubos e furtos). Muito poucos destes serão amplamente divulgados ou aproveitados como educacionais, exemplares e representativos. Mesmo que a mídia não estivesse inclinada a uma seleção baseada em narrativa das ‘boas estórias’, o simples volume de incidentes compeliria a algo do tipo. Dada esta situação, é quase inevitável que as pessoas perguntem: Por que estão nos contando isto?

Quase tudo sobre a morte de Trayvon Martin é controverso, exceto pela motivação da mídia. Sobre este tópico, há quase uma unanimidade. O significado ou a mensagem pretendida à estória do caso dificilmente poderia ter sido mais transparente: A paranoia racista branca torna a América perigosa para pessoas negras. Ele, assim, ensaiaria a dialética do terror racial (seu medo é assustador), projetada – como sempre – para converter o pesadelo social recíproco da América em uma peça de moralidade unilateral, alocando o pavor legítimo exclusivamente a um lado da principal divisão racial do país. Parecia perfeito. Um vigilante branco malignamente enganado atira em uma criança negra inocente, justificando o medo negro (‘a conversa’) enquanto expõe o pânico branco como um psicose assassina. Esta é uma estória de tamanho significado arquetípico progressista que não pode ser contada vezes demais. Na verdade, é boa demais para ser verdadeira.

Logo se tornou evidente, contudo, que a seleção da mídia – mesmo quando reforçada pela máquina de raiva de celebridades / ‘ativistas comunitários’ – não fora suficiente para manter a estória no script, e ambos os atores principais estavam se distanciando de seus papéis atribuídos. Se os estereótipos endossados pelos progressistas devessem ser sequer remotamente preservados, uma vigorosa edição seria exigida. Isso foi especialmente necessário porque certos leitores maus, racistas e preconceituosos do Miami Herald estavam começando a forjar uma conexão mental destruidora de narrativas entre ‘Trayvon Martin’ e ‘ferramenta de assalto’.

Quanto ao assassino, George Zimmerman, o nome dizia tudo. Ele claramente iria ser um cara pálida, desajeitado, parecido com um storm-trooper, com sorte algum tipo de cristão louco por armas e, talvez – se eles realmente achassem ouro – um tipo dos movimentos de milícia, com um histórico de homofobia e ativismo anti-aborto. Ele começou ‘branco’ – por nenhuma razão óbvia além da incompetência midiática e da programação narrativa – e depois se viu transformado em um ‘hispânico branco’ (uma categoria que parece ter sido rapidamente inovada no momento), antes de ser gradualmente deslocado ao longo de uma série de complicações étnicas cada vez mais compatíveis com a realidade, culminando na descoberta de seu bisavô afro-peruano.

No coração da Catedral, estava bem na hora de coçar a cabeça. Aqui estava o grande réu amerikkkano, sendo preparado para seu julgamento-show, o Presidente havia contribuído emocionalmente em nome da sagrada vítima, e o jogo coordenado no solo havia sido avançado à beira fervilhante de revoltas raciais, quando a mensagem começou a cair aos pedaços, em tal medida que agora ameaçava a se degenerar em um caso irritantemente irrelevante de violência de negros contra negros. Não era apenas que George Zimmerman tinha uma ancestralidade negra – o que o tornava simplesmente ‘negro’ pelos padrões construtivistas sociais da própria esquerda – ele também havia crescido amigavelmente entre pessoas negras, com duas garotas afro-americanas como “parte do lar por anos”, havia entrado em um empreendimento em conjunto com um parceiro negro, era um democrata registrado e até mesmo algum tipo de ‘organizador comunitário’…

Então, por que Martin morreu? Foi por carregar chá gelado e um pacote de Skittles sendo negro (a versão ‘o filho que Obama poderia ter tido’, aprovada pela mídia e por ativistas comunitários), por ir verificar alvos de assaltos (a versão do perfilamento racial kluxer) ou por quebrar o nariz de Zimmerman, derrubá-lo, sentar em cima dele e golpear sua cabeça repetidamente contra o calçada (a ser decidido no tribunal)? Ele era um mártir da injustiça racial, um predador social de baixo nível ou um sintoma humano da crise urbana americana? A única coisa que estava realmente clara quando os procedimentos legais começaram, além da tristeza esquálida do episódio, era que ele não estava resolvendo nada.

Para uma sensação do quão desconcertantemente a lição aprovada havia se desintegrado no momento em que Zimmerman foi acusado de assassinato em segundo grau, só é necessário ler este post do blogueiro BDH oneSTDV, que descreve os distúrbios dialéticos da direita guerreira racial.

Apesar da natureza perturbadora das “acusações” contra Zimmerman, muitos da alt-right recusam conceder a Zimmerman qualquer simpatia ou sequer ver isto como um momento seminal no reino anarco-tirano do esquerdismo moderno. De acordo com estes indivíduos, o mestiço, falante de espanhol e democrata registrado, recebeu o que estava em seu caminho – a ira da multidão negra e da elite de esquerda indiretamente apoiada pelo próprio Zimmerman. Devido ao seu histórico de votação, antecedentes multiculturais e tutelagem de jovens de minorias, eles vêem Zimmerman como emblemático do ataque da esquerda à América branca, um tipo de soldado na campanha contra a brancura americana. [Negrito no original]

A política popular do politicamente correto estava pronta para seguir adiante. Com o grande julgamento-show colapsando em desordem narrativa, era hora de refocar na Mensagem, que se danem os fatos (que se danem duplamente). ‘Jezebel‘ melhor exemplifica o tom ameaçador e vagamente histérico:

Você sabe como dizer se as pessoas negras ainda são oprimidas? Porque as pessoas negras ainda são oprimidas. Se você alega que você não é uma pessoa racista (ou, pelo menos, que você está comprometido em trabalhar para caralho para não ser uma – o que, na verdade, é o melhor que qualquer um nós pode prometer), então você tem que acreditar que as pessoas são fundamentalmente nascidas iguais. Logo, se isso é verdade, então, em um vácuo, fatores como cor da pele não deveriam ter nenhum efeito sobre o sucesso de ninguém. Certo? E, portanto, se você realmente acredita que todas as pessoas são criadas iguais, então, quando você vê que desigualdades raciais drásticas existem no mundo real, a única coisa que você poderia concluir é que alguma força externa está segurando algumas pessoas. Como… o racismo. Certo? Então, parabéns. Você acredita em racismo! A menos que você não acredite realmente que as pessoas nasçam iguais. E, se você não acredita que as pessoas nascem iguais, então você é a p**** de um racista.

Alguém “realmente acredita que as pessoas nascem iguais”, da maneira que se entende isso aqui? Acredita, isto é, não apenas que uma expectativa formal de tratamento igual é um pré-requisito da interação civilizada, mas que qualquer desvio revelado da igualdade substancial de resultado é uma indicação óbvia e inequívoca de opressão? Que isso é “a única coisa que você poderia concluir”?

No mínimo, Jezebel poderia ser parabenizada por expressar a fé progressista em sua forma mais pura, inteiramente descontaminada de sensibilidade à evidência ou à incerteza de qualquer tipo, casualmente desdenhosa de qualquer pesquisa relevante – quer existente ou meramente concebível – e supremamente confiante sobre sua própria invencibilidade moral. Se os fatos estão moralmente errados, tanto pior para os fatos – está é a única posição que poderia ser adotada, mesmo se for embasada em uma mistura de pensamento desejoso, ignorância deliberada e mentiras insultantemente infantis.

Chamar a crença na igualdade substancial humana de superstição é insultar a superstição. Pode ser injustificado acreditar em leprechauns, mas pelo menos a pessoa que mantém tal crença não está assistindo-os não existir, a cada hora de vigília do dia. A desigualdade humana, em contraste e em toda a sua multiplicidade abundante, está constantemente em exposição, conforme as pessoas exibem suas variações em gênero, etnia, atratividade física, tamanho e forma, força, saúde, agilidade, charme, humor, sagacidade, diligência e sociabilidade, entre outras inúmeras características, traços, habilidades e aspectos de sua personalidade, algumas de forma imediata e conspícua, algumas apenas lentamente, ao longo do tempo. Absorver mesmo a mais mínima fração disso tudo e concluir, da única maneira possível, que ou não é nada em absoluto, ou que é um ‘construto social’ e um índice de opressão, é puro delírio gnóstico: um comprometimento, para além de toda evidência, com a existência de um mundo verdadeiro e bom, velado pelas aparências. As pessoas não são iguais, elas não se desenvolvem igualmente, suas metas e realizações não são iguais, e nada pode torná-las iguais. A igualdade substancial não tem qualquer relação com a realidade, exceto enquanto sua negação sistemática. Violência em uma escala genocida é necessária para sequer se aproximar do programa igualitário prático e, se qualquer coisa menos ambiciosa for tentada, as pessoas a contornam (algumas de maneira mais competente que as outras).

Para tomar apenas o exemplo mais óbvio, qualquer um com mais do que um filho sabe que ninguém nasce igual (exceto, talvez, gêmeos monozigóticos e clones). Na verdade, todo mundo nasce diferente, de inúmeras maneiras. Mesmo quando – como normalmente é o caso – as implicações dessas diferenças para os resultados da vida são difíceis de prever com confiança, sua existência é inegável ou, pelo menos: sinceramente inegáveis. Claro, sinceridade, ou mesmo uma coerência cognitiva mínima, não é nem remotamente a questão aqui. A posição de Jezebel, embora impecável em sua correção política, não é apenas factualmente duvidosa, mas sim risivelmente absurda e, na verdade – estritamente falando – insana. Ela dogmatiza um negação da realidade tão extrema que ninguém poderia genuinamente manter, ou sequer entretê-la, muito menos plausivelmente explicá-la ou defendê-la. Ela é um princípio de fé que não pode ser entendido, mas apenas afirmado ou aceito, como loucura tornada lei, ou religião autoritária.

O mandamento político desta religião é transparente: Aceite a política social progressista como a única solução possível para o pecado problema da desigualdade. Este comando é um ‘imperativo categórico’ – nenhum fato possível jamais poderia miná-lo, complicá-lo ou revisá-lo. Se a política social progressista na verdade resultar em uma exacerbação do problema, a realidade ‘caída’ deve ser culpada, uma vez que o mal social é obviamente pior do que se vislumbrara anteriormente e apenas esforços redobrados na mesma direção podem esperar remediá-lo. Não pode haver nada a se aprender em questão de fé. Eventualmente, o colapso social sistemático ensina a lição que a falha crônica e a deterioração incremental não puderam comunicar. (Isso é o darwinismo social em escala macro para principiantes, e é a maneira em que a civilização acaba.)

Devido à sua excepcional correlação com uma variação substancial nos resultados sociais nas sociedades modernas, de longe a dimensão mais problemática da biodiversidade humana é a inteligência ou capacidade geral de resolução de problemas, quantificada como QI (que mede o ‘g’ de Spearman). Quando o ‘senso comum estatístico’ ou perfilamento é aplicado aos proponentes da Bio-Diversidade Humana, contudo, um outro traço significativo rapidamente é exposto: um déficit notavelmente consistente de condescendência. De fato, é amplamente aceito dentro da própria ‘comunidade’ amaldiçoada que a maior parte daqueles teimosos e esquisitos o suficiente para se educarem sobre o tópico da variação biológica humana são significantemente ‘retardados socialmente‘, com baixa inibição verbal, baixa empatia e baixa integração social, o que resulta em má adaptação crônica às expectativas do grupo. Os QEs típicos deste grupo podem ser extraídos como a raiz quadrada aproximada de seus QIs. Um autismo moderado é típico, suficiente para aproximar seus companheiros em um espírito de curiosidade natural-científica desprendida, mas não tão avançado ao ponto de compelir um desengajamento cósmico total. Estes traços, que eles próprios consideram – com base na copiosa informação técnica – como sendo substancialmente herdáveis, têm consequências sociais manifestas, que reduzem oportunidades de emprego, rendas e mesmo potencial reprodutivo. A despeito de todo o conselho terapêutico gratuito disponível no ambiente progressista, essa desagradabilidade não demonstra qualquer sinal de estar diminuindo e pode mesmo estar se intensificando. Como Jezebel mostra tão claramente, isto só pode ser um signal de opressão estrutural. Por que as pessoas desagradáveis não podem ter uma pausa?

A história é condenadora. Os ‘sociáveis’ sempre tiveram um rancor pelos desagradáveis, frequentemente declinando se casar ou fazer negócios com eles, os excluindo das atividades do grupo e de cargos políticos, os rotulando com insultos, os ostracizando e evitando. A ‘desagradabilidade’ foi estigmatizada e estereotipada em termos extremamente negativos, em tal medida que muitos dos desagradáveis buscaram rótulos mais sensíveis, tais como ‘deficientes sociais’, ou ‘sócio-atípicos’. Não raro, pessoas foram verbal ou mesmo fisicamente agredidas por nenhuma outra razão além de sua desagradabilidade radical. Mais trágico de tudo, devido à sua completa incapacidade de se relacionarem uns com os outros, os desagradáveis nunca foram capazes de se mobilizar politicamente contra a opressão social estrutural que enfrentam ou de entrar em coalizões com seus aliados naturais, tais como cínicos, refutadores, contrarianistas e aqueles que sofrem com síndrome de Tourette. A desagradabilidade ainda tem que ser libertada, embora seja provável que a Internet ‘ajude’…

Considere o ensaio em infâmia de John Derbyshire, The Talk: Nonblack Version, que foca inicialmente em sua implacável desagradabilidade e está atento à correlação negativa entre sociabilidade e razão objetiva. Como Derbyshire observa em outros lugares, as pessoas geralmente são incapazes de se diferenciar de suas identidades de grupo ou de aplicar apropriadamente generalizações estatísticas sobre grupos a casos individuais, incluindo os seus próprios. Um reificação racionalmente indefensável, mas socialmente inevitável, dos perfis de grupo é psicologicamente normal – até mesmo ‘humana’ – com o resultado de que informação estatística ruidosa e não específica é erroneamente aceita como uma contribuição para o auto-entendimento, mesmo quando informações específicas estão disponíveis.

Da perspectiva da análise racional socialmente autista e de baixo QE, isto está simplesmente equivocado. Se um indivíduo tem certas características, o fato de pertencer a um grupo que tem características médias similares ou dissimilares não tem qualquer relevância que seja. Informações diretas e determinadas sobre o indivíduo não são, em nenhum grau, enriquecidas por informações indiretas e indeterminadas (probabilísticas) sobre os grupos aos quais o indivíduo pertence. Se os resultados individuais de um teste são conhecidos, por exemplo, nenhuma compreensão adicional é fornecida por inferências estatísticas sobre os resultados do teste que poderiam ter sido esperados com base no perfilamento do grupo. Um judeu asquenaze imbecil não é menos imbecil porque ele é um judeu asquenaze. É pouco provável que freiras chinesas idosas sejam assassinas, mas uma assassina que ocorra de ser um freira chinesa idosa não é nem mais nem menos assassina do que uma que não o seja. Isto é tudo extremamente óbvio, para as pessoas desagradáveis.

Para as pessoas normais, contudo, não é óbvio de maneira alguma. Em parte, isto é porque a inteligência racional é escassa e anormal entre humanos e, em parte, porque a ‘inteligência’ social funciona com o que o resto das pessoas está pensando, ou seja, com um sentimento irracional de grupo, pouca informação, preconceitos, estereótipos e heurística. Uma vez que (quase) todas as outras pessoas estão tomando atalhos, ou ‘economizando’ razão, é apenas racional reagir defensivamente a generalizações que provavelmente serão reificadas ou inapropriadamente aplicadas – superando ou substituindo percepções específicas. Qualquer um que antecipe ser predefinido através de um identidade de grupo tem um ego-investimento expandido naquele grupo e na maneira em que ele é percebido. Uma avaliação genérica, por mais objetivamente que tenha sido alcançada, se tornará imediatamente pessoal, sob condições (mesmo bastante remotamente) normais.

A razão desagradável pode teimosamente insistir que qualquer coisa na média não pode ser sobre você, mas a mensagem não será, em geral, recebida. A ‘inteligência’ social humana não é construída dessa maneira. Mesmo comentadores supostamente sofisticados tropeçam repetidamente nas exibições mais chocantes de incompreensão estatística, sem o menor embaraço, porque o embaraço foi feito para alguma outra coisa (e quase exatamente para o oposto). A falha em entender estereótipos em sua aplicação científica ou probabilística é um pré-requisito funcional da sociabilidade, uma vez que a única alternativa à idiotice, neste aspecto, é a desagradabilidade.

O artigo de Derbyshire é digno de nota porque é bem sucedido em ser definitivamente desagradável e tem sido reconhecido como tal, apesar da incoerência espumante da maioria das réplicas. Entre as coisas que ‘a conversa’ e ‘a contra-conversa’ compartilham está uma estrutura teatral de conversação pseudo-privada feita para ser ouvida. Em ambos os casos, uma mensagem que pais são compelidos a entregar a seus filhos é encenada como o veículo de uma lição social mais ampla, visando aqueles que, por ação ou inação, criaram um mundo que é intoleravelmente perigoso para eles.

Esta forma é intrinsecamente manipuladora, o que torna mesmo a conversa ‘original’ um alvo tentador de paródias. No original, contudo, um tom de sinceridade angustiada é projetado através de uma performance deliberada de inocência (ou ignorância). Ouça filho, eu sei que isso vai ser difícil de entender… (Ó, por quê, por que estão fazendo isto conosco?). A contra-conversa, em forte contraste, funde seu drama microssocial com o discurso clinicamente não-sociável de “pesquisas metódicas nas ciências humanas” – tratando populações como unidades biogeográficas vagas com características quantificáveis, em vez de como sujeitos jurídico-políticos em comunicação. Ela ridiculariza a inocência e – por implicação – o critério da própria sociabilidade. Concordância, condescendência, não contam para nada. As estatísticas rigorosas e redundantemente compiladas dizem o que dizem e, se não conseguimos viver com isso, tanto pior para nós.

Ainda assim, mesmo para uma leitura razoavelmente simpática, ou escrupulosamente desagradável, o artigo de Derbyshire fornece bases para críticas. Por exemplo, e desde o começo, é notável que o recíproco racial de “americanos não-negros” é “americanos negros”, e não “negros americanos” (o termos que Derbyshire seleciona). Esta inversão da ordem das palavras, trocando substantivos e adjetivos, rapidamente se assenta em um padrão. Tem importância que Derbyshire exija a extensão da civilidade para qualquer “negro individual” (em vez de aos ‘indivíduos negros’)? Certamente faz diferença. Dizer que alguém é ‘negro’ é dizer algo sobre ela, mas dizer que alguém é ‘um negro’ é dizer quem ela é. O efeito é sutilmente, mas distintivamente, ameaçador, e Derbyshire é bem treinado demais, algebraicamente, para ser desculpado de observar isso. Afinal, ‘John Derbyshire é um branco’ soa igualmente estranho, assim como o faz qualquer formulação análoga, que submerge o indivíduo no gênero, a ser recuperado como uma mera instância ou exemplo.

O aspecto mais intelectualmente substantivo deste logro de incivilidade gratuita foi examinado por William Saletan e Noah Millman, que fizeram pontos muito similares, dos dois lados da divisa liberal/conservador. Ambos os autores identificam uma fissura ou incongruência metódica no artigo de Derbyshire, decorrente de seu comprometimento com a aplicação microssocial de generalizações estatísticas macrossociais. Estereótipos, por mais rigorosamente confirmados que sejam, são essencialmente inferiores ao conhecimento específico em qualquer situação social concreta, porque ninguém nunca encontra uma população.

Como um liberal de posições problemáticas, Saletan não tem escolha alguma além de recuar melodramaticamente das “conclusões de revirar o estômago” de Derbyshire, mas suas razões para fazê-lo não são consumadas por suas crise gastro-emocional. “Mas o quê, exatamente, é uma verdade estatística?” ele pergunta. “É uma estimativa de probabilidade a que você pode recorrer se você não souber nada sobre [um indivíduo em particular]. É o substituto fraco de uma pessoa ignorante para o conhecimento.” Derbyshire, com sua atenção de Aspergers à ausência de vencedores negros da Fields Medal, é “…um nerd matemático que substitui a inteligência social pela inteligência estatística. Ele recomenda cálculos de grupo em vez de se dar ao trabalho de aprender sobre a pessoa que está na sua frente”.

Millman enfatiza a inversão irônica que transforma o (desagradável) conhecimento científico social em ignorância imperativa:

Os “realistas raciais” gostam de dizer que eles são os que estão curiosos quanto ao mundo e que os tipos “politicamente corretos” são os que preferem ignorar a feia realidade. Mas o conselho que Derbyshire dá a seus filhos os encoraja a não serem curiosos demais sobre o mundo a seu redor, por medo de se machucarem. E, como regra geral, esse é conselho terrível para crianças – e não é o conselho que Derbyshire tem seguido em sua própria vida.

A conclusão de Millman também é instrutiva:

Então, por que eu sequer estou argumentando com Derb? Bem, porque ele é um amigo. E porque mesmo conversas preguiçosas e socialmente irresponsáveis precisam ser refutadas, não meramente denunciadas. O artigo de Derbyshire é racista? Claro que é racista. Todo o seu ponto é que é tanto racional quanto moralmente correto que seus filhos tratem pessoas negras de maneira significativamente diferente das pessoas brancas e que tenham medo delas. Mas “racista” é um termo descritivo, não moral. A turma “realista racial” está fortemente convencida da precisão das principais premissas de Derbyshire, e eles não vão ser convencidos a abandonar essa convicção pela afirmação de que tal convicção é “racista” – tampouco, honestamente, deveriam ser. Por esta razão, eu sinto que é importante argumentar que as conclusões de Derbyshire não se seguem, de maneira simples, daquelas premissas e estão, na verdade, moralmente incorretas, mesmo que aquelas premissas sejam concedidas por bem do argumento.

[Breve intervalo…]

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4

Parte 4: Recorrendo a raça à ruína.

Os liberais estão confusos e furiosos que os brancos pobres votam em Republicanos, embora votar com fundamentos tribais seja uma característica de todas as democracias multi-étnicas, seja [na] Irlanda do Norte, no Líbano ou no Iraque. Quanto mais uma maioria se torna uma minoria, mais tribal se torna sua votação, de modo que cada vez mais os Republicanos se tornaram o “partido branco”; fazer este ponto de maneira indelicada mandou Pat Buchanan para o saco, mas muitos outros o fazem também.

O que vai acontecer aqui [no Reino Unido]? Os padrões não são dissimilares. Na eleição de 2010, os Conservadores conseguiram apenas 16 por cento do voto étnico minoritário, ao passo que o Labour conseguiu o apoio de 72 por cento dos bangladeshis, 78 por cento dos afro-caribenhos e 87 por cento dos africanos. Os Tories são ligeiramente mais fortes entre os hindus e sikhs britânicos – espelhando o apoio Republicano entre os ásio-americanos – que têm maior probabilidade de serem profissionais proprietários de imóveis e de se sentirem menos alienados.

A The Economist recentemente perguntou se os Tories tinham um “problema de raça”, mas pode ser só que a democracia tenha um problema de raça.
– Ed West (Aqui)

Sem um gosto pela ironia, Mencius Moldbug é praticamente insuportável e certamente ininteligível. Vastas estruturas de ironia histórica moldam seus escritos, às vezes mesmo os engolfando. De que outra maneira poderia um proponente de configurações tradicionais de ordem social – um auto-proclamado jacobita – compor um corpo de trabalho é que teimosamente dedicado à subversão?

A ironia é o método de Moldbug, assim como seu ambiente. Isto pode ser visto, de forma mais reveladora, em seu nome escolhido para o iluminismo usurpado, a fé dominante do mundo moderno: Universalismo. Esta é uma palavra de que ele se apropria (e que coloca em letra maiúscula) dentro de um diagnóstico reacionário cuja força inteira jaz em sua exposição de uma particularidade exorbitante.

Moldbug se volta continuamente para a história (ou, mais rigorosamente, para a cladística) para especificar de maneira acurada aquilo que afirma sua própria significância universal enquanto ascende a um estado de dominância geral que se aproxima do universal. Sob este exame, o que conta como razão Universal, determinando a direção e o significado da modernidade, é revelado como o ramo ou subespécie minuciosamente determinado de uma tradição cultual, descendente de ‘ranters’, ‘levelers’ e variantes intimamente relacionadas de fanatismo dissidente ultra-protestante e que deve infimamente pouco às conclusões dos lógicos.

Ironicamente, então, a fé democrática-igualitária Universalista reinante do mundo é um culto particular ou peculiar que irrompeu, ao longo de caminhos históricos e geográficos identificáveis, com uma virulência epidêmica que é disfarçada como iluminação global progressiva. A rota que ela tomou, através da Inglaterra e da Nova Inglaterra, Reforma e Revolução, é registrada por um acúmulo de traços que fornecem material abundante para a ironia e para variedades mais baixas de comédia. O desmascaramento do intelectual ‘liberal’ moderno ou do ‘contador de verdades’ ‘de mente aberta’ da mídia como um puritano pálido, fervoroso e estritamente doutrinário, reconhecivelmente descendente da espécie de zelotes queimadores de bruxas, é confiantemente – e irresistivelmente – divertido.

Ainda assim, conforme a Catedral se estende e intensifica seu controle sobre tudo, em todo lugar, de acordo com seu mandato divino, a resposta que ela desencadeia é apenas atipicamente cômica. Mais comumente, quando incapaz de extrair humilde complacência, ela encontra raiva inarticulada ou, pelo menos, um ressentimento incompreensível e fumegante, como convém à imposição de dogmas culturais paroquiais ainda envoltos na pompa de uma linhagem específica e alienígena, mesmo que confessem seriamente uma racionalidade universal.

Considere, por exemplo, as palavras mais famosas da Declaração de Independência da América: “Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis…”. Pode-se honestamente manter que submeter-se, de maneira escrupulosa e sincera, a tais verdades ‘auto-evidentes’ equivale a qualquer coisa além de um ato de reconfirmação ou conversão religiosa? Ou ser negado que, nestas palavras, razão e evidência são explicitamente colocadas de lado, para criar espaço para princípios de fé? Poderia qualquer coisa ser menos científica do que tal declaração, ou mais indiferente aos critérios do raciocínio genuinamente universal? Como poderia se esperar que alguém que não fosse já um crente consentisse com tais suposições?

Que a declaração fundante do credo democrático-republicano seja formulada como uma declaração de pura (e doutrinariamente reconhecível) fé é uma espécie de informação, mas ainda não é ironia. A ironia começa com o fato de que, entre as elites da Catedral de hoje, estas palavras da Declaração de Independência (assim como muitas outras) seriam consideradas – quase universalmente – curiosamente sugestivas, na melhor das hipóteses, talvez vagamente embaraçosas e, mais certamente, incapazes de sustentar um assentimento literal. Mesmo em meio a conservadores inclinados ao libertarianismo, é pouco provável que um compromisso firme com os ‘direitos naturais’ proceda confiante e enfaticamente até sua origem divina. Para os ‘liberais’ modernos, crentes do Estado concessor de direitos (ou intitulamentos), essas ideias arcaicas não estão apenas absurdamente datadas, mas são positivamente obstrutivas. Por esta razão, elas são associadas menos com predecessores venerados do que com o pensamento retardado e fundamentalista de inimigos políticos. Sofisticados do núcleo da Catedral entendem, como o fazia Hegel, que Deus não é mais do que o governo profundo apreendido por infantes e, como tal, um desperdício de fé (que os burocratas poderiam colocar em melhores usos).

Uma vez que a Catedral já ascendeu à supremacia global, ela não tem mais necessidade de Pais Fundadores, que desajeitadamente relembram sua ancestralidade paroquial e impedem suas relações públicas transnacionais. Em vez disso, ela busca revigoramento perpétuo através da difamação deles. O fenômeno do ‘Novo Ateísmo’, com suas transparentes afiliações progressistas, atesta isso abundantemente. O paleo-puritanismo deve ser ridicularizado, a fim de que o neo-puritanismo floresça – o meme está morto, vida longa ao meme!

No limite da auto-paródia, o parricídio neo-puritano toma a forma da ridícula ‘Guerra ao Natal’, na qual os aliados da Catedral santificam a (radicalmente não ameaçada) separação entre Igreja e Estado, através da incômoda agitação contra expressões públicas da piedade cristã tradicional, e seus patetas dos ‘Red States’ respondem com dispéptica indignação em programas de TV à cabo. Como toda outra guerra contra substantivos indefinidos (seja ‘pobreza’, ‘drogas’ ou ‘terror’), o resultado é previsivelmente perverso. Se a resistência à Guerra ao Natal ainda não está estabelecida como o centro sólido das festividades natalinas, pode-se confiantemente esperar que se tornem no futuro. Os propósitos da Catedral são servidos, não obstante, através da promoção de um secularismo sintético que separa a fé progressista de seus fundamentos religiosos, ao passo que direciona a atenção para longe do conteúdo etnicamente específico e dogmático do credo em seu âmago.

Até onde vão os reacionários, os cristão tradicionais são geralmente considerados como sendo até bem fofinhos. Mesmo os fanáticos com os olhos mais arregalado da ortodoxia neo-puritana têm dificuldades em ficarem genuinamente excitados com eles (embora ativistas do aborto cheguem perto). Para um pouco de carne realmente vermelha, com os nervos expostos e se contorcendo com os choques de forte estimulação, faz bem mais sentido se voltar para uma outra quadra descartada e cerimonialmente abominada da linhagem progressista: a Política Identitária Branca, ou (o termo pelo qual Moldbug opta) ‘nacionalismo branco’.

Da mesma forma em que a catraca do progresso da democracia social neo-puritana é radicalmente facilitada pela tortura orquestrada de suas formas religiosas embriônicas no pelourinho, assim também a sua tendência à economia política neo-fascista é suavizada pelo repúdio concertado de uma ameaça ‘neo-nazi’ (ou paleo-fascista). É extremamente conveniente, quando se constrói estruturas cada vez mais abertamente corporatistas ou ‘de terceira posição’ de pseudo-capitalismo dirigido pelo estado, ser capaz de desviar a atenção para expressões irritadas de paranoia racial branca, especialmente quando estas são ornamentadas por insígnias nazistas desajeitadamente modificadas, capacetes com chifres, estética de Leni Riefenstahl e slogans livremente emprestados do Mein Kampf. Nos Estados Unidos (e, assim, com um lapso de tempo que se encolhe, internacionalmente) os ícones do Ku Klux Klan, de lençóis brancos, títulos semi-maçônicos e cruzes em chamas até cordas de linchamento, têm adquirido um valor teatral comparável.

Moldbug oferece uma lista higienizada de leitura de blogs nacionalistas brancos, que consiste de autores que – com diferentes graus de sucesso – evitam uma reversão imediata à auto-paródia paleo-fascista. O primeiro passo para além da fronteira da opinião respeitável é representado por Lawrence Auster, um cristão, anti-darwinista e ‘Conservador Tradicionalista’ que defende uma identidade nacional ‘substancial’ (etno-racial) e se opõe ao princípio-mestre liberal de não discriminação. No momento em que chegamos a ‘Tanstaafl‘, na dilacerada borda exterior do espectro cuidadosamente truncado de Moldbug, já entramos em uma órbita decadente, que se espirala para dentro do grande buraco negro que está escondido no centro morto da possibilidade política moderna.

Antes de seguir os tipos de Tanstaafl para dentro do abismo esmagador onde a luz morre, há alguma observações preliminares a serem feitas sobre a perspectiva nacionalista branca e sobre suas implicações. Ainda mais do que os cristãos tradicionalistas (que, mesmo no meio de seu inverno cultural, podem se aquecer no calor do endosso sobrenatural), a política identitária branca se considera sitiada. Uma preocupação moderada ou comedida não oferece qualquer equilíbrio para aqueles que cruzam a linha e começam a se auto-identificar nesses termos. Em vez disso, o caminho de envolvimento demanda uma rápida aceleração até um estado de alerta extremo, ou pânico racial, que se conforma a uma análise focada na maliciosa substituição populacional nas mãos de um governo que, nas palavras frequentemente citadas de Bertold Brecht, “decidiu dissolver o povo e apontar um outro”. A ‘branqueza’ (quer seja concebida de maneira biológica, mística ou ambas) é associada com vulnerabilidade, fragilidade e perseguição. Este tema é tão básico, e tão multifário, que é difícil de abordar de maneira sucinta. Ele engloba tudo, desde predação criminosa (especialmente assassinatos, estupros e espancamentos racialmente carregados), exações econômicas e discriminação inversa, agressão cultural por parte de sistemas acadêmicos e midiáticos hostis até, em última análise, ‘genocídio’ – ou destruição racial definitiva.

Tipicamente, a aniquilação prospectiva da raça branca é atribuída à sua própria vulnerabilidade sistemática, quer seja devido a traços culturais característicos (altruísmo excessivo, susceptibilidade à manipulação moral, hospitalidade excessiva, confiança, reciprocidade universal, culpa ou desdém individualista pela identidade de grupo), ou a fatores biológicos mais imediatos (genes recessivos que suportam os frágeis fenótipos arianos). Embora seja improvável que este senso de ameaça de extinção única seja redutível à fórmula cromática ‘Branco + Cor = Cor’, a estrutura fundamental é deste tipo. Em sua descrição abstrata da vulnerabilidade não recíproca, ela reflete a ‘regra da uma gota’ (e a combinação genética mendeliana recessivo / dominante). Ela descreve a mistura como essencialmente anti-branca.

Uma vez que ‘branqueza’ é um limite (pura ausência de cor), ela desliza suavemente da factualidade biológica da subespécie caucasiana para ideias metafísicas e místicas. Em vez de acumular variação genética, uma raça branca é contaminada ou poluída por misturas que comprometem sua negatividade definidora – escurecê-la é destruí-la. A densidade mitológica destas associações – predominantemente subliminares – investe a política identitária branca de uma resiliência que frustra os esforços iluminados de denúncia racionalista, ao passo que contradiz sua própria auto-representação paranoica. Ela também enfraquece as promoções nacionalistas brancas recentes de uma ameaça racial que é estritamente comparável àquela que enfrentam os povos indígenas, de maneira universal, e descreve os brancos como ‘nativos’ cruelmente privados de igual proteção contra a extinção. Não há nenhuma rota de retorno para a inocência tribal ou para a diversidade biológica rasa. A branqueza foi compactada indissoluvelmente com a ideologia, seja qual for a estrada tomada.

“Se os negros podem ter, e os hispânicos podem ter, e os judeus podem ter, por que não podemos ter?” – Esse é o alicerce final do agravo nacionalista branco, a maldição do lobisomem que significa que ele só pode ser, para sempre, um monstro. Há exatamente um único caminho de saída para os caras pálidas perseguidos, e ele leva direitamente para dentro de um buraco negro. Prometemos que voltaríamos a Tanstaafl, e aqui estamos, no final do verão de 2007, logo depois que pegou ‘a coisa judia‘. Não há nada de muito original quanto à sua epifania, o que é exatamente o ponto. Ele cita a si mesmo:

Não é absurdo que alguém sequer pensasse em culpar o cristianismo ou os WASPs pelo surgimento do politicamente correto e de suas consequências catastróficas? Isto, na verdade, não é uma inversão da verdade? O surgimento e disseminação do PC não erodiu o poder do cristianismo, dos WASPs e dos brancos em geral? Culpá-los é, com efeito, culpar a vítima.
Sim, existem cristãos, WASPs e brancos que caíram na lavagem cerebral do PC. Sim, existem alguns que o levaram tão a fundo no coração que trabalham para expandi-lo e protege-lo. Esta é a natureza do PC. Este é seu propósito. Controlar as mentes das pessoas que ele busca destruir. A esquerda, em sua raiz, é totalmente sobre destruição.
Você não tem que ser um anti-semita para notar de onde essas ideias se originam e quem se beneficia. Mas você têm que violar o PC para dizer: Judeus.

Este é o labirinto, a armadilha, com seu circuito lamentavelmente restrito e estereotipado. “Por que não podemos ser preservacionistas raciais fofinhos, como os índios amazônicos? Como é que sempre viramos os Neo-Nazis? É algum tipo de conspiração, o que significa que tem que ser os Judeus.” Desde o meio do século XX, a intensidade política do mundo globalizado tem corrido, quase exclusivamente, a partir da pilha de cinzas craterada do Terceiro Reich. Até que você entenda o padrão, parece misterioso que não haja maneira de fugir dele. Depois de listar alguns blogs que caem sobre a categoria relativamente distinta de ‘nacionalismo branco’, Moldbug adverte:

A Internet também é lar de muitos blogs inquestionavelmente racistas. A maioria é simplesmente ilegível. Mas alguns são mantidos por escritores relativamente capazes. …Nestes blogs racistas, você encontrará, epítetos raciais, antisemitismo (veja why I am not an anti-Semite) e coisa do tipo. Obviamente, eu não posso recomendar nenhum desse blogs e tampouco eu os linkarei. Contudo, se você estiver interessado na mente do racista moderno, o Google lhe levará lá.

Google é um exagero. Um pouco de pesca de links lhe levará lá. É um problema de ‘seis graus de separação’ (e mais algo como dois, ou menos). Comece a cavar na ‘reactosfera’ realmente existente, e as coisas ficam bastante assombrosamente feias muito rápido. Sim, realmente existe ‘ódio’, pânico e nojo, assim como uma abundância morbidamente viciante de sagacidade sombria e mordaz e um peso desconcertantemente impressionante de fatos críveis (esses caras simplesmente amam de morrer estatísticas). Acima de tudo, logo além do horizonte, há o buraco negro. Se a reação jamais se tornasse um movimento popular, suas poucas linhas esguias de civilidade burguesa (ou talvez sonhadoramente ‘aristocrática’) não segurariam a besta por muito tempo.

Conforme a decência liberal se separou da integridade intelectual e exilou verdades duras, estas verdades encontraram novos aliados e se tornaram consideravelmente mais duras. O resultado é mecânica e monotonamente previsível. Toda ‘guerra de causa’ liberal-democrática fortalece e torna mais selvagem aquilo contra o que luta. A guerra à pobreza cria uma subclasse cronicamente disfuncional. A guerra às drogas cria super-drogas cristalizadas e mega-mafias. Adivinha? A guerra ao politicamente incorreto cria lobisomens empoderados por dados, coordenados via web, paranoicos e poli-conspiratórios, soberbamente posicionados para tirar vantagem do iminente encontro da democracia liberal com a ruinosa realidade e, então, desempenhar sua parte na deflagração de dissabores que mal são imagináveis (exceto por uma analogia histórica perturbadora). Quando uma negociação sã, pragmática e embasada em fatos das diferenças humanas é proibida por decreto ideológico, a alternativa não é um reino de paz perpétua, mas uma putrefação de crimideias cada vez mais auto-conscientes e militantemente desafiadoras, nutridas por realidades publicamente inconfessáveis e energizada por mitologias poderosas, atávicas e palpavelmente dissidentes. Isso é óbvio na ‘Net.

Moldbug considera que o perigo do nacionalismo branco foi tanto exagerado quanto minimizado. Por um lado, a ‘ameaça’ é simplesmente ridícula e meramente reflete o dogma espiritual neo-puritano em sua forma mais histericamente opressiva e teimosamente estúpida. “Deveria ser óbvio que, embora eu não seja um nacionalista branco, eu não sou exatamente alérgico à coisa”, Moldbug observa, antes de descrevê-la como “o sistema de crença mais marginalizado e socialmente excluído na história do mundo …um irritante social obnóxio em qualquer círculo que não inclua motoqueiros tatuados viciados em anfetamina”.

Ainda assim, o perigo permanece, ou melhor, está em construção.

Eu consigo imaginar uma possibilidade que poderia tornar o nacionalismo branco genuinamente perigoso. O nacionalismo branco seria perigoso se houvesse alguma questão sobre a qual os nacionalistas brancos estivessem certos, e todo o resto estivesse errado. A verdade é sempre perigosa. Ao contrário da crença popular, ela nem sempre prevalece. Mas é sempre uma má ideia virar as costas para ela. …Ao passo que a evidência para a biodiversidade cognitiva humana é, de fato, discutível, o que não é discutível é que ela é discutível …[muito embora] todo mundo que não seja um nacionalista branco tenha passado os últimos 50 anos nos informando que não é discutível…

Há bem mais no ensaio de Moldbug, como sempre há. Eventualmente, ele explica porque ele rejeita o nacionalismo branco, por razões que não devem nada aos reflexos convencionais. Mas o coração sombrio do ensaio, que o eleva, para além do brilhantismo, à beira da genialidade, é encontrado logo no início, na borda de um buraco negro:

Por que o nacionalismo branco nos parece mau? Porque Hitler era um nacionalista branco, e Hitler era mau. Nenhuma dessas afirmações é remotamente controversa. Há exatamente um grau de separação entre o nacionalismo branco e o mal. E esse grau é Hitler. Deixe-me repetir: Hitler.

O argumento parece à prova d’água. (À prova de Hitler?) Mas ele não segura qualquer água que seja.

Por que o socialismo nos parece mau? Porque Stalin era um socialista, e Stalin era mau. Qualquer um que queira seriamente argumentar que Stalin era menos mau do que Hitler tem um trabalho horrivelmente grande pela frente. Não apenas Stalin ordenou mais assassinatos, sua máquina de assassinatos teve seu auge em tempos de paz, ao passo que a de Hitler pode pelo menos ser vista como um crime de guerra contra civis inimigos. Se isso faz alguma diferença pode ser debatido, mas se faz, coloca Stalin no topo.

E, ainda assim, eu nunca tive, nem vi, nada parecido com as respostas de “alerta vermelho” ao socialismo [“o sentimento da presença do mal”]. Se eu visse uma multidão de pessoas jovens e elegantes fazendo fila na bilheteria de uma cinebiografia hagiográfica de Reinhard Heydrich, arrepios subiriam e desceriam pelo meu pescoço. De Ernesto Guevara, eu não tenho qualquer resposta emocional. Talvez eu achasse que é estúpido e triste. De fato, eu acho que é estúpido e triste. Mas não me assusta.

Qualquer tentativa de ser nuançado, equilibrado ou proporcional no caso moral contra Hitler é interpretar inteiramente mal a natureza do fenômeno. Isto pode ser notado, com bastante regularidade, nas sociedades asiáticas, por exemplo, porque o fantasma do Terceiro Reich não ocupa uma posição central em sua história, ou melhor, em sua religião, embora – enquanto sacrário interno da Catadral – esteja determinado a fazê-lo (e mostra quase todo sinal de estar sendo bem sucedido). Uma breve digressão sobre o mal-entendido transcultural e a cegueira recíproca poder ser merecida neste ponto. Quando os ocidentais prestam atenção no estilo ‘Deus-Imperador’ de devoção política que tem acompanhado o totalitarismo moderno no Leste Asiático, a conclusão tipicamente tirada é que este padrão de sentimento político é exoticamente alienígena, morbidamente divertido e, em última análise, – arrepiantemente – incompreensível. Comparações contemporâneas com líderes democráticos ocidentais risivelmente não-numinosos apenas aprofundam a confusão, assim como o fazem referência semi-marxistas a sensibilidades ‘feudais’ (como se a monarquia absolutista não tivesse sido uma alternativa ao feudalismo, e como se os monarcas absolutos tivessem sido adorados). Como uma figura histórica e política jamais poderia ter sido investida com a dignidade transcendente do significado religioso absoluto? Parece absurdo…

“Olha, eu não estou dizendo que Hitler era um cara particularmente legal…” – imaginar tais palavras já é ver muitas coisas. Poderia até mesmo provocar a questão: Alguém dentro do mundo globalizado (da Catedral) ainda pensa que Adolf Hitler era menos mau do que o próprio Príncipe da Escuridão? Talvez apenas alguns paleo-cristãos espalhados (que teimosamente insistem que Satã é realmente, realmente, mau) e um número ainda menor de ultra-neo-nazis (que pensam que Hitler era meio legal). Para basicamente todo o resto, Hitler personifica perfeitamente a monstruosidade demoníaca, transcendendo a história e a política para alcançar a estatura de um absoluto metafísico: o mal encarnado. Para além de Hitler é impossível ir, ou pensar. Isto certamente é interessante, uma vez que indica uma erupção do infinito dentro da história – uma revelação religiosa, de tipo abraâmico, invertida, mas ainda estruturalmente familiar. (A ‘Teologia do Holocausto’ já implica nisso.)

A este respeito, em vez de Satã, seria mais útil comparar Hitler ao Anticristo, isto é: a um espelho do Messias, de polaridade moral invertida. Houve até mesmo uma tumba vazia. O Hitlerismo, concebido de forma neutra, portanto, é menos uma ideologia pró-nazi do que uma fé universal, especiada dentro da superfamília abraâmica e unida no reconhecimento da vinda do puro mal sobre a terra. Embora não seja exatamente adorado (fora dos círculos extraordinariamente vergonhosos em que já nos aventuramos), Hitler é sacramentalmente abominado, de uma maneira que toca em teológicas ‘coisas primeiras’. Se abraçar Hitler como Deus é um sinal de uma confusão político-espiritual altamente lamentável (na melhor das hipóteses), reconhecer sua singularidade histórica e significado sagrado é quase obrigatório, uma vez que ele é afirmado por todos os homens de fé sólida como o exato complemento do Deus encarnado (o anti-Messias revelado, ou Adversário), e esta identificação tem a força de uma ‘verdade auto-evidente’. (Alguém já precisou perguntar por que a reductio ad Hitlerum funciona?)

Convenientemente, assim como o neopuritanismo secularizado que ele engole, o Hitlerismo (aversivo) pode ser seguramente ensinado nas escolas americanas, com um notável alto nível de intensidade religiosa. Na medida em que a história progressiva ou programática continua, isto sugere que a Igreja da Sagrada Abominação Hitlerista eventualmente suplantará suas predecessoras abraâmicas, para se tornar a fé ecumênica triunfante do mundo. Como ela poderia não o fazer? Afinal, ao contrário do deísmo padrão, esta é uma fé que reconcilia completamente o entusiasmo religioso com a opinião iluminada, igualmente adaptada, com capacidade anfíbia consumada, aos êxtases convulsivos do ritual popular e às páginas de cartas do New York Times. “O mal absoluto já andou por entre nós, e vive ainda…” Como esta já não é a principal mensagem religiosa de nossos tempos? Tudo que permanece inacabado é a consolidação mitológica e isso há muito tem estado a caminho.

Há ainda algum catar de ossos fragmentados a ser feito entre as cinzas e destroços [na Parte 5], antes de nos voltarmos para coisas mais saudáveis…

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 2

Parte 2: O arco da história é longo, mas se curva em direção a um apocalipse zumbi

David Graeber: Parece-me que se você for perseguir isto à sua conclusão lógica, a única maneira de se ter uma sociedade verdadeiramente democrática também seria abolir o capitalismo neste estado.

Marina Sitrin: Não podemos ter democracia com capitalismo… Democracia e capitalismo não funcionam juntos.
(Aqui, via John J. Miller)

Esse é sempre o problema com a história. Sempre parece que acabou. Mas nunca acaba.
(Mencius Moldbug)

Pesquisar ‘democracia’ e ‘liberdade’ junto no Google é altamente iluminador, de uma maneira sombria. No ciberespaço, pelo menos, está claro que apenas uma minoria distinta pensa nestes termos como positivamente acoplados. Se a opinião deve ser julgada em termos da aranha do Google e de sua presa digital, de longe a associação mais predominante é disjuntiva ou antagonista, embasada na compreensão reacionária de que a democracia apresenta uma ameaça letal à liberdade, quase garantindo sua eventual erradicação. A democracia é para a liberdade o que Gargântua é para uma torta. (“Por certo você pode ver que amamos a liberdade, ao ponto de roncos no estômago e salivação…”).

Steve H. Hanke estabelece o caso com autoridade em seu pequeno ensaio On Democracy Versus Liberty, focado na experiência americana:

A maioria das pessoas, incluindo a maioria dos americanos, ficaria surpresa em aprender que a palavra “democracia” não aparece na Declaração de Independência (1776) ou na Constituição dos Estados Unidos da América (1789). Elas também ficariam chocadas de aprender a razão para a ausência da palavra democracia nos documentos fundantes dos E.U.A. Ao contrário do que a propaganda levou o público a acreditar, os Pais Fundadores da América estavam céticos e ansiosos quanto à democracia. Eles estavam cientes dos males que acompanham a tirania da maioria. Os Criadores da Constituição fizeram um grande esforço para garantir que o governo federal não fosse embasado na vontade da maioria e não fosse, portanto, democrático.
Se os Criadores da Constituição não abraçavam a democracia, ao que eles aderiam? A um homem, os Criadores concordaram que o propósito do governo era assegurar aos cidadãos a trilogia de John Locke de direitos à vida, à liberdade e à propriedade.

Ele elabora:

A Constituição é primariamente um documento estrutural e procedural que especifica quem deve exercer o poder e como eles devem exercê-lo. Um bom tanto de ênfase é colocado na separação de poderes e nos freios e contrapesos do sistema. Estes não eram um construto ou fórmula cartesiano visando a engenharia social, mas um escudo para proteger as pessoas do governo. Em suma, a Constituição foi desenhada para governar o governo, não as pessoas.
A Bill of Rights estabelece os direitos do povo contra violações pelo Estado. A única coisa que os cidadãos podem exigir do Estado, sob a Bill of Rights, é um julgamento por um júri. O resto dos direitos dos cidadãos são proteções contra o Estado. Por cerca de um século depois que a Constituição foi ratificada, a propriedade privada, os contratos e o livre comércio interno dentro dos Estados Unidos eram sagrados. O escopo e a escala do governo permaneceram muito constritos. Tudo isso era muito consistente com o que era entendido ser liberdade.

Conforme o espírito da reação estende seus tentáculos-Sith pelo cérebro, fica difícil lembrar como a narrativa progressista clássica (ou não-comunista) pôde já ter feito sentido. O que as pessoas estavam pensando? O que elas estavam esperando do emergente estado super-empoderado, populista, canibal? A eventual calamidade não era inteiramente previsível? Como já foi possível ser um Whig?

A credibilidade ideológica da democratização radical não está, claro, em questão. Como pensadores que vão desde (o cristão progressista) Walter Russell Mead até o (reacionário ateu) Mencius Moldbug detalharam exaustivamente, ela se conforma tão exatamente ao entusiamo religioso ultra-protestante que seu poder de animar a alma revolucionária não deveria surpreender a ninguém. Dentro de apenas alguns anos desde o desafio de Martinho Lutero ao establishment papal, insurrecionistas camponeses estavam enforcando seus inimigos de classe por toda a Alemanha.

A credibilidade empírica do avanço democrático é bem mais estarrecedora e também genuinamente complexa (o que é dizer, controversa ou, mais precisamente, digna de uma controvérsia embasada em dados e rigorosamente argumentada). Em parte, isso é porque a configuração moderna da democracia emerge dentro do alcance de uma tendência modernista bem mais ampla, cujas linhas tecno-científica, econômica, social e política estão obscuramente inter-relacionadas, costuradas por correlações enganadoras e pelas subsequentes falsas causalidades. Se, como Schumpeter argumenta, o capitalismo industrial tende a engendrar uma cultura democrática-burocrática que se conclui em estagnação, poderia, ainda assim, parecer como se a democracia estivesse ‘associada’ com o progresso material. É fácil interpretar erroneamente um indicador atrasado como um fator causal positivo, especialmente quando o zelo ideológico empresta seu viés à má apreensão. Na mesma linha, uma vez que o câncer aflige apenas pessoas vivas, ele poderia – com aparente razão – ser associado à vitalidade.

Robin Hanson (gentilmente) observa:

Sim, muitas tendências foram positivas por um século mais ou menos, e, sim, isto sugere que elas continuarão a crescer por mais ou menos um século. Mas, não, isto não significa que os estudantes estão empírica ou moralmente errados por pensarem ser uma “fantasia utópica” que se pudesse “acabar com a pobreza, a doença, a tirania e a guerra” ao se juntar à empreitada política de um Kennedy moderno. Por quê? Porque as tendências positivas recentes nestas áreas não foram muito causadas por tais movimentos políticos! Elas foram, em sua maioria, causadas por nós termos ficado ricos com a revolução industrial, um evento que os movimentos políticos tenderam, se qualquer coisa, a tentar retardar, na média.

A cronologia histórica simples sugere que a industrialização apoia a democratização progressista, em vez de ser derivada dela. Esta observação já até mesmo deu origem a uma escola amplamente aceita da teorização pop em ciências sociais, de acordo com a qual a ‘maturação’ das sociedades em uma direção democrática é determinada por limites de afluência, ou formação de classe média. O correlativo lógico estrito de tais ideias, de que a democracia é fundamentalmente não-produtiva em relação ao progresso material, é tipicamente sub-enfatizado. A democracia consome o progresso. Quando percebida da perspectiva do iluminismo sombrio, o modo apropriado de análise para estudar o fenômeno democrático é a parasitologia geral.

Respostas semi-libertárias ao surto aceitam isto implicitamente. Dada uma população profundamente infectada pelo vírus zumbi e que bamboleia para dentro do colapso social, a opção preferida é a quarentena. Não é o isolamento comunicativo que é essencial, mas uma dessolidarização funcional da sociedade, que estreite os loops de feedback e exponha as pessoas com intensidade máxima às consequências de suas ações. A solidariedade social, em contraste preciso, é a amiga do parasita. Ao recortar todos os mecanismos de feedback de alta frequência (tais como os sinais de mercado) e substituí-los por loops lerdos em infravermelho que passam através de um fórum centralizado de ‘vontade geral’, uma sociedade radicalmente democratizada isola o parasitismo do que ele faz, transformando padrões de comportamento locais, dolorosamente disfuncionais, intoleráveis e, assim, urgentemente corrigidos em patologias sócio-políticas globais, anestesiadas e crônicas.

Roa as partes do corpo de outras pessoas e pode ser difícil conseguir um emprego – este é o tipo de lição que uma ordem de feedback estreito, ciberneticamente intensa e laissez faire permitiria que fosse aprendida. É também exatamente o tipo de descriminação zumbifóbica insensível que qualquer democracia compassiva denunciaria como uma crimideia, ao passo que reforça o orçamento público para os deficientes vitais, empreende campanhas de conscientização em nome daqueles que sofrem da síndrome de impulso canibal involuntário, afirma a dignidade do estilo de vida zumbi nos currículos da educação superior e regula rigorosamente os espaços de trabalho para garantir que os mortos-vivos que se misturam não sejam vitimados por empregadores obcecados com lucros, desempenhocêntricos ou mesmo animacionistas não reconstruídos.

Conforme uma iluminada tolerância-zumbi floresce ao abrigo do mega-parasita democrático, um pequeno remanescente dos reacionários, atentos aos efeitos de incentivos reais, levantam a estereotipada questão : “Vocês percebem que estas políticas inevitavelmente levam a uma expansão massiva da população zumbi?” O vetor dominante da história pressupõe que tais objeções incômodas sejam marginalizadas, ignoradas e – sempre que possível – silenciadas através do ostracismo social. O remanescente ou fortifica o porão, enquanto estoca comida seca, munição e moedas de prata, ou acelera o processo de pedido de um segundo passaporte e começa a fazer suas malas.

Se tudo isso parece estar vindo sem rumo da concretude histórica, há um remédio convenientemente atual: uma pequena troca de canal para a Grécia. Enquanto modelo microcósmico para a morte do Ocidente, que se desenrola em tempo real, a estória grega é hipnótica. Ela descreve um arco de 2500 anos que está longe de elegante, mas é irresistivelmente dramático, de proto-democracia a apocalipse zumbi realizado. Sua virtude preeminente é que ela ilustra perfeitamente o mecanismo democrático in extremis, que separa indivíduos e populações locais das consequências de suas decisões, ao bagunçar seu comportamento através de sistemas centralizados de redistribuição em larga escala. Você decide o que você faz, mas então vota nas consequências. Como alguém poderia dizer ‘não’ para isso?

Não é surpresa que, ao longo de 30 anos de adesão à UE, os gregos tenham avidamente cooperado com um megaprojeto de engenharia social que retira todos os sinais sociais de onde curta e re-roteia o feedback através do grandioso circuito da solidariedade europeia, garantindo que toda informação economicamente relevante seja desviada para o vermelho através do cárter de morte por calor do Banco Central Europeu. Mais especificamente, ele tem conspirado com a ‘Europa’ para obliterar toda a informação que poderia estar contida nas taxas de juros gregas, assim efetivamente incapacitando todo feedback financeiro sobre escolhas de política doméstica.

Isto é a democracia em uma forma consumada, que desafia qualquer aperfeiçoamento adicional, uma vez que nada se conforma mais exatamente à ‘vontade geral’ do que a abolição legislativa da realidade, e nada entrega a cicuta à realidade mais definitivamente do que acoplar taxas de juros teutônicas com decisões de gasto do leste do Mediterrâneo. Viva como helenos e pague como germânicos – qualquer partido político que falhasse em subir ao poder sobre esta plataforma merece catar sucata sendo picado por urubus no deserto. É o no-brainer final, em praticamente todos os sentidos imagináveis da expressão. O que poderia dar errado?

Mais ao ponto, o que deu errado? Mencius Moldbug começa sua séria no Unqualified Reservations “How Dawkins got pwned” (“Como Dawkins foi pwnado”, ou tomado através de uma “vulnerabilidade explorável”) com o delineamento das regras de design para um hipotético “parasita memético ótimo” que seria “tão virulento quanto possível. Ele será altamente contagioso, altamente mórbido e altamente persistente. Um inseto realmente feio.” Em comparação com esta super-praga ideológica, o monoteísmo vestigial ridicularizado em Deus: Um Delírio figuraria como nada pior do que um resfriado moderadamente desagradável. O que começa como uma brincadeira abstrata com um meme se conclui como uma grande varredura da história, à moda do iluminismo sombrio:

Minha crença é que o Professor Dawkins não é apenas um ateu cristão. Ele é um ateu protestante. E ele não é apenas um ateu protestante. Ele é um ateu calvinista. E ele não é apenas um ateu calvinista. Ele é um ateu anglo-calvinista. Em outras palavras, ele também pode ser descrito como um ateu puritano, um ateu dissidente, um ateu não conformista, um ateu evangélico, etc, etc.

Esta taxonomia cladística remonta a ancestralidade intelectual do Professor Dawkins até cerca de 400 anos atrás, à era da Guerra Civil Inglesa. Exceto, claro, pelo tema do ateísmo, o cerne do Professor Dawkins é uma combinação notável para as tradições Ranter, Leveller, Digger, Quaker, Quintomonarquista ou qualquer uma das mais extremas tradições dissidentes inglesas que floresceram durante o interregno cromwelliano.

Francamente, esses caras eram aberrações. Maníacos fanáticos. Qualquer pensador inglês mainstream dos séculos XVII, XVIII ou XIX, informado de que esta tradição (ou sua descendente moderna) é agora a denominação cristã dominante do planeta, consideraria isto como um sinal do apocalipse iminente. Se você está seguro de que eles estão errados, você está mais seguro do que eu.

Felizmente, o próprio Cromwell era comparativamente moderado. Os sectos ultrapuritanos extremos nunca conseguiram se agarrar solidamente ao poder sob o Protetorado. Ainda mais felizmente, Cromwell ficou velho e morreu, e o cromwellismo morreu com ele. O governo legítimo foi restaurado na Grã-Bretanha, assim como a Igreja da Inglaterra, e os dissidentes se tornaram uma franja marginal novamente. E francamente, que alívio danado que foi.

Contudo, você não consegue reprimir um bom parasita. Uma comunidade de puritanos fugiu para a América e fundou as colônias teocráticas da Nova Inglaterra. Depois de suas vitórias militares na Rebelião Americana e na Guerra de Secessão, o puritanismo americano estava bem no caminho para a dominação mundial. Sua vitórias na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria confirmaram sua hegemonia global. Todo pensamento mainstream legítimo sobre a Terra hoje é descendente dos puritanos americanos e, através deles, dos dissidentes ingleses.

Dado a ascensão deste “inseto realmente feio” à dominação mundial, poderia parecer estranho azucrinar figuras tangenciais tais como Dawkins, mas Moldbug seleciona seu alvo por razões estratégicas primorosamente julgadas. Moldbug se identifica com o darwinismo de Dawkins, com seu repúdio intelectual do teísmo abraâmico e com seu amplo comprometimento para com a racionalidade científica. Ainda assim, ele reconhece, de maneira crucial, que as faculdades críticas de Dawkins se desligam – de maneira abrupta e frequentemente cômica – no ponto em que elas poderiam colocar em risco um comprometimento ainda mais amplo para com o progressismo hegemônico. Desta maneira, Dawkins é poderosamente indicativo. O secularismo militante é, ele mesmo, uma variante modernizada do meta-meme abraâmico, em seu ramo taxonômico anglo-protestante e democrático radical cuja tradição específica é o anti-tradicionalismo. O clamoroso ateísmo de Deus: Um Delírio representa um estratagema protetivo e uma atualização consistente da reforma religiosa, guiada por um espírito de entusiasmo progressista que supera o empirismo e a razão, ao passo que exemplifica um dogmatismo irritável que rivaliza com qualquer coisa a ser encontrada nas estirpes anteriores com temas divinos.

Dawkins não é meramente um progressista moderno iluminado e um democrata radical implícito, ele é um cientista impressionantemente credenciado, mais especificamente um biólogo e (assim) um evolucionista darwiniano. O ponto no qual ele toca o limite do pensamento aceitável, como definido pelo super-inseto memético é, portanto, bastante fácil de antecipar. Sua tradição, herdada do ultra-protestantismo do baixo clero, substituiu Deus pelo Homem como local de investimento espiritual, e o ‘Homem’ tem estado no processo de dissolução através da pesquisa darwiniana por mais de 150 anos. (Como a pessoa sã e decente que eu seu que você é, tendo chegado até aqui com Moldbug, você provavelmente já está murmurando sob a sua respiração, não mencione raça, não mencione raça, não mencione raça, por favor, ó, por favor, em nome do Zeitgeist e do querido e doce não-deus do progresso, não mencione raça…) …mas Moldbug  está citando Dawkins, que cita Thomas Huxley “…em um contexto em que deve ser executado por pensamentos e não por mordidas. Os lugares mais altos na hierarquia da civilização certamente não estarão dentro do alcance de nossos primos escuros”. Que Dawkins enquadra observando: “Tivesse Huxley… sido nascido e educado em nosso tempo, [ele] teria sido o primeiro a se encolher conosco por seus sentimentos vitorianos e tom untuoso. Eu lhes cito apenas para ilustrar como o Zeitgeist segue em frente”.

Fica pior. Moldbug parece estar segurando a mão de Huxley e… (ewww!) fazendo aquela coisa de acariciar as palmas com seus dedos. Isto por certo não é mais a reação libertária padrão – está ficando seriamente sombria e assustadora. “Em toda seriedade, qual é a evidência para o fraternismo? Por que, exatamente, o Professor Dawkins acredita que todos os neohominídeos são nascidos com potencial idêntico para o desenvolvimento neurológico? Ele não diz. Talvez ele pense que é óbvio.”

Qualquer que seja sua opinião sobre os méritos científicos respectivos da diversidade ou da uniformidade biológica humana, está, certamente, para além de qualquer argumento que a última hipótese, apenas, é tolerada. Mesmo se as crenças progressistas-universalistas sobre a natureza humana forem verdadeiras, elas não são mantidas porque são verdadeiras ou porque se chegou a elas através de qualquer processo que passe no teste de risada para a racionalidade científica crítica. Elas são recebidas como princípios religiosos, com toda a intensidade passional que caracteriza itens essenciais da fé, e questioná-las não é uma questão de inexatidão científica, mas do que agora chamamos de politicamente incorreto, e já conhecemos como heresia.

Sustentar esta postura moral transcendente em relação ao racismo não é mais racional do que a subscrição à doutrina do pecado original, da qual ela é, em todo caso, a inequívoca substituta moderna. A diferença, claro, é que o ‘pecado original’ é uma doutrina tradicional, à qual se subscreve um grupo social aguerrido, significantemente sub-representado entre os intelectuais públicos e as figuras da mídia, profundamente antiquada na cultura mundial dominante e largamente criticada – se não ridicularizada – sem qualquer suposição imediata de que o crítico está defendendo assassinato, roubo ou adultério. Questionar o status do racismo enquanto pecado social supremo e definidor, por outro lado, é cortejar a condenação universal das elites sociais e despertar suspeitas de crimideias que vão desde a apologética pró-escravidão até fantasias genocidas. O racismo é o mal puro ou absoluto, cuja esfera apropriada é o infinito e o eterno, ou as profundezas pecaminosas incendiárias da alma hiper-protestante, em vez dos confins mundanos da interação civil, do realismo social científico ou da legalidade eficiente e proporcional. A dissimetria de afeto, sanção e poder social cru que acompanha antigas heresias e suas substitutas, uma vez notada, é um indicador enervante. Um novo secto reina, e ele não está nem mesmo especialmente bem escondido.

Ainda assim, mesmo entre as circunscrições BDH mais endurecidas, a santificação histérica da raça-ideia mais-que-boa dificilmente é suficiente para emprestar à democracia radical a aura de profunda morbidez que Moldbug detecta. Isto requer um relação devocional com o Estado.

Original.