Domínio Calêndrico (Parte 3)

Em Busca do Ano Zero

Um Ano Zero significa um recomeço radical que faz reivindicações universais. Nos tempos modernos, especialmente nos tempos modernos recentes, ele está associado sobretudo com visões ultra-modernistas de política total, em seu ponto máximo de extremidade utópica e apocalíptica. A ordem existente do mundo é reduzida a nada, a partir do qual uma nova história é iniciada, fundamentalmente desconexa de qualquer coisa que tenha ocorrido antes e moralmente obrigada apenas a si mesma. Previsivelmente o bastante, entre comentaristas conservadores (no sentido mais amplo), tais visões são largamente indistinguíveis das paisagens com cadáveres espalhados de uma catástrofe social assombrada pelos fantasmas de sonhos irrealizáveis.

O Domínio Calêndrico global do cristianismo é paradoxal – talvez até mesmo ‘dialético’ – neste aspecto. Ele fornece o modelo governante de ruptura histórica e extensão ecumênica ilimitada e, desta forma, de revolução total, enquanto ao mesmo tempo representa a ordem conservadora antagonizada pela ambição modernista. Seu exemplo incita a guinada ao Ano Zero, mesmo ao passo em que não possui nenhum ano zero próprio. Em última análise, sua provocação dialética tende em direção à tentação satânica: a promessa do Apocalipse Anti-Cristão, ou novidades absolutas a uma segunda potência. (“Se os cristão conseguiram fazê-lo, por quê não conseguiríamos?” Uma deixa para contagens de corpos que se escalam em direção ao infinito.)

A tensão existe não apenas entre uma ordem cristã estabelecida e sua pós-imagem pseudo-secular revolucionária, mas também dentro do próprio cristianismo, que se divide internamente pela unidade aparente e real dissociação do ‘tempo messiânico’. O processo de consolidação calêndrica cristã foi imensamente prolongado. Uma distância de mais do que meio milênio separou a formulação clara da contagem dos anos a partir do momento comemorado, com ainda mais séculos necessários para se integrar completamente o registro histórico com esta base, digerindo os registros anteriores judeus, romanos e locais e estabelecendo as bases para uma articulação cristã universalizada do tempo. Quando as ‘boas novas’ revolucionárias haviam sido formalizadas de maneira coerente em um protótipo reconhecível do calendário ocidental hegemônico, elas haviam sofrido uma longa transição de quebra histórica para tradição estabelecida, com impecáveis credenciais conservadoras.

Simultaneamente, contudo, o processo de consolidação calêndrica sustentou, e até mesmo afiou, a expectativa messiânica de uma ruptura pontual e verdadeiramente contemporânea, projetada adiante como a duplicação ou ‘segunda vinda’ da divisão inicial. Mesmo que o momento no qual a história havia sido fendida em duas partes – antes e depois, AC e AD – agora estivesse em uma antiguidade bastante distante, seu exemplo permanecia urgente e promissor. A esperança messiânica foi, assim, rasgada e compactada por uma intrínseca duplicação histórica, que a esticou entre um começo vastamente retrospectivo e gradualmente reconhecido e um prospecto de repentina conclusão, cuja credibilidade era assegurada por seu status enquanto repetição. O que tivera sido seria novamente, transformando a contagem dos AD em uma sequência completa que era confirmada da mesma maneira em que era exterminada (através da intervenção messiânica).

Sem surpresas, a história substancial do establishment calêndrico ocidental é geminada com a ascensão do milenarianismo, através de fases que tendem cada vez mais a formas social-revolucionárias e, eventualmente, abrem caminho para variedades auto-conscientemente anti-religiosas, mas decididamente escatológicas, de política total modernista. Já que o que quer que tenha acontecido tem que – pelo menos – ser possível, a própria existência do calendário apoia antecipações de ruptura história absoluta. Sua conta, simplesmente por começar, prefigura um fim. O que começa pode recomeçar, ou acabar.

O zero, contudo, se introduz diagonalmente. Ele até mesmo introduz um aspecto cômico, uma vez que qualquer que seja a importância da revelação cristã para a salvação de nossas almas, é descaradamente óbvio que ela falhou em entregar uma notação aritmética satisfatória. Para isso, a Europa cristã teve que esperar a chegada dos numerais decimais da Índia, através do Oriente Médio muçulmano, e a subsequente revolução do cálculo e da contabilidade que coincidiu com a Renascença, junto com o nascimento do capitalismo mercantil nas cidades-estado do norte da Itália.

De fato, para qualquer um que busque um calendário verdadeiramente moderno, a Chegada do Zero marcaria uma excelente ocasião para um novo ano zero (0 AZ?), por volta de 1500 AD. Embora tal coisa plausivelmente datasse a origem da modernidade, a imprecisão histórica do evento conta contra ela, contudo. Além disso, a assimilação do zero por um capitalismo germinal europeu (e, assim, global) foi evidentemente gradual – mesmo que comparativamente rápida – em vez de uma transição ‘revolucionária’ pontual do tipo ao qual o zero calêndrico comemorativo é otimamente apropriado. (Se o Ano Zero é, desta forma, barrado da designação de sua própria operacionalização histórico-mundial, talvez ele esteja estruturalmente fadado à má aplicação e à produção de desilusão.)

A conspícua ausência do zero d(a conta d)o calendário ocidental, exposta em seu solavanco abrupto de 1 AC para 1 AD, é um estigma intolerável e irreparável que leva sua ironia mundial a um zênite. Na própria operação de integrar a história mundial, em preparação para a modernidade planetária, ele observa sua própria antiguidade e particularidade debilitantes, no sentido moderno mais condescendente do limitado e do primitivo – cru, defeituoso e subdesenvolvido.

Como um momento de incompetência calculista auto-evidente poderia fornecer um ponto de origem convincente para o cálculo histórico subsequente? O Ano Zero escapou de toda possibilidade de apreensão conceitual no momento da contagem do tempo ao qual agora ele é visto pertencer, e o infinito (o recíproco do zero) se prova não menos elusivo. O infinito foi inserido em um tempo quando (e um local onde) ele demonstravelmente não fazia nenhum sentido, e a extraordinária impressão histórico-mundial que ele fez não fez nada – nem mesmo nada – para mudar essa situação. Esse não é um enigma digno para os teólogos? Onipotente, onisciente, onibenevolente e, no entanto, sem esperanças na matemática – essas não são as características de uma revelação projetada para impressionar tecnólogos ou contadores. Tanto mais razão, então, para levar essa comédia a sério, em toda a sua ambivalência – uma vez que o mundo emergente dos tecnólogos e contadores, o mundo tecno-comercial (industrial desembestado, ou capitalista) que globalizaria a terra, foi desmamado dentro do cercadinho deste calendário, e de nenhum outro. A modernidade selecionara para datar a si mesma de uma maneira que seus próprios alunos do jardim de infância desdenhariam.