Artes da Reanimação

Há sempre algo enorme acontecendo em Shanghai — e geralmente várias coisas. Na vanguarda dos últimos dois anos [entre 2011 e 2013] estava o tsunami de desenvolvimento urbano ao longo da orla do Huangpu, ao sul do núcleo metropolitano de Puxi, em uma área que foi chamada de ‘Xuhui Riverside’ ou ‘West Bund’. A escala do que estava a caminho ali era (claro) absolutamente impressionante.

Uma mistura de novos complexos residenciais e torres prestigiosas estava em construção, e a orla imediata já tinha sido re-desenvolvida em uma faixa de parques e calçadões interconectados (que constituem os 8.4 km do ‘Shanghai Corniche’). Ao longo do rio, uma estética neo-moderna predomina, caracterizada por estruturas industriais pesadas elegantemente reaproveitadas: lajes de concreto, trilhos desativados e massivos guindastes de carga. Como em outros lugares na cidade, a Shanghai 1.0 peso-pesado foi divertidamente dobrada sobre si mesma, em uma celebração fina da herança modernista. O futuro é apresentado como um relançamento do passado. Para qualquer um que fique hipnotizado com espirais de tempo, é irresistível.

O papel atribuído às artes neste processo de reanimação urbana é especialmente notável. Mesmo em uma cidade repleta de delírios por conta de um crescimento explosivo do espaço artístico, a proliferação de galerias, teatros, museus e outros centros culturais no West Bund surge como um choque pouco compreensível. O rugido subsônico de sucção dessa nova capacidade cultural, emitida em ondas sobrepostas à medida em que amplia seu apetite devorador por toda a cidade e para muito além, atinge uma magnitude que parece dobrar o espaço e o tempo. Existem culturas nacionais inteiras no mundo que teriam sérios problemas para satisfazê-la.

A festa de inauguração desta infra-estrutura de artes foi realizada em uma escala adequadamente estupenda. A Westbund 2013: A Biennial of Architecture and Contemporary Art (“Westbund 2013: Uma Bienal de Arquitetura e Arte Contemporânea”) incluía um conjunto interligado de exposições, cada uma das quais teria sido deslumbrantemente impressionante por conta própria. A Sound Art China introduzia a vanguarda sônica do país em seu evento Revolutions Per Minute, instalado em quatro tanques de armazenamento de óleo renovados. O adjacente West Bund Exhibition Center — uma estrutura industrial reconstruída de proporções verdadeiramente ciclópicas — hospedava uma mostra de história do som / vídeo / arquitetura / cinema multifacetada dentro e ao redor de uma “Mega-Estrutura Inter-Mídia” central que correspondia totalmente ao seu nome grandioso. Uma exposição mais modesta sobre desenvolvimento urbano em um espaço de armazenamento próximo fazia o seu melhor para explicar as convulsões épicas que a área estava sofrendo. (Eu acho que a palavra apropriada é “impressionante”, ao cubo.)

Há apenas uma única conclusão razoável: Shanghai é o puro esplendor cósmico, compactado para aplicação terrestre e expresso através de uma sobrecarga estética. O cinismo pode aguarda uma outra ocasião.

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O Delta Decopunk

Conforme este blog espirala até seu ponto de re-começo, ele recupera as tarefas sobre as quais ainda tem que avançar, incluindo a mais básica (anunciada em seu sub-título). Por quê o ‘Delta Decopunk’? Em sua maior parte, por que é onde o tempo se desfia.

+ A Era de Ouro de Shanghai é um negócio irresolvido e, conforme as coisas disparam adiante, elas voltam para trás.
+ A Art Déco é a modernidade perdida do mundo, como todo mundo pressente, sem saber bem por quê.
+ A Art Déco escapava de sua época, na época. Ela é a relíquia preeminente de viagens no tempo na terra.
+ O que a Art Déco comunica é vívido, embora ainda não verbalizado.
+ A Art Déco fascina novamente, hoje, porque ela é obscuramente reconhecida como a chave do significado criptografado da história mundial, e em nenhum lugar isso é mais insistentemente indicado do que na Shanghai reaberta.

– O sufixo ‘-punk’ é o código das revistas pulp para qualquer ferramenta cultural de viagem no tempo que esteja sofrendo um desenvolvimento contemporâneo.

As duas metades do termo ‘Decopunk’ se ligam através de uma semi-simetria peculiar. Cada uma delas está presa no tempo de uma ‘voga’ identificável, ao passo em que simultaneamente fazem do tempo um problema e da história, um tópico. A Art Déco é, de uma só vez, a característica mais evocativa de uma época — aquela da alta-modernidade / capitalismo — e uma exploração super-histórica, que se estende dos remanescentes arcaicos de civilizações perdidas até vôos de especulação ficcional-científica, atraindo todo o cosmos de possibilidade estética e arquitetônica para dentro de si. O sufixo ‘-punk’, que ainda se prolifera, designa, de maneira similar, tanto uma erupção de gêneros literários pulp semi-contemporâneos, quanto um método de pilhagem temporal, vagando extensamente por entre passado e futuro, em buscas por conjuntos extraíveis ou estilos tecno-culturais. Algo como uma epocalidade abstrata, ou valor de re-uso histórico, é caçado de cada um dos lados. Quando os dois se conectam, a ocorrência original é espiralada em uma máquina de reciclagem com processos gêmeos.

Se o Decopunk descreve um entrelaçamento através do tempo, feito com engenharia de precisão, ele também marca uma tensão, ou gradiente, do histórico ao contemporâneo, da opulência à miséria, do otimismo ao pessimismo, e do tangível ao digital. O que o presente virtual do passado tende a superestimar, o passado virtual do presente tende a enfraquecer, e é apenas no circuito instável de uma valorização oscilante que qualquer um dos pólos encontra sua real circulação (que é igualmente aquela do outro). Um cinismo eufórico, aprimorado através de um desapego espiralado para com o parcial e o atual, funde o Decopunk poli-fracionário em uma coisa única e investigável.

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O conteúdo conceitual do ‘-punk’ da história alternativa foi uma consideração central de uma série neste blog, Um Guia de Shanghai para o Viajante no Tempo (Parte 1, Parte 2, Parte 3). O termo mais encardido e popular — embora, para os nossos propósitos, bem menos exato — ‘Dieselpunk’ foi empregado nessas peças, como um espaço reservado para o problema emergente do deslocamento no tempo.

Algumas das questões culturais-históricas mais proeminentes levantadas pelo legado da Art Déco em Shanghai foram brevemente indicados no guia Urbanatomy à Expo Mundial de 2010, em uma curta seção, repetida aqui:

Modernidade Tropical

O cosmopolitismo é um traço essencial para qualquer cidade com aspirações a um status global. Em si, contudo, a ideia cosmopolita é abstrata e vazia – ou pelo menos indeterminada – demais para fornecer orientação quanto às tradições culturais dominantes de Shanghai.

O encolhimento econômico e comunicativo do mundo torna a modernidade, não menos que o urbanismo, inerentemente cosmopolita. Desde os anos 1960, críticos pós-modernos têm reconstruído (e ‘desconstruído’) um modelo de modernismo cosmopolita que se conforma à visão de seus proponentes arquitetônicos mais verbalmente articulados. Esta visão é identificada com o ‘Estilo Internacional’, caracterizado por designs austeramente funcionais e geometricamente puros. Ao eliminar todos os elementos de referência histórica ou cultural discernível, tais designs aspiravam a validade e relevância universais. O resultado foi um cosmopolitismo negativo, concebido como uma escapada da armadilha da peculiaridade nativa. Esta reivindicação de neutralidade cultural e autoridade universal tem sido o objeto básico da depreciação pós-modernista, e o desastre social generalizado associado a essa filosofia de construção urbana nos países ocidentais (os ‘conjuntos habitacionais’) fizeram muito para legitimar o argumento pós-moderno. Na opinião tanto popular quanto da elite, o alto modernismo, conforme representado por suas tradições supostamente dominantes no planejamento urbano e na arquitetura, ficou associado com uma insensibilidade arrogante para com as realidade locais e com uma confiança auto-ilusória em sua própria inevitabilidade objetiva.

A importância de Shanghai para essa discussão é que ela desdenhou inteiramente do modernismo do Internacional, pelo menos até tempos muito recentes (após a abertura de Pudong). Sua alta modernidade foi construída nos estilos mais luxuriantes e tropicais que hoje são agrupados em conjunto sob o rótulo ‘Art Déco’, em referência retrospectiva à Exposition Internationale des Arts Decoratifs de Paris em 1925. Onde o Estilo Internacional rejeitava todo tipo de superfluidade, a Art Déco se esbaldava em complexidade cultural, simbolismo arcano e opulência de referências, emprestando livremente de tempos egípcios e mesopotâmios antigos, tecnologia balística, objetos de ficção científica, glifos herméticos e sonhos alienígenas. Fundindo tendências de design simplificado com formas cubistas fracionadas e as descobertas da etnografia comparativa, ela criava um estilo cosmopolita voluptuoso, perfeitamente adaptado à Shanghai do começo do século XX.

Shanghai foi tão completamente saturada de herança e influência Art Déco quanto qualquer cidade no mundo. Exemplos incluem tesouros tais como o Capitol Building (146 Huqiu Lu, CH Gonda, 1928), o Grande Teatro (agora Grande Cinema, 216 Nanjing W, Rd, Hudec, 1928), o Peace Hotel (Bund 19-20, Palmer & Turner, 1929) e o Paramount Ballroom (Yang Ximiao, 218 Yuyuan Rd, 1932). Um cluster Art Déco especialmente impressionante pode ser encontrado na ‘Praça Municipal’, intersecção entre a Jiangxi Middle Road e a Fuzhou Road, dominada pela Hamilton House (Palmer & Turner,1931), o Metropole Hotel (Palmer & Turner, 1934) e o Banco Comercial da China (Davies, Brooke and Gran, 1936). Muito desse fabuloso legado arquitetônico foi documentado no trabalho do fotógrafo local Deke Erh.

O estilo Art Déco tornou-se tão profundamente infundido no tecido da cidade que seus motivos padronizados e distintos (como raios solares, ziguezagues e signos místicos) podem ser vistos em inúmeros portais de lilong das décadas de 1920 a 1940. Em um outro extremo, a ultramoderna Jin Mao Tower da cidade, em Lujiazui (88 Century Avenue) sintetiza formas cristalinas, segmentação em pagodes e padrões derivados da numerologia tradicional chinesa, sob a orientação de inconfundíveis influências Art Déco. Um exemplo ainda mais pronunciado de construção e decoração Art Déco contemporânea é fornecido pelo novo Peninsula Hotel, que foi meticulosamente projetado como um tributo consciente (e uma revitalização) do estilo alto modernista de Shanghai.

Em contraste com a austeridade do Estilo Internacional, a abundância tropical da Art Déco produz um cosmopolitismo positivo, que avança até o universal por meio de abrangência e síntese, em vez de purificação exclusiva. Ela se torna global ao atrair tudo de estrangeiro para si, ao invés de se livrar de traços nativos. Dessa diferença, muito se segue.

No Ocidente, uma desilusão generalizada com o modernismo, que resulta de experiências históricas severas, culpa civilizatória e um declínio geoestratégico relativo, encontrou uma expressão articulada em argumentos e, mais popularmente, atitudes pós-modernas. Essas posições alcançaram uma medida de coerência através de uma construção crítica do modernismo, modelada sobre o Estilo Internacional. Tendências do pós-guerra no desenvolvimento urbano, embasadas em zoneamento rígido, racionalização geométrica da paisagem urbana e blocos residenciais em massa insossamente uniformes, pareciam exemplificar uma mentalidade modernista arquetípica. A modernidade urbana foi interpretada como algo que havia sido tentado, visto, entendido, julgado e rejeitado. O episódio cultural pós-moderno se seguiu.

A Art Déco, no entanto, escapou de toda essa desoladora progressão. Um estilo afirmativamente moderno e abrangente que havia abraçado a era das máquinas e um mundo comunicativamente intercomunicado, ela permanecia inteiramente imaculada pelo minimalismo e pelos planos-mestres dos Estilistas Internacionais. O trovejante choque cultural entre ‘modernistas’ e pós-modernistas que ressoou através do mundo ocidental no final do século XX a ignorou completamente. A Art Déco representa, assim, uma modernidade não processada e não digerida, ainda pulsando com enigmas históricos e potencialidade não exauridas. A vivacidade contínua da Art Déco é mal compreendida por noções de anacronismo ou nostalgia, uma vez que é um estilo que nunca foi concluído, delimitado, superado ou avaliado de maneira adequada. Ela é o símbolo quase infinitamente complexo de um espírito moderno prematuramente descartado, reanimado espontaneamente pela renovação da própria modernidade. A reivindicação da Art Déco a uma atenção estética, intelectual e até mesmo política não são em nenhum lugar mais óbvias do que na Shanghai contemporânea.

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Limites da Cidade

Há, sem dúvida, um caráter quixotesco no modo “a China deveria fazer X” de comentários externos, mas o pequeno artigo de Yukon Huang na Bloomberg, que aconselha a revisão das políticas de urbanização do país, representa o gênero em sua melhor forma. Observando os efeitos de aglomeração que produzem retornos desproporcionais de escala urbana, Huang recomenda um afastamento da proliferação de cidades menores e uma aproximação na direção do crescimento de megacidades.

A China já está em uma classe própria ao ser responsável por 30 das 50 maiores cidades do leste da Ásia. Ela possui meia dúzia de megacidades com populações de mais de 10 milhões e 25 cidades “grandes”, que excedem 4 milhões. Na verdade, porém, a única maneira pela qual a China alcançará os ganhos de produtividade desejados é se seus líderes permitirem que as cidades evoluam mais organicamente em resposta às forças do mercado. Eles precisam deixar cidades como Pequim ficarem maiores.

A concentração urbana cria problemas reais, mas estes são indistinguíveis dos desafios que qualquer processo genuíno de avanço socioeconômico tem que enfrentar. As soluções para esses problemas serão os mesmos passos que levarão o país adiante em território inexplorado — para além da “recuperação” e até os horizontes abertos do futuro. Tudo que se aprende da história econômica concreta sugere que as oportunidades tecnológicas e de negócios serão aumentadas exatamente pelas forças que promovem a aglomeração das megacidades — e, melhor ainda, a concentração ou intensidade urbana — a níveis historicamente sem precedentes. É assim — e onde — que a inovação social profunda ocorre.

Em vez de tentar ativamente espalhar o crescimento para pequenas cidades novas, os planejadores da China deveriam abraçar as economias de aglomeração, que militam por grandes metrópoles. À medida em que a terra e os custos salariais aumentam, algumas indústrias eventualmente gravitarão para cidades de tamanho médio, mas os serviços continuarão a impulsionar a expansão nas cidades maiores. Pessoas inteligentes gostam de se misturar com outras pessoas inteligentes, e a globalização ampliou seus retornos financeiros. Pequim e Shanghai continuaram a crescer por causa de serviços dinâmicos de alto valor, mesmo quando suas bases de produção encolheram. Tudo isso explica porque, na China, a produtividade nas áreas urbanas é mais de três vezes maior que nas áreas rurais.

Mas as megacidades da China não são grandes demais para serem sustentáveis? Na verdade, alguns especialistas urbanos concluíram que até mesmo as maiores cidades da China podem ser muito pequenas. Eles citam a “lei de Zipf”, uma das grandes curiosidades da pesquisa urbana. A lei, que é surpreendentemente precisa para muitos países, afirma que a maior cidade de um país deve ter o dobro do tamanho da segunda maior, três vezes o tamanho da terceira maior, e assim por diante. Com base nisso, as maiores cidades da China parecem muito pequenas.

Pensar através de leis de potência (como as de Zipf) afasta a ideia de tamanhos “normais” de cidades. A escala urbana ótima é decidida por efeitos de rede e depende de toda a ecologia social — regional, nacional e globalmente. O tamanho “ideal” de Shanghai, por exemplo, não pode ser derivado de algum modelo genérico de cidade, mas deve ser entendido, em vez disso, com referência ao papel singular que esta cidade desempenha como um ponto central em múltiplas redes — especialmente redes comerciais — dentro do qual ela acumula funções especializadas. À medida que essas teias se expandem e engrossam, seus nós críticos tendem a crescer e se intensificar espontaneamente. É natural, portanto, ao longo do processo de modernização global, que os limites da escala urbana fiquem cada vez maiores, de acordo com a sofisticação funcional dos centros cruciais do sistema, e os refinamentos associados de especialização que essas cidades-chave promovem.

Pequim está sujeita a teimosas restrições ambientais, com a limitação dos recursos hídricos sendo proeminente entre esses. Sua distância da costa também é um fator inibidor de crescimento. Shanghai, em contraste, está destinada à vastidão por tamanhas e implacáveis forças históricas que é difícil imaginar mesmo a resistência política mais determinada ficando no caminho por muito tempo. Como a capital comercial do país, qualquer distribuição em lei de potência da escala urbana começa com Shanghai no cume. Seria melhor se dobrar ao inevitável, e deixá-la se tornar o laboratório do mundo para intensidade urbana, traçando o avanço da modernidade até o Século do Pacífico. As recompensas por essa aceitação facilmente submergiriam os custos.

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Liberdade Zoneada

O South China Morning Post de Hong Kong relata:

O governo central vê a zona de livre comércio de Shanghai, a ser lançada este mês [setembro de 2013], como a pioneira no continente em maior convertibilidade do yuan e de taxas de juro mais livres e orientadas ao mercado. […] Pequim concordou, em princípio, em deixar a zona, a primeira do continente, tomar a dianteira em sua tão esperada reforma das taxas de câmbio e de juros, segundo um documento interno do governo sobre o lançamento da zona. […] Entende-se que o Premier Li Keqiang endossou o plano de lançar a zona de livre comércio em Shanghai, e não em Tianjin ou Guangdong, que também haviam pressionado pela aprovação do governo central. […] No mês passado, Pequim aprovou a zona de livre comércio de Shanghai, que terá quase 29 quilômetros quadrados na Nova Área de Pudong, incluindo a zona franca de Waigaoqiao e o porto de Yangshan. […] O Post informou ontem que a zona pode eventualmente ser expandida até cobrir todo o distrito de Pudong, de 1.210 quilômetros quadrados, se for um sucesso.

Uma experimentação baseada em zonas da liberalização econômica tem sido decisiva para impulsionar o país à frente, por isso essa iniciativa é altamente encorajadora. Para partidários de Shanghai, a notícia é duplamente bem-vinda. Deixar as coisas acontecerem em diferentes lugares em velocidades diferentes é a maneira óbvia de evitar que a inércia de um país grande pare tudo, e para a China essa é uma consideração singularmente importante. Isso é a geografia dinâmica para confucionistas cautelosos (e não há nada errado com isso).

Mas do SCMP sobre a zona de livre comércio de Shanghai e ‘Likonomia’ aqui.

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Herança Habitada

No The China Story, Ken Taylor discute ‘Herança Cultural e Urbanização na China’ — com Hangzhou e a periferia de Shanghai ilustrando modelos bem sucedidos de conservação profunda. Taylor aproveita a oportunidade para promover os princípios das Paisagens Urbanas Históricas (HUL, na sigle em inglês) aprovados pela UNESCO, que enfatizam a dimensão sociológica da proteção de patrimônio, em vez de limitar a consideração ao “tecido arquitetônico puramente físico”. O Zhujiajiao restaurado de Shanghai é apresentado como um exemplo de conservação de HUL que funciona bem.

Processos familiares de gentrificação, embora fortemente alinhados com a proteção e a restauração de patrimônios, também estão associados com o deslocamento da população local, o que compromete seu valor, da perspectiva das HUL. A continuidade da comunidade, portanto, é introduzida como um critério suplementar, o que estende o sentido de herança em uma concreta direção etnográfica. O desenvolvimento metropolitano dinâmico, que — pelo menos em Shanghai — está cada vez mais confortável com uma proteção de patrimônio arquitetônico (e que é até mesmo estimulado por ela), provavelmente achará o espectro total da agenda das HUL estranhamente ‘preciosista’ e retardante ao crescimento. Com a ongsacracia global firmemente apoiando as HUL, qualquer objeção desse tipo terá que permanecer discretamente muda, embora uma crítica dessas ideias, vinda do lado dos fluxos urbanômicos de alta velocidade, pode ser esperada em algum ponto (talvez aqui). Para áreas urbanas de menor intensidade, contudo, onde os mercados imobiliários desempenham um papel menos radicalmente catalítico, as ideias das HUL sem dúvida encontrarão um lar mais inequivocamente receptivo.

Shanghai não é apenas uma bancada de testes para um desenvolvimento sensível às HUL, mas também um centro de refinamento intelectual do modelo, seguindo “a mudança do Dr. Ron Van Oers da UNESCO de Paris para o World Heritage Institute for Training & Research (WHITRAP), na Universidade Tingji, Shanghai, no papel de Vice-Diretor, com a missão particular de trabalhar no Paradigma das HUL na China e na Ásia”.

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Visões da Shanghai Tower

Algumas imagens deslumbrantes do fotógrafo local Blackhaven foram selecionadas por James Griffiths no Shanghaiist, apresentando a Luijiazui como nunca foi vista antes. Torres super altas são objetos e plataformas de espetáculo. Provavelmente é fútil argumentar sobre qual aspecto da reconstrução do visual urbano importa mais.

ADICIONADO: Do excelente ensaio de Jabon Rubin sobre o Burj Khalifa:

Ainda assim, um edifício como o Burj exerce uma atração magnética, grande parte da qual deriva da perspectiva de sua visão. Essa é a questão apresentada por uma torre: ela é feita para que se olhe para ela ou a partir dela? “Vista”, enquanto palavra, veio a significar ambos, denotando não apenas a visão em si, mas o poleiro que a oferece, como se o último atingisse o status de perspectiva simplesmente por oferecer uma. Quando se fita a Torre Eiffel ou o Empire State Building, é literalmente para isso que está se olhando: uma vista de uma vista, uma visão de uma visão, e aquela admiração distinta e encharcada de veneração, conhecida de qualquer transeunte, deve derivar, pelo menos em parte, de se imaginar a visão lá de cima. Como o rosto de um visionário, essas construções extraem muito de seu poder daquilo a que contemplam.

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Urbanização em Foco

A urbanização poderia ser o tema principal da 5ª geração da administração do PC da China? O pano de fundo para essa pergunta é o próprio processo de urbanização chinês. Ao longo das três décadas de Reforma e Abertura, a população urbana da China subiu de 20% para 53% do (crescente) total, resultando em mais de meio bilhão de novos urbanitas. As consequências econômicas e geoestratégicas dessa transformação reestruturaram profundamente o mundo. (Esse é o fato central da Modernidade 2.0 centrada no Pacífico.)

No Atlantic, Matt Schiavenza comunica o básico:

Na China, o crescimento econômico e a urbanização têm andado de mãos dadas. Quando Deng Xiaoping iniciou a Reforma e Abertura em 1978, a vasta maioria da população vivia e trabalhava no interior — da mesma forma em que o povo chinês havia feito por séculos. Mas ao longo das últimas três décadas e meia, conforme as zonas econômicas especiais despejavam exportações e a China modernizava suas cidades, centenas de milhões de pessoas migraram para áreas urbanas buscando trabalho nos setores de manufatura e serviços. Isso… deixou a China — e os chineses — muito mais ricos

O temas de orientação da liderança da 4ª geração do PC da China – ‘sociedade harmoniosa’ e ‘desenvolvimento científico’ – foram sem dúvida esculpidos pelas pressões e pelos desafio políticos de uma urbanização massiva, mas eles abordavam o fenômeno de maneira indireta. Existem inúmeras indicações de que uma ênfase mais especificamente focada na urbanização está emergindo agora. Em particular, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, vislumbra o tópico como um nexo, em que muitas das questões de desenvolvimento e governança do país se encontram.

O jornal chinês Qiushi publicou um artigo de Li Keqiang sobre urbanização em sua edição de inverno em 2012 (traduzida para o inglês por He Shan e Chen Xia aqui). Enquadrado pela expectativa (atribuída a “economistas estrangeiros”) de que “a urbanização da China e a alta tecnologia dos EUA emergiriam como motores gêmeos da economia global no século XXI”, ele recompensa um exame minucioso.

A análise de Michael Pettis, que identifica um consumo doméstico insuficiente (por parte das famílias) como um obstáculo econômico proeminente da China, é uma valiosa preparação para essa discussão, que começa: “A urbanização é o maior potencial para se impulsionar a demanda doméstica”. Li argumenta que a China permanece relativamente sub-urbanizada, de modo que a propulsão a um “crescimento urbano exponencial” continua, com implicações pelo menos parcialmente previsíveis. Uma vez que “os residentes urbanos gastaram 3,6 vezes mais do que os habitantes das zonas rurais em 2010”, pode-se prever com confiança que os gastos dos consumidores aumentarão em função da urbanização, contribuindo automaticamente para o reequilíbrio econômico.

… Estima-se que cada residente rural que se torne um morador urbano aumentará o consumo em mais de 10.000 yuan (US$1.587). E cada um aumento de um por cento na taxa de urbanização em apenas um ano verá mais de 10 milhões de residentes rurais absorvidos pelas cidades. Isso, por sua vez, se traduzirá em um consumo de mais de 100 bilhões de yuans (US$15,9 bilhões) e, consequentemente, criará mais oportunidades de investimento.

A plena realização dessas oportunidades, argumenta Li, exigirá a reforma ou a abolição do sistema hukou de registro de residência do país, com sua “estrutura dupla urbano-rural”. Em outros aspectos, também uma ação vigorosa do governo é recomendada, contanto que ela alcance uma “conformidade com as leis objetivas do desenvolvimento urbano”. (Investigar “as leis objetivas do desenvolvimento urbano” é a missão primária deste blog, então é um conceito ao qual obsessivamente retornaremos.)

Assume-se que as responsabilidades centrais do governo incluem a mitigação de conflitos e problemas sociais, o investimento em infraestrutura e a intervenção administrativa para restringir a instabilidade do mercado imobiliário. A gestão da urbanização, assim, é reconhecida como uma prioridade do governo. Dada a complexidade e a significância global dessa tarefa, que equivale à integração de outro quarto de bilhão de chineses à corrente econômica em pouco mais de uma década, não há realmente nenhuma alternativa decente à observação – com um mínimo absoluto de presunção ou sarcasmo – boa sorte com isso.

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Mesmo quando os gastos diretos de construção são ignorados, ao sistematicamente aumentar o nível de consumo domiciliar, a urbanização chinesa domina a paisagem macroeconômica do país. Não é nenhum grande exagero ver a emergência da economia consumidora mais dinâmica do mundo como um efeito colateral de um processo de urbanização com três décadas de duração, embora – como em qualquer desenvolvimento complexo como esses – a causalidade seja turbular e auto-estimulante. O consumidor chinês é uma criatura da nova época urbana e uma incitação à sua elaboração adicional.

Conforme observado na primeira parte deste post, a centralidade da urbanização para a situação macroeconômica da China foi explicitamente abordada em um artigo significativo do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang. A conversão do povo rural em urbanitas (ou ‘cidadãos’ de acordo com uma etimologia estrita) é companhada por um aumento de 3.6 vezes no consumo per capita. Além do impacto puramente quantitativo no nível de demanda econômica doméstica, a ascensão dos consumidores urbanos também impulsiona uma transição qualitativa, caracterizada sobretudo pela expensão do setor de serviços (em termos tanto absolutos quanto relativos). Li busca alinhar ações administrativas com essa tendência:

A escalada do crescimento da indústria de serviços é crítica para se ajustar a estrutura industrial. Medidas efetivas devem ser tomadas para construir um ambiente favorável ao crescimento da indústria de serviços, tanto em termos de tamanho quanto de qualidade. O governo deve promover o desenvolvimento de indústrias de serviços relacionados à produção, como uma logística moderna, e-commerce, pesquisa científica e design. Deve também garantir que os serviços relacionados ao consumo, como turismo, recreação, cuidados aos idosos e serviços domésticos, sejam estimulados e que o desenvolvimento de pequenas e médias empresas de serviços seja apoiado.

A urbanização promove um estrutura econômica mais orientada a serviços, o que, por sua vez, promete diminuir a intensidade energética da produção econômica; aumentar a produtividade total dos fatores (PTF); proliferar pequenas e medias empresas (PMEs) empreendedoras; acelerar a emergência de indústrias embasadas em conhecimento e criativas; e aumentar as oportunidades de emprego. Em outras palavras, uma série previsível de dependências – da urbanização, passando pelo consumismo, até a orientação a serviços – subordina a política econômica às “leis objetivas do desenvolvimento urbano”, que sozinho torna suas metas realizáveis. A expansão e a melhoria das cidades decidirão se a China funciona.

A orquestração de questões políticas centrais sob um tema urbano é também notavelmente vista na área do desenvolvimento regional. Aqui, também, os problemas mais intratáveis do país devem ser destrancados por uma chave urbana:

O desenvolvimento regional está intimamente relacionado à urbanização. Regiões menos desenvolvidas ficam para trás em termos de crescimento, especialmente na urbanização. Em áreas que ostentam condições maduras de desenvolvimento e uma grande capacidade ambiental, o governo deve ativa e continuamente facilitar a urbanização através de uma alocação razoável de recursos, uma disposição centralizada das empresas e do encorajamento do uso intensivo da terra para acionar novos motores de crescimento e melhorar a capacidade local de desenvolvimento auto-sustentável. O governo deve adaptar suas políticas regionais, industriais e agrárias a diferentes regiões e setores, em vez de adotar políticas gerais e abrangentes.

O investimento em infra-estrutura e as ferramentas de política social que têm sido empregadas para ‘Abrir o Ocidente’ desde a virada do milênio são agora especificamente concebidas como formas de catalisar, acelerar e guiar o desenvolvimento urbano em regiões atrasadas. As cidades devem ser a solução.

Alguns links extras:

A excelente introdução de Mi Shih ao chengzhenhua (城镇化) — e por que ‘urbanização’ não é a palavra certa.

Para uma abordagem mais hostil à agenda de urbanização chinesa, vide Gordon Chang aqui.

Nin-Hai Tseng na Fortune: “[Stephen] Roach oferece uma estatística interessante: o setor de serviços da China exige cerca de 35% mais emprego por unidade de PIB do que a manufatura e a construção.”

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Absorção de Capital: Sobre o tópico de Michael Pettis, este soberbo artigo recente certamente se tornará um ponto de referência indispensável para os observadores da economia chinesa. Pettis há muito tem argumentado que os níveis de investimento chineses excedem a capacidade de absorção do país, e o novo artigo coloca este argumento em um quadro teórico mais amplo, que ele explica com extraordinária lucidez. Se ele estiver correto em sua avaliação básica, algumas suposições bastante generalizadas sobre a economia do desenvolvimento exigirão uma revisão drástica, com fatores culturais e institucionais (“capital social”) adquirindo uma proeminência bem maior.

Pettis tem uma reputação merecida de pessimismo em relação aos prospectos de crescimento chinês, mas esse artigo faz um argumento cauteloso a favor do otimismo em relação à estratégia de desenvolvimento do país, que ele vê passando de um modelo de crescimento guiado por investimento para algo mais sensível a instituições. Essa sub-previsão política prevê um movimento significativo na direção de uma reforma orientado ao mercado durante o período Xi-Li.

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Movimentos de Abertura: No South China Morning Post (via): O premiê Li Keqiang lutou contra a oposição dos reguladores financeiros em sua tentativa de promover um plano de referência para uma zona de livre comércio em Shanghai. É o sinal mais claro ainda de que a nova liderança do país está determinada a realizar reformas econômicas há muito adiadas. […] O novo plano de zona de livre comércio de Shanghai, anunciado oficialmente no início de julho, deve ser o campo de testes para as principais reformas políticas. Ela promoveria os fluxos de capitais e mercadorias transfronteiriças, com experimentos-chave para liberar os mercados de câmbio e liberalizar as taxas de juros domésticas. […] Dentro de dois meses, Li fez uma proposta inicial que abrange 21 iniciativas cujos detalhes não foram oficialmente anunciados. Estes incluíam atalhos para bancos estrangeiros estabelecerem operações de subsidiárias ou de empreendimentos conjuntos, e permissões especiais para bolsas estrangeiras de commodities fazerem depósitos próprios na zona de livre comércio em Shanghai… […] … outras cidades do continente, que enfrentam desemprego e crescimento mais lento, também estão interessadas em seguir o movimento de Shanghai para atrair capital estrangeiro. Mas não se entende que Li esteja interessado em se apressar em copiar o modelo de Shanghai para outras cidades do continente.

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Handle_MZ comentou: “pode-se prever com confiança que os gastos dos consumidores aumentarão em função da urbanização, contribuindo automaticamente para o reequilíbrio econômico.”

Eu li “The Great Rebalancing” (“O Grande Reequilíbrio”) e eu acho que essa previsão estranhamente contradiz a narrativa principal de Pettis. Pettis diz que a participação do consumo no PIB chinês é uma função necessária tanto da propensão das populações a economizar e consumir quanto de toda a política econômica do governo, incluindo as taxas de juros do PBOC, os controles de capital e a estabilização da taxa de câmbio do dólar.

O objetivo é um crescimento alto e sustentável do PIB através de altos níveis de investimento, salários estáveis e acumulação de capital de fator produtivo — especialmente no setor de exportações e comercializáveis. Um objetivo corolário é uma melhoria na competitividade global em mercados acima na cadeia de valor.

Se o consumo domiciliar é um produto de meios que buscam o fim acima, então qualquer aumento no consumo (isto é, vindo da urbanização) que perturbe esse fim será recebido apenas com movimentos compensatórios do governo que o empurre de volta para baixo. A política é o motor imóvel dos níveis de consumo. Bem, ligeiramente móvel, mas por aquele critério de sustentabilidade previamente mencionado. Mas o reequilíbrio não pode ocorrer sob o atual sistema a menos que o governo seja sábio o suficiente para apoiá-lo.

Em todo caso, a urbanização cria um excedente de trabalho que suprime o crescimento dos salários médios urbanos. Quanto mais o consumo urbano cresce (por conta de salários crescentes, por exemplo), tanto mais atraente é se mudar do interior, o que também empurra os salários urbanos de volta para baixo. Isso ajuda a competitividade global da China, mas pode, na realidade, reduzir o consumo doméstico em relação ao contrafactual de menos urbanização.

Resposta do Admin: Como você sabe de discussões anteriores, existem várias suposições que precisam ser corrigidas antes de ir adiante com isso. Nesse ponto, estou satisfeito com a conclusão de que a urbanização está sendo concebida como uma solução para o dilema econômico mais marcado do país (no nível mais alto da nova liderança). Eu acho que isso é bastante sólido, independente das questões que Pettis e você levantam. Sobre essas últimas, no entanto, parece difícil acreditar que a urbanização é incidental para a formação de “capital social”, do tipo que — Pettis argumenta — eleva a capacidade de absorção de capital e, assim, contribui diretamente para a melhoria do problema de deficiência de consumo. Isso é para além dos efeitos diretos sobre o consumo enfatizados por Li Keqiang.

Isto não pretende ser uma resposta adequada ao seu argumento, apenas uma réplica provisória.

Original.