Reino do Tripé

A ascensão da China e o futuro da trêstandade

De acordo com Arvind Subramanian, até mesmo projeções conservadoras das tendências comparativas de crescimento colocam a China em uma posição global, por volta de 2030, que é surpreendentemente similar àquela da Grã-Bretanha e da América em seus respectivos momentos de predominância econômica, sendo responsável por uma parcela da economia mundial de cerca de 150% do tamanho de seu rival mais próximo. Se isso viesse a acontecer, tal liderança invocaria uma ‘hegemonia’ como questão de puro fato quantitativo – bastante independentemente de intenções explícitas. O ‘modelo chinês’ promoveria a si mesmo, mesmo na completa ausência de reforço político e diplomático, e o poder magnético da cultura chinesa continuaria a se fortalecer em proporção aproximada à sua influência comercial. A China se tornaria o objeto de uma atração irresistível – contrabalanceada, sem dúvida, por ressentimentos – e seu exemplo queimaria incandescente, mesmo nos olhos ofendidos de seus detratores. Então, qual é esse ‘exemplo’?

Ao explorar essa questão, um lugar para se começar é a história da hegemonia econômica e, em particular, aquela instanciada pelas potências anglo-americanas ao longo de seus dois ‘longos séculos’ de supremacia global. Este é um tópico perseguido com excepcional discernimento por Walter Russell Mead, mais notavelmente em sua obra God and Gold: Britain, America, and the Making of the Modern World.

Mead localiza a chave da hegemonia da ‘anglosfera’ no ‘meme dourado’ da mão invisível, que se origina na ideia religiosa da providência e foi modernizado na mecânica celestial newtoniana, na economia política smithiana e na biologia evolutiva darwiniana. Em sua forma mais abstrata, essa ideia é tanto uma afirmação quanto uma renúncia, com sua potência e maleabilidade derivando de ambas. Reconhecer a mão invisível é fomentar um tipo especial de fatalismo positivo, confiando na tendência espontânea da história, que é abraçada como um pacto e uma eleição (no sentido teológico) explícita ou implícita. Tais temas são, sem disfarces, religiosos, e Mead não faz nada para obscurecer suas raízes na tradição, ou meta-tradição, abraâmica, que estabelece uma visão providencial da histórica enquanto finita, progressiva e inevitável, tendendo inexoravelmente à conclusão escatológica, estruturada por uma lei sobre-humana e (através de sua predestinação divina) facilitando a função da profecia.

A cultura profunda da anglosfera não é apenas genericamente abraâmica, contudo, ela é também especificamente pluralista. A mão invisível toma o centro do palco porque o centro é, de outra forma, desocupado ou distribuído. A providência esotérica suplanta a soberania exotérica porque uma incapacidade de se chegar a um acordo é eventualmente institucionalizada – ou pelo menos estabilizada de maneira informal – em um equilíbrio triangular de poder.

O que os britânicos fizeram, em última análise, foi confiar no que Burke chamou de “convenção”. Escritura, tradição e razão – cada uma tinha seu lugar e cada uma tinha seus devotos. Mas todas elas devam errado se você as pressionasse demais. Você deveria respeitar as escrituras e se submeter a elas, mas não interpretar as escrituras de uma maneira que lhe levasse a algum secto milenar esquisito ou até um comportamento social absurdo. Você honrava a tradição, mas não a pressionava tanto que lhe levasse aos braços do absolutismo real ou ao poder papal. Você pode e deve empregar a crítica da razão contra os excessos tanto da escritura quanto da tradição, mas não pressionar a razão ao ponto onde você se queixasse de todas as instituições existentes, comesse raízes e latisse por sua saúde ou, pior, minasse os direitos de propriedade e a igreja estabelecida. Pode-se imaginar John Bull coçando sua cabeça e lentamente concluindo que se deve aceitar que, na sociedade, haverão loucos da bíblia, loucos da tradição e loucos da razão – fundamentalistas, papistas e radicais. Isso não é necessariamente o fim do mundo. Em algum grau, eles se cancelam uns aos outros – os fanáticos fundamentalistas reprimirão os papistas e vice-versa, e os religiosos manterão os radicais em seu lugar – mas a concorrência entre sectos também impedirá que a igreja estabelecida pressione sua vantagem longe demais e que ela forme uma ideia por demais exaltada sobre a estatura, prestígio e emolumentos apropriados ao clero. [p. 223]

A hegemonia cultural se segue de uma fatalização semi-deliberada, conforme o centro soberano é deslocado por um processo social substancialmente automatizado que nenhum agente social é capaz de dominar ou impedir inteiramente. Cada facção principal recua para sua posição no triângulo, a partir da qual ela pode se engajar estrategicamente com as outras, mas nunca dominá-las completamente ou erradicá-las. O triângulo como um todo constitui um motor social e histórico, sem representação adequada em qualquer ponto identificável.

O pluralismo, mesmo ao custo da consistência racional, é necessário em um mundo de mudança. Forças e valores compensatórios devem competir. Razão, escritura, tradição: todas elas tem seus usos, mas nenhuma delas, sem controle, irá longe demais. Além disso, sem disputas constantes, controvérsia constante, concorrência constante entre ideias rivais sobre qual aparência a sociedade deveria ter e o que ela deveria fazer, o passo da inovação e da mudança provavelmente se desaceleraria, conforme as forças da inércia conservadora ficassem presunçosas e incontestas. [p. 212-2]

Este blog já tocou anteriormente na Singlosfera, onde aspectos das culturas anglófona e chinesa convergem na aceitação liberal manchesteriana / taoista da ordem espontânea, ou laissez-faire. Essa convergência se estende ao pluralismo triádico e se aplica ao núcleo sinosférico da China continental? A análise de Mead é altamente sugestiva em ambos os aspectos.

Em primeiro lugar, ela encoraja uma considerável equanimidade em relação à esperada transição global, mesmo quando a atenção se foca no coração político e ideológico da China contemporânea. Poderia parece, superficialmente, que a passagem de uma cultural mundial dominante dominada por atitudes cristãs tácitas para uma em que ideias sino-marxistas pouco familiares se elevam a uma proeminência internacional sem precedentes deve ser caracterizada por uma descontinuidade imensa – mesmo semi-absoluta. Um salto desse pode ocorrer sem se sucumbir a um choque cultural catastrófico e a uma fricção intratável? Quando examinado de uma perspectiva mais ampla, contudo, tal alarmismo é bem menos do que totalmente garantido.

Para melhor ou para pior, a abrangente continuidade cultural da mudança vindoura é garantida pelo profundo parentesco que liga o marxismo à ampla família de sistemas de crença abraâmicos. Teologicamente enraizado no engajamento dialético com a espiritualidade judaico-cristã, iniciado por Hegel e Feuerbach, o quadro básico do pensamento marxista perturba apenas trivialmente a estrutura da histórica profética, escatológica, redentora e providencial. Suas expectativas milenares não são mais aterrorizantes, suas certeza proféticas não mais irracionais, sua submissão às leis de ferro da história não mais restritivas e seu entusiamo moral não mais zeloso ou impraticável do que aquelas dos apocalipticismos judaico ou cristão antes dele.

O espectro de um ressurgimento totalitário marxista na China é tão realista quanto o medo de um golpe teocrático nos Estados Unidos da América, o que seria dizer, não tem qualquer realidade que seja. Em ambos os casos, maturidade, pluralismo e tradições estabelecidas protegem contra o domínio da sociedade por parte de qualquer facção intolerante em particular. É desnecessário ser cristão ou marxista para reconhecer o contínuo ímpeto histórico-mundial de uma meta-narrativa abraâmica ampla, ou para aceitar a consistência de tal narrativização social em larga escala com a regeneração perpétua do ímpeto prático, ou para ver uma solução social estabelecida e espontaneamente improvisada – e encarnação do conservadorismo dinâmico – no duradouro impasse triangular entre as escrituras marxistas, as tradições institucionais do Partido Comunista e o radicalismo de mercado na China de hoje. Assim como com o pluralismo anglosférico de Mead, as limitações recíprocas que cada uma dessa facções impõe às outras inevitavelmente desapontarão muitos, mas não há razão para que elas horrorizem ninguém.

Na medida em que Mead estiver correto em identificar a hegemonia anglosférica com o reino do tripé, ou seja, com a realização sócio-cultural do pluralismo (enquanto estabilidade dinâmica triangular), o potencial disruptivo da liderança chinesa emergente deveria ser considerado massivamente descontado, porque o tripé é um nativo chinês. Todo templo no país está equipado com um queimador de incenso com três pés, toda coleção de bronze em museus é dominada por caldeirões de três pernas, e cada um desses tripés tem um significado cultural definido e explicitamente conceitual. Isso não é apenas embasado na óbvia verdade intuitiva e prática de que o modelo mais simples de estabilidade vêm do tripé, mas também de um reconhecimento de que o impasse triangular exemplifica o dinamismo sustentável em sua forma elementar, desintegrando o universo em possibilidade estratégica.

Para a elaboração literária desse tema, é necessário apenas se voltar ao Romance dos Três Reinos, talvez o mais amplamente lido dos quatro grandes romances clássicos da China. Sua instanciação mais conspícua enquanto entretenimento popular é visto no jogo de pedra, papel e tesoura, que remonta (pelo menos) à dinastia chinesa Han (206A.C. – 220 D.C.), quando era conhecido como shoushiling.

A expressão última da estabilidade dinâmica triangular, não apenas na China, mas mundialmente, sem dúvidas é apresentada pelo Clássico das Mutações, o Yi Jing ou Zhouyi. É sobre esta obra de gênio singular e inumano, no qual a pura aritmética fala mais puramente do que jamais o fez antes ou depois, que todos os bronzes cerimoniais, lutais literárias e jogos infantis da China convergem.

No sistema numérico do Yi Jing, o tripé encontra uma fonte mais básica do que a meta-tradição abraâmica pode fornecer, independente de quão trinitária esta última tenha se tornado. Isto é porque, neste ur-estrato cultural chinês, a unidade não figura como uma unidade original, subsequentemente desintegrada em um triângulo teológico, dialético ou sociopolítico, mas é, ao contrário, derivada. Como o comentário confucionista explica: “O número 3 foi atribuído ao céu, 2 à terra, e desses vieram os (outros) números”. No princípio eram os números – dispersão primordial.

A ‘língua’ do tripé encontra sua expressão mais conveniente no trigrama, cujas três linhas constituem uma unidade elementar. Para se compreender o Yi Jing enquanto modelo aritmético completo de tríade dinâmica, contudo, é necessário proceder imediatamente para a estrutura do hexagrama.

Apreendido em operação, o Yi Jing não é apenas um sistema aritmético binário (como Leibniz o interpretou), mas uma conjunção bino-decimal. Isto é demonstrado pelo fato de que ele sistematicamente recompensa a aplicação da redução digital decimal, e revela seu padrão dinâmico apenas sob estas condições. (Isto poderia, bastante razoavelmente, ser considerado uma sugestão altamente surpreendente, uma vez que a redução digital – conforme surgiu dentro da história do Qabalismo Ocidental – parece ter sido gerada, automaticamente, a partir da interferência dos numerais decimais hindus com os sistemas numéricos alfabéticos mais antigos, ou ‘gematrias’, que vinculavam valores cardinais a letras específicas, sem o uso da notação posicional. É imediatamente óbvio que este relato histórico não pode ser traduzido para um contexto chinês, onde alfabetos não têm qualquer raiz tradicional.)

A redução digital é uma técnica numérica extremamente simples, que não envolve nada além de adições de dígitos únicos e negligencia a magnitude decimal. Um número com múltiplos dígitos é tratado como uma sequência de adições de dígitos únicos, e o processo é reiterado no caso de um resultado com múltiplos dígitos.

Expressar a série das potências binárias em notação decimal produz a sequência familiar 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512, 1024, 2048, 4096, 8192… Quando esta série é comprimida a uma sequência de dígitos únicos através da redução, ela prossegue: 1, 2, 4, 8, (1 + 6 =) 7, (3 + 2 =) 5, (6 + 4 =) 1, (1 + 2 + 8 = 11 = 1 + 1 =) 2, (2 + 5 + 6 = 13 = 1 + 3 =) 4, (5 + 1 + 2 =) 8, (1 + 0 + 2 + 4 =) 7, (2 + 0 + 4 + 8 = 14 = 1 + 4 =) 5, e assim repetidamente, através do ciclo de 6 passos 1, 2, 4, 8, 7, 5. Este processo expõem a necessidade aritmética do hexagrama do Yi Jing, enquanto exaustão arquetípica das fases do tempo.

Para se escavar o triádico ou tripódico, é útil se voltar ao clássico (e agora integral) comentário confucionista, as ‘Dez Asas’ (Shi Yi), que explora a estrutura dos trigramas e dos hexagramas de várias maneiras. Estas incluem uma fórmula explícita para se dobrar as seis linhas do hexagrama de volta em uma tríade, ao se combinar as linhas: primeira e quarta; segunda e quinta; terceira e sexta. Estas díades têm uma ordem aritmética consistente, quando calculadas de acordo com os valores bino-decimais reduzidos gerados acima: 1 + 8 = 9; 2 + 7 = 9; 4 + 5 = 9. “O que estas seis linhas demonstram é simplesmente isto, a maneira dos três Poderes”.

A soma até nove regularmente serve como confirmação dentro do Shi Yi. Por exemplo, na seção traduzida por Legge como ‘O Grande Apêndice’:

52. Os número (exigidos) para Khien (ou linha não dividida) equivalem a 216; aqueles para Khwan (ou a linha dividida), a 144. Juntos eles são 360, correspondendo aos dias do ano.
53. O número produzido pelas linhas nas duas partes (do Yî) equivalem a 11.520, correspondendo ao número de todas as coisas.
54. Portanto, por meio das quatro operações, o Yî está completo. São necessárias 18 mutações para se formar um hexagrama.

44 = 1 + 4 + 4 = 9

216 = 2 + 1 + 6 = 9

360 = 3 + 6 + 0 = 9

11,520 = 1 + 1 + 5 + 2 + 0 = 9

18 = 1 + 8 = 9

Há muito mais a dizer sobre a importância do número nove na cultura tradicional chinesa, e além, mas este não é o momento. Por ora, é suficiente notar que o nove, ou ‘Antigo Yang’, representa o ponto extremo de maturidade ou acúmulo positivo no Yi Jing e, assim, uma transição incipiente. Desta forma, ele ecoa a função do mesmo numeral dentro de um sistema decimal de notação posicional com zero, reforçando fortemente a impressão de que o Yi Jing assume uma familiaridade cultural com tal numeracia e, assim, indica sua extrema antiguidade dentro da China.

O ciclo de seis fases se colapsa em uma dinâmica triádica, cujos estágios são as díades 1&8, 2&7, 4&5. Ele é, desta forma, exatamente isomórfico ao circuito de pedra, papel e tesoura, ou melhor, este último pode ser visto como uma simplificação do tripé dinâmico do Yi Jing, tratando cada estágio como simples, em vez de geminado. Onde o bagua, ou conjunto de trigramas, meramente enumera o conjunto de variantes de 3 bits de maneira estática, o sistema de hexagramas rigorosamente constrói uma dinâmica triangular, que é apresentada como um modelo do tempo.

Se esse é o ‘exemplo chinês’ em sua forma mais essencial, então é exatamente o exemplo anglosférico, como determinado por Mead, exceto levado a um nível de abstração bem mais exaltado, ou seja, a uma pureza proto-conceitual. O pluralismo dinâmico não está sob nenhuma ameaça vinda de um futuro chinês, na medida em que a evidência cultural profunda conte para algo. O reino do tripé mal começou.

Original.

Singlosfera

Oriente-mais-Ocidente na fronteira da liberdade

Em concordância com a crença generalizada de que as tecnologias de comunicação digital ‘destroem a distância’, James C. Bennett cunhou o termo ‘Anglosfera’ para descrever a arena de proximidade cultural comparativamente sem fricção que liga as populações anglófonas dispersas no espaço. Sua contenção era de que as tendências de congregação exemplificadas pelo desenvolvimento da Internet continuariam a promover laços culturais, ao passo em que erodiriam a importância de vizinhanças espaciais. Na era da World Wide Web, a solidariedade cultural supera a solidariedade geográfica.

Embora esferas culturais alternativas – expressamente incluindo a Sinosfera – tenham sido mencionadas de passagem, elas não eram o foco do relato de Bennett. Sua atenção estava direcionada aos povos falantes de inglês, espalhados geograficamente, mas ainda assim unidos por linhas de entendimento comum que derivam de uma língua compartilhada, da lei comum inglesa e das tradições de governo limitado, de sociedades civis altamente desenvolvidas, do individualismo e de uma tolerância incomum à mudança social disruptiva. Ele previu tanto que esses pontos em comum se tornariam cada vez mais consequentes nos anos por vir, quanto que seu teor se provaria altamente adaptativo conforme a taxa de mudança social se acelerasse mundialmente.

A preocupação de Bennett com sistemas culturais de larga escala pode ser vista como parte de uma tendência intelectual, comparável em aspectos significativos à influente tese do ‘Choque of Civilizações’ de Samuel Huntington. Em um mundo que está sofrendo mudanças tectônicas na distribuição de riqueza, poder e hegemonia, tais preocupações são compreensíveis. Nestas circunstâncias, seria surpreendente se os partidários das tradições anglosférica e sinosférica não se sentissem provocados à uma defesa ardente de seus méritos e deméritos relativos, e – se Bennett for levado a sério – tais discussões ocorrerão em zonas de comunhão cultural que estão, pelo menos relativamente, cada vez mais introvertidas. A rápida emergência de uma ‘Internet Chinesa’ altamente autônoma nos anos recentes adiciona peso a tais expectativas.

Em Março, o Z/Yen Group lançou o nono em sua série de rankings “Global Financial Centres Index”, no qual Shanghai pulou a um quinto lugar compartilhado com Tóquio (com uma avaliação de 694 no GFCI). Londres (775), Nova Iorque (769), Hong Kong (759) e Singapura (722) lideraram a matilha. (O top 75 pode ser visto aqui.)

Tanto anglosferenses quanto sinosferenses pode encontrar pronta satisfação nessas avaliações. A persistente supremacia de Londres e Nova Iorque atestam uma história de 250 anos de dominância econômica mundial, ao passo que a ascensão da cidades comerciais de etnia chinesa aos postos remanescente no topo claramente indica a mudança da gravidade econômica para a região do Pacífico ocidental. Ainda assim, o padrão mais interessante encontra-se no meio. Nem Hong Kong, nem Singapura pertencem inequivocamente a uma Sinosfera (ainda menos a uma ampla Anglosfera). Em vez disso, elas são caracterizadas por formas distintivas de hibridez sino-anglófona – uma síntese cultural imensamente bem sucedida. Seria difícil manter que Shanghai ficou inteiramente intocada por um fenômeno comparável, herdado, nesse caso, da mentalidade sintética de sua era da Concessão Internacional, e refletida em sua singular Hapai ou ‘cultura do oceano’.

A existência de uma Sino-Anglosfera – ou Singlosfera – identificável, mais ainda, é sugerido pelo Índice de Liberdade Econômica de 2011 da Heritage Foundation (avaliado em uma escala de 0 a 100). Nessa lista, os dois lugares do topo são ocupados por Hong Kong (89.7) e Singapura (87.2), seguidas pela Austrália (82.5) e Nova Zelândia (82.3). Os núcleos territoriais angloferense e sinosferense se saem de maneira menos impressionante, nenhum deles satisfazendo os critérios da Heritage para economias livres – os Estados Unidos ficam em nono (77.8), o Reino Unido em 16º (74.5) e a China continental em 135ª (52.0). Parece que a Singlosfera aprendeu algo sobre a liberdade econômica que excede a sabedoria atualmente manifesta de ambas as raízes culturais – estabelecendo um modelo para a Sinosfera e deixando a Anglosfera se arrastando em sua esteira.

Conforme a tendência secular profunda de ascensão chinesa e declínio (relativo, mesmo que não absoluto) americano leva a rumores cada vez mais agourentos e ameaças de tensão geoestratégica, é especialmente importante notar um padrão bastante diferente e não-conflituoso – embasado em fusão cultural e liberação recíproca. Dentro da Singlosfera, uma etnia emergente e sintética exibe uma competência dinamicamente adaptativa e cosmopolita sem par, conforme tradições distintas de ordem espontânea se fundem e reforçam uma à outra. Adam Smith encontra Laozi, e a profunda amalgamação dos dois resulta no desdobramento de uma cultura inovada que cada vez mais domina os rankings mundiais de capacidade econômica.

Um notável estudo de Christian Gerlach escava as raízes taoistas das ideias europeias de laissez-faire (ou wu wei), e o rebelde anarco-capitalista Murray Rothbard tinha atração pela mesma ‘Antiga Tradição Libertária Chinesa‘. Ken McCormick a chama de O Tao do Laissez-Faire. (Aqueles que ficarem perturbados com esta identificação podem ficar mais confortáveis com a crítica esquerdista do ‘Taoismo de Mercado’ de Silja Graupe.)

McCormick conclui seu ensaio:

A recente ascensão de ideias de livre mercado ao redor do mundo provavelmente se deve mais ao sucesso histórico prático dessas ideias do que ao poder de persuasão de qualquer teoria ou filosofia. Ainda assim, pode-se especular que o surpreendente sucesso da liberalização econômica na República Popular da China poderia, em parte, ser explicado pelo fato de que a ideia de mercados livres está incorporada na cultura. De fato, o Confucionismo que há muito dominou a China foi, na verdade, uma síntese de escolas concorrentes de pensamento, que incluíam o Taoismo… Consequentemente, embora o laissez-faire frequentemente tenha estado ausente da prática chinesa, ele não é de forma alguma alienígena à cultura chinesa. As recentes reformas de livre mercado na China poderiam, portanto, ser interpretadas não tanto quanto uma importação de uma ideologia estrangeira, mas como um redespertar de um conceito doméstico.

A Singlosfera coloca tanto o Oriente quanto o Ocidente no caminho certo. Quanto mais Shanghai relembrar e aprender com isso – e quanto mais profunda for sua participação – tão mais rápido sua ascensão será.

Original.