Prontidão para o Impacto

Qualquer que seja o status da Singularidade enquanto evento de mídia, uma premonição irradia dela em uma cascata. O recente veículo hollywoodiano com Johnny Depp, Trancendence, estimulou uma onda de respostas, incluindo comentários de Steven Hawking (que sabe uma uma coisa ou outra sobre a popularização de tópicos científicos). Um artigo de Hawking em um grande jornal trouxe a conversa a um novo nível de animação. (Meu feed no Twitter não pode ter sido o único a ficar entupido a ponto de explodir com ela.)

Transcendence

  • Isso pode ser bem brusco

O argumento de Hawking, montado de maneira lúcida para uma audiência geral, é de que a IA é plausível, já está em uma medida considerável demonstrada, é suscetível em teoria a uma amplificação cibernética radical (‘explosão de inteligência’), é bastante possivelmente calamitosa para a espécie humana e ainda precisa ser engajada socialmente com a seriedade apropriada. Como ele concede, "é tentador descartar a noção de máquinas altamente inteligentes como mera ficção científica. Mas isso seria um erro, e potencialmente nosso pior erro na história".

Dinâmicas explosivas já são evidentes na trajetória de desenvolvimento da IA, que está sofrendo uma aceleração, guiada por uma "corrida armamentista de TI, alimentada por investimentos sem precedentes e se embasando em uma fundação teórica cada vez mais madura".

Olhando para o futuro, não há limites fundamentais para o que pode ser alcançado: não há nenhuma lei física que impeça que partículas estejam organizadas em maneiras que desempenhem computações ainda mais avançadas que os arranjos de partículas nos cérebros humanos. Uma transição explosiva é possível, embora ela possa terminar diferente do filme: como Irving Good percebeu em 1965, máquinas com inteligência sobre-humana poderiam repetidamente melhorar seu design ainda mais, desencadeando o que Vernos Vinge [aqui] chamou de uma "singularidade" e o personagem de Johnny Depp chama de "transcendência".

Hawking emprega sua plataforma na mídia para argumentar que algo deveria ser feito:

O sucesso em se criar uma IA seria o maior evento na história humana. […] Infelizmente, ele também seria o último, a menos que aprendamos como evitar os riscos. […] Embora estejamos potencialmente enfrentando a melhor ou pior coisa a acontecer à humanidade na história, pouca pesquisa séria é devotada a essas questões fora de institutos sem fins lucrativos tais como o Cambridge Centre for the Study of Existential Risk, o Future of Humanity Institute, o Machine Intelligence Research Institute, e o Future of Life Institute.

Conforme seu prospecto se condensa, a Singularidade Tecnológica já está operando como uma influência cultural e, assim, como um fator causal no processo social. Neste estágio, contudo, como Hawking observa, ela ainda está relativamente limitada. Quais seriam as implicação de ela vir a importar ainda mais?

A cibernética sócio-histórica é compelida a perguntar: um problema da Singularidade incandescente funcionaria como um inibidor, ou ele excitaria ainda mais os desenvolvimentos sob consideração? Certamente é difícil imaginar uma resposta preventiva sofisticada à emergência da Inteligência Artificial que não canalizasse recursos adicionais para técnicos de elite trabalhando na área da cognição sintética avançada, mesmo antes da quase inevitável captura de instituições reguladoras pelas indústrias que elas visam.

Respostas institucionais ao hackeamento de computadores têm sido caracterizadas por exercícios de recrutamento estrategicamente ambíguos em que o "caçador vira o guarda-caça", e algum análogo próximo desses jogos de caça seriam uma parte inevitável de qualquer tentativa de se controlar o desenvolvimento da cognição de máquina. Jogar jogos de traição extremamente complicados contra uma super-inteligência virtual poderia ser bastante divertido, por um tempo…

ADICIONADO: Daniel Dewey, do FHI, chegou.


Original.

A Singularidade de Esquerda

O inverno está chegando

Os esquerdistas não são perturbados pelo medo de que as massas possam se revoltar contra a esquerda, mas sim cada esquerdista teme que ele possa falhar em acompanhar a linha que sempre muda, se encontre alguns anos, ou semanas, ou dias atrás do atual politicamente correto sempre em mudança e se descubra considerado um direitista. // O que historicamente só para em derramamento de sangue. Não há nenhuma singularidade de direita equivalente, já que regimes repressivos de direita proíbem o interesse na política, ao passo em que os regimes repressivos de esquerda ordenam o interesse na política. // A singularidade de esquerda é a mesma toda vez em sua aproximação ao esquerdismo infinito, mas difere de maneira caótica e surpreendente toda vez ao acabar aquém do esquerdismo infinito — James A. Donald

Aquilo com o que mais nos preocupamos é que veremos um ciclo vicioso se desenvolver: uma governança ruim prejudica a economia, o que radicaliza e polariza a opinião pública, o que leva a uma governança pior e resultados econômicos piores… e assim por diante linha abaixo.Walter Russell Mead

A política do século XXI não vê nenhuma necessidade da verdade. Quando o governo se acredita responsável pela economia e convence as pessoas disso, ele tem que se colocar em uma caixa. …Quando uma recessão ocorre …ela faz com o governo busque política que reforçam suas mentiras. São essa política que criaram a atual crise econômica em primeiro lugar. –’Monty Pelerin‘ (via Zero Hedge)

O Iluminismo Sombrio começa com o reconhecimento de que a realidade é impopular, de modo que o curso ‘natural’ do desenvolvimento político, sob condições democráticas, é confiavelmente embasado na promessa de uma alternativa. Favorecer a fantasia é a única plataforma que oferece apoio eleitoral. Quando os sonhos ficam ruins, é politicamente óbvio que eles não foram mantidos com firmeza ou sinceridade suficientes, seu radicalismo foi insuficiente, e uma solução mais abrangente é imperativa. Uma vez que uma sabotagem direitista, seja ela deliberada ou meramente inercial, claramente é a culpada, as surras continuarão até que o moral melhore.

Esta síndrome, essencialmente indistinguível da modernidade política, exige uma teoria cibernética da deterioração social acelerante, ou repressão econômica auto-reforçadora. A tendência da qual o iluminismo sombrio recua exige uma explicação, que é encontrada no diagrama da Singularidade de Esquerda.

Uma singularidade, de qualquer tipo, é o limite de um processo dominado por um feedback positivo e, assim, levado a um extremo. Em sua expressão matemática pura, a tendência não é meramente exponencial, mas parabólica, fechando-se assintoticamente sobre o infinito em tempo finito. A ‘lógica da histórica’ converge sobre um limite absoluto, além do qual um prolongamento adicional é estritamente impossível. Desta barreira derradeira e impassável, o iluminismo sombrio regride na história política, profeticamente inflamado por sua certeza do fim. A menos que a democracia se desintegre antes da parede, ela vai dar de cara com a parede.

“Uma repressão maior traz um esquerdismo maior, um esquerdismo maior traz uma repressão maior, em um círculo cada vez mais cerrado que gira cada vez mais rápido. Esta é a singularidade de esquerda”, escreve Donald. A principal hipótese sombria é evidente: no declive da esquerda, a falha não é auto-corretiva, mas sim o oposto. A disfunção se aprofunda através do circuito do desapontamento:

Conforme a sociedade se move cada vez mais para a esquerda, cada vez mais rápido, os esquerdistas ficam cada vez mais descontentes com o resultado, mas, claro, a única cura para o seu descontentamento que é permissível pensar é um movimento ainda mais rápido, ainda mais à esquerda.

É necessário, então, aceitar a inversão esquerdista de Clausewitz e a proposição de que a política é a guerra por outros meios, precisamente porque ela retém a tendência ao extremo clausewitziana (que a torna ‘propensa a escalada‘). Esta é a razão pela qual a história política moderna tem uma forma característica, que combina uma duração de ‘progresso’ escalonante com uma interrupção terminal e semi-pontual, ou catástrofe – uma restauração ou ‘reinicialização’. Como mofo em uma placa de Petri, organizações políticas progressistas ‘se desenvolvem’ explosivamente até que todos os recursos disponíveis tenham sido consumidos, mas, ao contrário de colônias de lodo, elas exibem um dinamismo que ainda mais exagerado (do exponencial para o hiperbólico) pelo fato de que o esgotamento de recursos acelera a tendência de desenvolvimento.

A decadência econômica erode o potencial produtivo e aumenta a dependência, atando populações de maneira cada vez mais desesperada à promessa de uma solução política. O declive progressista fica mais íngreme na direção do precipício de uma radicalidade suprema, ou total absorção no estado… e, em algum lugar fracionalmente antes disso, seja antes ou depois dele ter roubado tudo que você tem, tomado seus filhos, desencadeado assassinatos em massa e descendido ao canibalismo, ele acaba.

Ele não pode comer a placa de Petri ou abolir a realidade (na realidade). Há um limite. Mas a humanidade ganha uma chance de demonstrar do que é capaz, no lado inferior. Como Whiskey comentou (nessa thread do Sailer): “Este Iluminismo é ‘Sombrio’ porque ele nos diz coisas verdadeira que preferiríamos não saber ou ler ou ouvir, porque elas pintam uma imagem não tão amável da natureza humana em sua face mais crua”. O progresso nos leva ao cru.

Gregory Bateson se referia à escalada cibernética como ‘esquismogenese’, que ele identificava em uma série de fenômenos sociais. Entre esses estava o abuso de substâncias (especificamente o alcoolismo), cuja dinâmica abstrata, no nível do indivíduo, é difícil de distinguir da radicalização política coletiva. O alcoólatra é capturado por um circuito esquismogenico e, uma vez que esteja dentro dele, a única solução atraente é ir mais fundo nele. A cada passo de desintegração de sua vida, ele precisa de um drinque mais do que nunca. Lá se vai o emprego, a poupança, a esposa e as crianças, e não há nenhum lugar onde se procurar esperança exceto o bar, a garrafa de vodka e, eventualmente, aquela lata irresistível de cera para piso. O escape vem – se vier antes do necrotério – ao ‘chegar ao fundo do poço’. A escalada ao extremo chega ao fim da estrada, ou da estória, onde uma outra poderia – possivelmente – começar. A esquismogenese prevê uma catástrofe.

Chegar ao fundo do poço tem que ser horrível. Uma longa história lhe trouxe a isso e, se isso não é óbvia e indisputavelmente um estado intolerável de degradação derradeira, ela vai continuar. Não acabou até que realmente não possa continuar, e isso tem que ser diversos graus pior do que se poderia antecipar. A Singularidade de Esquerda está afundada nas borras de cera para piso, com tudo perdido. É pior do que qualquer coisa que você possa imaginar, e não há nenhum sentido que seja em tentar persuadir as pessoas de que elas chegaram lá antes de elas saberem que chegaram. ‘As coisas poderiam ser melhores do que isso’ não vai dar conta. É para isso que serve o progresso, e o progresso é o problema.

Aquilo que não pode continuar, irá parar. As árvores não crescem até o céu. Isso não significa necessariamente, contudo, que a liberdade será restaurada e tudo será adorável. Da última vez tivemos teocracia, tivemos estagnação por quatrocentos anos.

A expansão explosiva de gastos e regulamentação representa um colapso da disciplina dentro da elite governante. A maneira em que o sistema deveria funcionar, e a maneira em que funcionou na maior parte do tempo há várias décadas atrás, é que o Governo Federal americano só pode gastar dinheiro em algo se a Câmara dos Deputados, o Senado e o Presidente concordarem em gastar dinheiro nessa coisa, então nenhum empregado do governo pode ser empregado, exceto se todos os três concordarem que ele deva ser empregado, então o governo não pode fazer nada ao menos que os três concordem que seja feito. Um funcionário público e, na verdade, todo o seu departamento estava apto a ser demitido se irritasse alguém. Reciprocamente, o indivíduo estava livre para fazer qualquer coisa, a menos que todos os três concordassem que ele deveria ser impedido de fazer aquela coisa. Estamos agora nos aproximando da situação reversa, onde para um indivíduo fazer qualquer coisa é necessário uma pilha de permissões de diversas autoridades governamentais, mas qualquer autoridade governamental pode gastar dinheiro em qualquer coisa a menos que exista uma oposição quase unânime a ela gastar dinheiro.

Obviamente isso não pode continuar. Eventualmente, o dinheiro acaba, onde teremos uma crise hiperinflacionária e reverteremos para alguma outra forma de dinheiro, como o padrão ouro. Enquanto isso acontece, o comportamento cada vez mais sem lei dos governantes contra os governados se tornará um comportamento cada vez mais sem lei dos governantes uns contra os outros. Guerra civil, ou algum próximo de uma guerra civil, ou uma terrível e imediata ameaça de guerra civil se seguirá. Nesse ponto, teremos a singularidade política, provavelmente por volta de 2025 ou algo assim. Para além da singularidade, nenhuma previsão pode ser feita, além de que os resultados serão surpreendentes…

Original.

Adiante!

Aberração máxima até a Singularidade da Esquerda

Isso foi completamente inequívoco. Obama realmente se provou ser o FDR dessa volta do giro. Nate Silver e Paul Krugman foram vingados. O New York Times é o evangelho da era. O conservadorismo foi esmagado e humilhado. O pedal do freio foi jogado pela janela. Agora não dá mais para parar.

No dia antes da eleição, o Der Spiegel descreveu “os Estados Unidos como um país que não entende os sinais dos tempos e que tem quase deliberadamente — indo na contramão de todo o conhecimento científico — escolhido ser retrógrado”. Para os autores da redação da revista, o problema era inteiramente simples. “O ódio de um governo grande alcançou um nível nos Estados Unidos que ameaça a própria existência do país”. Forças regressivas estavam impedindo o progresso do país ao recusar entender a óbvia identidade entre o Leviatã e o avanço social. Agora deveria ser óbvio para todo mundo – mesmo para os partidários carbonizados do Tea Party, resmungando em estado de choque nas ruínas – que a democracia americana contemporânea fornece todo o ímpeto necessário para afastar tal obstrucionismo. O Estado é Deus, e todos devem ser curvar à sua vontade. Adiante!

Com a ascensão do Governo dos EUA, uma nova pureza é alcançada, e um experimento fantástico (e Titânico) progride a um novo estágio. Não é mais necessário entrar em controvérsias com o detrito despedaçado da direita, daqui em diante tudo que importa é o teste de força entre a motivação política concentrada e a obstinação da própria realidade. O que seria dizer: a resistência final a ser superada é a ideia insolente de um princípio de realidade, ou exterior. Assim que não mais existir qualquer forma das coisas que exista independentemente do desejo soberano do Estado, a Singularidade da Esquerda será alcançada. Esta é a promessa escatológica que canta seus aleluias em todo peito progressista. Ela se traduz perfeitamente para o canto coloquial: sim, podemos!

Claro, é preciso entender claramente que “nós” – agora e daqui para frente – significa o Estado. Através do Estado, nós fazemos qualquer coisa e tudo, que podemos, se não realmente, então pelo menos verdadeiramente, como prometido. O Estado é ‘nós’ como Deus. Hegel já tinha visto tudo isso, mas foi necessário sistemas educacionais progressistas para generalizar a compreensão. Agora nossa época chegou, ou está chegando. Todos juntos agora: sim, podemos! Nada além de um frágil realismo reacionário está em nosso caminho, e isso é algo para fora do qual podemos ser educados (sim, podemos). Fomos! Veja nossos destruídos inimigos espalhados em completa devastação diante de nós.

O mundo deve ser como queremos que ele seja. Certamente.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4f(inal)

Parte 4f: Aproximando-se do Horizonte Biônico

É hora de dar a esta longa digressão uma conclusão, esticando-se impacientemente em direção ao fim. O tema básico tem sido controle mental, ou supressão de pensamento, como demonstrado pelo complexo midiático-acadêmico que domina as sociedades ocidentais contemporâneas e ao qual Mencius Moldbug dá o nome de Catedral. Quando as coisas são esmagadas, elas raramente desaparecem. Pelo contrário, elas são deslocadas, fugindo para dentro de sombras acolhedoras e, às vezes, virando monstros. Hoje, conforme a ortodoxia supressora da Catedral se desfaz, de várias maneiras e em numerosos sentidos, um tempo de monstros está se aproximando.

O dogma central da Catedral tem sido formalizado como o Modelo Padrão das Ciências Sociais (SSSM, na sigla em inglês) ou ‘teoria da tábula rasa’. É a crença, completada em sua essência pela antropologia de Franz Boas, de que toda questão legítima sobre a humanidade está restrita à esfera da cultura. A natureza permite que ‘o homem’ seja, mas nunca determina o que o homem é. Questões direcionadas às características e variações naturais entre humanos são, elas mesmas, apropriadamente compreendidas como peculiaridades, ou mesmo patologias, culturais. Falhas de ‘educação’ (nurture) são a única coisa que temos permissão de ver.

Uma vez que a Catedral tem uma orientação ideológica consistente e peneira seus inimigos de acordo, uma avaliação científica comparativamente independente do SSSM facilmente vira antagonismo bruto. Como Simon Blackburn observa (em uma análise criteriosa do Tábula Rasa de Steven Pinker), “A dicotomia entre natureza e educação (nurture) rapidamente adquire implicações políticas e emocionais. Para colocar de maneira crua, a direita gosta de genes e a esquerda gosta de cultura…”.

No limite do ódio recíproco, o determinismo hereditário confronta o construtivismo social, com cada um deles comprometido com um modelo radicalmente reduzido de causalidade. Ou a natureza se expressa como cultura, ou a cultura se expressa em suas imagens (‘construções’) da natureza. Ambas estas posições estão presas em lados opostos de um circuito incompleto, estruturalmente cegas à cultura do naturalismo prático, o que seria dizer: à manipulação tecno-científica / industrial do mundo.

Adquirir conhecimento e usar ferramentas é um único circuito dinâmico, que produz a tecnociência como um sistema integral, sem divisibilidade real em aspectos teóricos e práticos. A ciência se desenvolve em loops, através da técnica experimental e da produção de uma instrumentação cada vez mais sofisticada, ao passo em que está incorporada dentro de um processo industrial mais amplo. Seu avanço é o aperfeiçoamento de uma máquina. Esse caráter intrinsecamente tecnológico da ciência (moderna) demonstra a eficiência da cultura enquanto força natural complexa. Ela nem expressa uma circunstância natural pré-existente, tampouco meramente constroi representações sociais. Em vez disso, natureza e cultura compõem um circuito dinâmico, à beira da natureza, onde o destino é decidido.

De acordo com o pressuposto auto-reforçador da modernização, ser compreendido é ser modificável. É de se esperar, portanto, que a biologia e a medicina evoluam em conjunto. A mesma dinâmica histórica que subverte abrangentemente o SSSM através de ondas inundantes de descoberta científica, simultaneamente volatiliza a identidade biológica humana através da biotecnologia. Não há qualquer diferença essencial entre aprender o que realmente somos e nos redefinirmos como contingências tecnológicas, ou seres tecnoplásticos, suscetíveis a transformações precisas e cientificamente informadas. A ‘humanidade’ se torna inteligível conforme é subsumida na tecnosfera, onde o processamento de informação do genoma – por exemplo – coloca a leitura e a edição em perfeita coincidência.

Descrever esse circuito, conforme ele consome a espécie humana, é definir nosso horizonte biônico: o limiar de uma fusão conclusiva entre natureza e cultura, no qual uma população se torna indistinguível de sua tecnologia. Isto não é nem determinismo hereditário, nem construtivismo social, mas é ao que ambos teriam feito referência, tivessem eles indicado qualquer coisa real. É uma síndrome vividamente antecipada por Octavia Butler, cuja trilogia Xenogenesis é devotada ao exame de uma população de além do horizonte biônico. Seus ‘comerciantes de genes’ Oankali não têm nenhuma identidade separável do programa biotecnológico que eles perpetuamente implementam sobre si mesmos, conforme adquirem comercialmente, produzem industrialmente e reproduzem sexualmente sua população dentro de um único processo integral. Entre o que os Oankali são e a maneira em que eles vivem, ou se comportam, não existe nenhuma diferença firme. Uma vez que eles criam a si mesmos, sua natureza é sua cultura e (claro) reciprocamente. O que eles são é exatamente o que eles fazem.

Os tradicionalistas da Ortosfera Ocidental estão certos em identificar o iminente horizonte biônico com um evento teológico (negativo). A auto-produção tecno-científica suplanta de maneira específica a essência fixa e sacralizada do homem enquanto um ser criado, em meio à maior reviravolta na ordem natural desde o surgimento da vida eucarionte, há meio bilhão de anos. Não é meramente um evento evolutivo, mas o limiar de uma nova fase evolutiva. John H. Campbell anuncia a emergência do Homo autocatalyticus, enquanto argumenta: ‘De fato, é difícil imaginar como um sistema de herança poderia ser mais ideal para a engenharia do que o nosso é’.

John H. Campbell? – um profeta da monstruosidade e a desculpa perfeita para uma citação monstruosa:

Os biólogos suspeitam que novas formas evoluem rapidamente a partir de exogrupos bastante pequenos de indivíduos (talvez até mesmo uma única fêmea fertilizada; Mayr, 1942) à margem de uma espécie existente. Ali, a pressão de um ambiente praticamente inabitável, a endogamia forçada entre membros isolados da família, a “introgressão” de genes estranhos de espécies vizinhas, a falta de outros membros da espécie contra quem competir, ou o que seja, promove uma grande reorganização do programa genômico, possivelmente a partir de uma mudança modesta na estrutura genética. Quase todos esses fragmentos transmutados de espécies se extinguem, mas ocasionalmente um deles é afortunado o suficiente para se encaixar em um novo nicho viável. Ele prospera e se expande até uma nova espécie. Sua conversão em um pool genético estatisticamente constrito então estabiliza a espécie contra maiores mudanças evolutivas. Espécies estabelecidas são bem mais notáveis por sua estase do que por mudanças. Mesmo produzir uma nova espécie filha não parece mudar uma espécie existente. Ninguém nega que as espécies possam gradualmente se transformar e o fazer em várias medidas, mas essa chamada “anagênese” é relativamente pouco importante, se comparada à grande saltação, geologicamente súbita, na geração de novidade.

Três implicações são importantes.

1. A maior parte das mudanças evolutivas estão associadas com a origem de novas espécies.

2. Diversos modos de evolução podem operar simultaneamente. Neste caso, o mais efetivo domina o processo.

3. Pequenas minorias de indivíduos fazem a maior parte da evolução, ao invés da espécie como um todo.

Uma segunda característica importante da evolução é a autorreferência (Campbell, 1982). A caricatura cartesiana de um “ambiente” externo autônomo que dita a forma de um espécie, como um cortador de biscoitos corta estêncis a partir de folhas de massa, está completamente errada. A espécie molda seu ambiente tão profundamente quanto o ambiente “evolui” a espécie. Em particular, os organismos causam as condições limitadoras do ambiente sobre o qual eles competem. Portanto, os genes desempenham dois papéis na evolução. Eles são os alvos da seleção natural e são eles também que, em última análise, induzem e determinam as pressões seletivas que agem sobre si. Esta causalidade circular submerge o caráter mecânico da evolução. A evolução é dominada pelo feedback das atividades evoluídas dos organismos sobre sua evolução.

A terceira percepção seminal é de que a evolução se estende para além da mudança nos organismos enquanto produtos da evolução, a uma mudança no próprio processo. A evolução evolui (Jantsch, 1976; Balsh, 1989; Dawkins, 1989; Campbell, 1993). Os evolucionistas sabem deste fato mas nunca concederam ao fato a importância que ele merece, porque é incomensurável com o darwinismo. Os darwinistas, e especialmente os neodarwinistas modernos, equacionam a evolução com a operação de um princípio lógico simples, que é anterior à biologia: A evolução é meramente o princípio darwiniano da seleção natural em ação e é disso que a ciência da evolução trata. Uma vez que princípios não podem mudar com o tempo ou as circunstâncias, a evolução tem que ser fundamentalmente estática.

Claro, a evolução biológica não é assim de forma alguma. Ela é um processo complexo real, não um princípio. A maneira em que ela ocorre pode mudar com o tempo e indisputavelmente o faz. Isto é de máxima importância, porque o processo de evolução avança conforme procede (Campbell, 1986). A matéria pré-viva na sopa primordial da terra era capaz de evoluir apenas através de mecanismos “químicos” sub-darwinianos. Uma vez que estes processos insignificantes criaram moléculas genéticas com informação para sua autorreplicação, então a evolução foi capaz de se engajar na seleção natural. A evolução então embrulhou os genomas auto-replicantes dentro de organismos auto-replicantes para controlar a maneira em que a vida responderia aos ventos da seleção vindos do ambiente. Mais tarde, ao criar organismos multicelulares, a evolução ganhou acesso à mudança morfológica enquanto alternativa a uma evolução bioquímica mais lenta e menos versátil. Mudanças nas instruções em programas de desenvolvimento substituíram mudanças nos catalisadores enzimáticos. Sistemas nervosos abriram caminho para uma evolução comportamental, social e cultural ainda mais rápida e mais potente. Finalmente, esses modos mais elevados produziram a organização necessária para uma evolução racional e propositada, guiada e propelida por mentes orientadas a metas. Cada um desses passos representou um novo nível emergente de capacidade evolutiva.

Desta forma, existem dois processos evolutivos distintos, mas entrelaçados. Eu os chamo de “evolução adaptativa” e “evolução geradora”. A primeira é a familiar modificação darwiniana de organismos para aumentar sua sobrevivência e sucesso reprodutivo. A evolução geradora é inteiramente diferente. Ela é a mudança em um processo, em vez de uma estrutura. Além disso, esse processo é ontológico. Evolução literalmente significa “se desdobrar” e o que está se desdobrando é a capacidade de evoluir. Animais superiores se tornaram cada vez mais hábeis em evoluir. Em contraste, eles não são nem um pouco mais aptos do que seus ancestrais ou as formas mais baixas de micróbios. Toda espécie hoje teve exatamente o mesmo histórico de sobrevivência; na média, todo organismo mais elevado vivo hoje ainda deixará apenas duas proles, como era o caso cem milhões de anos atrás, e as espécies modernas têm tanta probabilidade de serem extintas quanto aquelas do passado. As espécies não podem se tornar cada vez mais aptas porque o sucesso reprodutivo não é um parâmetro cumulativo.

Para os nacionalistas raciais, preocupados com que seus netos sejam parecidos consigo, Campbell é o abismo. Miscigenação não chega nem perto da questão. Pense em tentáculos faciais.

Campbell também é um secessionista, embora não tenha quaisquer distrações com as preocupações da política de identidade (pureza racial) ou do elitismo cognitivo tradicional (eugenia). Ao se aproximar do horizonte biônico, o secessionismo assume uma atitude completamente mais selvagem e mais monstruosa – em direção à especiação. O pessoal no euvolution captura bem o cenário:

Raciocinando que a maior parte da humanidade não vai voluntariamente aceitar políticas de gerenciamento populacional qualitativo, Campbell aponta que qualquer tentativa de elevar o QI de toda a raça humana seria tediosamente lento. Ele ainda aponta que o ímpeto geral da eugenia primordial não era tanto melhoria da espécie quanto prevenção do declínio. A eugenia de Campbell, portanto, advoga o abandono do Homo sapiens enquanto ‘relíquia’ ou ‘fóssil vivo’ e a aplicação de tecnologia genética para se intrometer no genoma, provavelmente escrevendo novos genes a partir do zero usando um sintetizador de DNA. Tal eugenia seria praticada por grupos da elite, cujas realizações ultrapassariam tão rápida e radicalmente o andamento comum da evolução que, dentro de dez gerações, os novos grupos terão avançado para além de nossa atual forma, no mesmo grau em que nós transcendemos os símios.

Quando visto do horizonte biônico, o que quer que venha a emergir da dialética do terror racial permanece preso em trivialidades. É hora de seguir em frente.

Original.

Humor Político

As coisas que realmente importam

O prospecto da Singularidade Tecnológica, ao tornar o futuro próximo inimaginável, anuncia “o fim da ficção científica”. Esta não é, contudo, uma proclamação que todos estão obrigados a acatar. Entre os odisseus que deliberadamente se ensurdeceram ao chamado desta sereia, nenhum procedeu de maneira mais ousada do que Charles Stross, cujo Singularity Sky não é apenas um romance de ficção científica, mas uma ópera espacial que habita um universo literário obsolescido por Einstein muito antes que I.J. Good completasse sua demolição. Não apenas humanos reconhecíveis, mas seres humanos inter-estelares com navegação espacial! O homem não tem vergonha?

Stross depende muito do humor para sustentar seu audacioso anacronismo e, em Singularity Sky, ele coloca o anacronismo para trabalhar explicitamente. O elemento mais consistentemente cômico do romance é uma reconstrução da política russa do século XIX no planeta de Rochard’s World, onde o ludismo semi-czarista da Nova República é ameaçado por uma conspiração de revolucionários cujo modo de organização política e retórica é de um tipo marxista-leninista reconhecível (e até mesmo paródico). Esses rebeldes, contudo, são ideologicamente libertários radicais, buscando derrubar o regime e instalar uma utopia anarquista de livre mercado, um objetivo que é perfeitamente conciliado com a dialética materialista, apelos à disciplina revolucionária e invocações de camaradagem fraternal.

É uma piada que funciona bem, porque o seu absurdo transparente coexiste com uma plausibilidade substancial. Libertários são de fato (não raro) materialistas ateus cripto-abraâmicos, firmemente ligados a um economicismo determinista e a convicções de inevitabilidade histórica, levando a lúgubres profecias socioeconômicas de um tipo distintamente escatológico. Quando o libertarianismo é casado com o tecno-apocalipticismo do singularitarismo, o potencial cômico e as ressonâncias marxistas são redobrados. Stross martela o ponto chamando sua IA super inteligente de ‘Eschaton’.

O mais hilário de tudo (à maneira da Frente Popular da Judeia contra a Frente do Povo da Judeia) é o facciosismo que aflige um movimento político extremo, cuja absoluta marginalidade não obstante deixa espaço para amarga recriminação mútua, apoiada por uma barroca criação de conspirações. Este não é realmente um tema de Stross, mas é uma especialidade libertária americana, exibida na incessante agitprop conduzida pelos ultras-rothbardianos do LewRockwell.com e do Mises Institute contra o transigente ‘Kochtopus’ (Reason e Cato) – a divisão Stalin-Trotsky que anima a “direita” de livre mercado. Qualquer um que esteja procurando por um lugar no ringue em uma luta recente pode ir para a seção de comentários aqui e aqui.

De maneira mais séria, os revolucionários libertários de Stross estão comprometidos de todo o coração com a afirmação marxista, outrora considerada fundamental, de que a produtividade é drasticamente inibida pela persistência de arranjos sociais antiquados. O verdadeiro direito histórico da revolução, indistinguível de sua inevitabilidade e irreversibilidade práticas, é seu alinhamento com a liberação das forças de produção de limitações institucionais esclerosadas. A produção do futuro, ou produção futurista, exige o enterro da sociedade tradicional. Aquilo que existe – o status quo – é uma supressão sistemática, rigorosamente mensurável ou pelo menos determinável em termos econômicos, do que poderia ser e quer ser. A revolução cortaria os grilhões da autoridade ossificada, colocando os motores da criação para uivar. Isso desencadearia uma explosão tecno-econômica que abalaria o mundo ainda mais profundamente do que a revolução industrial “burguesa” o fez antes (e continua a fazer). Algo imenso escaparia, para nunca mais ser enjaulado novamente.

Essa é a Antiga Fé, o credo Paleo-Marxista, com sua intensidade de manipulação de cobras e sua inebriante promessa materialista. É uma fé que os camaradas libertários de Rochard’s World ainda professam, com razão e derradeira vingança, porque o potencial histórico das forças de produção foi atualizado.

O que a matéria poderia fazer, que atualmente não se permite que ela faça? Essa é uma pergunta que os marxistas (da ‘Antiga Religião’) outrora fizeram. Sua resposta foi: entrar em processos de produção que estão livres dos requisitos restritivos da lucratividade privada. Uma vez ‘libertada’ dessa maneira, contudo, a produtividade cambaleou sem destino, adormeceu ou passou fome. Os libertários riram e defenderam uma reversão da fórmula: a produção livre para entrar em circuitos auto-escalonantes de lucratividade privada, sem restrição política. Eles foram largamente ignorados (e sempre serão).

Se nenhuma facção da fé revolucionária Marxo-Libertária terrestre foi capaz de reacender o velho fogo, é porque se afastaram das profundezas da questão (“o que a matéria poderia fazer?”). É uma questão que faz uma revolução. Os heróis da revolução industrial não eram jacobinos, mas sim fabricantes de caldeiras.

“O comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país”, proclamou Lenin, mas a eletrificação foi permitida antes que os bolcheviques tomassem seu lado, e persistiu desde a partida dos soviéticos. A menos que a transformação política coincida com a liberação de um potencial produtivo anteriormente reprimido, ela permanece essencialmente aleatória e reversível. Mera mudança de regime não significa nada, a menos que algo aconteça que não tenha acontecido antes. (Reembaralhamentos sociais não significam acontecimentos, exceto nas mentes dos ideólogos, e os ideólogos morrem.)

Os libertários também são como os leninistas: tudo o que eles jamais conseguem ganhar pode (e será) tirado deles. Eles outrora já tiveram uma república constitucional na América (e o que aconteceu com isso?). A Grã-Bretanha teve uma aproximação grosseira do capitalismo laissez-faire, antes de perdê-la. Alguém realmente acha que o liberalismo vai ficar mais ‘clássico’ do que isso em breve? Confiar na democracia em massa para preservar a liberdade é como contratar Hannibal Lecter como babá. As liberdades sociais podem também ser projetadas para morrer. Não há a menor razão para acreditar que a história está do lado delas. A revolução industrial, em contraste, é para sempre.

Em Rochard’s World, eles sabem exatamente o que a matéria poderia fazer que é proibido: auto-replicação mecânica em nano-escala e auto-modificação inteligente. É com isso que a ‘base material’ de uma revolução se parece, mesmo que seja sub-microscópica (ou especialmente porque é), e quando ela atinge os limites da tolerância social, ela descreve precisamente o que é necessário, automaticamente. Uma vez que ela sai da caixa, ela fica fora.

Stross se diverte o suficiente com a tecnosfera desencadeada para chamar seu avatar espacial de “o Festival”. Ele entra em contato com os revolucionários libertários de Rochard’s World bombardeando o planeta com telefones, e qualquer um que atenda um ouve a posição inicial de barganha: “entretenha-nos”. Mais engraçado de tudo, quando as autoridades neo-czaristas tentam pará-lo, elas são comidas.

Original.

Desacelerando?

Charles Stross quer descer do ônibus

Ao escrever Accelerando, Charles Stross se tornou para a Singularidade Tecnológica o que Dante Alighieri foi para a cosmologia cristã: o transmissor literário preeminente de uma doutrina esotérica, embalando uma concepção metafísica abstrata em imagens vibrantes, detalhadas e concretas. O tom de Accelerando é transparentemente irreverente, mas ainda assim muitas pessoas parecem tê-lo levado inteiramente a sério. Stross já se cansou disso:

“Eu periodicamente recebo e-mails de um pessoal que, tendo lido ‘Accelerando’, assume que eu sou algum tipo de fanático extropiano cuspidor de fogo que acredita na iminência da singularidade, no upload dos libertários e no arrebatamento dos nerds. Eu acho isso levemente angustiante e então eu acho que é hora de ajustar os ponteiros e dizer o que eu realmente penso. …Versão curta: Papai Noel não existe.”

Na seção de comentários (#86), ele esclarece sua motivação:

“Eu não estou convencido de que a singularidade não vai acontecer. É só que eu estou mortalmente cansado do esquadrão de líderes de torcida me abordando e exigindo saber precisamente quantos femtosegundos vai demorar até que eles possam fazer upload até o paraíso da IA e deixar o saco de carne para trás.”

Como essas observações indicam, há mais gesticulação irritável do que argumentação estruturada no post de Stross, o que Robin Hanson bastante razoavelmente descreve como “um tanto como um desabafo – forte em emoção, mas fraco em argumento”. Apesar disso – ou, mais provavelmente, por causa disso – uma pequena tempestade na rede se seguiu, conforme blogueiros pró e contra aproveitaram a desculpa para recriar – e talvez renovar – alguns antigos debates. O militantemente sensível Alex Knapp contribui como uma série em três partes sobre sua própria versão de ceticismo sobre a Singularidade, ao passo em que Michael Anissimov do Singularity Institute for Artificial Intelligence responde tanto a Stross quanto a Knapp, misturando um pouco de contra-argumento com bastante contra-irritação.

Sob o risco de repetir o erro original da base de fãs presos-no-saco-de-carne de Stross e investir muita credibilidade no que é basicamente um post de passagem, poderia valer a pena selecionar alguns de seus aspectos seriamente esquisitos. Em particular, Stross se apoia em uma teoria inteiramente sem explicação de causalidade moral-histórica:

“… antes de criar uma inteligência consciente artificial, temos que perguntar se estamos criando uma entidade merecedora de direitos. É assassinato desligar um processo de software que está, em algum sentido, ‘consciente’? É genocídio usar algoritmos genéticos para evoluir agentes de software em direção à consciência? Esses são alguns grandes impedimentos…”

Anissimov bloqueia essa no passe: “Eu não acho que esses sejam ‘impedimentos’ …Só porque você não quer não significa que não vamos construir.” Pode-se adicionar a questão, de maneira mais geral: Em qual universo objeções arcanas da filosofia moral servem como obstáculos para desenvolvimentos históricos (porque certamente não parece ser este)? Stross seriamente pensa que a pesquisa e o desenvolvimento robótico prático está propenso a ser interrompido por preocupações com os direitos de seres ainda não inventados?

Ele parece pensar, porque mesmo teólogos estão aparentemente recebendo um veto:

“Fazer uploads… não é obviamente impossível, a menos que você seja um dualista mente/corpo cru. Contudo, se isso se tornar plausível no futuro próximo, podemos esperar extensos argumentos teológicos. Se você achava que o debate sobre aborto era acalorado, espere até você ter pessoas tentando se tornar imortais via cabos. Fazer upload refuta implicitamente a doutrina da existência de uma alma imortal e, portanto, apresenta uma rejeição bruta àquelas doutrinas religiosas que acreditam em uma vida após a morte. Pessoas que acreditam no pós-vida irão para o ringue para manter um sistema de crenças que lhes diz que seus entes queridos mortos estão no céu em vez de apodrecendo na terra.”

Isso é tão profunda e abrangentemente perdido que poderia realmente inspirar um momento de perplexa hesitação (pelo menos entre aqueles de nós atualmente não engajados na implementação urgente da Singularidade). Stross parece ter uma confiança desmesurada em um processo de veto social que, com adequação aproximada, filtra o desenvolvimento tecno-econômico em favor de uma compatibilidade com ideais morais e religiosos de alto nível. Na verdade, ele parece pensar que já gozamos do abrigo paternalista de uma teocracia global eficiente. A Singularidade não pode acontecer, porque isso seria realmente ruim.

Não é de se admirar, então, que ele exiba tamanha exasperação com os libertários, com sua “drástica super-simplificação do comportamento humano”. Se as coisas – especialmente coisas novas – acontecessem principalmente porque mercados descentralizados as facilitaram, então o papel do Conselho Planetário para a Aprovação de Inovações seria vastamente reduzido. Quem sabe que tipo de horrores apareceriam?

Fica pior, porque a ‘catalaxia’ – ou emergência espontânea a partir de transações descentralizada – é o motor básico da inovação histórica, de acordo com a explicação libertária, e ninguém sabe o que os processos catalácticos estão produzindo. Línguas, costumes, precedentes do direito comum, sistemas monetários primordiais, redes comerciais e montagens tecnológicas são sempre apenas retrospectivamente compreensíveis, o que significa que elas eludem inteiramente o julgamento social concentrado – até que a oportunidade de impedir sua gênese tenha sido perdida.

Stross está certo em juntar impulsos singularitários e libertários no mesmo emaranhado de críticas, porque ambos subvertem o poder de veto, e se o poder de veto ficar bravo o suficiente com isso, estamos entrando com total inclinação no território de de Garis. “Só porque você não quer não significa que não vamos construir”, Anissimov insiste, como qualquer Cosmista obstinado faria.

Uma IA auto-aperfeiçoadora avançada é tecnicamente factível? Provavelmente (mas quem sabe?). Há apenas uma maneira de descobrir, e o faremos. Talvez ela até seja projetada, de maneira mais ou menos deliberada, mas é bem mais provável que ela surja espontaneamente de um processo complexo, descentralizado, cataláctico, em algum limiar não antecipado, de uma maneira que nunca foi planejada. Existem candidatos definitivos, que frequentemente são esquecidos. Cidades sencientes parecem quase inevitáveis em algum ponto, por exemplo (‘cidades inteligentes’ já são amplamente discutidas). A informatização financeira empurra o capital em direção à auto-consciência. A guerra com drones está puxando as forças armadas cada vez mais fundo na manufatura de mentes artificiais. A biotecnologia está computadorizando o DNA.

Os ‘singularitários’ não têm nenhuma posição unificada sobre nada disso, e realmente não importa, porque eles são apenas pessoas – e pessoas não são nem de longe inteligentes ou informadas o suficiente para dirigir o curso da história. Apenas a catalaxia pode fazer isso, e é difícil imaginar como alguém poderia pará-la. A vida terrestre foi estúpida por tempo o suficiente.

Pode valer a pena fazer mais um ponto sobre a privação de inteligência, uma vez que este diagnóstico verdadeiramente define a posição singularitária, e confiavelmente enfurece aqueles que não compartilham dela – ou a priorizam. Uma vez que uma espécie alcança um nível de inteligência que permite uma decolagem tecno-cultural, a história começa e se desenvolve muito rapidamente – o que significa que qualquer ser senciente que se encontre na história (pré-singularidade) é, quase por definição, basicamente tão estúpido quanto qualquer ‘ser inteligente’ pode ser. Se, apesar das doutrinas morais e religiosas projetadas para ofuscar essa realidade, isso eventualmente for reconhecido, a resposta natural é buscar sua urgente melhoria, e isso já é transhumanismo, se não ainda um singularitarismo maduro. Talvez uma formulação não controversa seja possível: defender a burrice é realmente burro. (Mesmo os dignatários burros deveriam ficar felizes com isso.)

Original.

Futurismo Duro

Você está pronto para a próxima grande (e sórdida) coisa?

Para qualquer um com interesses tanto no futurismo prático extremo quanto na renascença da Sinosfera, Hugo de Garis é um ponto de referência irresistível. Ex-professor de Computação Quântica Topológica (não pergunte) na Escola Internacional de Software da Universidade de Wuhan e mais tarde Diretor do Laboratório de Cérebros Artificiais da Universidade de Xiamen, a carreira de de Garis simboliza a emergência de uma fronteira tecnocientífica cosmopolita chinesa, onde a margem externa da possibilidade futurista se condensa em realidade de engenharia precisa.

O trabalho de de Garis é ‘duro’ não apenas porque envolve campos tais como Computação Quântica Topológica ou porque – de maneira mais acessível – ele tenha devotado suas energias de pesquisa à construção de cérebros em vez de mentes, ou mesmo porque ela tenha gerado questões mais rápido do que soluções. Em sua ‘semi-aposentadoria’ (desde 2010), duro-enquanto-difícil e duro-enquanto-hardware foram suplantados por duro-como-em-entorpecentemente-e-incompreensivelmente-brutal – ou, em suas próprias palavras, uma obsessão cada vez maior com a iminente ‘Gigamorte’ ou ‘Guerra de Artilectos‘.

De acordo com de Garis, a aproximação da Singularidade revolucionará e polarizará a política internacional, criando novos eleitorados, ideologias e conflitos. A dicotomia básica à qual tudo deve eventualmente sucumbir divide aqueles que adotam a emergência da inteligência trans-humana e aqueles que a resistem. Os primeiros ele chama de ‘cosmistas‘, os últimos, de ‘terranos’.

Uma vez que os massivamente amplificados e roboticamente reforçados ‘cosmistas’ ameaçam se tornar invencíveis, os ‘terranos’ não têm outra opção além da prevenção. Para preservar a existência humana em um estado reconhecível, é necessário suprimir violentamente o projeto cosmista antes de sua realização. O mero prospecto da Singularidade é, portanto, suficiente para provocar uma convulsão política – e, em última análise, militar – de escala sem precedentes. Um triunfo Terrano (o que poderia exigir muito mais do que apenas um vitória militar) marcaria um ponto de inflexão na história profunda, conforme a tendência supra-exponencial de produção terrestre de inteligência – que dura mais de um bilhão de anos – fosse rematada ou revertida. Uma vitória Cosmista significa o término do domínio da espécie humana e uma nova época nos processos geológico, biológico e cultural da terra, conforme a tocha do progresso material seja passada para o emergente techno sapiens. Com apostas tão altas, o esplendor melodramático da narrativa de de Garis arrisca atenuação, não menos do que hipérbole.

A giga-magnitude da contagem de corpos que de Garis postula para sua Guerra de Artilectos (intelectos artificiais) é a expressão do lado negro da Lei de Moore ou dos retornos crescentes kutzweileanos – uma extrapolação a partir de tendência históricas exponenciais, neste caso, dos números de vítimas de grandes conflitos humanos ao longo do tempo. Ela reflete a tendência cumulativa de guerras globais motivadas por ideologias trans-nacionais com ricos cada vez maiores. Um rei talvez seja muito parecido com outro, mas uma direção social totalitária é muito diferente de uma liberal (mesmo que tais caminhos sejam, em última análise, revisáveis). Entre uma ordem mundial Terrana e uma trajetória Cosmista até a Singularidade, a distinção se aproxima de um absoluto. O destino do planeta é decidido, com custos correspondentes.

Se o cenários de Guerra de Gigamorte de de Garis é preventivo em relação ao prospecto da Singularidade, sua própria intervenção é meta-preventiva – uma vez que ele insiste que a política mundial deveria ser antecipadamente reforjada a fim de prevenir o desastre iminente. A previsão da Singularidade se espalha para trás através de ondas de pré-adaptação que respondem, em cada estágio, a eventualidades que ainda se desdobrarão. A mudança se desenrola a partir do futuro, complicando a seta do tempo. Talvez não seja nenhuma coincidência que, entre os principais interesses de pesquisa de de Garis, esteja a computação reversa, onde a direcionalidade temporal é abalada no nível de engenharia precisa.

A etnia e a tradição cultural meramente se dissolvem ante a frente da maré deste Armagedom iminente? A questão não é de inteiro simples. Referindo-se a sua sondagem informação da opinião sobre a vindoura grande divisão, de Garis relembra sua experiência de ensino na China, observando:

Eu sei, a partir das palestrar que dei ao longo das últimas duas décadas sobre dominância da espécie, que, quando eu convido meu pública a votar sobre se eles são mais Terranos do que Cosmistas, o resultado normalmente é 50-50. … Primeiro, eu pensei que isto fosse uma consequência do fato de que a questão da dominância da espécie é nova demais, fazendo com que as pessoas não a entendessem realmente para votar de maneira quase aleatória – logo o resultado 50:50. Mas, gradualmente, me ocorreu que muitas pessoas se sentiam tão ambivalentes sobre a questão quanto eu. Tipicamente, a divisão Terrana/Cosmista iria de 40:60 até 60:40 (embora eu note que, com meu publico chinês muito jovem na ciência da computação, os Cosmistas estão em cerca de 80%).

Original.