Re-Animador (Parte 4)

O que o mundo faz de Shanghai?

Se as tradições mais profundas da Expo Mundial são aquelas assentadas em sua origem, seria imprudente descartar precipitadamente uma característica proeminente de sua instância inaugural. A Grande Exibição dos Trabalhos Industriais de todas as Nações, que aconteceu em Londres em 1851, foi realizada na efetiva capital do mundo. Neste caso, pelo menos, o internacionalismo definidor da Expo é difícil de desenredar do indisputável fato histórico de que todo o mundo rapidamente estava se tornando o negócio de Londres. Em um gesto de reciprocidade tão perfeito que se aproximava de uma simples identidade, Londres convidou o mundo para si, exatamente como – e porque – estava se convidando para o mundo.

A Grande Exibição fazia um sentido irresistível porque ela colocou o futuro do mundo em exposição no único lugar que poderia. Para ver o destino concentrado, realisticamente filtrado e programaticamente arranjado da terra, era necessário visitar Londres, uma vez que era em Londres que tudo se reunia.

Ao longo de suas primeiras duas décadas (e quadro episódios), a Expo Mundial alternou entre Londres (1851, 1962) e Paris (1855, 1867), como se oscilasse entre as potências históricas relativas do poder marítimo e continental. Ainda assim, esta aparente hesitação, na verdade, comprime e oculta duas tendências distintas, complementares e inequívocas. A Grã-Bretanha ascendia inexoravelmente à hegemonia global, ao passo que se desengajava da Expo Mundial, ao passo em que a França administrava um declínio comparativo igualmente inexorável, conforme fazia da Expo Mundial – em uma medida igualmente notável – sua reserva especial.

É tentador propor uma teoria de consolação institucional para explicar esse padrão. Muito depois de a Grã-Bretanha ter abandonado toda reivindicação de liderança da Expo, a França continuou a investir fortemente no evento, alcançando um recorde de hospitalidade da Expo inigualado por qualquer outro país e definindo o curso para a institucionalização da Expo através do Bureau Internacional de Exposições (BIE). O BIE, estabelecido em 1928, sempre teve base em Paris e continua sendo um bastião do bilinguismo anglo-francês.

O entusiasmo francês com a Expo expressa uma relação mais geral e de grande importância com o sistema-mundo. Tendo renunciado a seu papel (napoleônico) enquanto desafiante da ordem mundial no começo do século XIX, a França fez manobras, com capacidade e determinação únicas, para permanecer sendo uma potência secundária indispensável ou – mais precisamente – um equilibrador. Seu relacionamento com as sucessivas fases de hegemonia global anglófona foi guiada por um política profunda e extremamente consistente de acomodação sem aquiescência, caracterizada por uma rivalidade imaginativa e implacável, embora contida. Próxima do núcleo, mas nunca bem uma parte dele, a França tem sido capaz de extrair sustentação da ordem mundial ao passo em que contesta seu significado cultural (anglófono, protestante, individualista e laissez-faire).

Os desafiantes do sistema-mundo, deve-se notar de maneira clara, nunca hospedam Expos Mundiais. As Expos realizadas no Japão (Osaka 1970, Tsukuba 1985, Aichi 2005) e na Alemanha (Hanover 2000) tiveram lugar muito depois de sua resistência armada à ordem mundial anglo-americana ter sido quebrada e de ambos os países terem sido espancados até a docilidade. A Rússia nunca hospedou uma. A Moscou da URSS recebeu a oferta da Expo Mundial de 1967, mas a recusou (presumivelmente julgando-a perigosamente desestabilizante para uma sociedade fechada).

A Expo Mundial adquiriu, assim, uma tradição secundária, enquanto plataforma deliberadamente excêntrica, a partir da qual contestar o futuro do núcleo do sistema-mundo e propor uma alternativa pluralizada (ou embrionicamente multicultural). Já em 1855 e 1867, e depois em 1878, 1889, 1900 e 1937, a Expo Mundial encenou a visão de Paris, uma que aceitava a realidade global de modernização consolidada e revolucionária, ao passo em que desenfatizava sistematicamente seu determinismo tecno-comercial e sua convergência por sobre traços culturais anglófonos. A globalização industrial era reconfigurada como uma condição a ser criticamente interrogada, em vez de uma oportunidade a ser vigorosamente promovida.

Entre os impulsos primário e secundário da Expo, a colisão era inevitável. De maneira bastante previsível, a ocasião foi fornecida pela reconexão da Expo ao núcleo global.

Mesmo dado esse esquema truncado e radicalmente simplificado da história da Expo, que estava amplamente estabelecido em suas características essenciais por volta de 1870, a significância das duas Expos Mundiais de Nova York, realizadas em 1939-40 e 1964-5, entram claramente em foco. A Nova York do meio do século XX, como toda capital do sistema-mundo, representava a vanguarda da modernização enquanto processo revolucionário global — emergência e consolidação de uma nova ordem mundial e de uma nova era (novus ordo seclorum) — comparada com o qual a autoridade das instituições internacionais estabelecidas não contava de nada.

Ambas as Expos de Nova York violavam flagrantemente as regulamentações do BIE em numerosos aspectos, mas mesmo depois da retirada da sanção oficial, elas foram adiante de qualquer maneira. Essas foram, sem coincidência, as primeiras Expos imprevisíveis. Elas também estavam entre as mais memoráveis e influentes na história da Expo Mundial.

Pela primeira vez desde o meio do século XIX, a Expo encontrou seu caminho de volta à capital do mundo, a fim de fornecer uma amostra intransigente e inequívoca do Mundo de Amanhã no local que a estava orquestrando. A opinião do BIE importava pouco, porque a Expo não estava sendo tanto hospedada em Nova York quanto reinventada, ecoando a originalidade de 1851. Era dali que o futuro viria, e todo mundo sabia. Tudo que era necessário era provocar a cidade a se antecipar, e o resultado foi um Futurama.

Havia uma mensagem adicional, facilmente negligenciada devido à escassez de dados: hospedar uma Expo Mundial é uma das coisas que a capital mundial tem que fazer — como um tipo de responsabilidade ritual ou uma festa de debutante. Shanghai fez isso agora. O precedente sugere que uma Expo adicional seria apropriado (talvez em 2025 ou 2030), embora ela possa ter que não ser sancionada da próxima vez.

Claro, Shanghai ainda não é a capital do mundo, mas está chegando lá. A partir do final dos anos 1970, depois de séculos de exílio e difamação, a China costeira, diaspórica-marítima e capitalista dos tianchao qimin — aqueles ‘abandonados pelo Império Celestial’ — foi reintegrada de forma constante e rápida ao continente e suas estruturas ‘socialistas de mercado’. Comportas de talento e investimento foram abertas e, conforme essa população espalhada e com cheiro de sal se reconectou à pátria-mãe, o ‘milagre chinês’ das décadas recentes teve lugar. Shanghai é o soquete do circuito principal que liga essa outra China — orientada ao comércio oceânico, à oportunidade empresarial, à acumulação de capital, à mobilidade internacional e a uma sociedade de redes flexíveis — às vastas potencialidades do país (e ao flexível estado sino-marxista) que se encontram acima no Yangtse e além. Se o processo de reconexão não for interrompido, a próxima fase da modernidade se concentrará nesta cidade, onde a China encontra o mar.

Apesar de sua auto-identificação como o ‘país central’ (ou ‘reino do meio’ – Zhongguo), a China não esteve no núcleo do processo mundial por séculos. Ao contrário, ela tem sido uma potência legada declinando complacentemente e uma estranha mal-tratada, depois sucessivamente uma afiliada de segundo nível, uma desafiante truculenta e uma cautelosa equilibradora, até que seu status prospectivo enquanto herdeira do núcleo (ou hegemon virtual) começou a se infiltrar na consciência popular global ao longo das décadas finais do século XX. Muito pouco disso é uma questão de motivação ou afirmação estratégica. Suposições semi-marxistas de inevitabilidade econômica e causação direcional base-superestrutura se tornam fortes neste aspecto. A liderança global é nomeada pela realidade industrial, não pela vontade política, e a hegemonia não pode nem ser perpetuada para além da resistência de seus fundamentos econômicos, tampouco desdenhadas por muito tempo uma vez que tais fundamentos estejam estabelecidos. Eventualmente, uma verificação da realidade se torna inevitável, e a política é martelada em conformidade com as demandas do equilíbrio sistêmico mundial. Relações núcleo-periferia são decididas pelos fluxos de comércio e capital, não por declarações políticas. Uma vez que o sucesso e a falha comparativos não demonstram qualquer sinal que seja de desaparecimento, pode-se esperar confiantemente que a geografia hierárquica — como que que seja rearranjada — não definhará em breve. Os realistas seguirão o dinheiro.

Haverá um nova capital mundial (você pode contar com isso), mas ela será Shanghai? Seria imprudente presumir isso. A tradição dos sistemas-mundo, em sua ânsia de ungir Tóquio como a sucessora de Nova York (durando os anos 1980), fornece uma lição cautelar. Não houve nenhuma Expo Mundial em Tóquio, e acabou que não havia nenhuma necessidade urgente ou essencial de uma.

Então, Shanghai é a próxima? Essa deveria ter sido a questão animadora da Expo 2010, e talvez ela terá sido no futuro. Todo o mundo tem algo em jogo nisso, pois nos diz o que está vindo, e é isso que a Expo Mundial foi criada para fazer. Que uma capital mundial emergente se mascare como uma cidade genérica passa além da modéstia, até uma espécie de fraude acidental, mas o tato pode facilmente ser confundido com pretensão — especialmente por aqueles em terreno cultural pouco familiar. Pode ser que Shanghai tenha dito tudo que era necessário em 2010, e que o que ela disse eventualmente seja ouvido e entendido.

A Expo começa de novo em cada nova capital mundial, em 1851, em 1939 e — de maneira bem mais problemática — em 2010(?). No caso de Shanghai, ainda estamos próximos demais do evento e entremeados demais na atual revolução da modernidade para saber ao certo. O que a Expo 2010 terá sido dependo do que o mundo se tornar, de como se centro de gravidade econômica mudar, de como seu novo centro se condensar e do que ele fará de Shanghai.

(guinada final para dentro dessa névoa à seguir (ebaaaa!))

Original.

Re-Animador (Parte 3)

O que faz uma grande cidade?

De longe, o elemento mais interessante da Expo Mundial 2010: Shanghai era Shanghai. Embora tradições profundamente enraizadas de cortesia sustentassem a ficção de que essa Feira Mundial era sobre o mundo, na realidade não era. Quaisquer que sejam os benefícios diplomáticos da pretensão internacionalista quase universalmente conveniente, para a China e para os participantes internacionais da Expo igualmente, a Expo 2010 era sobre Shanghai e para Shanghai. A Expo era global porque Shanghai o é, era sobre a China porque Shanghai é o portal da China para o mundo, era sobre cidades a fim de ser ainda mais sobre Shanghai, ninguém desinteressado em Shanghai prestou a menor atenção, e Shanghai a utilizou para se reestruturar, se intensificar e se promover.

A Expo enquanto instituição estava em declínio antes de 2010 e continua a decair. Shanghai estava em ascendência antes de 2010 e continua a se elevar, mas agora com uma infraestrutura atualizada, completamente renovada e decorada com a medalha de mérito histórica da hospitalidade da Expo. Cidade Melhor, Vida Melhor, um tema tipicamente etéreo e aspirativo da Expo, é uma descrição fria e sóbria do efeito da Expo sobre Shanghai.

As cidades são, em certos aspectos importantes, genéricas. Existe algo como ‘a cidade em geral’, como o trabalho de Geoffrey West, em particular, demonstrou. Sabemos, graças a West, que as cidades são organismos negativos, com características consistentes de escala, que as diferenciam estruturalmente de animais e corporações. Conforme elas crescem, elas se aceleram e se intensificam em uma taxa quantificável e previsível, exibindo retornos cada vez maiores de escala (em nítido contraste com animais e empresas, que ficam mais lentos em proporção ao seu tamanho). Organismos e firmas morrem normalmente e por necessidade, as cidades apenas raramente e por acidente.

As cidades pertencem a um gênero real, mas elas também são singularidades, que sofrem uma individuação espontânea. Na verdade, elas são genericamente singulares – singulares sem exceção – como buracos negros. Não é apenas que nenhuma cidade é como outra, nenhuma cidade pode ser como outra, e isto é uma característica que todas as cidades compartilham, sem dúvida mais do que qualquer outra.

Para além de tal singularidade genérica, há um nível adicional de diferenciação aumentada que emerge da posição que a cidade ocupa dentro de sistemas maiores. Estes sistemas não são apenas internamente especializados, mas também hierárquicos, dividindo o centro da periferia e distribuindo influência de forma desigual entre elas. Em última análise, dentro da encarnação plenamente global do ‘sistema-mundo’, as cidades adquirem características metropolitanas secundárias, em diversos graus, de acordo com sua proximidade geográfica e funcional ao centro do mundo. Elas transcendem suas histórias locais, para se tornarem eixos ou nós em uma rede global que as re-caracteriza como partes de um todo, em vez de todos feitos de partes, como metrópoles-versus-periferias em vez de (ou por sobre) metrópoles-versus-vila.

A estrutura geográfica e a instabilidade histórica da arquitetura núcleo-periferia da modernidade têm sido o foco da ‘teoria de sistemas-mundo’, desenvolvida, a partir da Escola de Annales de Fernand Braudel (1902-85), por Immanuel Wallerstein (1930-) e – de maneira mais impressionante – Giovanni Arrighi (1937-2009). De acordo com os teóricos dos sistemas-mundo, as revoluções que importam mais não são mudanças nacionais de regime, tais como as da França (1789) e da Rússia (1917), mas sim reorganizações globais que balizam as fases básicas da história moderna, jogando o mundo em novas estruturas de núcleo-periferia. A modernidade sofreu quatro desses deslocamentos até o presente, com cada fase durando um ‘longo século’, introduzindo um novo estado núcleo, ou hegemon, com capacidades aumentadas, e um novo centro urbano – sucessivamente, Veneza, Amsterdam, Londres e Nova York – que opera como uma efetiva capital do mundo.

Como o exemplo de Nova York atesta, este status não é primariamente político. Tampouco a proeminência na manufatura parece ser um fator relevante (a ‘capital mundial’ nunca foi o centro industrial dominante de sua respectiva região ou estado). Ao longo da história moderna até hoje, as características cruciais da capital mundial parecem ser que ela é a maior aglomeração urbana na região ou estado dominante (‘hegemônica’); que ela é um centro financeiro bem estabelecido que bastante rapidamente alcança uma posição de preeminência global nesse aspecto; que ela é uma cidade portuária aberta, com uma clara orientação marítima; e que ela tem um perfil demográfico excepcionalmente internacionalizado, com um grande segmento de residentes internacionalmente móveis e oportunistas. Um período significativo de liderança nas artes criativas poderia plausivelmente ser adicionado a esta lista. Funcionalmente, a capital mundial serve como o centro-nervoso supremo da economia global, especializada nacionalmente e então super-especializada internacionalmente como o eixo de serviços financeiros, logísticos e empresariais de um sistema cuja integridade global está refletida na singularidade privilegiada da cidade.

O drama excepcional de nossa era está em sua natureza enquanto um tempo de transição entre fases da modernidade, algo entre o inverno de um longo século, quando uma época de hegemonia se exaure. Mais especificamente, o cerco está se fechando sobre a Era Americana, como comentadores de quase toda estirpe intelectual e ideológica estão cada vez mais cientes. Sobrecarregada, essencialmente falida, politicamente paralisada e desiludida, a América afunda em uma crise auto-consciente, seu humor sombrio e anuviado. Seria um erro limitar a atenção à América, contudo, porque a crise é sistêmica-mundial, proclamando o fim de uma ordem internacional que surgiu em meio ao caos das guerras mundiais e alcançou definição nas instituições pós Segunda Guerra das Nações Unidas e do Bretton Woods (FMI, Banco Mundial e o descendente do GATT, hoje OMC). Afeta não só o papel do dólar americano enquanto moeda de reserva internacional, de uma OTAN centrada no Atlântico e de um aparato da ONU enviesado para o Ocidente, mas também a União Européia, o sistema de estados pós-colonial no Oriente Médio e (muito) mais coisas.

Ao longo das próxima duas décadas, sob o impacto de forças econômicas de extrema profundidade (que de longe excedem a capacidade de resposta das instituições existentes), pode-se esperar que um reordenamento revolucionário do mundo se desenrole. Se a América for bem sucedida em manter sua posição de liderança dentro do sistema global por um período que significantemente exceda o longo século XX (que não começou antes de 1914 e que, assim, pode-se esperar que persista por alguns anos adicionais), terá quebrado um padrão que permaneceu consistente por todo um meio-milênio de história. Embora não seja estritamente impossível, a perpetuação da presente ordem hegemônica seria, bastante literalmente, um exagero.

Uma outra visão de quebra com o precedente histórico, desta vez transparentemente utópica, vislumbra – ao invés da continuação da preeminência dos EUA – a obsolescência da estrutura global núcleo-periferia em sua totalidade, pondo um fim na geografia hierárquica e na hegemonia em geral. Mesmo que tal visão verdadeiramente se eleve ao nível de uma expectativa definitiva (em vez um exercício nebuloso de ilusão), ela continua sem fundamentos históricos e teóricos confiáveis. Intenções políticas altruístas – se jamais fossem críveis – ainda seriam insuficientes para superar a tendência espontânea e dinâmica de se aproximar de um equilíbrio sistêmico mundial, no qual uma zona central e sua capital metropolitana sejam automaticamente nomeadas, por correntes econômicas difusas em busca de uma casa de compensação central.

Embora sem dúvida profundamente decepcionante para a escatologia utópica e para todos os sonhos de conclusão histórica (ou de passagem para a terra prometida), mudanças de fase no sistema-mundo são menos sinistras do que frequentemente descritas. Entre os discernimentos mais importantes de Arrighi está o lembrete de que, quando quer que uma tentativa de reconstrução da ordem mundia tenha sido embasada em um desafio militar e geo-estratégico frontal ao hegemon, ela falhou. Isso é exemplificado, sobretudo, pelas histórias alemã e russa nos séculos XIX e XX, nas quais repetidas confrontações diretas com o sistema internacional predominantemente anglófono estabelecido levou apenas a frustração, colapso do regime e reintegração subalterna.

Talvez ironicamente, uma aversão subjetiva marcada à afirmação firme de poder e à presunção de hegemonia pode bastante confiavelmente ser tomada como um indicador positivo da emergência objetiva de um status hegemônico. Holanda, Grã-Bretanha e os Estados Unidos foram todos, em certos aspectos cruciais, imperialistas acidentais, cujas ascensões sucessivas à dominância mundial compartilharam uma priorização de motivos comerciais, um envolvimento estatal retardado, correntes culturais ‘isolacionistas’ e ‘anti-imperialistas’ fortes e uma evitação determinada da colisão decisiva ‘clauswitzeana’ (especialmente o hegemon anterior). Os métodos de guerra britânicos e americanos, em particular, são notáveis por sua ênfase comum em cobertura e triangulação, tais como a exploração da posição oceânica e da supremacia marítima para evitar um enredamento prematuro em conflitos ‘continentais’ de alta intensidade, o uso da capacidade financeira e logística para manipular conflitos à distância e a inclusão diplomática dos adversários derrotados em sistemas de poder reconstruídos, policêntricos e ‘equilibrados’. A hegemonia foi, em cada caso, herdada de maneira pacífica, mesmo quando foi cimentada pela guerra (em parceria com o hegemon anterior) e mais tarde deu origem a oportunidades para um aventureirismo imperialista cada vez mais agressivo.

Dado esse padrão histórico largamente incontroverso, é ainda mais surpreendente que o exemplo alemão seja tão amplamente invocado nas discussões sobre a ‘ascensão pacífica’ da China. Na verdade, a ascensão da China tem ficado bem mais perto do modelo de entrega hegemônica do que dos desafios confrontativos, como indicado pela priorização do desenvolvimento comercial, pela relação altamente cooperativa (e até mesmo sinérgica ou ‘chimérica’) com o hegemon predominante, pela acumulação gradual de poder financeiro por meio de uma redistribuição espontânea e sistêmica e pela consolidação igualmente gradual de interesses marítimos, que emergem do sistema de comércio global e trazem o foco da política estratégica governamental – talvez de maneira relutante – das preocupações domésticas para o alto-mar.

Historicamente, a China tem sido uma potência bem mais continental do que marítima, e este fato fornece a mais persuasiva objeção à suposição de um (Longo) Século Chinês. A emergência de um sistema-mundo continental seria um afastamento tão decisivo do precedente quanto qualquer um dos já discutidos, e, se tal possibilidade for entretida, a previsão disciplinada falha. Se invertido, contudo, esse problema se torna um previsão em si mesmo: a trajetória da ascensão da China necessariamente implica em sua transformação em uma potência marítima (uma compreensão já tácita na controversa série de TV chinesa de 1988 River Elegy).

Uma vaga intuição, parcial mas elusivamente cristalizada pela Expo 2010, agora se precipita, pelo puro reconhecimento de padrões históricos, na forma de uma questão explícita:

Shanghai está destinada a se tornar a capital do mundo?

(Parte 4 por vir)

Original