Fogueira das Vaidades

De boas intenções, o inferno está cheio

Como um mantra ideológico, ‘Nunca Mais’ está associado primariamente à política sobre genocídios dos anos 1940 e, nesse contexto, sua eficácia tem sido questionável, na melhor das hipóteses. Como um imperativo dominante, ele tem sido muito mais importante dentro da esfera econômica, como uma resposta à Grande Depressão dos anos 1930. Embora o assassinato em massa etnicamente seletivo seja amplamente desaprovado, suas atrações têm sido difíceis de suprimir. A depressão deflacionária, por outro lado, simplesmente não tem permissão para acontecer. Este tem sido o axioma supremo da moralidade prática por quase um século, moldando nossa era de maneira única e distinta. Podemos chamá-lo de Diretriz Primária.

Para o mundo ocidental, os anos 1930 foram uma experiência de quase morte, um encontro íntimo com o abismo, lembrado com intensidade religiosa. Já que a ameaça era ‘existencial’ – ou insuperável – o remédio foi investido com a paixão absoluta de uma fé. A Diretriz Primária foi adotada como uma lei básica e final, à qual todas as instituições e interesses sociais estavam subordinados, sem reservas. Questionar ou resistir a ela era convidar um desastre abrangente, e apenas um herege radicalmente desinformado ou criminosamente imprudente – um ‘doente’ – faria isso. Qualquer coisa é melhor que a depressão deflacionária. Isso é a New Deal Law.

A consolidação do planejamento financeiro central, baseada em bancos centrais e moedas fiduciárias, fornecia ao sacerdócio da Diretriz Primária tudo o que era necessário para assegurar a obediência coletiva: nenhuma depressão deflacionária sem deflação, e nenhuma deflação com uma impressora bem azeitada. A inflação “anticíclica” sempre foi uma opção, e a hegemonia da experiência histórico-econômica anglófona no florescente século americano marginalizou a memória dos traumas inflacionários para remansos globais de influência limitada. Ao lado da grandeza moral da Diretriz Primária, a integridade monetária não contava de nada (apenas um doente, ou um alemão, poderia argumentar de outra forma).

A Diretriz Primária define um regime que é historicamente concreto e sistemicamente generalizável. Como Ashwin Parameswaran explica em seu blog Macroeconomic Resilience, esse tipo de regime é expresso com igual clareza em projetos para gerenciar uma variedade de outros sistemas complexos (não econômicos), incluindo rios e florestas. A silvicultura moderna, dominada por um imperativo à supressão de incêndios, fornece um exemplo especialmente esclarecedor. Ele observa:

O ímpeto tanto para a supressão de incêndios e quanto para a estabilização macroeconômica veio de uma crise. Na economia, essa crise foi a Grande Depressão, que destacou a necessidade de estabilizar a política fiscal e monetária durante uma crise. De todas as iniciativas, a mais crucial do ponto de vista sistêmico foi a expansão das operações de um credor de último recurso e de resgates bancários que tentaram eliminar todos os distúrbios em sua origem. Nas palavras de [Hyram] Minsky: “A necessidade de operações de credor de último recurso ocorrerá freqüentemente antes que a renda caia abruptamente e antes que a renda semi-automática e os efeitos estabilizadores financeiros do Grande Governo entrem em ação.” (Stabilizing an Unstable Economy pg 46)

De maneira similar, a batalha pela completa supressão de incêndios foi conquistada após os Grandes Incêndios de Idaho em 1910. “Os Grandes Incêndios de Idaho de agosto de 1910 foram um evento decisivo para a política e a gestão de incêndios, de fato para a política e gestão de todos os recursos naturais nos Estados Unidos. Muitas vezes chamado de Big Blowup, o complexo de incêndios consumiu 3 milhões de acres de madeiras valiosas no norte de Idaho e no oeste de Montana… O grito de batalha dos silvicultores e filósofos naquele ano foi simples e convincente: incêndios são maus e devem ser banidos da Terra. O Weeks Act federal, que estava paralisado no Congresso há anos, foi aprovada em fevereiro de 1911. Essa lei ampliou drasticamente o Serviço Florestal e estabeleceu programas federais-estaduais cooperativos de controle de incêndios. Isso marcou o início dos esforços federais de combate a incêndios e efetivamente pôs fim às práticas de queimas leves em quase todo o país. A pronta supressão de incêndios florestais por agências governamentais tornou-se um paradigma nacional e uma política nacional” (Sara Jensen e Guy McPherson). Em 1935, o Serviço Florestal implementou a política ’10 AM’, uma meta para extinguir todos os novos incêndios às 10h00 do dia seguinte ao da denúncia.

Em ambos os casos, o trauma de um desastre catastrófico desencadeou uma nova política que tentaria eliminar todas as perturbações na fonte, por menor que fossem.

No Zerohedge, The World Complex elabora sobre a história da supressão de incêndios nos Estados Unidos:

As florestas do sudoeste dos Estados Unidos eram submetidas a uma longa estação seca, bem diferente das florestas do nordeste. As florestas nordestinas eram úmidas o suficiente para que a decomposição de material morto reabastecesse os solos; mas no sudoeste, o clima era muito seco no verão e muito frio no inverno para que a decomposição fosse eficaz. O fogo era necessário para garantir florestas saudáveis. Além de reabastecer os solos, era necessário fogo para reduzir os resíduos inflamáveis, e o calor ou a fumaça eram necessários para germinar as sementes.

No final do século XIX, as queimas leves – fazer incêndios de pequena superfície episodicamente para limpar a vegetação rasteira e manter as florestas abertas – era uma prática comum no oeste dos Estados Unidos. Contanto que os incêndios permanecessem pequenos, eles tendiam a queimar a vegetação rasteira, deixando o crescimento mais antigo das florestas ileso. Os colonos que seguiam essa prática reconheciam sua herança nativa; assim como seus oponentes a chamavam de ‘florestamento de paiutes’ como uma expressão de desprezo (Pyne, 1982).

Os defensores das queimadas o faziam por razões filosóficas e práticas – fazer queimadas sendo a “maneira indígena”, assim como a expansão de pastagens e a redução de combustíveis para incêndios florestais. Os detratores argumentavam que os pequenos incêndios destruíam as árvores jovens, os solos esgotados, tornavam a floresta mais suscetível a insetos e doenças e eram economicamente prejudiciais. Mas o argumento crítico apresentado pelos oponentes das queimadas era que ela era hostil ao Espírito Progressivo da Conservação. Como um povo moderno, os americanos deveriam usar as abordagens científicas superiores de manejo florestal que estavam agora disponíveis para eles e que não tinham estado disponíveis para os nativos. Pior do que estar errado, aceitar os métodos de manejo florestal nativos seria primitivo.

Soletrar as conseqüências eventuais da reforma ‘progressista’ das práticas de manejo florestal provavelmente não é necessário, pois – em notável contraste com seu análogo econômico – suas lições foram completamente absorvidas, ampla e freqüentemente referenciadas. Ambientalistas ecologicamente sofisticados, em particular, se apegaram a ela como um modelo dissuasivo de intervenção arrogante e suas conseqüências perversas. Todo mundo sabe que a tentativa de eliminar os incêndios florestais, ao invés de extinguir o risco, apenas o deslocava, e até mesmo o acentuava, já que a acumulação de material inflamável transformava um regime pontuado por incêndios relativamente frequentes de escala moderada em um episodicamente devastado por enormes conflagrações que consumiam tudo.

Parameswaran explica que a ausência de incêndios leva ao acúmulo de combustível, à deriva ecológica em direção a espécies menos resistentes ao fogo, à redução na diversidade e ao aumento da conectividade. A floresta ‘protegida’ ou ‘estabilizada’ muda de natureza, de um sistema limpo, robusto, misto e retalhado para a uma massa cheia de combustível, frágil, cada vez mais mono-cultural e fortemente interconectada, equivalendo quase a um dispositivo explosivo. A estabilidade degrada a resiliência e prevenir a catástrofe-por-vir torna-se cada vez mais caro e incerto, mesmo na medida em que a importância da prevenção aumenta. No penúltimo estágio desse processo, o gerenciamento de crises criou um apocalipse iminente: um evento desastroso que simplesmente não pode ter permissão de acontecer (embora certamente vá acontecer).

Parameswaran chama essa seqüência apocalíptica de desenvolvimento de A Patologia da Estabilização em Sistemas Complexos Adaptativos. É ao que a Diretriz Primária inevitavelmente leva. Infelizmente, o diagnóstico não contém sinais de remédio. Cada passo na estrada torna a fuga mais improvável, à medida em que a escala de calamidade potencial aumenta. Poucos encontrarão muito conforto na percepção de que esse caminho era insano.

“Caixas-pretas” (ou gravadores de voo) recuperados de desastres aéreos são informativos a esse respeito. Com surpreendente regularidade, as últimas palavras do piloto, anunciadas a ninguém em particular, eloquentemente expressam um reconhecimento da realidade pouco atraente mas inconfundível: “Ah %$#&@!”. Menos comum – de fato, inédito – é qualquer abordagem honesta para com os passageiros: “Senhoras e senhores, este é o seu capitão falando. Estamos todos prestes a morrer”. Qual seria o ponto?

Tudo que pode ser realisticamente esperado de nossas elites políticas e financeiras dominantes pode ser previsto por uma analogia rigorosa. Este voo não termina em nenhum lugar bom, mas seria tolice aguardar um anúncio.

Desonerado de uma posição oficial na Catedral da Diretriz Primária, “Mickeyman” no World Complex está livre para resumir as coisas com honestidade brutal:

Temos vivenciado um longo período de gestão financeira, em que instituições financeiras falidas foram apoiadas por intervenções de emergência (aplicadas de maneira um tanto seletiva). Falências não foram permitidas. O resultado foi um tremendo acúmulo de papel pronto para queimar. Se os incêndios de inadimplência tivessem tido permissão para queimar livremente no passado, poderíamos ter instituições financeiras mais saudáveis. Em vez disso, encontramos nossos bancos carregados com todos os tipos de produtos de papel inflamáveis; seus porões estavam cheios de barris de pólvora negra. Trilhas de pó preto correm de um banco para outro, e está chovendo fósforos.

Original.

Tipos de Matança

Quão ruim é um genocídio, de verdade?

Assim como ‘fascismo’ — com o qual está intimamente conectado na imaginação popular — ‘genocídio’ é um palavra que carrega uma carga emocional tão exorbitante que tende a queimar os fusíveis de qualquer tentativa de análise desapaixonada. Podemos agradecer à magia negra política de Adolf Hitler e seus comparsas nazistas por isso.

Antes do Terceiro Reich e de suas tentativas sistemáticas e industrializadas de erradicar populações etno-raciais inteiras (judeus, ciganos e talvez eslavos) junto com numerosos outros grupos (‘defectivos’ mentais e físicos ou ‘comedores inúteis’, homossexuais, comunistas, testemunhas de jeová…), a lei internacional restringia sua atenção às ações e queixas de estados e de indivíduos, os últimos subdivididos entre combatentes e não combatentes. O trauma Nacional-Socialista mudou isso de maneira fundamental.

Em 9 de dezembro de 1948, as Nações Unidas adotaram a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio (como Resolução 260), definindo uma nova categoria de crimes reconhecidos internacionalmente como “atos cometidos com a intenção de destruir, em todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”.

Desde 1948, defender o genocídio tem sido a maneira mais certa de arruinar um jantar. Isso não significa, contudo, que o tópico mereça ser imunizado contra controvérsias. Há um questão em particular que merece um escrutínio intenso e prolongado: O genocídio realmente é pior do que matar um monte de gente?

Colocada de uma maneira ligeiramente mais técnica: Existe um crime de genocídio que fica acima e além do assassinato em massa (de escala equivalente)? Ou (um equivalente aproximado): Grupos podem ser as vítimas específicas de um crime? Isso é perguntar se grupos existem — e têm valor — enquanto algo mais do que um conjunto nominal ou estritamente formal, cuja realidade é exaurida pelos seus membros constituintes individuais. A existência do genocídio enquanto categoria legal presume uma resposta (positiva) à essa questão e, ao fazê-lo, se fecha sobre um problema de importância grande e bastante geral.

A presunção liberal clássica é bastante diferente, como resumida (um tanto abruptamente) pela observação provocativa feita pela primeira ministra inglesa Margaret Thatcher em 1987 “…não existe essa coisa de sociedade. Existem indivíduos homens e mulheres, e existem famílias”. Extrapolando-se bruscamente a partir dessa posição, uma certa ironia poderia ser encontrada no fato de que um resposta horrorizada aos crimes Nacional-Socialistas tomaram a forma de uma codificação legal do coletivismo racial. No mínimo, é intrigante que suspeitas dirigidas contra referências legais a ‘direitos de grupos’ e ‘crimes de ódio’ entre aqueles de uma inclinação libertária não tenham sido estendidas à categoria de genocídio.

No campo oposto, a defesa mais plenamente articulada de coletivos enquanto entidades reais é encontrada, como poderia se esperar, na fundação da sociologia enquanto disciplina acadêmica e, mais particularmente, no argumento de Émile Durkheim a favor de ‘fatos sociais’. Larry May olha mais para trás, para o Leviatã, ou ser social, de Thomas Hobbes, no qual os indivíduos humanos são absorvidos enquanto partes orgânicas.

Embora a distinção entre ‘sociedade’ e ‘indivíduo’ tenha um significado coloquial (e político), aqueles inclinados à análise de sistemas complexos têm maior probabilidade de se perguntar quais grupos ou sociedades são indivíduos reais, que exibem integridade funcional ou comportamental enquanto todos auto-reprodutores. Ao perseguir essa linha de investigação, é bem mais relevante discriminar entre tipos de grupos do que entre grupos e indivíduos, ou mesmo entre todos e partes. É especialmente útil distinguir entre grupos característicos e grupos unitários.

Um grupo característico é determinado por uma classificação lógica. Isso pode ser expresso como uma auto-identificação ou um senso de ‘pertencimento’, como uma categorização externa política ou acadêmica, ou como alguma combinação desses, mas as características essenciais permanecem as mesmas em cada caso. Certas características do indivíduo são isoladas e enfatizadas (tais como genitália, orientação sexual, cor da pele, renda ou crença religiosa) e então empregadas como o principal guia em um processo de agrupamento formal que se conforma teoricamente com a matemática dos conjuntos.

Um grupo unitário, em contraste, é definido como uma montagem, ou todo funcional. Seus membros pertencem ao grupo na medida em que trabalham juntos, mesmo que sejam completamente desprovidos de características identitárias comuns. A associação é decidida por papel, em vez de por traços, uma vez que se torna parte de um grupo através do envolvimento funcional, em vez de por uma classificação de características. Instâncias sociais de tais grupos incluem tribos primitivas (determinadas por unidades funcionais, em vez das pelas categorias modernas da ‘política identitária’), cidades, estados e companhias. A instância mais óbvia na teoria socialista é a unidade de trabalho ‘soviete’ ou ‘danwei’ (ao passo em que classes sociais são grupos característicos).

Para tomarmos um exemplo não antropomórfico, considere uma célula da pele. Seu grupo característico é aquele das células de pele em geral, distinguidas das células nervosas, hepáticas, musculares ou outras. Quaisquer duas células de pele compartilham o mesmo grupo característico, mesmo que pertençam a diferentes organismos ou mesmo espécies, existam em diferentes continentes e nunca interajam funcionalmente. O grupo unitário natural da mesma célula de pele, em contraste, seria o organismo a que ela pertence. Ela compartilha esse grupo unitário com todas as outras células envolvidas na reprodução desse organismo ao longo do tempo, incluindo aquelas (tais como as bactérias intestinais) de linhagens genéticas bastante separadas. Considerada como um membro de um grupo unitário, uma célula de pele tem uma conexão integral maior com as ferramentes não biológicas e com os outros elementos ‘ambientais’ envolvidos na vida do organismo do que ela tem com outras células de pele — mesmo clones perfeitos — com as quais ela não está funcionalmente enredada.

Claramente, tanto grupos característicos quanto grupos unitários são ‘grupos difusos’, e a próprio distinção — embora teoricamente precisa — é empiricamente nebulosa. Uma gangue urbana de rua americana, for exemplo, na maioria dos casos será vaga em suas características e unidade, talvez ‘étnica’ em algum grau de definição, com uma faixa etária determinável e com conexões funcionais ambíguas com agrupamentos em uma escala maior, ou com membros cujo status de ‘pertencimento’ não é estritamente decidível. Tatuagens e outras marcas de associação provavelmente envolverão aspectos tanto de identidade quanto de integridade — traços e papéis. Rituais de pertencimento (provações, juramentos, ritos de passagem) são desenhados para desambiguar a associação.

Apesar dessa nebulosidade, a distinção entre esses dois tipos de grupos acerta diretamente na problemática central do genocídio (enquanto categoria legal). Quando um grupo unitário é destruído, um indivíduo real é ‘morto’, acima e além de quaisquer perdas humanas nas quais se incorra. A destruição de um grupo característico, qualquer que seja a perda cultural, não é nenhum tipo de matança para além do assassinato em massa de indivíduos humanos. Se isso é pior do que o assassinato, deveríamos saber por quê.

Esta conclusão parece relevante quando se pesa, por exemplo, o Massacre de Nanquim de 1937 na escala das atrocidades históricas. Ela sugere, pelo menos, que um ato de violência dirigido contra uma cidade — ou uma unidade populacional integrada — não é menos digno de atenção legal específica do que o delito quantitativamente equivalente contra uma etnia ou um tipo populacional determinado. Não parece ser mais do que um acidente da história que, a fim de se apropriar da categoria de genocídio, crimes massivos da primeira variedade precisem ser re-codificados como se pertencesse mais propriamente à última.

Deixando de lado a ontologia dos sistemas complexos, essas questões se resolvem, em última análise, em valores sociais obscuros. Concepções ortodoxas de ‘genocídio’ assumem que a identidade étnica significa simples e inquestionavelmente mais do que a cidadania ativa ou a participação na vida de uma cidade. Talvez até se possa argumentar por essa suposição. Mas já se argumentou?

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