Fei-tinta-rias

Quando a história da arte invoca o ‘contemporâneo’, ela se refere ao agora, o momento atual, e, assim, aponta para uma perplexidade irresoluta. O agora permanece sem ser definido, seja pela ciência, pela filosofia ou pela religião mística. O nosso ‘agora’ contemporâneo não é meramente um instante — nem mesmo um instante esticado ou dilatado. Ele é um tempo que ainda está conosco, ou no qual continuamos a participar, de uma só vez próximo e elusivo, ainda aguardando seu sentido, interceptando de maneira oblíqua o presente mais restrito da localização cronológica e dos cronogramas práticos.

As artes visuais, em sua forma mais reflexiva, entram nessa perplexidade como em uma espiral animada. Ao mesmo tempo em que sucumbe à categorização — ou definição temporal — dentro de uma contemporaneidade ainda obscura e incompleta, a obra de arte também pode se apropriar do ato de definição, alcançando o agora e nos dizendo o que encontrou. Ao fazê-lo, ela se testa contra uma abstração final.

Em alguma agora desses, a arte visual chinesa atual, mas cronologicamente indeterminável, encontrou um limiar crítico. A diferença entre ir para frente ou para trás, avançar ou recuar, deixou – em algum ‘ponto’ — de ser uma opção, ou uma escolha. Em vez disso, para essa complexa tendência e herança cultural, de uma só vez definida como — e definindo — neotradicionalismo, a verdadeira modernidade foi descoberta na aceitação da tradição como um caminho. Essa onda de experimentação criativa – e até mesmo explosiva – também era uma escavação, e uma recuperação. Ela demonstrou que uma variação inovadora era inextricável da manutenção de um curso, dirigido a um futuro já cripticamente indicado pelo passado.

Beyond Black and White: Chinese Contemporary Abstract Ink (“Além do Preto e Branco: A Tinta Abstrata Chinesa Contemporânea”), em exposição nas Pearl Lam Galleries (até 7 de setembro de 2013), focou com gloriosa intensidade na corrente neotradicionalista. Em consonância com este enfoque, ela tanto preenche quanto desordena as expectativas, através das audaciosas explorações de uma herança tornada nova.

A mostra se sustenta em meio a uma série de dualidades dinamicamente equilibradas. Mais graficamente, ela é integrada por seu material primário, os complementos contrastantes do preto e branco, tinta e papel, yin e yang, perturbados apenas nas margens por sutis desvios de meio e ocasionais invasões de cor. Um equilíbrio arquitetônico é sustentado pela grande hélice dupla da tradição de pintura chinesa com tinta, as linhagens distintas, mas entrelaçadas, de expressão pictórica e caligráfica, imagem e signo, com cada vertente incitando a outra a vôos elevados de abstração formal. Passado e futuro – como já enfatizado — são mutualmente suspensos em uma contemporaneidade multiplicada. Através de tudo isso, a arte chinesa é re-equilibrada no mundo, comunicando-se com tradições culturais alternativas, no limite abstrato de cada uma, onde a escapada da restrição formal se funde com a realidade do tempo.

A “tinta abstrata” – enquanto uma culminação da tradição — já é distintivamente chinesa, mas a verdadeira singularidade cultural que é perseguida aqui excede o meio, para envolver, minimamente, uma irritação criativa recíproca entre pintura e escrita – faixas retorcidas gêmeas que, entre si, descrevem uma trajetória estética até a abstração. A tradição chinesa, impulsionada por esse treinamento duplo, cultiva semelhança e significância simultaneamente e, assim, através de uma sublimação implacável, foge de ambas, em direção a um horizonte de pureza onde pinceladas e tons (na escala de cinzas) se torna pura fuga, ou índices de escapada — gestos cósmicos sem substância ou significado.

Arranjadas ao longo do extremo norte da galeria, diversas séries de pequenas peças de Qiu Zhenzhong empreendem experimentos sistemáticos com pinceladas e tons. Escritos caligráficos são desemaranhados por linhas cursivas em formas ininteligíveis, ou derretidos através de dissoluções tonais no indefinido, ao passo em que imagens são simplificadas à beira de uma ideografia arcaica.

Wang Tiande – um artista de centralidade óbvia para a renascença neotradicional – contribui com duas peças trabalhadas em seu método subtrativo característico — que combina pincelada e tom em uma queimadura perfurante – uma inclinando-se para sua prática experimental da caligrafia, a outra, da pintura. Essas peças o representam (e testemunham sua importância), em vez de demonstrar sua obra da maneira mais completa ou ambiciosamente realizada. Também incluída está uma obra têxtil tecnicamente complexa, na qual o método de queimadura cria uma camiseta caligraficamente anotada.

Wei Ligang é presentado por uma única obra grande e embasada em caligrafia (Unicorn-Crane, 2010), cujo pano de fundo dourado e fluído relaxa a disciplina cromática da exposição. A cor também se insinua na obra em vídeo de Feng Mengbo (Not Too Late, 2010), que faz da modernização da tradição tanto um tema quanto um meio.

Qiu Deshu, um arrojado pioneiro do renascimento neotradicional do começo dos anos 1980, tem duas peças em exibição (Fissuring e Fissuring Life, 2012), mais notáveis por sua inteligência do que por sua presença estética deslumbrante. Explorações abstratas de rasgos e dobras de papel, elas empregam um tom de tinta intermediário para colapsar a forma sobre o plano da figura, testemunhando uma dimensão espacialmente desaparecida. (Como com Wang Tiande, o encontro casual com Qiu Deshu nesta exposição é melhor tomado como um convite para um engajamento maior com um artista neotradicionalista de suprema importância.)

Pelo puro drama visual, a dimensão caligráfica da exposição é dominada por Wang Dongling. As três obras em exposição (Tiger Wind, 2010; Benevolence and Integrity, 2013; e Chuang-Tzu’s “Free and Easy Wandering”, 2013) não são apenas impressionantes (e até mesmo deslumbrantes) e si mesmas, mas também são notáveis por sua extraordinária variedade. Tiger Wind é uma obra cursiva grande de três caracteres, cujas linhas arrojadas e radiantes – não moderadas por tons intermediários – compõem um salto congelado de energia tensa. Benevolence and Integrity é uma obra mais arquitetônica, estruturada por lajes sugadoras de alma de escuridão abismal, ao passo em que Chuang-Tzu’s “Free and Easy Wandering” é uma obra composta de maneira mais tradicional, usando a escrita chinesa compacta para explorar divertidamente o espaço combinatório de forma e sombra. Essas peças excepcionais, por si só, recompensam amplamente uma visita à exibição.

Três obras soberbas de Lan Zhenghui e Zheng Chingbin completam a dimensão mais pictórica da mostra, exibindo o potencial da Abstração com Tinta para um nível emocionante de realização estética. A enorme obra ‘de esfregão’ de Lan Zhenghui (Leap Series No. 4, 2010) mistura de maneira exuberante tons de tinta e ângulos de pinceladas para construir uma celebração monumental do meio enquanto veículo para a liberdade artística. Os requintados abstratos de Zheng Chingbin (Untitled No.16, 2007; and Formless, 2010), aguçando a escala tonal com acrílicos vívidos, conduzem uma expedição visual completamente absorvente aos envolvimentos sem limites entre luz e escuridão.

“Esses aristas são parte de um crescente círculo na China que tira inspiração da pintura com tinta tradicional chinesa e de sua filosofia, assim como da caligrafia chinesa”, a galeria explica. Conforme a estória do neotradicionalismo chinês tomar forma, Beyond Black and White certamente encontrará um lugar entre os narradores, assim como na lenda. Também é igualmente um banquete para o sentidos e o pensamento. Pegue se puder.

Endereço: Pearl Lam Galleries, 181 Jiangxi Zhong Lu, (G/F), Huangpu District, Shanghai (021 6323 1989), online.

Original.
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